O ano passou rápido, rápido demais e somente agora dei-me conta de que, se não escrever algo nos próximos dias, não terei tido nenhum post publicado este ano em meu blog. Mas eu tenho uma boa explicação para isto. Em primeiro lugar, se eu realmente conseguir concluir este post, ele será o primeiro escrito por mim no Brasil – estou aqui de férias e utilizando o laptop do meu parceiro. Tentarei fazer um resumo de como eu experimentei o ano de 2011 mas para tal terei de voltar à meados de 2010.

Muitas pessoas fazem votos de sucessos e consecuções no ano novo, seja lá o que isto signifique. Tudo que eu desejei de 2010 para 2011 foi não acumular mais frustrações. Eu tenho algumas, assim como todo mundo e tento não me concentrar demais nelas. Nas frustrações que, ao meu ver, foram diretamente causadas e fomentadas por mim mesmo, eu me esforço em amenizá-las e manter um sorriso no rosto. Na empresa onde trabalho há quase 5 anos, eu vinha igualmente há 5 anos me batendo de frente com o gerente-geral da empresa, que aos meus olhos nunca passou de algo parecido com um capitão do mato das histórias brasileiras do tempo dos escravos, cujo único objetivo era perseguir escravos rebeldes e ‘fujões’. Eu e este gerente deixamos claro um ao outro desde o princípio que não nos simpatizávamos e que isto não estava prestes a acontecer em nenhum momento no futuro próximo. A presença dele me sufocava, a sua voz sempre alta me incomodava, seus gestos hipocritamente e exageradamente amigáveis para com alguns, que os aceitavam como que barganhando uma carreira na empresa, funcionavam aparentemente bem, dando a impressão de tê-los como aliados. Sempre fiz questão de não fazer parte deste jogo imundo de favores. Eu sequer saberia como fazer parte disto. Não sei ficar rindo para pessoas a quem não simpatizo. Mas posso cumprimentar e dar bom dia. Sempre fiz o meu trabalho de forma séria e os erros que cometi caem facilmente na categoria ‘humanos’. Nunca achei que estava devendo algo a alguém e com certeza não ao gerente-geral.

Para explicar melhor como os problemas entre eu e ele escalaram-se, terei de recuar um pouco para meados de 2010. Agosto de 2010: o gerente-geral odioso teve a grande oportunidade de se vingar de mim, a qual estava ansiosamente esperando há anos. O subgerente (coincidentemente o ex dele, colocado na empresa no famoso kruiwagen, pistolão) resolveu fazer um caça às bruxas a todo mundo que estivesse ‘usando’ Facebook no computador de trabalho, com diretrizes recém-inventadas e pouco claras, repassadas em tom de voz irritadiço como ‘desconecte o Facebook agora’. A minha simples pergunta foi ‘por quê?’. Sim, por quê? Por que de repente? Por que tão arbitrariamente? E por que o tom de voz irritadiço? Eu trabalhava na empresa há 3 anos e meio e esperaria uma resposta mais razoável e no mínimo respeitosa. Mais tarde descobri que vários outros colegas foram pressionados da mesma forma a deletarem as suas contas no Facebook. Como eu me neguei a obedecer e ainda retruquei com o mesmo tom de voz irritadiço, fui convidado para uma ‘reunião’ pessoal. O subgerente não soube dizer outra coisa senão o ‘tá demais’. O que ‘tá demais’? Eu não entendo esta língua. O fato de eu ter o Facebook conectado em meu computador não quer dizer de jeito nenhum que eu o esteja ativamente usando. E de mais a mais, nunca houve até o momento uma diretriz clara à respeito do uso de internet na empresa, nunca houve uma reunião a respeito e nunca o assunto foi discutido. De uma hora para outra, o Facebook e seus usuários viraram alvo de perseguição. Mas eu, em especial, virei alvo de perseguição nas mãos do gerente-geral e do subgerente que sempre me trataram com antipatia e indiferença. O subgerente não teve argumentos fortes para discutir comigo: aumentar o tom da voz dele ao ver que não estava conseguindo os resultados desejados não me intimidou e ele chamou então o gerente-geral. Os dois juntos conseguiram transformar a sala de reuniões num circo, tal qual eu nunca havia visto nada igual, nem durantes os conflitos de trabalho que eu já tive no Brasil. O gerente-geral aproveitou o ensejo para apontar vários “erros” cometidos por mim, vários “favores” que a empresa já me fez e vários defeitos na minha personalidade. Em nenhum momento tive a oportunidade de falar. A algazarra durou meia-hora e fiquei com dor de cabeça permanente após a discussão, por 5 dias seguidos.

Estava claro para mim que eu precisava abandonar esta empresa imediatamente. Senão eu poderia ainda furar o gerente-geral ou o subgerente no pescoço com uma caneta tinteiro e claro, ir para a cadeia.

Sede da empresa jurídica em Amsterdã

Na mesma semana fui à uma empresa jurídica para conflitos no trabalho (DAS), que coincidentemente ficava em frente ao prédio do escritório que eu trabalho e me foram dadas coordenadas quanto a como eu deveria me portar e quais documentos eu deveria apresentar. Várias coisas precisariam ser “provadas”. Mas como provar algo que é simplesmente a minha experiência? As coisas horríveis que eu ouvi foram ditas e gritadas e não escritas ou gravadas. Um outro outro colega disse que testemunharia a meu favor mas ele mesmo correria o risco de perder o seu emprego. Eu precisava pensar no assunto e consultar o travesseiro. Eu tinha alguns e-mails enviados para mim pelo gerente-geral sobre problemas que tivemos anteriormente e os quais eu salvei. Ele nunca perdia a oportunidade que usar termos como “play stupid” que não é inglês autêntico mas quem sabe falar holandês capta a expressão “dommetje spelen” (fazer-se de bobo/joão-sem-braço). Já no início do meu contrato em 2007, nos desentendemos porque, segundo os poderes a mim conferidos pela empresa, eu penalizei alguém que estava me assediando, um brasileiro frustrado que vivia na Alemanha estava chamando a todos os alemães de nazistas e racistas. Ele criou um perfil falso com a minha foto e escreveu acima “Daniel, racista”. Descobri mais tarde que este brasileiro era o ex-parceiro dele. Houve, mais tarde, repetidas situações nas quais sarcasmo e ironia despropositados eram lançados ao ar. A má notícia é que eu não tinha a menor dúvida de que ele queria desesperadamente me atingir. A boa é que o gerente-geral nunca mais dirigiu a palavra a mim, poupando-me de ter de encará-lo.

Como ‘psicopata’ (conforme alguns o chamavam) e bipolar ele tinha um extenso currículo. Segundo estes colegas que se autodemitiram, quase sempre por não terem sua privacidade respeitada, terem-lhes prometido aumentos salariais impossíveis, terem suas fotos expostas sem o seu consentimento, etc. Alguns destes abandonaram o escritório em meio do expediente, bateram a porta em estrondo e nunca mais puseram os pés no escritório. Até meados de 2010, este ‘psicopata’ gerente-geral reinou absoluto no local de trabalho. Imaginei que, se a situação seguisse assim insustentável por tempo ilimitado, eu deveria desde já começar a olhar além do meu mundinho e procurar alternativas. Criei perfis em vários sites de ofertas de trabalho, fiz telefonemas e disponibilizei-me para entrevistas. Por volta de setembro/outubro de 2010, fiz uma série de entrevistas para a função de tradutor e corretor de textos numa grande rede de reservas de hotéis. Não era nenhum salário brilhante mas eu mataria dois coelhos com uma cajadada só: eu me livraria do calo em meu sapato chamado gerente-geral, não agrediria ninguém e portanto não correria o risco de passar uma noite no xilindró. Apesar de ter chegado à última entrevista da série na rede de reservas de hotéis, não fui selecionado para a função e infelizmente fui obrigado a continuar aceitando a minha situação conflituosa anterior.

E assim terminou o ano de 2010, com gosto de raiva, frustração e impotência.

Janeiro de 2011. O gerente-geral foi “misteriosamente” demitido. O dono da empresa, ‘com lágrimas nos olhos’ anunciava a demissão do gerente-geral, que era, além disto, um amigo pessoal. Seu rosto demostrava luto, ao contrário da expressão estampada nos rostos de todos os outros. Eu sentia vontade de soltar fogos de artifícios e pagar uma rodada de cerveja para quem quer que fosse mas tive de fingir com o meu melhor conhecimento teatral que estava em choque ou em estado de negação. Com todo respeito, quem algum dia poderia chorar por aquele energúmeno? O sub-gerente pediu que respeitássemos a memória do ex-gerente-geral e evitássemos conversas internas sobre o assunto. Eu e alguns colegas fizemos exatamente o oposto: começamos uma investigação sem precedentes para descobrirmos o que levou à demissão do gerente-geral. Mas todos calaram-se. Para alguns foi um alívio verem-se livres do gerente-geral. O início de uma nova vida. Uma nova dinastia de paz e felicidade estava à caminho. Mas o que poderia ter sido tão horrível? Como simplesmente esquecer o assunto e perder a grande oportunidade de ‘passar’ tudo na cara dela se um dia o encontrasse por acaso na rua? Não sou a Madre Teresa de Calcutá, nem quero ser. Com ajuda da equipe de colegas que se dedicaram incansavelmente como investigadores vários “podres” sobre o gerente-geral foram desenterrados, inclusive detalhes de sua vida sexual (o que não me interessa) mas nada de grave que justificasse uma demissão sumária. Gostei, no entanto, de saber que a station wagon que ele dirigia não lhe pertencia, e sim à empresa. Por que demorou tanto para fazerem uma fiscalização mais séria?

Toda a situação conflituosa convenceu-me ainda mais a procurar alternativas para 2011. Eu tinha certeza absoluta de que não queria mais trabalhar nesta mesma empresa. Mas numa das muitas consultas ao travesseiro, concluí que o meu problema não era este subgerente ou aquele gerente-geral, esta empresa ou aquela empresa; o meu problema era ‘ter patrão’. Fazendo uma retrospectiva rápida da minha vida trabalhista, não é difícil de perceber que nunca fui bom em acatar ordens, muito menos as dadas em tom de arrogância e truculência. Eis um resumo:

1988 – 14 anos, primeiro emprego numa rede de farmácia em Santos. Erros de outros eram dados a mim com assinatura falsa. Eu exigi uma compensação por isto.

1992 – 18 anos, segundo emprego numa fábrica de calçados em Sergipe. Alguns dos ‘chefes’ eram de fato bipolares, acho até que bipolaridade era parte integrante do currículo. Deixei alguns falando sozinho. Fui taxado de ‘arrogante’ inúmeras vezes. Não vou nem mencionar as conotações racistas porque ouvir que tudo não passa de algo da minha cabeça me incomoda mais ainda. Não ser arrogante para algumas pessoas é não defender-se e ouvir passivamente outras pessoas lhe humilharem. Então, sim, sou arrogante.

1998 – 23 anos, lecionando inglês, aguardar quase dois meses por um salário mixuruca enquanto o seu ‘chefe’ está trocando de carro é coisa que eu não consegui mais engolir a partir desta época: aprendi a cruzar os braços, trabalho em troca em salário.

2002 – 27 anos, guiando, salários melhores mas patrões que pensam que você apenas trabalha. Você perdeu todos os direitos de ir ao cinema, fazer compras, ter um relacionamento. Em certa reunião reclamei que trabalhávamos quase 50 horas semanais e que o salario fixado não cobria os sacrifícios. Eu praticamente falei sozinho. Não tive o respaldo de meus colegas e fui demitido um mês depois de ter sido acusado de um erro que não cometi.

2006 – 32 anos, faxina na Holanda. Dividindo um edifício inteiro com uma jovem holandesa, dei-me conta de que ela estava empurrando a parte mais ‘suja’ e pesada do trabalho (remover teias de aranha e aspirar o pó de 3 amplos andares) para cima de mim enquanto ela estava ocupada fazendo telefonemas para vender ‘tupperware’. Não hesitei em entregá-la.

E antes que eu ouça algo como ‘esqueça o passado e perdoe os ofensores’, o passado só fica para trás quando o que quer que estivesse em déficit é superado de forma permanente. Perdão genuíno a quem lhe ofendeu só chega quando esta pessoa pede-lhe perdão de forma espontânea. Quando e como isto acontece é algo muito pessoal. Superar o déficit do passado depende muitas vezes de sorte, independente do esforço que se faz para corrigi-lo. Ao menos vale o conselho: sem se esforçar e apenas depender da sorte é que não conseguiremos corrigir este déficit. Na mesma época em que estava dando por perdido encontrar um novo emprego (já que o gerente-geral-capitão-do-mato havia sido demitido sumariamente de qualquer forma), recebi um convite para dar aulas de português para holandeses por um instituto de ensino que já atuava há alguns anos no mercado holandês com certo êxito. A entrevista foi em Rotterdam, cheguei pontualmente mas aguardei 1 hora pelo entrevistador e idealizador do instituto que atrasou-se, e que não teve a gentileza de desculpar-se, deixando uma impressão péssima já em nosso primeiro contato. O restante da entrevista decorreu bem e comecei a trabalhar em meados de janeiro de 2011. A primeira aula foi um sucesso e eu me perguntei a partir daí por que eu nunca havido levado à sério dar aulas até aquele momento. Lecionar português é tão difícil quanto lencionar qualquer outra língua estrangeira e tive de me atualizar urgentemente. Infelizmente não demorou muito até que eu descobrisse que este emprego também era outra ‘furada’. O dono do instituto não cumpria a sua palavra para com os próprios alunos, tinha um método estranho e ambivalente de calcular preços e horas, atrasava a entrega dos materiais didáticos e comecei a ter problemas sérios pessoais com ele quando começou a atrasar o meu pagamento. Recorri à já conhecida tática dos ‘braços cruzados’. E acreditem-me, funciona como um talismã.

Ao invés de canalizar as minhas energias para a pequenez de espírito de certas pessoas, como eu sempre o fazia antes, resolvi desta vez poupar-me, manter o espírito quieto e apenas ‘observar’. Observar o quê? Observar como uma pequena empresa deveria funcionar ou como não deveria funcionar. O que os clientes acham importante? O que eu iria querer se fosse o cliente? A partir de fevereiro comecei as pensar seriamente na probabilidade de ter o meu próprio negócio mas como fazê-lo? Quais as exigências formais e quais os primeiros passos a serem dados? Qual seria o meu público alvo? Que produto oferecer? Como torná-lo atraente e competitivo? Por volta de março de 2011 eu já tinha, não somente as respostas à estas perguntas, como havia começado ativamente a montar a empresa. Eu e meu parceiro decidimos juntos batizá-la de DAS Taaltraining. Coincidentemente é o mesmo nome da empresa jurídica de conflitos no trabalho que eu havia buscado em 2010. É além disto cada uma das iniciais do meu nome. O nome ‘escola’ ou ‘curso’ não são comumente usados para referir-se à cursos de idiomas na Holanda. Eu percebi que os nomes training e instituut eram os mais usados.

O próximo passo foi procurar uma empresa que criasse um website para a minha empresa. Eu já tinha em mente como queria a aparência do meu website e o grande desafio foi certificar-se se os desenvolvedores holandeses tivessem entendido as minhas instruções claramente. Descobri, no ínterim, que sou bom em dar ordens. Após longos 4 meses, o site ficou pronto. A empresa foi oficialmente lançada em junho de 2011 e em julho comecei a minha primeira turma. A preparação das aulas exigiu uma quantidade impressionante de tempo. Outra parte complicada foi contratar um contador que entendesse o quão desafiador tudo aquilo estava sendo para mim e onde eu estava precisando de ajuda. Outro desafio foi a parte de marketing: deixar interessados a par de tudo que ando fazendo através do Facebook, do Twitter, do Hyves, do Orkut, etc. Em 2011 consegui concluir 5 turmas e tenho outras 3 no momento. Se os planos derem certo, terei 4 já em janeiro de 2012, assim que voltar à Holanda. Empolgante é, mas representa também uma avalanche de trabalho, que dura às vezes até 1:00 da madrugada.

O trabalho secular mudou da água para o vinho. O novo subgerente é uma pessoa razoável e definitivamente não sofre de bipolaridades. Infelizmente o subgerente assumiu o lugar do ex-gerente-geral mas de certa forma, por motivos desconhecidos, está tentando também tornar-se uma pessoa mais razoável. Acho que todos os esforços dele ainda são sofríveis, mas prefiro as suas tentativas frustradas do que nenhuma tentativa, ou uma idéia preconcebida de que portar-se estranhamente seja algo aceitável, como era o caso anteriormente. Ganhamos novos colegas e a maioria nunca ouviu falar do odioso ex-gerente-geral. Parece tudo muito bom e muito bem. Mas alguma coisa quebrou dentro de mim e eu não consigo mais acreditar, nem sequer fingir que acredito que as pessoas ‘mudem’, pelo menos não se eu parar para pensar no histórico de pessoas bipolares com quem já trabalhei e conheci. Tornei-me, digamos assim, uma pessoa cínica. Acredito que quando hei de dar-me bem com alguém, isto acontece de forma espontânea e natural, sem interesses anexos e sem que eu tente provar isto à ninguém.

Durante a segunda metade do ano não tive mais tempo para concentrar-me em bipolaridades alheias. Precisei dividir o meu tempo sistematicamente entre os meus estudos (1o ano de tradução e interpretação LOI, atrasado devido aos acontecimentos deste ano), a manutenção da minha pequena empresa bem como o trabalho de relações humanas com os meus alunos, as minhas aulas dominicais de alemão com o Klaus Siebert, que mora há muitos anos aqui na Holanda e a atenção que deve ser dada sempre ao meu parceiro e aos amigos que não somente me apreciam mas também fazem questão de se encontrarem comigo para sairmos e nos divertirmos. Enfim, foi 2011 o ano em que finalmente fiz contato – comigo mesmo.

Retomei os meus estudos como intérprete e tradutor este semestre e resolvi debruçar-me nos livros antigos sobre a língua holandesa, mais para entretenimento do que para aprendizagem. E como estou dando aulas particulares também, achei interessante voltar a minha atenção para a língua holandesa. Adoro discutir detalhes da língua com o meu parceiro e tirar novas conclusões sobre tudo. Um dos muitos livros que eu tenho (e o qual estou analizando) é o Dubbel Dutch, de Kevin Cook, Editora Kemper Conseil Publishing. O livro é em inglês e escrito sob o ponto de vista de um inglês para outro inglês mas qualquer pessoa que domina a língua inglesa num nível intermediário/avançado entenderá imediatamente que existem mais diferenças entre o inglês e o holandês do que supõe a vã filosofia.

Não pense que o simples fato de saber falar inglês o vai ajudar  a aprender o holandês razendsnel, por que não vai. Vamos falar do inglês, idioma que eu amo, a propósito. O inglês tem regras gramaticais complexas e palavras muito específicas para casa situação. Ouvi uma pessoa dizer uma vez que o inglês fotografa a ação. Um exemplo é o verbo olhar. Qualquer pessoa com um conhecimento básico de inglês sabe que olhar em inglês é look mas um falante mais experiente sabe que deve usar glance para se referir a uma rápida olhadela e stare para um olhar fixo e penetrante. Usando look para tudo conseguirá ser entendido também, mas o seu domínio limitado da língua deixará a desejar. No mais, a língua inglesa não conhece inversões como o holandês e o alemão, o que poupa um bocado de tempo de um brasileiro. Outra grande vantagem é que pouquíssimos substantivos são referidos por gênero. Não há distinção entre masculino e feminino no artigo definido em inglês. Deve existir uma ou outra exceção de substantivos, com os quais é preciso saber que ao se referir á ele, é preciso lembrar-se do gênero, por exemplo ship (navio).

O Titanic era grande. Ele afundou.

Titanic was big. She sank.

No mais, a ordem gramatical da língua inglesa faz enorme sentido para um brasileiro, de modo que com apenas inglês básico você pode entender alguém e fazer-se entender.

O mesmo não é verdade em relação à língua holandesa. Não quero aqui entrar nos méritos da pronúncia, pois o que é complicado para alguns pode ser simples para outros. Estou falando da língua versus a língua. Se adquiriu um “excelente” dicionário holandês-inglês-holandês, depare-se com palavras (básicas) que não se ouve em lugar nenhum. E ao tentar utilizar a dita palavra, um holandês nativo fará uma engraçada careta de “não é bem isto” ou dirá: “Esta palavra a gente não usa mais”. E por que os dicionários deste país não estão atualizados? Acredito que é porque seria render-se ao fato de que o idioma (que é uma das principais referências na vida de uma pessoa) está enfestado de palavras que não fazem mais o menor sentido. Algumas expressões idiomáticas atuais no dito idioma ainda traz consigo palavras que mais se assemelham ao alemão (adoro esta língua também, mas é uma outra língua) que deveriam ser urgentemente extintas da língua, pois estas mesmas fazem parte do corpo das cartas enviadas pela gemeente (órgão mais ou menos comparável à prefeitura, mas com um departamento para acompanhar os novos moradores e imigrantes) e que uma pessoa num nível básico da língua jamais poderia compreender. Não existe sensibilidade para moderar o uso da língua, o que é básico e o que não é, o que todo mundo precisa saber e o que é ‘dispensável’.

Não quero que este post fique parecendo apenas mais uma crítica sem base à língua holandesa. Quero que sirva para abrir os olhos de todo mundo que me escreve perguntando como esta pessoa pode aprender holandês fluente em dois dias, baseado no fato de esta pessoa já falar inglês. Por isto citarei exemplos, fique à vontade para comentar, argumentar, concordar, discordar e mostrar outros exemplos pois tudo isto é para o benefício de todos nós que moramos aqui e dos que estão à caminho.

Pegue o seu dicionário para holandês na estante (seja ele qual for, no idioma que for) e procure a tradução para holandês de responder/answer. O que você encontrou?

ONOV WW (onovergankelijk werkwoord = verbo intransitível) antwoorden

Caso não seja uma pessoa muito voltada para linguística, deve ter esquecido o que intransitível significa. Significa que uma outra palavra não transita/não vem após o mesmo. Ou seja, após o verbo responder não se usa substantivo (uma palavra) como, e.g. telefone. Este é o verbo que queremos antwoorden.  

Agora faça um teste com o seu parceiro holandês (partindo do princípio que você tem um. Se não, me perdoe. Diga a ele que é apenas um teste). Peça para ele dizer em holandês Answer now!/Responda já! e ele dirá Geef een antwoord nú!. Resultado do experimento: segundo o dicionário, não deveria ter sido Antwoord nú!? Praticamente inexistente, apesar de que é isto o que está na maioria dos dicionários.

Se achou inglês fácil nos tempos de escola, então deve ter aprendido isto rápido:

Eu estou fazendo outra coisa.

I am doing something else.

A única coisa com a qual você teve de prestar atenção foi que “outra coisa” em inglês não é “other thing” mas something else. Quase todo mundo com um certo nível de inglês sabe isto. O início da frase, porém, é praticamente idêntico ao português se traduzido ao pé da letra.

Mas em holandês a coisa muda de figura. A gente aprende, a princípio, que o gerúndio (esta coisa de : fazendo, falando, andando que o pessoal de call-centers usa e abusa) não existe em holandês, o que existe é um tal de aan het + verbo. Então:

Eu estou fazendo algo.

Ik ben iets aan het doen.

 Outra coisa é iets anders, então a frase ficaria:

Ik ben iets anders aan het doen.

Teste do parceiro. Peça para ele dizer a frase acima em holandês e ele dirá Ik ben met iets anders bezig. Resultado do experimento: onde foi parar o aan het doen? Se existe, é pouco falado. Simplesmente dizer que “também está correto” não responde a minha pergunta inicial de porque os dicionários não supriram esta informação (creio eu, básica da língua) explicando as diferenças entre elas?

Vamos fazer a viagem contrária e investigar bezig num dicionário de holandês para outro idioma:

Eu sinto a ligeira impressão que os dicionários deste país não querem aceitar o simples fato que no dia-a-dia bezig é o atual aan het doen. Comentando isto com o meu parceiro, ele disse:

Depende de com quem se está falando. Gente simples se comunica de um jeito e gente de certa educação, de outro. Com quem você pretende se comunicar, afinal?

 Pode até ser. Mas deve existir em algum lugar um denominador comum, eu suponho. E de mais a mais, qualquer idioma sofre alterações de tempos em tempos (tal qual a nossa própria língua portuguesa) e novos vocábulos precisam ser aceitos, uma vez assimilados pelo grande público. Exemplo: o famoso verbo ontvrienden do Facebook (diretamente do inglês unfriend) que já poderá ser encontrado em versões atualizadas do Groot Van Dale, dicionário este que está para os holandeses tal qual o Aurélio para nós brasileiros. Não sei se o equivalente disto existe em português. 

Os exemplos são infinitos. Vou escrever mais outros 3 ou 4 posts a respeito deste mesmo assunto. Um último exemplo apenas antes de terminar este atual post.  Pegue o seu dicionário outra vez e procure a tradução para holandês de lembrar-se/remember. O que encontrou?

OV ONOV WW (overgankelijk en onovergankelijk werkwoord = verbo transitível e intransitível) zich herinneren

 Teste do parceiro. Peça para ele dizer a frase acima em holandês Lembra-se?/Do you remember? achando que talvez ele dirá algo como Herinner je? mas que para a sua surpresa, ele dirá Weet je nog? Da mesma forma, iets niet meer weten é simplesmente esquecer. Muito, muito mais usado do que vergeten, o qual é (na minha opinião) um dos verbos mais inúteis da língua holandesa (não entrando no mérito da trabalheira que dá aprender a diferença entre heb vergeten e ben vergeten). Se quiser dizer que esqueceu algo em casa, diga algo como:

Ik liet mijn portemonnee liggen.

E não: Ik heb mijn portemonnee vergeten.

Se quiser dizer que finalmente lembrou (de) algo, não se diz em holandês Ik weet nog mas Ik weet weer, ou seja, você sabe de novo

Espero não demorar muito para escrever mais a respeito em posts vindouros. Vou me esforçar pois ando sem tempo ultimamente em conexão com os meus estudos.

Acabo de retornar de uma consulta com o fisioterapeuta e não acho que ele esteja muito satisfeito comigo. Hoje foi a nossa segunda consulta e acho que a último também. Há duas semanas atrás foi a primeira vez. Tive um encontro com ele e com um outro fisioterapeuta, que coincidentemente, era um brasileiro. Minha queixa: meu braço se desloca com certa facilidade quando eu faço movimentos bruscos.

A primeira vez foi em meados de 2000: eu desloquei o braço durante uma luta corporal com o meu parceiro na época. Deslocamento é chamado na medicina de luxação. Fui levado às pressas de táxi até o hospital mais próximo em dor angustiante, principalmente sobre as lombadas das estradas. Ao chegar ao hospital tive de aguardar algo como um hora mais ou menos, deitado sobre uma maca, até fazer uma ressonância eletromagnética e ter os resultados em mãos para que os médicos tivessem certeza que nada estava quebrado. O problema é que era 1 hora da madrugada e o enfermeiro encarregado disto estava ocupado com outras coisas. A dor que eu sentia ia dos ombros até o meio da minha coluna. O mais leve movimentar de dedos ou pescoço fazia todo o meu tórax revolver-se de dor. Com o braço relocado, a dor tornou-se imediatamente tolerável. Fui engessado até o pescoço e aconselhado a usar a tipóia por um mês.

Segui as recomendações médicas passo a passo e aos poucos fui conquistando a auto-confiança e recuperando meus movimentos.

Anotações em minha agenda de 2003 que incluem um desenho do motorista sobre o acidente, o qual, após perícia foi comprovado ser uma fraude. O motorista simplesmente cochilou atrás do volante.

No dia 24 de janeiro de 2003,  tive uma luxação no mesmo local num acidente de carro. Eu era guia de turismo e estava empolgado pois havia sido contratado recentemente por uma empresa de turismo. Eu fiz a seguinte anotação em minha agenda de 2003:

“Esta deveria ter sido a programação para hoje mas eu jamais poderia ter previsto que hoje talvez pudesse ser o último dia da minha vida. Uma hora e meia depois de J., motorista novo da empresa x me pegar de carro (uma pick-up) aqui em casa, o carro quase colidiu com um caminhão. J. Consegiu desviar-se, jogando o carro 3 metros abaixo num barranco. Salvamo-nos mas tive luxações sérias bem como um ombro deslocado. J. Teve 7 pontos na nuca e ficou temporariamente imobilizado do pescoço para baixo. O carro capotou várias vezes, ficando finalmente com as rodas para o ar. Recebemos atendimento emergencial na Vitalmed de Sauípe…O acidente foi num local chamado Diogo, a 8 km de Sauípe…A mão com a qual estou escrevendo agora está engessada. O braço direito está na tipóia. Estou tomando analgésicos e anti-inflamatórios.”

A pick-up ficou irreconhecível. Experimentar a sensação de que você poderia ter morrido muda toda a sua vida. E com certeza mudou a minha, pois eu acredito que tudo o que aconteceu em sequëncia depois disto, levando-me a onde estou e quem eu sou, 7 anos mais tarde, está diretamente relacionado a este acidente. Ou seja, para mim, a experiência foi apenas positiva.

Eu de tipóia e minha filha, no mesmo mês do acidente de carro.

Exceto pelo fato de que o mesmo braço sofreu uma segunda luxação e de lá para cá, ele nunca mais foi o mesmo.

Movimentos bruscos como quando por ocasião de um espirro ou como quando se perde o equilíbrio (por exemplo, ao pisar numa casca de banana ou quando a neve vira gelo) são proibidos para mim, pois eu sei que isto é o que eu preciso para deslocar o meu braço. A dor nunca mais foi tão excruciante como em 2000 ou em 2003, mas é suficiente para fazer a minha pressão cair ou deixar-me tonto, mesmo depois que eu consigo reajustar o braço.   

A última vez que aconteceu foi há uns dois meses atrás quando eu estava praticando  patinar inline ou em linha. Este tipo de patinação é uma modalidade do pacote viver melhor que eu incluí na minha vida para o ano de 2010.

Nova paixão: ciclismo

A outra modalidade é ciclismo, esporte pelo qual estou apaixonado. Mas patinar na modalidade inline pode ser arriscado, pode-se, na pior das hipóteses, quebrar o pescoço ou fraturar a região pélvica e ficar incapacitado pelo resto da vida com a perda do controle ao cair para trás.  

Aos 35, quase 36 anos não quero correr mais riscos. Queria um conselho profissional. E por isto fui ao fisioterapeuta do meu bairro. Após muito esticarem o meu braço para cima e para baixo, para direita e para esquerda, perguntando-me “dói?”, eles disseram que eu não tenho nada nos ossos, mas sim nos músculos. Fiquei céptico, afinal de contas frequento a academia a um ano e meio. Eles disseram que o que eu precisava era recuperar a minha auto-estima. Mas não é a perda de auto-estima que causa a dor quando eu faço um movimento brusco, não? Não, eles disseram.

músculos do dorso da escápula

Mas os músculos ao redor do dorso da escápula, entre os quais o músculo supra-espinhal, aparentemente não estão fazendo o dever-de-casa deles direito. Mas que isto pode ser corrigido com fisioterapia. Em todo caso, uma cirurgia definitivamente não é necessário. Marcamos consulta para dali a duas semanas…

…a qual foi hoje. Reafirmei ao fisioterapeuta (o brasileiro não esteve presente desta vez) o meu ceticismo, apesar de que eu respeito a opinião médica e profissioanal dele, mas a dor que eu sinto, é uma dor física real e não algo na minha cabeça, tipo um trauma do passado. Como eu disse, eu considero o episódio dos acidentes algo positivo. Mas agora eu quero praticar meus esportes sem sentir medo. Será que isto é pedir demais? O fisioterapeuta (muito simpático, devo admitir) ao pressentir que o próximo assunto seria eu dizer que iria buscar uma segunda opinião (interessante que isto não existe em holandês, o nome é falado em inglês mesmo: second opinion) disse que não estava aan het bagatelliseren (algo como trivializando) o meu caso mas que este era o melhor julgamento dele. Eu perguntei a ele: meus músculos ficaram flácidos após o acidente? Músculos não são sempre firmes? E com certeza no meu caso, ainda me considerando jovem e praticando esportes?

Eu me desculpei pelo ceticismo. Ele me recomendou uma série de exercícios para o músculo que eu terei de fazer diariamente, pelo menos até semana que vem, quando eu tenho outra consulta com outro fisioterapeuta que vai me indicar demais exercícios. Mas eu continuo céptico.

Outro dia uma conhecida minha me perguntou se entre os homossexuais também existia a ‘coisa comportamental’ dos heterossexuais. Entendi mais tarde que ela estava se referindo à distribuição dos papéis domésticos dentro de uma relação homossexual. Achei a pergunta difícil de responder porque nunca havia parado para pensar nisto antes. Claro que já me perguntaram várias vezes coisas que me deixaram embaraçado, algo como o famoso ‘quem dá, quem come’ mas nunca sobre o cotidiano da vida dos gays. 

Não há resposta fácil, pois o mantra ‘homem trabalha e sustenta a casa’ e  ‘mulher ‘cuida das crianças e cozinha’ já está ultrapassado aqui na Holanda há muitas décadas. Assim o é na maioria dos países norte-europeus. Mesmo o Brasil pode ser assim: tome por exemplo o caso da Soninha, ex-VJ (vi-djei) da MTV. O marido dela cuida da casa e das crianças e ela é quem paga as contas. Esta imagem de mulher forte, que desempenha o papel do homem, não é bem vista em alguns círculos pois vai de contra com o que todas as gerações anteriores fizeram.

Meu atual parceiro no início dos anos 90

Muitos homens holandeses cozinham e gostam de fazer isto. Algumas mulheres holandesas sequer sabem cozinhar. No Brasil que eu conhecia, cozinhar era para mulheres, já que ‘cozinha não é lugar de homem’. Não se supreenda de ver homens holandeses empurrando carrinhos de bebê. Para isto é só sentar-se num terras (terraço, a calçada de um restaurante ou lanchonete, servida de cadeiras) e aguardar alguns minutos. Há muito tempo que as mulheres holandesas libertaram-se do papel obrigatório de donas-de-casa e reprodutoras.

Lavar roupa todo dia, que agonia

Quando se é gay e se mora com outro, os papéis são inevitavelmente distribuídos e alguém terá de assumir alguns deles para o bom andamento da casa. É preciso passar, lavar, cozinhar e produzir renda. Na Holanda algumas pessoas contratam faxineiras que vêm à sua casa duas vezes por mês (por 3 ou 4 horas por faxina) e fazem a maior parte da limpeza exceto lavar, passar e cozinhar. Aqui não existem ‘secretárias’ que dormem no serviço, que ainda por cima lavam, passam, cozinham e fazem as vezes de uma babá. Isto aqui seria considerado trabalho escravo.

Mesmo se você tiver uma faxineira duas vezes por semana, as demais coisas continuam pendentes. E assim o é num relacionamento gay. Já fui anteriormente casado com uma mulher, com quem tenho uma filha. Os dias de sábado eram para carregar as pesadíssimas sacolas da feira. Eu cuidava da criança, ela realizava as tarefas da casa. Pode-se dizer que eu trazia o ‘sustento’ para casa. Mais tarde, já num relacionamento gay, continuei fazendo o mesmo porque eu não sabia fazer outra coisa. Eu estava acostumado a ter sempre alguém que lavasse, passasse e cozinhasse para mim. Fritar ovo era o ponto alto do meu conhecimento culinário. Nunca fui bom em consertos caseiros, subir no telhado, pintar parede ou consertar uma torneira, mas se necessário fosse, eu acharia isto preferível a tarefas domésticas. Eu achava ridículo contratar alguém para fazer isto, sem que eu ao menos tentasse. 

No meu penúltimo relacionamento (o qual foi com um holandês), eu tomei a iniciativa de lavar e passar as roupas, que se trata de uma atividade doméstica menos incisiva aqui do que no Brasil pois todo mundo tem máquina de lavar e secar, de forma que não se faz necessário, por exemplo, passar meias, cuecas e roupas de dentro. Durante o período de inverno, o casaco se torna a sua ‘segunda pele’. Ainda assim, pode ser cansativa esta tarefa. Este meu ex-parceiro cuidava da parte alimentícia e fui adiando a necessidade de aprender a cozinhar por mais alguns anos. E finalmente demonstrar toda a minha predisposição na cozinha ficou para o relacionamento atual pois eu cuido desta parte. Não somente cozinho mas também responsabilizo-me por tudo o que comemos durante o dia,  faço as compras e seleciono o que vamos comer.

Nenhuma destas tarefas faz sentir-me menos másculo. Não vejo nada em meus relacionamento atual ou nos anteriores que me lembrasse o relacionamento heterossexual que eu tinha ou nos papéis impostos pela “sociedade” a heterossexuais e homossexuais. Existem, por outro lado, grandes diferenças entre um relacionamento homossexual e um heterossexual no que tange a outros assuntos.

Escala Kinsey

Quando se trata da sexualidade homossexual, a grande maioria da pessoas pensaria apenas que serem ‘sodomizados’ uns pelos outros seria a  única forma imaginável de sexo. Por que outro motivo um homem escolheria outro homem, ao invés de alguém do sexo oposto e ainda ter de ‘bater de frente’ com toda uma sociedade que pensa ao contrário? Dentro da categoria ‘homossexuais’ somos subclassificados por afinidades, o que já foi seriamente estudado e é conhecido como escala Kinsey. Os homossexuais podem ser tão másculos e sérios quanto Rick Martin ou tão efeminados e engraçados quanto Jack MacFarland.

Jack MacFarland, da série "Will & Grace"

A aparência mais ou menos máscula de um homossexual não está diretamente ligado ao papel sexual dele, ou seja, uma travesti não é necessariamente a “mulher” de um relacionamento. Algumas travestis são bem-dotadas e não cogitam de jeito nenhum uma CRS (cirurgia de redesignação sexual) ou operação de sexo. Quanto se trata de homossexualidade, os olhos enganam muito.

Quem dá, quem come

Apesar de ferir os ouvidos, a pergunta faz sentido. Oras, se um homem um dia interessou-se por uma mulher e atualmente interessa-se por outro homem, ele trocou exatamento o que por o quê? Existe uma diferença muito grande entre um homem e uma mulher, que vão além das formas físicas e dos órgãos genitais. A textura da pele masculina e o odor também são diferenciais importantes, que muitas vezes são ignorados. Uma coisa não é trocada por outra. Apenas as mulheres conseguem produzir o odor e a textura próprias de uma fêmea. Quando se é homossexual (ou se é canditato a ser) este cheiro e textura são compelentes e funcionam um pouco como vício. É preciso ter um primeiro contato para se saber o quão forte o vício é ou será. A partir daí, existe uma certa química liberada no cérebro que causa um estado de euforia que não é mais suavizado da forma anterior.  

Existem até mesmo gays que não tem vida sexual ativa e os motivos são muitos: sofrem de frigidez (é bem mais comum do que se fala e homens com certeza também o tem), aceitam-se como gays mas preferem levar uma vida assexual ao invés de brigar contra todo um conjunto de leis e regras comportamentais milenares e/ou são extremamente tímidos. Quando finalmente se desvencilha de todo preconceito e se encontrou o grande amor de sua vida, a pergunta é, como se relacionar. A grande maioria dos gays são versáteis, isto é, eles desempenham papéis sexualmente ativos e passivos. Os apenas ativos ou apenas passivos são uma minoria. Quem é finalmente o que só ficará claro ao longo de um longo processo. Os papéis são invertidos e muitas vezes realizar apenas determinado tipo de papel tem a ver com a disposição do parceiro. Cada parceiro com quem um homem gay se relaciona libera uma química diferente no cérebro e os papéis sexuais podem alterar-se.

Cabeça aberta

Eu percebi ao longo dos anos que alguns heterossexuais que se dizem ‘cabeça aberta’, na verdade não o são. E para testar isto, é só começar a contar detalhes sobre a vida sexual dos gays e sente-se um imediato mal-estar. Não se pode esperar que pessoas de gerações anteriores entendam o que é homossexualidade, mas eu esperaria isto da geração atual ou de qualquer pessoa com menos de 50 anos.

Quer saber o quanto preconceito há? Se você for gay, tente trocar um beijo com alguém do mesmo sexo em público e/ou sentar-se ou caminhar de mãos dadas. Se você for heterossexual, peça que um casal gay faça isto. Num país tido como um dos mais tolerantes do mundo, a Holanda, os gays ainda tem medo de demonstrar afeto em público. Exceto no dia do orgulho gay, mal se vê dois homens ou duas mulheres de mãos dadas. Os jornais relatam casos de gays que são espancados por terem se exposto deste jeito. Eu e meu parceiro tentamos dar exemplo na medida do possível lembrando a todos que temos os mesmo direitos que os heterossexuais mas noto os olhares de discriminação e mesmo de sarcasmo. Ninguém ousa dizer algo preconceituoso a dois homens fortes que podem se defender mas tenho certeza absoluta de que eles o farão com outros, na primeira oportunidade se as julgarem franzinas e presas fáceis.  

Eu e meu parceiro atualmente

Ainda assim, acho que os gays deveriam ousar mais. E quando falo ‘os gays’ refiro-me a todos os gays da escala Kinsey sobre os quais eu escrevi acima. Atores e apresentadores holandeses dão bons exemplos aqui. Eles não somente se assumiram, como também mostram seus rostos nas paradas gays. Eu poderia citar o nome de vários atores e diretores brasileiros que são (de forma altamente suspeita) gays, mas não assumidos. Certa feita, em 2003, pedi um autógrafo na Praia do Porto da Barra, em Salvador a um ator que fazia o papel de um homem casado numa comédia sobre o dia-a-dia de um casal heterossexual. Este ator flertou comigo deixando-me mais pasmo do que lisonjeado. Eu não sabia que ele era gay. Um ator do gabarito dele poderia fazer mais do que flertar. A expressão da (homos)sexualidade dele não pássa disto. Ele poderia fazer toda a diferença na conquista dos direitos gays no Brasil, se ele se assumisse e tentasse mostrar a toda a população que os gays merecem respeito e os mesmos direitos.

Direitos iguais: casar, adotar filhos, etc são apenas a ponta do iceberg. Tudo isto já é possível aqui na Holanda desde 2001. Apesar de que a sociedade holandesa está acostumada com a idéia de que os gays tem os mesmos direitos, na prática convencer toda uma sociedade de que duas pessoas do mesmo sexo tem o direito de andar na rua de mãos dadas é algo que ainda não aconteceu aqui e tenho certeza que em lugar nenhum do mundo.

De vez em quando, no meio de uma conversa com um holandês, sou interrompido para receber um elogio pela fluência. Eu considero a fluência do meu holandês sofrível, mas sou obrigado a acreditar no elogio quando ele vem assim tão repentinamente.

Ao mesmo de todos os tempos, percebo que “falar com fluência” tem um pouco a ver com repetição, um pouco como os papagaios fazem, apesar de ser esta uma analogia infeliz. Algumas expressões, tanto na língua portuguesa, como na holandesa, são prontas e devem ser usadas assim, para a situação correspondente.

Os bonecos dançando

Um exemplo é: daar hebben we de poppen aan het dansen (isto é, ‘os bonecos vão dançar’). Qualquer dicionário traduz como “agora estamos encrencados”, mas esta tradução ajuda muito pouco a saber em que situação você deve falar isto. Se você procurar o verbete “encrencado” num dicionário para holandês, você encontrará pelo menos 10 expressões que emitem a mesma idéia. Perguntar a um holandês ajuda muito pouco, pois eles usam as expressões quando a situação ocorre espontaneamente e passados dias ou meses não se recordam mais da situação em si.  

Meu parceiro me explicou que ‘os bonecos vão dançar’ é usado quando um clima passa de agradável para desagradável. A pessoa que diz que ‘os bonecos vão dançar’ avisa que o clima está desagradável e que é melhor fazer vista grossa. Até onde eu sei, não existe nada para esta situação em português. Talvez seja algo como não procurar sarna para se coçar.

O letreiro acima diz: Aqui apenas débito automático

Eu achei que tivesse evitado uma dança de bonecos outro dia no supermercado quando eu perguntei ao rapaz do caixa (que mais parecia uma criança) se o caixa era apropriado também para débito automático (sistema chamado de PIN). Alguns supermercados tem caixas específicos para quem quer pagar em dinheiro (contant) e outros apenas para débito automático (PIN).

Eu perguntei: ‘Is dit een PIN-kassa?’

Ele disse: ‘Desculpe, senhor. Não entendi.’

Eu repeti: ‘Is dit een PIN-kassa?’

Ele repetiu que não me havia entendido.

Na terceira vez, eu desisti e perguntei outra coisa (e o engraçado é que ele entendeu tudo o mais daí para a frente).

Isto ficou na minha cabeça. Se eu consigo me expressar sem problemas em holandês, então, o que aconteceu neste dia no supermercado? Contei a história para o meu parceiro e ele disse que eu provavelmente devo ter dado ênfase demais ao nome kassa (kás-sa),  o que deve ter soado como pindakaas (pronunciado pin-da-kás, pasta de amendoim, muito popular aqui na Holanda) ao ouvido do rapaz. Eu teria feito-me entender melhor se tivesse pronunciado pÍn-kassa, dando mais ênfase no pín. Em 5 anos morando na Holanda, nunca me preocupei com isto. Mais um desafio para mim, então.

E para completar, visitando o Zuiderzee Museum em Enkhuizen, eu disse que os kalkovens (fornos de cal) haviam sido trazidos de outras partes da Holanda para o parque do museu.

Os kalkovens (fornos de cal) do Zuiderzee Museum

Minha pronúncia foi imediatamente corrigida. Em quantas maneiras diferentes pode um ser humano pronunciar kalkoven? Eu pronunciei o “al” como em “au”, sem que o “l” tocasse o céu da boca, pois é assim que é pronunciado na maioria das vezes. O perú (de Natal), em holandês kalkoen é pronunciado “kaukÚn” e não “kaLlkún”.

Vai entender esta língua. Eu desisto.

Fonte foto bonecos: gentblog.be (nome do fotógrafo aparece na foto)

O último episódio de LOST foi ao ar semana passada. E com ele terminou um dos únicos programas de televisão que mais me entreteve durante anos. O programa começou por ocasião da minha vinda para a Holanda.

E como sempre no Brasil, todo mundo estava assistindo novelas. Os sites de rede social anunciaram que o término da novela Celebridade havia prendido quase todo mundo na frente da televisão. Eu tentei acompanhar a novela América mas não consegui manter o rítmo por mais de um ano. Como eu estava totalmente engajado na missão de aprender holandês, decidi parar com os programas de televisão do Brasil e viver de fato a vida que eu havia escolhido para mim. E isto incluia assistir a programas tipicamente holandeses, como o então recém-inaugurado Mooi Weer De Leeuw (algo que pode ser subentendido como “O De Leeuw voltou” e “Tempo bom – o De Leeuw”), Paul de Leeuw é o nome do apresentador e cantor holandês de meia-idade, também homossexual, assumido, amado e odiado na Holanda pelo excesso de sua espontaneidade nos programas que ele apresenta) na língua holandesa e Raymann is laat, que tinha mais um caráter alóctone.

Admito que assistir estes programas ajudou-me a destapar os ouvidos para a língua holandesa, mas uma vez entende-se o que está se passando e o que se está falando, é impossível não tornar-se crítico no sentido mais negativo da palavra e achar todos os programas da televisão holandesa insuportáveis.

Fiquei um tempo sem assistir televisão.

Um ano mais tarde, o meu ex-parceiro apareceu em casa com dois DVD’s de LOST da 1ª temporada. Eu lembrava de ter visto algo a respeito do propaganda no canal holandês NET5 mas ignorei na época, estava ocupado demais com outras coisas. Assisti apenas um capítulo e me apaixonei imediatamente. Eu precisava saber onde eu estava em relação ao show e o quanto eu havia perdido. Já estávamos no começo de 2007 e a NET5 estava anunciando o começo da 3ª temporada. Por meio do site holandês de compra e venda marktplaats, descobri que era possível encomendar todas as temporadas anteriores a preço de banana. E assim o fiz. Assisti todos os episódios em tempo de acompanhar a temporada que se iniciava. Na Holanda, o programa passa com mais ou menos 1 semana de atraso em relação aos EUA. Ter TV a cabo aqui não é uma opção, é a única opção, de forma que todo mundo teria acesso. Uma amiga brasileira minha estava a caminho do Brasil e pedi que ela comprasse todas as temporadas anteriores para eu poder assistir ouvindo em português do Brasil.

O meu entusiasmo não foi partilhado por ninguém que eu conhecia, dei-me conta. Ouvi comentários como: a série é complicada demais e não faz sentido. Isto fez-me perguntar, se, para eu gostar de algo, este algo precisava ser necessariamente simples. Significava isto que eu não poderia tentar compreender o roteiro ou mesmo dar uma nova forma a ele? E se algumas cenas eram irreais, eu não poderia usar a minha imaginação e deixar-me levar por ela? Respondi sim às duas perguntas e nunca parei de assistir o programa.

Matthew Fox, como imagem de fundo de meu pc

Acabei virando fã de carteirinha, com pôsteres do ator Matthew Fox pendurados na parede do meu quarto (coisa que eu nunca fiz, nem na minha adolescência) e ficando obcecado com tudo o que tinha a ver com a Iniciativa Dharma, o monstro da fumaça e fazendo dos atores minha tela de fundo do computador.

Algo que me atraiu desde o princípio foi não ser obrigado a estar no mesmo recinto cliché de filmes americanos, ouvindo apenas inglês nova-iorquino. Num mundo ainda mais globalizado que o do final do século XX, não dá mais para olhar para o mundo como se ele fosse singular. O mundo é preto, branco e amarelo, gordo e magro, rico e pobre, honesto e desonesto, católico, ateu e muçulmano. Todos estes ingredientes estavam presentes em LOST. E apesar de que uma cena ou outra ter sido bastante picante, creio que para uma série que durou 6 anos, as cenas (realmente óbvias) de sexo foram irrizórias. Não tenho nada contra as cenas de sexo, apenas acho que influencia um roteiro para melhor. Se eu quisesse ver pessoas nuas fazendo sexo eu assistiria um filme pornô, certo? Não esquecendo de mencionar que o Rodrigo Santoro teve uma curta participação em LOST, falando inglês perfeito durante 7 episódios, tendo uma morte dramática no episódio Exposé, da 3ª temporada.

LOST me emocionou muitas vezes. Na maioria das vezes porque me recordava de algo pelo qual eu mesmo havia passado. Eu tenho os meus capítulos favoritos e ás vezes eu pego os DVD’s apenas para assisti-los:

Piloto Partes 1 e 2: Jack (Matthew Fox) intercede numa briga entre Sayid e Sawyer e diz a famosa frase que virou o tema de um dos episódios: If we cannot live together, we’re gonna die alone (Se não conseguimos conviver uns com os outros, vamos morrer em separados). Sayid e SaywerEste segundo episódio mostrou o que iríamos ver ao longo de todo a série: pessoas de todas as raças tendo de conviver juntas. Eu nunca tive problemas com isto, sempre achei a mistura belíssima e sedutora mas quando eu vi o Hurley, eu imaginei que ele iria perder peso ao longo da trama, pelo único e simples fato de que alguém me convenceu que ser gordo simplesmente é errado, mas eu mesmo aprendi a aceitar e gostar do Hurley como ele é, independente da aparência dele.

Coelho Branco (White Rabbit): quando Locke diz a Jack que ele havia olhado no olho da ilha e o que havia visto era lindo. Locke tenta convencer Jack que a ilha é especial e que ele deve aceitar a incumbência que lhe foi outorgada pela ilha: liderar.

A Mariposa (The Moth) foi o episódio em que Charlie viu-se forçado a parar com o uso da heroína e cortar o cordão umbilical disto com a realidade pré-ilhéia dele, de quando ele fazia parte da banda Drive Shaft, com o seu irmão mais velho. A dor da abstinência é visível em seus olhos e só quem já conseguiu parar com um vício químico sabe o que isto significa.

Os Outros 48 Dias (The Other 48 Days) é um dos episódios mais perfeitos já feitos para a televisão. Quando se assiste LOST pela primeira vez, você se chacoalha no sofá (ou onde estiver sentado) com cada cena, de cada novo episódio. O avião havia se separado em dois durante a queda e haviam sobreviventes na seção traseira também. Como estas pessoas sobreviveram estes 48 dias isolados do grupo principal é explicado vividamente neste magnífico episódio.

S.O.S. Apesar de Rose e Bernard não participarem das aventuras mais arriscadas do acampamento, o flashback sobre como eles se conheceram me fez chorar e ainda faz, toda vez que assisto. Eles se apaixonaram tão rápido, mas quanto mais velhos vamos ficando, com menos tempo a perder, vamos tendo mais certeza das coisas. E Bernard estava certo de seu amor por Rose quando a pediu em casamento num jantar romântico ao som de violinos, mas ao invés de responder sim, Rose lhe explica emocionada que tem câncer e que os médico lhe deram no máximo um ano de vida. Após um minuto de silêncio que parece ter durado uma eternidade, Bernard diz: “Você ainda não respondeu a minha pergunta”.

Rose e Bernard

Um Conto de Duas Cidades (A Tale of Two Cities) A 3ª temporada começa magnífica apresentando-nos Juliet Burke. E eu chorando. Ela insere um CD no player que tocará a belíssima canção de Petula Clark, Downtown. Juliet é uma dos Outros, um grupo de pessoas que já morava na ilha antes dos sobreviventes do avião chegarem e tudo o que Juliet quer é voltar para casa e ficar junto de sua irmã e seu filho mas o destino quis diferente.

Um Estranho numa Terra Estranha (Stranger in a Strange Land) foi considerado pelos próprios roteiristas um dos piores episódios, o qual tinha mesmo uma xerife na cidade. Jack tem uma tatuagem, que havia sido feita por uma ex-namorada dele da Tailândia, que não era realmente uma tatuadora, era uma definidora. Ela definiu com aquela tatuagem que Jack havia nascido para ser líder, mas isto o deixava irritado, com medo e solitário. Se algum dia eu tiver uma tatuagem, será aquela.

Os Maiores Sucessos (Greatest Hits) de Charlie não foram suas canções, nem a fama da Drive Shaft, mas 5 coisas extremamente simples que ele havia feito como quando ganhou um piano de sua mãe, quando aprendeu a nadar com o seu pai, quando seu irmão mais velho lhe deu um anel de família, quando ele ajudou uma moça (por acaso a amada de Sayid, ela disse a Charlie: se algum dia alguém disser a você que você não é um herói, não acredite, você é muito mais do que isto!) que estava prestes a ser assaltada no Covent Garden, em Londres e, claro, a noite em que ele conheceu a Claire.

Charlie, anotando seus 5 sucessos

A 4ª temporada começou com O Começo do Fim (The Beginning of the End) que me lembra agora que em 2008 meu relacionamento também estava no começo do fim. Assisti ao episódio em meio à caixas de mudança, já que estávamos recém chegados em Amsterdã e usei parte do diálogo para um trabalho de subtítulos para a faculdade.

A Forma das Coisas por Vir (The Shape of Things To Come) foi o mais sangrento de todos os episódios. Alguns atores queridos morreram e fiquei um pouco decepcionado. Os demais episódios que achei muito bem dirigidos e atuados foi O Acidente (The Incident) no final da 5ª temporada e Ab Aeterno, contando a segredo da longevidade de Richard, no começo da 6ª e última temporada.

Pretendo assistir todos os episódios muitas vezes ainda. Amei ver os atores envelhecendo. Deve ter sido uma experiência e tanto para eles e com certeza o foi para nós, lostmaníacos, que envelhecemos junto com eles, perdidos nesta ilha em que alguns de nós querem partir e outros querem ficar.

Meu parceiro tem Asperger.

Asperger é o nome dado a um dos espectros do Autismo. Com o nome espectro entenda-se uma variação do autismo. O nome Asperger é o nome do médico austríaco que deu início a um importante estudo a cerca de psicopatia em crianças, na época, consideradas ‘anormais’. Já o nome Autismo foi inventado em 1911 por Eugene Beuler, como uma manifestação de esquizofrenia. Foram escritos vários livros sobre o assunto de lá para cá e em 2010 há vários sites na internet e livros dissertando sobre o assunto mas o mais abrangente de todos é, sem dúvida, o livro de Tony Attwood, The Complete Guide to Asperger’s Syndrome (Guia Completo Sobre a Síndrome de Asperger). O Autismo diferencia-se de Asperger no sentido que este espectro não afeta as funções cognitivas do indivíduo, isto é, não afeta a sua capacidade de aprendizado. Ao contrário, contribui, sendo este espectro também conhecido como autismo de alta funcionalidade. Pessoas sob o espectro do autismo costumam ter excelente QI e consequentemente bons empregos. Diz-se que pessoas indubitavelmente inteligentes como Charles Darwin e Albert Einstein supostamente tinham Asperger.

Pessoas com Asperger também são tidas como pessoas de gostos únicos e especiais, nos quais elas se aprofundam. Algumas são excelentes em certa área das ciências exatas ou humanas, mas raramente as duas. Eles demonstram uma certa sensibilidade para com determinado assunto que lhes captam o interesse, que uma pessoa sem o espectro (neurotípico, vou falar mais tarde) não conseguiria. Para entender isto melhor eu li o livro O Estranho Caso do Cachorro Morto , de Mark Haddon. O livro é comovente e agradável de se ler, mesmo para quem não tem o hábito de ler livros. O personagem principal é um menino chamado Christopher, muito inteligente para a sua idade. Sua maneira de ver o mundo é tão pura e ingênua, mas ao mesmo tempo, ele só consegue ver de uma única maneira. O capítulo 181 explica isto bem:

Eu vejo tudo…Por exemplo, eu lembro estar de pé num campo num dia de quarta-feira, 15 de junho de 1994, porque mamãe e papai estavam indo de carro para Dover para pegar a balsa para a França e fizemos o que o papai chamou de pegar a rota cênica, e eu tive de parar para fazer xixi, e fui até um campo com vacas, e depois de fazer xixi, eu parei e olhei para o campo e percebi estas coisas:

1. Há 19 vacas no campo, dentre as quais 15 são pretas e 4 são brancas e marrons.
2. Há uma vila à distância, com 31 casas visíveis e uma igreja com uma torre quadrada, sem pináculo.
3. No campo há cumes, o que significa que em épocas medievais era isto que chamavam de campo de cume e sulco.
4. Na cerca-viva tem um pedaço de plástico velho da Asda, um frasco de Coca-cola amassado com um caracol em cima e um barbante laranja bem comprido.
5. O lado à nordeste do campo é o mais alto e a sudoeste é o mais baixo…
6. Vejo três tipos diferentes de grama e duas cores de flores no chão.
7. As vacas ficam quase todas de frente para a parte mais alta do campo.

Ele não tem a mesma flexibilidade que as pessoas ao seu redor de entender o mundo. E esta inflexibilidade acaba metendo-o em confusões quando o cão dos vizinhos, Wellington, é brutalmente assassinado com um gadanho no meio da noite. Pessoas com Asperger, também chamados pelos falantes de língua inglesa de Aspie, tem uma forma própria de ver o mundo. É como se eles vivessem um mundo próprio, com suas próprias regras, no qual não são eles os excluídos, mas todas as outras pessoas ao redor, nós os neurotípicos. Por exemplo, neurotípicos (eu e você) achamos que devemos contar uma mentirinha ‘branca’ de vez em quando para não ofender outra pessoa.

O Asperger assemelha-se ao autismo no sentido que todos sob o autismo tendem a demonstrar uma grande inabilidade para a vida social. Uma pessoa com Asperger entende o porque da mentirinha, mas não consegue aplicá-la em sua vida. Outro exemplo: neurotípicos (eu e você) conseguimos rir de nuances ou conotações de piadas mas uma pessoa com Asperger não a consegue, pelo menos não em princípio. Elas precisam de mais tempo para relativar o assunto literalmente e fazer a analogia com o que causou a graça. Na grande maioria das vezes, uma pessoa com Asperger acaba se cansando de tentar acompanhar a dinâmica deste tipo de conversa e fazendo outra coisa como ler uma revista.

No ano hoje, o assunto já está bem desmitificado. Existem grupos de ajuda espalhados em todo o mundo e com certeza em sua própria localidade mas é possível participar de debates em grupos como o asperger’s awareness page com seus quase 20.000 membros no conforto de seu lar se você for membro do Facebook. Eu fico sempre impressionado com a quantidade de pessoas buscando informações, partilhando suas experiências e ouvindo conselhos de outros membros quase que desesperadamente. É claro que nada disto substitui ajuda profissional. Mas é interessante ver quantas pessoas vivem na mesma situação. Mas a maioria das pessoas nestas comunidades são pais buscando informações práticas sobre como ajudar seus filhos. Uma vez ou outra há pais que também se revelam como portando o espectro ou como tendo sido diagnosticado recentemente, mas limitam o problema aos seus filhos. Há algumas mulheres que mencionam que são divorciadas de homens com Asperger e que Asperger foi, de fato, o motivo principal do divórcio. E por que não mencionar os artigos em jornais do mundo todo mencionando o Asperger como uma das características em certos criminosos, como hackers.

Por estes e outros motivos, foi que eu decidi ler o livro Asperger Syndrome – a love story (Síndrome de Asperger – uma história de amor) de Sarah Hendrickx e seu parceiro, Keith Newton, com quem ela não mora junto. O livro está infelizmente disponível apenas em inglês, pois é um definitivamente guia imperdível para todos os que tem um parceiro com Asperger. A forma cândida e direta como os detalhes são contados me chocou a princípio, mas ao final do livro eu entendo mais do que bem, que não há duas maneiras de se falar de Asperger. É preciso ser tão inflexível quanto às próprias pessoas no espectro. É romântico e ao mesmo tempo triste ouvir de Sarah as confusões em sua cabeça a respeito deste relacionamento. São duas metades numa mesma pessoa, uma desejável e outra indesejável, que não podem se separar pois as duas são a mesma pessoa. Ela conta que Keith é tão carinhoso e sempre faz questão de fazê-la sentir-se a pessoa mais importante do mundo enquanto estão juntos mas o outro lado também é verdade sobre quando não estão juntos. Como dizer sempre a verdade é desejável mas fere sentimentos. Como estar num relacionamento e estar apaixonado é bom, mas ao mesmo tempo não o é aceitar cacarterísticas ‘estranhas’ de outra pessoa. Isto faz de nós, parceiros de pessoas com Asperger, também especiais, pois aprendemos desde o começo, que o mundo é bem mais do que a fórmula pronta que nos foi dada. Aprendemos que temos de manter nossa mente bem aberta e mantermo-nos sóbrios quanto às nossas escolhas. Sem nos arrepender e sem ter de pedir desculpas.

 

Eu, com 12 anos

Enquanto criança, minha mãe instilou em mim regras de comportamento, que segundo o parecer dela, seriam importantes para a minha vida social adulta como respeitar os idosos, não mentir, não interromper quando outros falassem e colocasse a vontade de outras pessoas acima das minhas. E assim eu fiz, ou achei que o fiz. Uma vez na 4ª série, uma professora furiosa interrogava a todos na sala de aula para descobrir quem havia quebrado o vitrô da cantina com uma bola durante o recreio. Fez-se um longo silêncio, o qual continuou após eu dizer que havia visto. Eu deveria ter entrado para o departamento de proteção às testemunhas, mas tudo que eu ouvi da professora foi um ‘Muito bem!’ e durante a saída da escola, represálias por parte deste colega e sua turma de amigos. Eu não tinha nada contra ele. Eu passava cola da algumas matérias para ele durante as provas, o que provavelmente me salvou a vida. Mas ninguém conseguia acreditar que eu tive coragem de dedurar um colega. Mas para mim nunca havia sido uma questão de ter coragem ou não, mas sim uma questão de falar a verdade. E que ele arcasse com as conseqüências do que havia feito.

Mas ainda durante a infância, eu lembrava aos amiguinhos que eles haviam feito algo errado quando os via fazendo algo diferente do que a minha mãe havia me ensinado. Eles me respondiam: ‘O mundo é dos mais espertos’. Será que foi a minha mãe ou os pais deles que esqueceram de contar a parte das regras de comportamento? Não posso dizer ao certo. Só posso dizer que conforme fui crescendo, percebi que regras e normas, ainda que importantes para a vida em sociedade, não eram acatadas pela maioria.

Enquanto Testemunha de Jeová, aprendi que o mundo estava dividido entre dois grupos de pessoas: as semelhantes à ovelhas, previamente escolhidas por Jeová para habitar no novo mundo quando este se transformar num paraíso e as semelhantes à cabritos que deliberadamente optaram por continuar vivendo neste velho mundo iníquo e continuar respirando o ‘ar’ contaminado deste mundo que pertence ao Diabo e que engloba tudo de ‘prejudicial’ que existe como mentira, palavrões, pornografia, etc. Sendo assim, eu deveria dizer a verdade sem rodeios às não-Testemunhas. Eu não sabia que existia um código secreto para não dizer a verdade ‘total’. De forma que, durante uma partida de vôlei em 1989 na Praia da Biquinha, em São Vicente, expliquei à uma moça de Santos, recém-chegada à religião, que todas as religiões falsas do mundo são representadas na Bíblia no livro de Apocalipse como Babilônia, a Grande, uma prostituta embriagada com uma taça de sangue, que representa o sangue de todos os que morreram por causa dela, montada numa fera de sete cabeças. Ao concluir a última frase, percebi que a bola não estava mais em movimento. Todos os presentes estavam parados de pé, olhando para mim com cara de espanto, achando que o meu testemunho foi desnecessário naquele ponto do progresso ‘espiritual’ daquela moça. Eu provavelmente estava sendo uma pedra de tropeço para ela. E que neste caso, era melhor que eu ‘amarrasse uma roda de pedra de moinho em meu pescoço e me atirasse ao mar’, frisando as palavras de Jesus (Marcos 9:42).

Quando comecei a trabalhar, tampouco consegui me ver imitando o comportamento das pessoas nos transportes públicos: acotovelando, empurrando e xingando para conquistar o seu próprio espaço, nunca foram coisas que eu conseguia fazer. Eu queria simplesmente ir e vir, sem o mínimo de incômodo da parte que quem quer que seja. Entendi muito cedo na vida que não existia tal coisa como ‘ser você mesmo’. É preciso se adaptar o tempo todo para poder viver em sociedade. Ser um ‘bom’ filho, irmão, aluno, parceiro e amigo é um termo relativo. ‘Não matar’ não é o ápice de ser um bom cidadão e sim ‘ler nas entrelinhas’ como eu me encaixo no contexto social em geral. Mas isto só funciona quando acatado igualmente por todos e estou mais do que convencido que isto nunca vai acontecer.

Vindo visitar a Holanda em 2004 tive a impressão de que a utopia de ‘os outros, primeiro’ existia. A primeira visão que tenho é dos carros enfileirados corretamente (i.e. não ziguezagueando de uma faixa para a outra) na auto-estrada, obedecendo perfeitamente as regras de trânsito. A partir daí, a próxima coisa que eu vi só fez contribuir com a idéia anterior de ordem e harmonia: ruas limpas, inexistência de favelas e de crianças maltrapilhas pedindo esmolas em semáforos, etc. Nos supermercados as pessoas se cumprimentavam e se despediam; nos vilarejos os moradores colocavam frutas ou flores de seus jardins em frente de suas casas para vender, com uma placa anunciando o valor a ser depositado num pequeno cofre, que não se valia de nenhuma proteção em especial. Carros e bicicletas paravam para o pedestre caminhando em linha reta ou numa zebrapad (faixa de pedestres). Achei tudo muito honesto. Me perguntei na época porque o Brasil (que eu conhecia) não era assim. Anos mais tarde, ao voltar para o Brasil, percebi para a minha própria frustração, que eu estava desacostumado com como as coisas eram por lá. Por que que a faixa de pedestres é praticamente invisível e inútil no Brasil? De quem é a culpa? Dos pedestres que páram por medo de ser atropelados ou dos motoristas, que estão convencidos da superioridade de quem guia para poder decidir sobre a vida e a morte de pedestres? Enquanto eu atravessava a Avenida Garibaldi, em Salvador não tive paciência de ver uma senhora de aparentemente 80 anos lutando com suas muletas para atravessar a rua no limitado tempo oferecido pelos semáforos, ao passo que os outros pedestres simplesmente sumiam de vista. Eu não somente a atravessei em meus braços, como a levei até a porta de sua casa. Eu é quem me senti bem de fazer isto. Esta senhora deve estar assustada até agora. Mas eu fui aparentemente o único incomodado com a situação desta senhora naquele momento.

Eu só precisava de mais tempo.

Aqui estamos nós, Europa 2010. Moro numa cidade grande. Passo a maior parte do meu tempo na capital, Amsterdã. Mal vejo os vizinhos. Durante o inverno, a cidade parece fantasma. Tenho a impressão de que as pessoas ficam mais grosseiras durante este período, embora não possa provar. Os carros dificilmente páram para as bicicletas nem mesmo quando elas estão devidamente iluminadas e vindo da direção certa. Na Holanda, não é preciso se preocupar com quem vem da esquerda, pois quem vem da direita SEMPRE tem a preferência. Se as luzes da minha bicicleta não funcionam, porém, eu não arrisco sair com ela durante o inverno, quando os dias são mais curtos. E no entanto, já várias vezes quase fui atropelado. Nunca xinguei o motorista mas acredito que deveria tê-lo feito. O motorista nestas ocasiões simplesmente ‘fingiram’ não ter feito nenhuma manobra perigosa e ignoraram a minha presença completamente.

Trens. A empresa holandesa de trens chama-se na vida prática dos holandeses NS, abreviação para Nederlandse Spoorwegen ou Ferrovias Holandesas. Ela comanda o transporte ferroviário na maioria das províncias. Apesar de prover um bom serviço a maior parte do tempo, no inverno a coisa muda. Com certeza quando há fenômenos metereológicos. Há sempre atrasos, os passageiros ficam por mais de meia hora expostos a um frio subumano e a culpa é simplesmente ‘razões logísticas’. Isto ocorreu repetidas vezes, de dezembro do ano passado até o mês atual do ano corrente.

Holandeses cansados e irritados após longa espera pelo trem

Quando o trem finalmente chega na estação, hordas de holandeses cansados, estressados e congelados invadem os vagões com habilidade tal que você tampouco consegue embarcar ou esquivar-se do tumulto, ao mesmo tempo que outros passageiros desembarcam. Eu só consigo embarcar depois que todos o fazem antes. Nunca há lugar para sentar na segunda classe, que é a classe que eu viajo. Considero viajar na primeira classe um assalto ao próprio bolso apesar de que a NS promete mais espaço e tranquilidade para relaxar e ler um livro, mas durante os atrasos no inverno, foram feitas exceções para que passageiros da segunda classe sentassem-se na primeira classe. E nesta hora eu fiquei grato por não pagar mais para viajar nela. Mesmo sendo sortudo suficiente para achar um assento, mexer-se nele ou realizar qualquer outra ação como tirar o casaco, afrouxar o cachecol e ler um livro até a sua estação de destino após sentar-se não é possível. Alguns bancos são voltados uns para os outros, joelhos tocando joelhos. O passageiro imediatamente ao seu lado, apesar de estar ele mesmo também num trem lotado, extende os braços diante de seu rosto com o seu jornal favorito, para poder lê-lo mais comodamente, ignorando totalmente a sua existência. Isto para não mencionar aquele homem de nogócios de terno e gravata que resolveu ligar para todos os contatos de sua agenda eletrônica e fazer uma espécie de conferência em voz alta sobre todas as transações a serem feitas, detalhadamente. Entre um coupé (vagão) e outro, tem alguns assentos embutidos que não ocupam espaço denecessário e fornecem cobiçado espaço para sentar quando o vagão está lotado. Geralmente há dois, um ao lado do outro. Mas uma única pessoa costuma tomar os dois assentos com apenas um par de nádegas. Continua lendo o seu jornal ou conferindo o seu iPhone, ignorando toda e qualquer presença externa no trem. Nunca consegui entender porque certos jovens holandeses fazem tanta questão de sentar-se, jogando-se literalmente no assento mais próximo que foi desocupado, como se sua vida dependesse disto, ignorando idosos e mulheres grávidas, apenas para levantar-se na estação seguinte, 5 minutos adiante. Finalmente é hora de desembarcar. Sempre há um ou outra senhora com carrinho de bebê apesar de que todo mundo que mora neste país sabe muito bem que das 17:00-19:00 são os horários de pico das ferrovias holandesas e que carrinhos de bebê e bicicletas são inviáveis. Talvez por causa desta ciência, ninguém queira ajudá-las a desembarcar, já que o piso do trem fica há mais ou menos uns 30 centímetros do chão e não há rampas, apenas um único degrau, que vem junto com o trem.

A letra "S" indica silêncio em vários idiomas

Vagão silencioso. Ou não. O tipo de trem holandês de dois andares ou double-decker bem como os compridos chamados de Intercity costumam ter um vagão inteiro silencioso ou stiltecoupé. Outros tipos de trem como o Sprinter, menores e mais simples, servem-se de menos luxo.

Sprinter

Diferente do que a brasileira Ana Maria, de São Paulo comentou em seu blog Psiulândia a respeito de vagões silenciosos na Inglaterra (ela tem um blog totalmente voltado para a busca de um mundo mais silencioso), o site da NS vem com regras bem menos fixas e por isto mesmo menos óbvias, deixando espaço para as pessoas decidirem como devem se comportar nos vagões silenciosos. O nome holandês geluidsoverlast significa literalmente ‘abuso sonoro’ e não necessariamente ‘poluição sonora’:

Huisregels in Stiltezone
In de stiltezone reist u rustig, zonder dat u uw medereizigers stoort met geluidsoverlast. Fluisteren en naar muziek luisteren is natuurlijk toegestaan, zolang medepassagiers er geen last van hebben. Als iemand wegens te weinig zitplaatsen toch ‘gedwongen’ met een medereiziger in een stiltezone zit, dient hij vanzelfsprekend hiermee rekening te houden.

Regulamentos no Vagão Silencioso
O vagão silencioso é um local de silêncio, de forma que pedimos que evite quaisquer tipos de sons que possam incomodar aos demais no vagão. É permitido sussurrar ou ouvir música, contanto que não incomode. Se outro passageiro sentir-se ‘obrigado’ a sentar-se no vagão silencioso por falta de assentos em outro vagão, ele deverá obviamente levar estes regulamentos em consideração.

Fiz uma tradução livre, mas dá uma boa idéia do texto em holandês. Primeiro, em holandês eles não especificam o que pode causar o geluidsoverlast. Fica por conta de sua imaginação e consciência. Por que eles não mencionam MP3, celulares, fones de ouvido mal-ajustados do qual se ouve exatamente o que a pessoa está ouvindo? E a depender da capacidade de audição de um indivíduo sussurrar pode ser gritar. Alguém sentir-se ‘obrigado’ a sentar-se no vagão silencioso deve ser alguma piada de mau gosto, porque mesmo se o trem não estiver lotado, todo mundo dá a preferência de sentar-se de frente, para a direção de destino do trem e não achteruit (de costas). Ou seja, num vagão comum, não lotado e fora do horário de pico, TODOS os vagões terão pelo menos 1 pessoa sentada de frente para o destino do trem ocupando de alguma forma os 4 assentos perto de si. Ninguém vai dividir assento com outros 3 simplesmente porque o passageiro x que quer silêncio tem este desejo individual e esta pessoa já sabe antecipadamente que ele não vai conseguir viajar 45 minutos sem abrir a boca.

No escritório. Temos um rádio comunitário do qual podemos conectar todas as principais estações de rádio da Holanda. Infelizmente com a chegada do iPhone e do iPod em 2009, o rádio foi colocado de lado a favor da lista personalizada de seu iPhone com as suas músicas favoritas. Enquanto apenas um ou outro colega tinham iPhone, era fácil manejar isto mas depois que todos tem um aparelho, alguns colegas passaram a incomodar-se com ter de ouvir o gosto musical de outra pessoa, além do volume com o qual esta pessoa queria ouvir a sua música favorita. Apesar de alguns perguntarem se podiam tocar suas músicas favoritas e a resposta unânime e democrática ser sim, sempre havia um ou outro que não concordava e que contestava no meio do caminho. Eu admito que nunca tive maiores problemas com isto, pois se eu não quisesse ouvir a música sendo tocada, eu simplesmente poria meus fones de ouvido e ouviria minhas próprias músicas, em detrimento da comunicação com colegas, o que não é politicamente correto. Reclamações foram feitas nos bastidores e a decisão tomada foi que a lista de música personalizada do iPhone havia sido banida. Dali em diante, apenas rádio. Achei uma pena não poder mais ouvir a voz da Daniela Mercury escritório afora, mas o problema parece ter-se resolvido e as reclamações acabaram. Moral da história: é preferível ouvir a seleção do radialista do que a do colega.

Ainda lembro bem de uma propaganda na televisão brasileira, que tinha por objetivo soerguer a fé do brasileiro na economia e o lema era Orgulho de ser brasileiro. Entre outras frases, ouvia-se a seguinte chamada: Eu sou brasileiro e não desisto nunca. Apesar de que a frase soava bem aos ouvidos, nunca me senti totalmente brasileiro e sempre achei que a chamada não era exatamente para mim. Sempre achei que os meus motivos para não sentir orgulho de ser brasileiro sempre foram mais fortes que os motivos em contrário. Mas o que é orgulho exatamente? O Dicionário Digital Aulete define assim o substantivo:

(or.gu. lho)
sm.
1 Sentimento de satisfação com suas próprias características ou ações, ou com as de outrem
2 Pej. Admiração excessiva de si próprio; SOBERBA. [ Antôn.: humildade]
3 Sentimento de dignidade pessoal e de sua preservação; ALTIVEZ; BRIO: Seu orgulho o impedia de pedir favores
4 Aquilo ou aquele de que(m) se tem orgulho (1): João Ubaldo Ribeiro é um dos orgulhos da literatura brasileira.
[F.: Do espn. orgullo, do cat. orgull.]:

A partir desta definição, vejo que sentir orgulho não é nada mais, nada menos que humano. Parecem ter duas vertentes, uma desejável (pontos 1, 3 e 4) e uma indesejável (ponto 2). Lembrando que a palavra em inglês é pride, dou uma breve olhada no Collins Cobuild Advanced Learner, que utilizei na universidade em Utrecht e novamente eu vejo 4 pontos que não diferem muito da definição dada pelo dicionário brasileiro:

pride /praid/ 1. Pride is a feeling of satisfaction which you have because you or people close to you have done something good or possess something good.

Já em holandês, temos a palavra trots, que é tanto substantivo (orgulho) quanto adjetivo (orgulhoso). O Dicionário Van Dale (que é um equivalente holandês ao Dicionário Aurélio no Brasil) tem o primeiro item como vertente indesejável, o que os dicionários dos outros idiomas primeiro definiram como desejável:

trots [de ~ (m)] 1. gevoel dat men meer is dan anderen. 2. het zelfgevoel dat het volbrengen van iets groots of het bezit van iets moois enz. geeft. 3. Persoon of zaak waarop men trots is.

A definição brasileira do termo era a única que eu conhecia quando saí do Brasil. Eu tinha bem em mente os pontos positivos do Brasil que atraíam os turistas para lá: praias, clima, festas, a hospitalidade, a informalidade e a simplicidade dos brasileiros. Eu era da opinião que todas as pessoas do mundo fossem iguais nestes quesitos. Não hesitei em comprar uma camisa de côr laranja com o nome HOLLAND na cidade turística de Volendam para usar no quente verão holandês e assim mostrar a todos que estou feliz por estar aqui. A côr laranja não tem nada a ver com as cores oficiais da bandeira holandesa que são vermelha, branca e azul. A côr laranja em holandês é oranje, o sobrenome da família real, Oranje van Nassau, algo do qual a maioria dos holandeses se orgulha de verdade. No mínimo, a minha camisa foi ignorada. No máximo, percebi algumas pessoas passando por mim com um ligeiro sorriso de zombaria no rosto. Aquela foi a penúltima vez que vesti a camisa em público. A última vez de fato foi na Copa do Mundo de 2006. Minha primeira Copa fora do Brasil. Já tendo sido informado de como os holandeses lidam com a palavra orgulho, a vesti apenas para assistir uma partida num círculo fechado de holandeses (todos devidamente encamisados) onde eu era o único não-holandês. Dentro de suas casas ou em seus jardins, o orgulho era demosntrado de tal forma que jamais seria aceito ou visto com bons olhos se tivesse sido no meio da rua. Apenas vestir as camisas côr de laranja não era o suficiente, você só se torna um torcedor ‘laranja’ de corpo e alma depois que passar um borrão de cores em sua bochecha que reproduz as cores da bandeira da Holanda. O grito de guerra deles é Hup Holland! caso estejam ganhando ou o juíz é chamado de hondenlul (algo um pouco mais ofensivo que babaca caso estejam perdendo). Fogos de artifício, bandeiras hasteadas nas frentes das casas e litros de cerveja são as marcas registradas destes acontecimentos, pelo menos até chegar a notícia (já esperada) de que os laranjas foram desclassificados e podem voltar para casa (em 2006, a Copa foi na Alemanha, não tão longe). No dia seguinte, o assunto é totalmente superado, esquecido e ignorado. Algumas das pessoas que estavam torcendo naquele dia específico mais tarde afirmam sequer gostar de futebol. Ficar falando de futebol não é trabalho para pessoas nuchter(sóbrias). Diferente do Brasil, os holandeses não se consideram juízes apitando o jogo. Não é desejável falar demais no assunto, afinal de contas como eles dizem:

Doe gewoon, dan doe je al gek genoeg!
Comportar-se normal, já é comportar-se estranho o suficiente!

Pelo menos é o que dizem. A prática revela o contrário. Os vencedores serão incansavelmente castigados pela mídia. Os jornais não pouparão os turcos que fizeram passeatas de carro, buzinando e fazendo algazarra para comemorar a chegada nas quartas-de-final em detrimento dos perdedores. Turcos e marroquinos são a segunda grande maioria étnica na Holanda e já estão na terceira geração. Eles nasceram aqui e falam holandês como língua materna, tendo turco ou árabe como secundárias. À esta atual geração, dá-se o nome alóctones, formando assim um bolsão cultural dentro da Holanda em oposição à maioria dos autóctones (originalmente daqui) que se consideram ateus.

Os holandeses tem uma relação parecida e diferente com os alemães. Diferente por que os alemães parecem incomodar a alguns mesmo estando em seus próprios países. Os holandeses os chamam de oosterburen ou vizinho do leste. Apesar de que os horrores da Segunda Guerra Mundial praticamente terem sido superados nas cabeças da atual geração batava, falar alemão em público ainda não é aconselhável. Os holandeses em si não foram mandados para campos de concentração, mas perderam pessoas queridas com quem trabalhavam ou estavam envolvidos de uma maneira ou de outra. Um exemplo disto é a história da família de Anne Frank, sem falar na praticamente total destruição da cidade de Roterdã e as estórias sobre bicicletas roubadas. Esta última diz que os nazistas ‘confiscavam’ as bicicletas, após deterem os donos delas, e as enviavam para campos de concentração na Alemanha em comboios separados para serem derretidas e se transformarem em outros produtos. Faz-se piada da frase Haben Sie mein Fahrrad gesehen? (Você viu minha bicicleta?). O tocante filme Irmãs Gêmeas, que eu cheguei a assistir ainda no Brasil, deixa claro que nos primeiros anos após o fim da Segunda Guerra Mundial o simples ‘falar alemão’ em território holandês era visto como algo odioso. Em 5 anos morando aqui, nunca vi ninguém vestindo a camisa oficial da Alemanha, que vem com as letras brancas DEUTSCHLAND em fundo preto, em contrapartida com camisas de outros países. As camisas do Brasil são extremamente populares na Holanda.

Eu, na Floresta Negra, Alemanha em 2007

Eu comprei uma camisa da Alemanha na Floresta Negra, mas resolvi adiar eternamente vesti-la na Holanda após ler vários artigos nos jornais holandeses de que alguns alemães na Holanda foram agredidos verbal ou fisicamente. Não se trata apenas de casos isolados pertinenentes ao período de Copa do Mundo, mas sim de uma ferida histórica que custa bem mais do que esperado para cicatrizar. Mas exatamente quando tempo dura até que se supere um tabu? Uma ou duas gerações? Talvez nunca. O interessante é que exatamente a partir da Copa do Mundo de 2006 que os alemães passaram a sentir novamente um pouco mais de orgulho de serem alemães. Durante muito tempo, o simples hastear da bandeira alemã na janela era mal visto na Alemanha. Esquecer os horrores da guerra é, de fato, mais fácil do que esquecer que o seu dócil e simpático avô foi um oficial da SS. Então, sim, eu diria que fazem-se necessárias várias gerações.

Desde o segundo semestre do ano passado, eu sou holandês também. Entre outras coisas tive de abrir mão de minha própria nacionalidade. Estou longe de estar orgulhoso de ser holandês mas conforme eu publiquei em meu post na época, eu tampouco tinha orgulho de ser brasileiro. Então, em que ponto estou? Eu deveria sentir orgulho de ser holandês, quando eles mesmos não parecem sentir? Lembro de um episódio de um programa humorístico da Holanda, chamado Koefnoen (um equivalente ao Casseta e Planeta), que fez uma sátira muito engraçada a respeito.

O episódio se chamava De Tovenaar van TON (A Feiticeira de TON), em contrapartida com O Mágico de Oz. TON é sigla para Trots op Nederland (Orgulhoso da Holanda ou Orgulho de ser holandês) para um partido político liderado por uma senhora política chamada Rita Verdonk, que era Ministra do Ministério da Imigração, na época em que cheguei na Holanda. Na sátira, Dorothy e seu cachorrinho que ela apresenta como Maurice de Hond (nome do geógrafo social que comanda a pesquisa ‘gallop’ dos partidos políticos na Holanda. Traduzido, seu nome seria Maurício, o Cachorro), o leão, o espantalho e o homem de lata indo atrás desta feiticeira para obterem soluções para seus problemas, respectivamente: Dorothy quer voltar a ter orgulho de ser holandesa por voltar à sua pátria querida sem ter de conviver novamente com os insuportáveis e eternos engarrafamentos (file, em holandês) entre outros problemas. O leão quer sua coragem, o espantalho quer um cérebro e o homem de lata quer um coração. Mas Maurice de Hond estraga o show descortinando a pessoa por trás da Feiticeira de Oz, ninguém menos que Rita Verdonk. A farsa tendo sido exposta, Dorothy bate seus sapatinhos um contra o outro dizendo:

Er is niks om trots op te zijn 
(Não há nada do que se orgulhar)

e desperta de seu sonho ‘em algum lugar do outro lado do arco-íris’, numa realidade na qual ela dá a partida em seu carro para visitar um tia enquanto o rádio transmite as últimas notícias dasfiles.

Até agora vim achando tudo isto muito cômico mas como cidadão holandês que agora sou, tenho pela primeira vez em anos a oportunidade de contribuir com a minha opinião. Há algumas semanas recebi a cédula eleitoral convidando-me a votar, o que me deixou muito lisonjeado, exceto pelo fato que eu não faço a mínima idéia de em que partido eu deveria votar. Não tenho nenhuma paixão por política. Nunca me preocupei em pesquisar os partidos políticos a fundo ou compará-los com o sistema político do Brasil. Existem, no entanto, alguns sites de ajuda como o StemWijzer (algo como Indicador Eleitoral) para ajudar o eleitor a se orientar. Por responder por volta de 30 perguntas, às quais você responde com Concordo ou Não concordo, o site lhe dá a sua posição política aproximada. Tentei levar em conta o fato de pertencer à uma minoria: estrangeiro e homossexual. O site indicou-me o partido muçulmano-holandês, o mesmo que favorece os grupos alóctones anteriormente mencionados. Está óbvio para mim que um partido como este não pode me representar. Em outra pesquisa realizada em outro site indicador, fui indicado para um partido chamado AVIP (Almere Voor Iedereen, Almere Para Todos). Almere é o nome da cidade onde vivo atualmente. Gosto do nome, mas não entendi como estou incluído nisto.

A quantidade de cadeiras (zetels) ocupadas é o que determina qual partido tomará a frente nas Primeira e Segunda Câmaras, bem como no Parlamento Europeu. Neste momento é o Christen Demoscratisch Appel (CDA, ou Apelo Democrático Cristão) o maior deles. Numa fusão com outros partidos, o CDA tinha o seu mais alto representante Jan Peter Balkenende como o primeiro-ministro da Holanda, também chamado de o ‘puxador da lista’ ou lijsttrekker em holandês. Recentemente esta fusão deixou de existir devido a desentendimentos dentro do partido. Diz-se, então, que o governo caiu. O primeiro-ministro já foi várias vezes satirizado como assemelhando-se ao ator Daniel Radcliffe, o ator que interpretou Harry Potter nos cinemas.

Como um partido cristão conseguiu chegar onde chegou na Holanda de 2010 é um mistério para mim, mas tenho certeza de que as pilarizações são, em parte, culpadas. Apesar de que, se o partido ocupou tantas cadeiras, foi porque o povo holandês o elegeu. As mesmas pessoas que se dizem contra a opressão e a intolerância e se denominam ‘ateus’, são as mesmas que votam num partido denominado ‘cristão’, no qual seus membros usam a Bíblia como inspiração para criar leis. Como homossexual assumido, com certeza não estarei votando neste partido.

O próximo partido com mais cadeiras é o PvdA ou Partij van de Arbeid (Partido do Trabalho), que satisfaz a maioria. Ou pelo menos a minoria gay. Este partido é representado pelo simpaticíssimo Wouter Bos. Acredito que este difira do PT, o atual partido no Brasil. A proposta deste partido é quebrar os anteriormente mencionados laços históricos de pilarização da Holanda e fundamentar o país em bases reais, concretas e modernas. Uma Holanda em que as origens e as crenças de uma pessoa já não importam. Mas que como cidadão, você também tem obrigações para o país. Gosto desta filosofia, mas o nome ‘gay’ é raramente mencionado pelos membros do partido. E a questão dos alóctones é vista ligeiramente por cima.

Propaganda do SP em frente à minha academia. Detalhe: Aqui na Holanda não é permitido colar cartazes de partido político diretamente em paredes.

O terceiro maior é o SP (Socialistische Partij) ou Partido Socialista. O símbolo deste partido é um tomate e representa ‘protesto’. Este, sim, parece mais com o PT do Brasil. O lijsttrekker deste partido é Jan Marijnissen. O SP tem objetiva dignidade e igualdade para todos mas sinto a impressão de que este partido também esquece das minorias, das quais eu faço parte, em seus projetos de lei.

E finalmente o quarto maior é o VVD, sigla para Volkspartij voor Vrijheid en Democratie ou Partido Popular para a Liberdade e Democracia . Este é o partido de Mark Rutte, um homem inteligente e carismático. Também é o partido de onde vem Geert Wilders, o fundador do PVV (Partij van de Vrijheid) ou Partido da Liberdade, que é um partido-de-um-homem-só. Wilders não é exatamente o que chamaríamos de homem atraente, ele tem uma cabelereira um tanto ao quanto diferente mas ele parece saber o que quer e não ter medo de ameaças ou retaliações como o fez Pim Fortuyn antes dele. Wilders conseguiu fazer toda uma Europa prender o fôlego por ocasião da exibição de um filme feito por ele chamado Fitna que criticava o islamismo como religião violenta aos poucos tomando conta da Europa.

Veja abaixo a primeira parte do filme:

O antecessor deste filme custou a vida de Theo Van Gogh, parente do próprio Van Gogh. Wilders é o tipo de político que jamais concordaria com a forma branda com a qual a problemática entre autóctones e alóctones é tratada na política holandesa atual. Há quem veja Wilders como Hitler, a exemplo de Jörg Haider e Le Pen, mas acima de tudo ele é visto como um político destemido e ousado e que fala a verdade. Ele arrasta consigo uma multidão cansada e irritada com os problemas do cotidiano, que mesmo não simpatizando totalmente com a figura de Wilders, vêem nele a última solução para os problemas da atual sociedade holandesa ou européia por extensão

Dia 3 de março é o dia em que eu começo a fazer diferença. Com um simples gesto. Quem sabe, um dia, eu possa sentir-me orgulhoso de ser o que eu sou de fato, seja lá o que isto for.

Eu nunca havia ouvido este nome antes. Deparei-me com o termo enquanto discutia filosofia com o meu namorado durante o café-da-manhã. Descobri que Deísmo é o nome que se dá à aceitação da existência de Deus, questionando-se o envolvimento dele com a humanidade e com todo o sitema religioso. Por que comecei a discutir este assunto com o meu namorado? Não sei, mas mostrou ser um assunto esclarecedor, porque eu sempre me considerei agnóstico, mas naquela manhã, por um motivo ou por outro, eu descobri que era outra coisa. Mas agnóstico não é o mesmo que deísta. Agnósticos crêem que a simples conjectura quanto a existência de Deus é pura perda de tempo.

1987, eu com 13 anos em frente ao Salão do Reino

Eu nunca neguei ter inclinação para acreditar em Deus. Oras, fui Testemunha de Jeová por quase uma década (1987-1996) e como tal, estudei a Bíblia (Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas) à fundo. Era mais do que um simples ritual de aprender canções tocadas ao som de piano ou assistir alguma espécie de show-de-um-homem-só enquanto uma multidão ouvia atentamente. Era, já naquela época, tão cedo em minha vida, uma forma de vida, um completo sistema de leis e regras que eu acreditava genuinamente serem verdadeiras. E que se eu simplesmente conseguisse seguí-las, sem importar o quão difícil ou complicado pudesse ser, eu alcançaria a felicidade plena nesta vida e na próxima.

Ao abandonar as Testemunhas por outros motivos que vão além da falta de fé, passei a questionar algumas de suas doutrinas. Não foi decisão fácil deixar o grupo, mas me abriu a mente de forma a rever tudo o que eu havia aprendido até então. Eu não sabia que as doutrinas estavam tão arraigadas dentro de mim, e que eu continuaria tendendo a segui-las mesmo estando determinado a seguir um outro estilo de vida. Exemplos dos meus questionamentos:

1- Houveram milagres realmente? Eva falou com uma serpente? Uma mula falou realmente com Balaão? O sol parou sob ordens de Josué? Elias voou numa carroça de fogo? Entre outros efeitos especiais.

2- Por que que eu tenho de viver minha vida inteira aguardando o Armagedom apenas baseado em profecias de terremotos e guerras? E por que justo na minha vez?

3- Eu realmente deveria resignar-se a morrer à aceitar uma transfusão de sangue em caso de um acidente.

4- Eu deveria realmente ir atrás de outras pessoas e convencê-las do quanto eu estava convencido das minhas crenças.

5- Eu realmente queria viver para sempre apenas com aquele mesmo grupo de pessoas, sem incluir outras pessoas excelentes que eu conhecia, mas que ‘infelizmente’ não tinham afinidades com as Testemunhas.

6- Por vestir terno e gravata, seguir o ritual de três reuniões semanais, pregar para outros (ir ao serviço de campo, como elas chamavam), ir a congressos e assembléias eu realmente estava mais próximo de Deus.

Se Deus existe, ele sabe melhor do que qualquer um outro quem eu sou e como me sinto. Será que fingir ser outra pessoa deixaria Deus mais satisfeito? Eu não me sentiria feliz, por exemplo, se alguém que não gosta de mim, de repente agisse como se gostasse. Eu questionaria os motivos pelo qual esta pessoa está fazendo isto. Deus com certeza faria o mesmo. Concluí, por mim mesmo, que Deus, ou Jeová, conforme as Testemunhas de Jeová o chamam, ficaria mais satisfeito se eu professasse, não importando em que pé minha vida esteja, que acredito nele de todo o coração. E esta fé, ainda que não gritada de cima dos tetos é verdadeira e sincera. E prefiro isto a fantasiar-me de menino direito para provar publicamente algo que não sinto, e não sou e não é real.

Por outro lado, tenho dificuldades para crer em teorias como a da Grande Explosão. Não consigo admitir que uma simples explosão no ‘universo’ fez com que todos os planetas girassem com precisão matematica em torno do sol e organizasse todos os outros sistemas solares de tal forma no espaço como sabemos atualmente. E que esta mesma explosão deu início à vida na Terra sendo que esta forma rudimentar de vida se transformou no homem que somos hoje: inteligentes, voando de um continente para outro, comunicando-se uns com os outros através de distâncias impressionantes sem sequer sair do lugar e que a fantástica capacidade dos nossos olhos de enxergar em cores, a perfeita sincronia do funcionamento dos nossos órgãos internos, a concepção de uma criança, o desabrochar de uma linda e colorida seja tudo resumidamente fruto desta explosão.

Cientistas ainda discutem entre si a respeito de se o homem realmente já foi um símio ou não. Ninguém sabe responder por que falamos línguas diferentes. E por que somos tão diferentes uns dos outros: negros, brancos e amarelos? Por que damos nomes diferentes aparentemente às mesmas coisas, como Deus por exemplo? Enquanto a ciência balbucear a resposta a estas perguntas, continuo acreditando que existe um Criador. Não que esta seja uma resolução orgulhosa minha, mas mais porque não vejo outra resposta. Mantenho a mente aberta sempre, pois não quero me tornar mais ‘agnóstico’, mais um que acredita que é impossível achar a resposta à estas perguntas; acho esta postura um tanto ao quanto cômoda.

E como eu não quero ser considerado um pessoa cômoda, entrei num grupo de quase 1000 pessoas que, de alguma forma, se consideram ‘deístas’, no Facebook. O clube ostenta um logotipo de uma pirâmide, cuja parte superior da mesma está separada da parte inferior e acima dela, as seguintes palavras IN NATURE’S GOD WE TRUST (alusão às palavras que aparecem na moeda dos Estados Unidos) e que significa “Nós confiamos no Deus da Natureza”. O clube se chama simplesmente ‘Deísmo’ e acredito que devem haver por volta de outros 10 clubes no Facebook. Não compreendo por que existem diferentes grupos de ‘deístas’. Novamente a subdivisão da divisão. Existem muito mais grupos de ‘ateístas’ no Facebook e um destes teria por volta de 5000 membros. Me pergunto porque os poucos ‘deístas’ que existem (incluindo os que descobriram recentemente que o são) não se únem para formar um grande grupo no qual teríamos contacto com muito mais pessoas e todos poderíamos expressar o que pensamos uns aos outros, já que não há muito mais pessoas que queiram ouvir nossas opiniões.

Desde a semana passada leio o que chamam de a Bíblia do Deísmo, o livro ‘A Era da Razão’ (de 1793), de Thomas Paine via iPhone. Qualquer um que tem um celular tipo iPhone e lê em inglês pode acessá-lo com o aplicativo da Stanza.

Paine era um político mas também escritor e seu livro chocaria muito gente que eu conheço na Europa de 2010. Abaixo vai um trecho do capítulo 4, Sobre as Bases do Cristianismo, que trata dos fatos em torno de Satanás. Achei particularmente engraçado a parte que ele chama a conversa da serpente com Eva, de tête-à-tête, especialmente quando eu penso que se trata de um livro de 236 anos:

…Os mitólogos cristãos, após confinarem Satanás num abismo, foram obrigados a soltá-lo novamente para darem continuamento à fábula. Ele foi então apresentado no jardim do Éden, em forma de cobra ou serpente e nesta forma, ele entra numa conversa íntima com Eva, que não parece surpresa de ver uma cobra falar; e o assunto deste tête-à-tête é, que ele a convence a comer da maçã e este ato condena toda a humanidade.

Após dar a Satanás este triunfo por sobre toda a criação, supõe-se que os mitólogos da igreja (católica) teriam sido tão gentis ao ponto de mandá-lo de volta ao abismo, ou caso não, poriam uma montanha em cima dele (pois dizem que a fé remove montanhas) ou ele embaixo da montanha, conforme os mitólogos anteriores o fizeram, a fim de impedir que ele se infiltrasse no meio das mulheres de novo e causasse mais estrago. ..

…Eles apresentam então um homem cheio de virtudes e amigável, Jesus Cristo, que é ao mesmo tempo Deus e homem, e também filho de Deus, concebido de forma celestial, para ser sacrificado de propósito, porque dizem que Eva estava desejando comer maçã.

Mas eu prefiro manter a mente aberta e tentar entender seus motivos. Basicamente Paine bombardeia a Bíblia e critica absolutamente a tudo e a todos mencionados na Bíblia. Seu livro tem duas partes. A primeira parte eu já concluí. Comecei a segunda parte que trata é do Novo e do Velho Testamentos; estou empolgado e quero continuar lendo com a mente aberta, o que significa que eu posso concordar com Paine em algumas coisas e discordar em outras. Definitivamente não quero novamente que a minha maneira de pensar seja lavada por idéias alheis, nem mesmo as de Paine, mas aceito dicas e orientações de bom grado para desta forma dar mais base às minhas próprias idéias. Estou tentando casar minhas idéias com as afirmações deístas, conforme as li na Wikipedia.

Afirmações deístas e minhas próprias afirmações:

1- Acredito em um Deus, mas não pratico nenhuma religião em particular.

Concordo plenamente. Já tive uma religião e sei como funciona.

2- Acredito que a palavra de Deus são as leis da natureza e do Universo, não os livros ditos “sagrados” escritos por homens em condições duvidosas.

Devo admitir que tenho um grande respeito pela Bíblia Sagrada. Acho difícil refutar absolutamente tudo que ela contém. Será que sou menos deísta por causa disto. Tenho tendência de refutar tudo que é demasiadamente extremo.

3- Gosto de usar a razão para pensar na possibilidade de existência de outras dimensões, não aceitando doutrinas elaboradas por homens.

Gosto de pensar na existência de outras dimensões. Se ‘usar a razão’ significa algo como ‘nunca vi, não acredito’ não é meu ponto de vista ainda.

4- Acredito que os ideais religiosos devem tentar reconciliar e não contradizer a ciência.

Com certeza. Mas da mesma forma que a ciência ainda não conseguiu, por exemplo, encontrar uma cura para a AIDS, me pergunto o quanto a ciência realmente sabe e se eu devo tomar a palavra da ciência sempre como a última palavra em verdade absoluta.

5- Creio que se pode encontrar Deus mais facilmente fora do que dentro de alguma religião.

Nem dentro nem fora dela. Acho que se pode encontrar Deus somente depois que a gente se encontra. E ele pode estar dentro do quarto de dormir da gente. Já que ele é onipresente e onipotente. Ao mesmo tempo, creio que ir á uma igreja ou Salão do Reino funciona para algumas pessoas e elas se sentem, assim, melhores seres humanos. Então também é válido.

6- Desfruto da liberdade de procurar uma espiritualidade que me satisfaça.

Com certeza. O fato de eu me considerar deísta é prova disto.

7- Prefiro elaborar meus princípios e meus valores pessoais pelo raciocínio lógico, do que aceitar as imposições escritas em livros ditos “sagrados” ou autoridades religiosas.

Parece com o primeiro quesito.

8- Sou um livre pensador individual, cujas convicções não se formaram por força de uma tradição ou a “autoridade” de outros.

Acho que foi assim com todos os demais deístas. Não me considero uma pessoa especial, nem mais sagaz que os outros. A gente é como a gente sente que é. É algo natural. Vem de dentro para fora, tão natural quanto o é a própria natureza.

9- Acredito que religião e Estado devem ser separados.

A grande maioria das pessoas concordaria com isto, sejam elas deístas ou não. Mas não entendo porque existem partidos políticos tão chamados cristãos. Creio que quem se denomina cristão deve lutar pelos seus direitos como cidadão que ele é e não pelo fato de ele ser cristão ou não, como se isto lhe rendesse algum privilégio especial.

10- Prefiro me considerar como um ser racional ou espiritual ao invés de religioso.

Com certeza. Mas eu não me considero um ser racional, eu o sou. Penso, logo existo. Já espiritual e religioso são outros quinhentos. E acho que toda a discussão sobre deísmo, ateísmo e teísmo se justificam nestas dúvidas.

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