Meu parceiro tem Asperger.

Asperger é o nome dado a um dos espectros do Autismo. Com o nome espectro entenda-se uma variação do autismo. O nome Asperger é o nome do médico austríaco que deu início a um importante estudo a cerca de psicopatia em crianças, na época, consideradas ‘anormais’. Já o nome Autismo foi inventado em 1911 por Eugene Beuler, como uma manifestação de esquizofrenia. Foram escritos vários livros sobre o assunto de lá para cá e em 2010 há vários sites na internet e livros dissertando sobre o assunto mas o mais abrangente de todos é, sem dúvida, o livro de Tony Attwood, The Complete Guide to Asperger’s Syndrome (Guia Completo Sobre a Síndrome de Asperger). O Autismo diferencia-se de Asperger no sentido que este espectro não afeta as funções cognitivas do indivíduo, isto é, não afeta a sua capacidade de aprendizado. Ao contrário, contribui, sendo este espectro também conhecido como autismo de alta funcionalidade. Pessoas sob o espectro do autismo costumam ter excelente QI e consequentemente bons empregos. Diz-se que pessoas indubitavelmente inteligentes como Charles Darwin e Albert Einstein supostamente tinham Asperger.

Pessoas com Asperger também são tidas como pessoas de gostos únicos e especiais, nos quais elas se aprofundam. Algumas são excelentes em certa área das ciências exatas ou humanas, mas raramente as duas. Eles demonstram uma certa sensibilidade para com determinado assunto que lhes captam o interesse, que uma pessoa sem o espectro (neurotípico, vou falar mais tarde) não conseguiria. Para entender isto melhor eu li o livro O Estranho Caso do Cachorro Morto , de Mark Haddon. O livro é comovente e agradável de se ler, mesmo para quem não tem o hábito de ler livros. O personagem principal é um menino chamado Christopher, muito inteligente para a sua idade. Sua maneira de ver o mundo é tão pura e ingênua, mas ao mesmo tempo, ele só consegue ver de uma única maneira. O capítulo 181 explica isto bem:

Eu vejo tudo…Por exemplo, eu lembro estar de pé num campo num dia de quarta-feira, 15 de junho de 1994, porque mamãe e papai estavam indo de carro para Dover para pegar a balsa para a França e fizemos o que o papai chamou de pegar a rota cênica, e eu tive de parar para fazer xixi, e fui até um campo com vacas, e depois de fazer xixi, eu parei e olhei para o campo e percebi estas coisas:

1. Há 19 vacas no campo, dentre as quais 15 são pretas e 4 são brancas e marrons.
2. Há uma vila à distância, com 31 casas visíveis e uma igreja com uma torre quadrada, sem pináculo.
3. No campo há cumes, o que significa que em épocas medievais era isto que chamavam de campo de cume e sulco.
4. Na cerca-viva tem um pedaço de plástico velho da Asda, um frasco de Coca-cola amassado com um caracol em cima e um barbante laranja bem comprido.
5. O lado à nordeste do campo é o mais alto e a sudoeste é o mais baixo…
6. Vejo três tipos diferentes de grama e duas cores de flores no chão.
7. As vacas ficam quase todas de frente para a parte mais alta do campo.

Ele não tem a mesma flexibilidade que as pessoas ao seu redor de entender o mundo. E esta inflexibilidade acaba metendo-o em confusões quando o cão dos vizinhos, Wellington, é brutalmente assassinado com um gadanho no meio da noite. Pessoas com Asperger, também chamados pelos falantes de língua inglesa de Aspie, tem uma forma própria de ver o mundo. É como se eles vivessem um mundo próprio, com suas próprias regras, no qual não são eles os excluídos, mas todas as outras pessoas ao redor, nós os neurotípicos. Por exemplo, neurotípicos (eu e você) achamos que devemos contar uma mentirinha ‘branca’ de vez em quando para não ofender outra pessoa.

O Asperger assemelha-se ao autismo no sentido que todos sob o autismo tendem a demonstrar uma grande inabilidade para a vida social. Uma pessoa com Asperger entende o porque da mentirinha, mas não consegue aplicá-la em sua vida. Outro exemplo: neurotípicos (eu e você) conseguimos rir de nuances ou conotações de piadas mas uma pessoa com Asperger não a consegue, pelo menos não em princípio. Elas precisam de mais tempo para relativar o assunto literalmente e fazer a analogia com o que causou a graça. Na grande maioria das vezes, uma pessoa com Asperger acaba se cansando de tentar acompanhar a dinâmica deste tipo de conversa e fazendo outra coisa como ler uma revista.

No ano hoje, o assunto já está bem desmitificado. Existem grupos de ajuda espalhados em todo o mundo e com certeza em sua própria localidade mas é possível participar de debates em grupos como o asperger’s awareness page com seus quase 20.000 membros no conforto de seu lar se você for membro do Facebook. Eu fico sempre impressionado com a quantidade de pessoas buscando informações, partilhando suas experiências e ouvindo conselhos de outros membros quase que desesperadamente. É claro que nada disto substitui ajuda profissional. Mas é interessante ver quantas pessoas vivem na mesma situação. Mas a maioria das pessoas nestas comunidades são pais buscando informações práticas sobre como ajudar seus filhos. Uma vez ou outra há pais que também se revelam como portando o espectro ou como tendo sido diagnosticado recentemente, mas limitam o problema aos seus filhos. Há algumas mulheres que mencionam que são divorciadas de homens com Asperger e que Asperger foi, de fato, o motivo principal do divórcio. E por que não mencionar os artigos em jornais do mundo todo mencionando o Asperger como uma das características em certos criminosos, como hackers.

Por estes e outros motivos, foi que eu decidi ler o livro Asperger Syndrome – a love story (Síndrome de Asperger – uma história de amor) de Sarah Hendrickx e seu parceiro, Keith Newton, com quem ela não mora junto. O livro está infelizmente disponível apenas em inglês, pois é um definitivamente guia imperdível para todos os que tem um parceiro com Asperger. A forma cândida e direta como os detalhes são contados me chocou a princípio, mas ao final do livro eu entendo mais do que bem, que não há duas maneiras de se falar de Asperger. É preciso ser tão inflexível quanto às próprias pessoas no espectro. É romântico e ao mesmo tempo triste ouvir de Sarah as confusões em sua cabeça a respeito deste relacionamento. São duas metades numa mesma pessoa, uma desejável e outra indesejável, que não podem se separar pois as duas são a mesma pessoa. Ela conta que Keith é tão carinhoso e sempre faz questão de fazê-la sentir-se a pessoa mais importante do mundo enquanto estão juntos mas o outro lado também é verdade sobre quando não estão juntos. Como dizer sempre a verdade é desejável mas fere sentimentos. Como estar num relacionamento e estar apaixonado é bom, mas ao mesmo tempo não o é aceitar cacarterísticas ‘estranhas’ de outra pessoa. Isto faz de nós, parceiros de pessoas com Asperger, também especiais, pois aprendemos desde o começo, que o mundo é bem mais do que a fórmula pronta que nos foi dada. Aprendemos que temos de manter nossa mente bem aberta e mantermo-nos sóbrios quanto às nossas escolhas. Sem nos arrepender e sem ter de pedir desculpas.

Eu, com 12 anos

Enquanto criança, minha mãe instilou em mim regras de comportamento, que segundo o parecer dela, seriam importantes para a minha vida social adulta como respeitar os idosos, não mentir, não interromper quando outros falassem e colocasse a vontade de outras pessoas acima das minhas. E assim eu fiz, ou achei que o fiz. Uma vez na 4ª série, uma professora furiosa interrogava a todos na sala de aula para descobrir quem havia quebrado o vitrô da cantina com uma bola durante o recreio. Fez-se um longo silêncio, o qual continuou após eu dizer que havia visto. Eu deveria ter entrado para o departamento de proteção às testemunhas, mas tudo que eu ouvi da professora foi um ‘Muito bem!’ e durante a saída da escola, represálias por parte deste colega e sua turma de amigos. Eu não tinha nada contra ele. Eu passava cola da algumas matérias para ele durante as provas, o que provavelmente me salvou a vida. Mas ninguém conseguia acreditar que eu tive coragem de dedurar um colega. Mas para mim nunca havia sido uma questão de ter coragem ou não, mas sim uma questão de falar a verdade. E que ele arcasse com as conseqüências do que havia feito.

Mas ainda durante a infância, eu lembrava aos amiguinhos que eles haviam feito algo errado quando os via fazendo algo diferente do que a minha mãe havia me ensinado. Eles me respondiam: ‘O mundo é dos mais espertos’. Será que foi a minha mãe ou os pais deles que esqueceram de contar a parte das regras de comportamento? Não posso dizer ao certo. Só posso dizer que conforme fui crescendo, percebi que regras e normas, ainda que importantes para a vida em sociedade, não eram acatadas pela maioria.

Enquanto Testemunha de Jeová, aprendi que o mundo estava dividido entre dois grupos de pessoas: as semelhantes à ovelhas, previamente escolhidas por Jeová para habitar no novo mundo quando este se transformar num paraíso e as semelhantes à cabritos que deliberadamente optaram por continuar vivendo neste velho mundo iníquo e continuar respirando o ‘ar’ contaminado deste mundo que pertence ao Diabo e que engloba tudo de ‘prejudicial’ que existe como mentira, palavrões, pornografia, etc. Sendo assim, eu deveria dizer a verdade sem rodeios às não-Testemunhas. Eu não sabia que existia um código secreto para não dizer a verdade ‘total’. De forma que, durante uma partida de vôlei em 1989 na Praia da Biquinha, em São Vicente, expliquei à uma moça de Santos, recém-chegada à religião, que todas as religiões falsas do mundo são representadas na Bíblia no livro de Apocalipse como Babilônia, a Grande, uma prostituta embriagada com uma taça de sangue, que representa o sangue de todos os que morreram por causa dela, montada numa fera de sete cabeças. Ao concluir a última frase, percebi que a bola não estava mais em movimento. Todos os presentes estavam parados de pé, olhando para mim com cara de espanto, achando que o meu testemunho foi desnecessário naquele ponto do progresso ‘espiritual’ daquela moça. Eu provavelmente estava sendo uma pedra de tropeço para ela. E que neste caso, era melhor que eu ‘amarrasse uma roda de pedra de moinho em meu pescoço e me atirasse ao mar’, frisando as palavras de Jesus (Marcos 9:42).

Quando comecei a trabalhar, tampouco consegui me ver imitando o comportamento das pessoas nos transportes públicos: acotovelando, empurrando e xingando para conquistar o seu próprio espaço, nunca foram coisas que eu conseguia fazer. Eu queria simplesmente ir e vir, sem o mínimo de incômodo da parte que quem quer que seja. Entendi muito cedo na vida que não existia tal coisa como ‘ser você mesmo’. É preciso se adaptar o tempo todo para poder viver em sociedade. Ser um ‘bom’ filho, irmão, aluno, parceiro e amigo é um termo relativo. ‘Não matar’ não é o ápice de ser um bom cidadão e sim ‘ler nas entrelinhas’ como eu me encaixo no contexto social em geral. Mas isto só funciona quando acatado igualmente por todos e estou mais do que convencido que isto nunca vai acontecer.

Vindo visitar a Holanda em 2004 tive a impressão de que a utopia de ‘os outros, primeiro’ existia. A primeira visão que tenho é dos carros enfileirados corretamente (i.e. não ziguezagueando de uma faixa para a outra) na auto-estrada, obedecendo perfeitamente as regras de trânsito. A partir daí, a próxima coisa que eu vi só fez contribuir com a idéia anterior de ordem e harmonia: ruas limpas, inexistência de favelas e de crianças maltrapilhas pedindo esmolas em semáforos, etc. Nos supermercados as pessoas se cumprimentavam e se despediam; nos vilarejos os moradores colocavam frutas ou flores de seus jardins em frente de suas casas para vender, com uma placa anunciando o valor a ser depositado num pequeno cofre, que não se valia de nenhuma proteção em especial. Carros e bicicletas paravam para o pedestre caminhando em linha reta ou numa zebrapad (faixa de pedestres). Achei tudo muito honesto. Me perguntei na época porque o Brasil (que eu conhecia) não era assim. Anos mais tarde, ao voltar para o Brasil, percebi para a minha própria frustração, que eu estava desacostumado com como as coisas eram por lá. Por que que a faixa de pedestres é praticamente invisível e inútil no Brasil? De quem é a culpa? Dos pedestres que páram por medo de ser atropelados ou dos motoristas, que estão convencidos da superioridade de quem guia para poder decidir sobre a vida e a morte de pedestres? Enquanto eu atravessava a Avenida Garibaldi, em Salvador não tive paciência de ver uma senhora de aparentemente 80 anos lutando com suas muletas para atravessar a rua no limitado tempo oferecido pelos semáforos, ao passo que os outros pedestres simplesmente sumiam de vista. Eu não somente a atravessei em meus braços, como a levei até a porta de sua casa. Eu é quem me senti bem de fazer isto. Esta senhora deve estar assustada até agora. Mas eu fui aparentemente o único incomodado com a situação desta senhora naquele momento.

Eu só precisava de mais tempo.

Aqui estamos nós, Europa 2010. Moro numa cidade grande. Passo a maior parte do meu tempo na capital, Amsterdã. Mal vejo os vizinhos. Durante o inverno, a cidade parece fantasma. Tenho a impressão de que as pessoas ficam mais grosseiras durante este período, embora não possa provar. Os carros dificilmente páram para as bicicletas nem mesmo quando elas estão devidamente iluminadas e vindo da direção certa. Na Holanda, não é preciso se preocupar com quem vem da esquerda, pois quem vem da direita SEMPRE tem a preferência. Se as luzes da minha bicicleta não funcionam, porém, eu não arrisco sair com ela durante o inverno, quando os dias são mais curtos. E no entanto, já várias vezes quase fui atropelado. Nunca xinguei o motorista mas acredito que deveria tê-lo feito. O motorista nestas ocasiões simplesmente ‘fingiram’ não ter feito nenhuma manobra perigosa e ignoraram a minha presença completamente.

Trens. A empresa holandesa de trens chama-se na vida prática dos holandeses NS, abreviação para Nederlandse Spoorwegen ou Ferrovias Holandesas. Ela comanda o transporte ferroviário na maioria das províncias. Apesar de prover um bom serviço a maior parte do tempo, no inverno a coisa muda. Com certeza quando há fenômenos metereológicos. Há sempre atrasos, os passageiros ficam por mais de meia hora expostos a um frio subumano e a culpa é simplesmente ‘razões logísticas’. Isto ocorreu repetidas vezes, de dezembro do ano passado até o mês atual do ano corrente.

Holandeses cansados e irritados após longa espera pelo trem

Quando o trem finalmente chega na estação, hordas de holandeses cansados, estressados e congelados invadem os vagões com habilidade tal que você tampouco consegue embarcar ou esquivar-se do tumulto, ao mesmo tempo que outros passageiros desembarcam. Eu só consigo embarcar depois que todos o fazem antes. Nunca há lugar para sentar na segunda classe, que é a classe que eu viajo. Considero viajar na primeira classe um assalto ao próprio bolso apesar de que a NS promete mais espaço e tranquilidade para relaxar e ler um livro, mas durante os atrasos no inverno, foram feitas exceções para que passageiros da segunda classe sentassem-se na primeira classe. E nesta hora eu fiquei grato por não pagar mais para viajar nela. Mesmo sendo sortudo suficiente para achar um assento, mexer-se nele ou realizar qualquer outra ação como tirar o casaco, afrouxar o cachecol e ler um livro até a sua estação de destino após sentar-se não é possível. Alguns bancos são voltados uns para os outros, joelhos tocando joelhos. O passageiro imediatamente ao seu lado, apesar de estar ele mesmo também num trem lotado, extende os braços diante de seu rosto com o seu jornal favorito, para poder lê-lo mais comodamente, ignorando totalmente a sua existência. Isto para não mencionar aquele homem de nogócios de terno e gravata que resolveu ligar para todos os contatos de sua agenda eletrônica e fazer uma espécie de conferência em voz alta sobre todas as transações a serem feitas, detalhadamente. Entre um coupé (vagão) e outro, tem alguns assentos embutidos que não ocupam espaço denecessário e fornecem cobiçado espaço para sentar quando o vagão está lotado. Geralmente há dois, um ao lado do outro. Mas uma única pessoa costuma tomar os dois assentos com apenas um par de nádegas. Continua lendo o seu jornal ou conferindo o seu iPhone, ignorando toda e qualquer presença externa no trem. Nunca consegui entender porque certos jovens holandeses fazem tanta questão de sentar-se, jogando-se literalmente no assento mais próximo que foi desocupado, como se sua vida dependesse disto, ignorando idosos e mulheres grávidas, apenas para levantar-se na estação seguinte, 5 minutos adiante. Finalmente é hora de desembarcar. Sempre há um ou outra senhora com carrinho de bebê apesar de que todo mundo que mora neste país sabe muito bem que das 17:00-19:00 são os horários de pico das ferrovias holandesas e que carrinhos de bebê e bicicletas são inviáveis. Talvez por causa desta ciência, ninguém queira ajudá-las a desembarcar, já que o piso do trem fica há mais ou menos uns 30 centímetros do chão e não há rampas, apenas um único degrau, que vem junto com o trem.

A letra "S" indica silêncio em vários idiomas

Vagão silencioso. Ou não. O tipo de trem holandês de dois andares ou double-decker bem como os compridos chamados de Intercity costumam ter um vagão inteiro silencioso ou stiltecoupé. Outros tipos de trem como o Sprinter, menores e mais simples, servem-se de menos luxo.

Sprinter

Diferente do que a brasileira Ana Maria, de São Paulo comentou em seu blog Psiulândia a respeito de vagões silenciosos na Inglaterra (ela tem um blog totalmente voltado para a busca de um mundo mais silencioso), o site da NS vem com regras bem menos fixas e por isto mesmo menos óbvias, deixando espaço para as pessoas decidirem como devem se comportar nos vagões silenciosos. O nome holandês geluidsoverlast significa literalmente ‘abuso sonoro’ e não necessariamente ‘poluição sonora’:

Huisregels in Stiltezone
In de stiltezone reist u rustig, zonder dat u uw medereizigers stoort met geluidsoverlast. Fluisteren en naar muziek luisteren is natuurlijk toegestaan, zolang medepassagiers er geen last van hebben. Als iemand wegens te weinig zitplaatsen toch ‘gedwongen’ met een medereiziger in een stiltezone zit, dient hij vanzelfsprekend hiermee rekening te houden.

Regulamentos no Vagão Silencioso
O vagão silencioso é um local de silêncio, de forma que pedimos que evite quaisquer tipos de sons que possam incomodar aos demais no vagão. É permitido sussurrar ou ouvir música, contanto que não incomode. Se outro passageiro sentir-se ‘obrigado’ a sentar-se no vagão silencioso por falta de assentos em outro vagão, ele deverá obviamente levar estes regulamentos em consideração.

Fiz uma tradução livre, mas dá uma boa idéia do texto em holandês. Primeiro, em holandês eles não especificam o que pode causar o geluidsoverlast. Fica por conta de sua imaginação e consciência. Por que eles não mencionam MP3, celulares, fones de ouvido mal-ajustados do qual se ouve exatamente o que a pessoa está ouvindo? E a depender da capacidade de audição de um indivíduo sussurrar pode ser gritar. Alguém sentir-se ‘obrigado’ a sentar-se no vagão silencioso deve ser alguma piada de mau gosto, porque mesmo se o trem não estiver lotado, todo mundo dá a preferência de sentar-se de frente, para a direção de destino do trem e não achteruit (de costas). Ou seja, num vagão comum, não lotado e fora do horário de pico, TODOS os vagões terão pelo menos 1 pessoa sentada de frente para o destino do trem ocupando de alguma forma os 4 assentos perto de si. Ninguém vai dividir assento com outros 3 simplesmente porque o passageiro x que quer silêncio tem este desejo individual e esta pessoa já sabe antecipadamente que ele não vai conseguir viajar 45 minutos sem abrir a boca.

No escritório. Temos um rádio comunitário do qual podemos conectar todas as principais estações de rádio da Holanda. Infelizmente com a chegada do iPhone e do iPod em 2009, o rádio foi colocado de lado a favor da lista personalizada de seu iPhone com as suas músicas favoritas. Enquanto apenas um ou outro colega tinham iPhone, era fácil manejar isto mas depois que todos tem um aparelho, alguns colegas passaram a incomodar-se com ter de ouvir o gosto musical de outra pessoa, além do volume com o qual esta pessoa queria ouvir a sua música favorita. Apesar de alguns perguntarem se podiam tocar suas músicas favoritas e a resposta unânime e democrática ser sim, sempre havia um ou outro que não concordava e que contestava no meio do caminho. Eu admito que nunca tive maiores problemas com isto, pois se eu não quisesse ouvir a música sendo tocada, eu simplesmente poria meus fones de ouvido e ouviria minhas próprias músicas, em detrimento da comunicação com colegas, o que não é politicamente correto. Reclamações foram feitas nos bastidores e a decisão tomada foi que a lista de música personalizada do iPhone havia sido banida. Dali em diante, apenas rádio. Achei uma pena não poder mais ouvir a voz da Daniela Mercury escritório afora, mas o problema parece ter-se resolvido e as reclamações acabaram. Moral da história: é preferível ouvir a seleção do radialista do que a do colega.

Ainda lembro bem de uma propaganda na televisão brasileira, que tinha por objetivo soerguer a fé do brasileiro na economia e o lema era Orgulho de ser brasileiro. Entre outras frases, ouvia-se a seguinte chamada: Eu sou brasileiro e não desisto nunca. Apesar de que a frase soava bem aos ouvidos, nunca me senti totalmente brasileiro e sempre achei que a chamada não era exatamente para mim. Sempre achei que os meus motivos para não sentir orgulho de ser brasileiro sempre foram mais fortes que os motivos em contrário. Mas o que é orgulho exatamente? O Dicionário Digital Aulete define assim o substantivo:

(or.gu. lho)
sm.
1 Sentimento de satisfação com suas próprias características ou ações, ou com as de outrem
2 Pej. Admiração excessiva de si próprio; SOBERBA. [ Antôn.: humildade]
3 Sentimento de dignidade pessoal e de sua preservação; ALTIVEZ; BRIO: Seu orgulho o impedia de pedir favores
4 Aquilo ou aquele de que(m) se tem orgulho (1): João Ubaldo Ribeiro é um dos orgulhos da literatura brasileira.
[F.: Do espn. orgullo, do cat. orgull.]:

A partir desta definição, vejo que sentir orgulho não é nada mais, nada menos que humano. Parecem ter duas vertentes, uma desejável (pontos 1, 3 e 4) e uma indesejável (ponto 2). Lembrando que a palavra em inglês é pride, dou uma breve olhada no Collins Cobuild Advanced Learner, que utilizei na universidade em Utrecht e novamente eu vejo 4 pontos que não diferem muito da definição dada pelo dicionário brasileiro:

pride /praid/ 1. Pride is a feeling of satisfaction which you have because you or people close to you have done something good or possess something good.

Já em holandês, temos a palavra trots, que é tanto substantivo (orgulho) quanto adjetivo (orgulhoso). O Dicionário Van Dale (que é um equivalente holandês ao Dicionário Aurélio no Brasil) tem o primeiro item como vertente indesejável, o que os dicionários dos outros idiomas primeiro definiram como desejável:

trots [de ~ (m)] 1. gevoel dat men meer is dan anderen. 2. het zelfgevoel dat het volbrengen van iets groots of het bezit van iets moois enz. geeft. 3. Persoon of zaak waarop men trots is.

A definição brasileira do termo era a única que eu conhecia quando saí do Brasil. Eu tinha bem em mente os pontos positivos do Brasil que atraíam os turistas para lá: praias, clima, festas, a hospitalidade, a informalidade e a simplicidade dos brasileiros. Eu era da opinião que todas as pessoas do mundo fossem iguais nestes quesitos. Não hesitei em comprar uma camisa de côr laranja com o nome HOLLAND na cidade turística de Volendam para usar no quente verão holandês e assim mostrar a todos que estou feliz por estar aqui. A côr laranja não tem nada a ver com as cores oficiais da bandeira holandesa que são vermelha, branca e azul. A côr laranja em holandês é oranje, o sobrenome da família real, Oranje van Nassau, algo do qual a maioria dos holandeses se orgulha de verdade. No mínimo, a minha camisa foi ignorada. No máximo, percebi algumas pessoas passando por mim com um ligeiro sorriso de zombaria no rosto. Aquela foi a penúltima vez que vesti a camisa em público. A última vez de fato foi na Copa do Mundo de 2006. Minha primeira Copa fora do Brasil. Já tendo sido informado de como os holandeses lidam com a palavra orgulho, a vesti apenas para assistir uma partida num círculo fechado de holandeses (todos devidamente encamisados) onde eu era o único não-holandês. Dentro de suas casas ou em seus jardins, o orgulho era demosntrado de tal forma que jamais seria aceito ou visto com bons olhos se tivesse sido no meio da rua. Apenas vestir as camisas côr de laranja não era o suficiente, você só se torna um torcedor ‘laranja’ de corpo e alma depois que passar um borrão de cores em sua bochecha que reproduz as cores da bandeira da Holanda. O grito de guerra deles é Hup Holland! caso estejam ganhando ou o juíz é chamado de hondenlul (algo um pouco mais ofensivo que babaca caso estejam perdendo). Fogos de artifício, bandeiras hasteadas nas frentes das casas e litros de cerveja são as marcas registradas destes acontecimentos, pelo menos até chegar a notícia (já esperada) de que os laranjas foram desclassificados e podem voltar para casa (em 2006, a Copa foi na Alemanha, não tão longe). No dia seguinte, o assunto é totalmente superado, esquecido e ignorado. Algumas das pessoas que estavam torcendo naquele dia específico mais tarde afirmam sequer gostar de futebol. Ficar falando de futebol não é trabalho para pessoas nuchter(sóbrias). Diferente do Brasil, os holandeses não se consideram juízes apitando o jogo. Não é desejável falar demais no assunto, afinal de contas como eles dizem:

Doe gewoon, dan doe je al gek genoeg!
Comportar-se normal, já é comportar-se estranho o suficiente!

Pelo menos é o que dizem. A prática revela o contrário. Os vencedores serão incansavelmente castigados pela mídia. Os jornais não pouparão os turcos que fizeram passeatas de carro, buzinando e fazendo algazarra para comemorar a chegada nas quartas-de-final em detrimento dos perdedores. Turcos e marroquinos são a segunda grande maioria étnica na Holanda e já estão na terceira geração. Eles nasceram aqui e falam holandês como língua materna, tendo turco ou árabe como secundárias. À esta atual geração, dá-se o nome alóctones, formando assim um bolsão cultural dentro da Holanda em oposição à maioria dos autóctones (originalmente daqui) que se consideram ateus.

Os holandeses tem uma relação parecida e diferente com os alemães. Diferente por que os alemães parecem incomodar a alguns mesmo estando em seus próprios países. Os holandeses os chamam de oosterburen ou vizinho do leste. Apesar de que os horrores da Segunda Guerra Mundial praticamente terem sido superados nas cabeças da atual geração batava, falar alemão em público ainda não é aconselhável. Os holandeses em si não foram mandados para campos de concentração, mas perderam pessoas queridas com quem trabalhavam ou estavam envolvidos de uma maneira ou de outra. Um exemplo disto é a história da família de Anne Frank, sem falar na praticamente total destruição da cidade de Roterdã e as estórias sobre bicicletas roubadas. Esta última diz que os nazistas ‘confiscavam’ as bicicletas, após deterem os donos delas, e as enviavam para campos de concentração na Alemanha em comboios separados para serem derretidas e se transformarem em outros produtos. Faz-se piada da frase Haben Sie mein Fahrrad gesehen? (Você viu minha bicicleta?). O tocante filme Irmãs Gêmeas, que eu cheguei a assistir ainda no Brasil, deixa claro que nos primeiros anos após o fim da Segunda Guerra Mundial o simples ‘falar alemão’ em território holandês era visto como algo odioso. Em 5 anos morando aqui, nunca vi ninguém vestindo a camisa oficial da Alemanha, que vem com as letras brancas DEUTSCHLAND em fundo preto, em contrapartida com camisas de outros países. As camisas do Brasil são extremamente populares na Holanda.

Eu, na Floresta Negra, Alemanha em 2007

Eu comprei uma camisa da Alemanha na Floresta Negra, mas resolvi adiar eternamente vesti-la na Holanda após ler vários artigos nos jornais holandeses de que alguns alemães na Holanda foram agredidos verbal ou fisicamente. Não se trata apenas de casos isolados pertinenentes ao período de Copa do Mundo, mas sim de uma ferida histórica que custa bem mais do que esperado para cicatrizar. Mas exatamente quando tempo dura até que se supere um tabu? Uma ou duas gerações? Talvez nunca. O interessante é que exatamente a partir da Copa do Mundo de 2006 que os alemães passaram a sentir novamente um pouco mais de orgulho de serem alemães. Durante muito tempo, o simples hastear da bandeira alemã na janela era mal visto na Alemanha. Esquecer os horrores da guerra é, de fato, mais fácil do que esquecer que o seu dócil e simpático avô foi um oficial da SS. Então, sim, eu diria que fazem-se necessárias várias gerações.

Desde o segundo semestre do ano passado, eu sou holandês também. Entre outras coisas tive de abrir mão de minha própria nacionalidade. Estou longe de estar orgulhoso de ser holandês mas conforme eu publiquei em meu post na época, eu tampouco tinha orgulho de ser brasileiro. Então, em que ponto estou? Eu deveria sentir orgulho de ser holandês, quando eles mesmos não parecem sentir? Lembro de um episódio de um programa humorístico da Holanda, chamado Koefnoen (um equivalente ao Casseta e Planeta), que fez uma sátira muito engraçada a respeito.

O episódio se chamava De Tovenaar van TON (A Feiticeira de TON), em contrapartida com O Mágico de Oz. TON é sigla para Trots op Nederland (Orgulhoso da Holanda ou Orgulho de ser holandês) para um partido político liderado por uma senhora política chamada Rita Verdonk, que era Ministra do Ministério da Imigração, na época em que cheguei na Holanda. Na sátira, Dorothy e seu cachorrinho que ela apresenta como Maurice de Hond (nome do geógrafo social que comanda a pesquisa ‘gallop’ dos partidos políticos na Holanda. Traduzido, seu nome seria Maurício, o Cachorro), o leão, o espantalho e o homem de lata indo atrás desta feiticeira para obterem soluções para seus problemas, respectivamente: Dorothy quer voltar a ter orgulho de ser holandesa por voltar à sua pátria querida sem ter de conviver novamente com os insuportáveis e eternos engarrafamentos (file, em holandês) entre outros problemas. O leão quer sua coragem, o espantalho quer um cérebro e o homem de lata quer um coração. Mas Maurice de Hond estraga o show descortinando a pessoa por trás da Feiticeira de Oz, ninguém menos que Rita Verdonk. A farsa tendo sido exposta, Dorothy bate seus sapatinhos um contra o outro dizendo:

Er is niks om trots op te zijn 
(Não há nada do que se orgulhar)

e desperta de seu sonho ‘em algum lugar do outro lado do arco-íris’, numa realidade na qual ela dá a partida em seu carro para visitar um tia enquanto o rádio transmite as últimas notícias dasfiles.

Até agora vim achando tudo isto muito cômico mas como cidadão holandês que agora sou, tenho pela primeira vez em anos a oportunidade de contribuir com a minha opinião. Há algumas semanas recebi a cédula eleitoral convidando-me a votar, o que me deixou muito lisonjeado, exceto pelo fato que eu não faço a mínima idéia de em que partido eu deveria votar. Não tenho nenhuma paixão por política. Nunca me preocupei em pesquisar os partidos políticos a fundo ou compará-los com o sistema político do Brasil. Existem, no entanto, alguns sites de ajuda como o StemWijzer (algo como Indicador Eleitoral) para ajudar o eleitor a se orientar. Por responder por volta de 30 perguntas, às quais você responde com Concordo ou Não concordo, o site lhe dá a sua posição política aproximada. Tentei levar em conta o fato de pertencer à uma minoria: estrangeiro e homossexual. O site indicou-me o partido muçulmano-holandês, o mesmo que favorece os grupos alóctones anteriormente mencionados. Está óbvio para mim que um partido como este não pode me representar. Em outra pesquisa realizada em outro site indicador, fui indicado para um partido chamado AVIP (Almere Voor Iedereen, Almere Para Todos). Almere é o nome da cidade onde vivo atualmente. Gosto do nome, mas não entendi como estou incluído nisto.

A quantidade de cadeiras (zetels) ocupadas é o que determina qual partido tomará a frente nas Primeira e Segunda Câmaras, bem como no Parlamento Europeu. Neste momento é o Christen Demoscratisch Appel (CDA, ou Apelo Democrático Cristão) o maior deles. Numa fusão com outros partidos, o CDA tinha o seu mais alto representante Jan Peter Balkenende como o primeiro-ministro da Holanda, também chamado de o ‘puxador da lista’ ou lijsttrekker em holandês. Recentemente esta fusão deixou de existir devido a desentendimentos dentro do partido. Diz-se, então, que o governo caiu. O primeiro-ministro já foi várias vezes satirizado como assemelhando-se ao ator Daniel Radcliffe, o ator que interpretou Harry Potter nos cinemas.

Como um partido cristão conseguiu chegar onde chegou na Holanda de 2010 é um mistério para mim, mas tenho certeza de que as pilarizações são, em parte, culpadas. Apesar de que, se o partido ocupou tantas cadeiras, foi porque o povo holandês o elegeu. As mesmas pessoas que se dizem contra a opressão e a intolerância e se denominam ‘ateus’, são as mesmas que votam num partido denominado ‘cristão’, no qual seus membros usam a Bíblia como inspiração para criar leis. Como homossexual assumido, com certeza não estarei votando neste partido.

O próximo partido com mais cadeiras é o PvdA ou Partij van de Arbeid (Partido do Trabalho), que satisfaz a maioria. Ou pelo menos a minoria gay. Este partido é representado pelo simpaticíssimo Wouter Bos. Acredito que este difira do PT, o atual partido no Brasil. A proposta deste partido é quebrar os anteriormente mencionados laços históricos de pilarização da Holanda e fundamentar o país em bases reais, concretas e modernas. Uma Holanda em que as origens e as crenças de uma pessoa já não importam. Mas que como cidadão, você também tem obrigações para o país. Gosto desta filosofia, mas o nome ‘gay’ é raramente mencionado pelos membros do partido. E a questão dos alóctones é vista ligeiramente por cima.

Propaganda do SP em frente à minha academia. Detalhe: Aqui na Holanda não é permitido colar cartazes de partido político diretamente em paredes.

O terceiro maior é o SP (Socialistische Partij) ou Partido Socialista. O símbolo deste partido é um tomate e representa ‘protesto’. Este, sim, parece mais com o PT do Brasil. O lijsttrekker deste partido é Jan Marijnissen. O SP tem objetiva dignidade e igualdade para todos mas sinto a impressão de que este partido também esquece das minorias, das quais eu faço parte, em seus projetos de lei.

E finalmente o quarto maior é o VVD, sigla para Volkspartij voor Vrijheid en Democratie ou Partido Popular para a Liberdade e Democracia . Este é o partido de Mark Rutte, um homem inteligente e carismático. Também é o partido de onde vem Geert Wilders, o fundador do PVV (Partij van de Vrijheid) ou Partido da Liberdade, que é um partido-de-um-homem-só. Wilders não é exatamente o que chamaríamos de homem atraente, ele tem uma cabelereira um tanto ao quanto diferente mas ele parece saber o que quer e não ter medo de ameaças ou retaliações como o fez Pim Fortuyn antes dele. Wilders conseguiu fazer toda uma Europa prender o fôlego por ocasião da exibição de um filme feito por ele chamado Fitna que criticava o islamismo como religião violenta aos poucos tomando conta da Europa.

Veja abaixo a primeira parte do filme:

O antecessor deste filme custou a vida de Theo Van Gogh, parente do próprio Van Gogh. Wilders é o tipo de político que jamais concordaria com a forma branda com a qual a problemática entre autóctones e alóctones é tratada na política holandesa atual. Há quem veja Wilders como Hitler, a exemplo de Jörg Haider e Le Pen, mas acima de tudo ele é visto como um político destemido e ousado e que fala a verdade. Ele arrasta consigo uma multidão cansada e irritada com os problemas do cotidiano, que mesmo não simpatizando totalmente com a figura de Wilders, vêem nele a última solução para os problemas da atual sociedade holandesa ou européia por extensão

Dia 3 de março é o dia em que eu começo a fazer diferença. Com um simples gesto. Quem sabe, um dia, eu possa sentir-me orgulhoso de ser o que eu sou de fato, seja lá o que isto for.

Eu nunca havia ouvido este nome antes. Deparei-me com o termo enquanto discutia filosofia com o meu namorado durante o café-da-manhã. Descobri que Deísmo é o nome que se dá à aceitação da existência de Deus, questionando-se o envolvimento dele com a humanidade e com todo o sitema religioso. Por que comecei a discutir este assunto com o meu namorado? Não sei, mas mostrou ser um assunto esclarecedor, porque eu sempre me considerei agnóstico, mas naquela manhã, por um motivo ou por outro, eu descobri que era outra coisa. Mas agnóstico não é o mesmo que deísta. Agnósticos crêem que a simples conjectura quanto a existência de Deus é pura perda de tempo.

1987, eu com 13 anos em frente ao Salão do Reino

Eu nunca neguei ter inclinação para acreditar em Deus. Oras, fui Testemunha de Jeová por quase uma década (1987-1996) e como tal, estudei a Bíblia (Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas) à fundo. Era mais do que um simples ritual de aprender canções tocadas ao som de piano ou assistir alguma espécie de show-de-um-homem-só enquanto uma multidão ouvia atentamente. Era, já naquela época, tão cedo em minha vida, uma forma de vida, um completo sistema de leis e regras que eu acreditava genuinamente serem verdadeiras. E que se eu simplesmente conseguisse seguí-las, sem importar o quão difícil ou complicado pudesse ser, eu alcançaria a felicidade plena nesta vida e na próxima.

Ao abandonar as Testemunhas por outros motivos que vão além da falta de fé, passei a questionar algumas de suas doutrinas. Não foi decisão fácil deixar o grupo, mas me abriu a mente de forma a rever tudo o que eu havia aprendido até então. Eu não sabia que as doutrinas estavam tão arraigadas dentro de mim, e que eu continuaria tendendo a segui-las mesmo estando determinado a seguir um outro estilo de vida. Exemplos dos meus questionamentos:

1- Houveram milagres realmente? Eva falou com uma serpente? Uma mula falou realmente com Balaão? O sol parou sob ordens de Josué? Elias voou numa carroça de fogo? Entre outros efeitos especiais.

2- Por que que eu tenho de viver minha vida inteira aguardando o Armagedom apenas baseado em profecias de terremotos e guerras? E por que justo na minha vez?

3- Eu realmente deveria resignar-se a morrer à aceitar uma transfusão de sangue em caso de um acidente.

4- Eu deveria realmente ir atrás de outras pessoas e convencê-las do quanto eu estava convencido das minhas crenças.

5- Eu realmente queria viver para sempre apenas com aquele mesmo grupo de pessoas, sem incluir outras pessoas excelentes que eu conhecia, mas que ‘infelizmente’ não tinham afinidades com as Testemunhas.

6- Por vestir terno e gravata, seguir o ritual de três reuniões semanais, pregar para outros (ir ao serviço de campo, como elas chamavam), ir a congressos e assembléias eu realmente estava mais próximo de Deus.

Se Deus existe, ele sabe melhor do que qualquer um outro quem eu sou e como me sinto. Será que fingir ser outra pessoa deixaria Deus mais satisfeito? Eu não me sentiria feliz, por exemplo, se alguém que não gosta de mim, de repente agisse como se gostasse. Eu questionaria os motivos pelo qual esta pessoa está fazendo isto. Deus com certeza faria o mesmo. Concluí, por mim mesmo, que Deus, ou Jeová, conforme as Testemunhas de Jeová o chamam, ficaria mais satisfeito se eu professasse, não importando em que pé minha vida esteja, que acredito nele de todo o coração. E esta fé, ainda que não gritada de cima dos tetos é verdadeira e sincera. E prefiro isto a fantasiar-me de menino direito para provar publicamente algo que não sinto, e não sou e não é real.

Por outro lado, tenho dificuldades para crer em teorias como a da Grande Explosão. Não consigo admitir que uma simples explosão no ‘universo’ fez com que todos os planetas girassem com precisão matematica em torno do sol e organizasse todos os outros sistemas solares de tal forma no espaço como sabemos atualmente. E que esta mesma explosão deu início à vida na Terra sendo que esta forma rudimentar de vida se transformou no homem que somos hoje: inteligentes, voando de um continente para outro, comunicando-se uns com os outros através de distâncias impressionantes sem sequer sair do lugar e que a fantástica capacidade dos nossos olhos de enxergar em cores, a perfeita sincronia do funcionamento dos nossos órgãos internos, a concepção de uma criança, o desabrochar de uma linda e colorida seja tudo resumidamente fruto desta explosão.

Cientistas ainda discutem entre si a respeito de se o homem realmente já foi um símio ou não. Ninguém sabe responder por que falamos línguas diferentes. E por que somos tão diferentes uns dos outros: negros, brancos e amarelos? Por que damos nomes diferentes aparentemente às mesmas coisas, como Deus por exemplo? Enquanto a ciência balbucear a resposta a estas perguntas, continuo acreditando que existe um Criador. Não que esta seja uma resolução orgulhosa minha, mas mais porque não vejo outra resposta. Mantenho a mente aberta sempre, pois não quero me tornar mais ‘agnóstico’, mais um que acredita que é impossível achar a resposta à estas perguntas; acho esta postura um tanto ao quanto cômoda.

E como eu não quero ser considerado um pessoa cômoda, entrei num grupo de quase 1000 pessoas que, de alguma forma, se consideram ‘deístas’, no Facebook. O clube ostenta um logotipo de uma pirâmide, cuja parte superior da mesma está separada da parte inferior e acima dela, as seguintes palavras IN NATURE’S GOD WE TRUST (alusão às palavras que aparecem na moeda dos Estados Unidos) e que significa “Nós confiamos no Deus da Natureza”. O clube se chama simplesmente ‘Deísmo’ e acredito que devem haver por volta de outros 10 clubes no Facebook. Não compreendo por que existem diferentes grupos de ‘deístas’. Novamente a subdivisão da divisão. Existem muito mais grupos de ‘ateístas’ no Facebook e um destes teria por volta de 5000 membros. Me pergunto porque os poucos ‘deístas’ que existem (incluindo os que descobriram recentemente que o são) não se únem para formar um grande grupo no qual teríamos contacto com muito mais pessoas e todos poderíamos expressar o que pensamos uns aos outros, já que não há muito mais pessoas que queiram ouvir nossas opiniões.

Desde a semana passada leio o que chamam de a Bíblia do Deísmo, o livro ‘A Era da Razão’ (de 1793), de Thomas Paine via iPhone. Qualquer um que tem um celular tipo iPhone e lê em inglês pode acessá-lo com o aplicativo da Stanza.

Paine era um político mas também escritor e seu livro chocaria muito gente que eu conheço na Europa de 2010. Abaixo vai um trecho do capítulo 4, Sobre as Bases do Cristianismo, que trata dos fatos em torno de Satanás. Achei particularmente engraçado a parte que ele chama a conversa da serpente com Eva, de tête-à-tête, especialmente quando eu penso que se trata de um livro de 236 anos:

…Os mitólogos cristãos, após confinarem Satanás num abismo, foram obrigados a soltá-lo novamente para darem continuamento à fábula. Ele foi então apresentado no jardim do Éden, em forma de cobra ou serpente e nesta forma, ele entra numa conversa íntima com Eva, que não parece surpresa de ver uma cobra falar; e o assunto deste tête-à-tête é, que ele a convence a comer da maçã e este ato condena toda a humanidade.

Após dar a Satanás este triunfo por sobre toda a criação, supõe-se que os mitólogos da igreja (católica) teriam sido tão gentis ao ponto de mandá-lo de volta ao abismo, ou caso não, poriam uma montanha em cima dele (pois dizem que a fé remove montanhas) ou ele embaixo da montanha, conforme os mitólogos anteriores o fizeram, a fim de impedir que ele se infiltrasse no meio das mulheres de novo e causasse mais estrago. ..

…Eles apresentam então um homem cheio de virtudes e amigável, Jesus Cristo, que é ao mesmo tempo Deus e homem, e também filho de Deus, concebido de forma celestial, para ser sacrificado de propósito, porque dizem que Eva estava desejando comer maçã.

Mas eu prefiro manter a mente aberta e tentar entender seus motivos. Basicamente Paine bombardeia a Bíblia e critica absolutamente a tudo e a todos mencionados na Bíblia. Seu livro tem duas partes. A primeira parte eu já concluí. Comecei a segunda parte que trata é do Novo e do Velho Testamentos; estou empolgado e quero continuar lendo com a mente aberta, o que significa que eu posso concordar com Paine em algumas coisas e discordar em outras. Definitivamente não quero novamente que a minha maneira de pensar seja lavada por idéias alheis, nem mesmo as de Paine, mas aceito dicas e orientações de bom grado para desta forma dar mais base às minhas próprias idéias. Estou tentando casar minhas idéias com as afirmações deístas, conforme as li na Wikipedia.

Afirmações deístas e minhas próprias afirmações:

1- Acredito em um Deus, mas não pratico nenhuma religião em particular.

Concordo plenamente. Já tive uma religião e sei como funciona.

2- Acredito que a palavra de Deus são as leis da natureza e do Universo, não os livros ditos “sagrados” escritos por homens em condições duvidosas.

Devo admitir que tenho um grande respeito pela Bíblia Sagrada. Acho difícil refutar absolutamente tudo que ela contém. Será que sou menos deísta por causa disto. Tenho tendência de refutar tudo que é demasiadamente extremo.

3- Gosto de usar a razão para pensar na possibilidade de existência de outras dimensões, não aceitando doutrinas elaboradas por homens.

Gosto de pensar na existência de outras dimensões. Se ‘usar a razão’ significa algo como ‘nunca vi, não acredito’ não é meu ponto de vista ainda.

4- Acredito que os ideais religiosos devem tentar reconciliar e não contradizer a ciência.

Com certeza. Mas da mesma forma que a ciência ainda não conseguiu, por exemplo, encontrar uma cura para a AIDS, me pergunto o quanto a ciência realmente sabe e se eu devo tomar a palavra da ciência sempre como a última palavra em verdade absoluta.

5- Creio que se pode encontrar Deus mais facilmente fora do que dentro de alguma religião.

Nem dentro nem fora dela. Acho que se pode encontrar Deus somente depois que a gente se encontra. E ele pode estar dentro do quarto de dormir da gente. Já que ele é onipresente e onipotente. Ao mesmo tempo, creio que ir á uma igreja ou Salão do Reino funciona para algumas pessoas e elas se sentem, assim, melhores seres humanos. Então também é válido.

6- Desfruto da liberdade de procurar uma espiritualidade que me satisfaça.

Com certeza. O fato de eu me considerar deísta é prova disto.

7- Prefiro elaborar meus princípios e meus valores pessoais pelo raciocínio lógico, do que aceitar as imposições escritas em livros ditos “sagrados” ou autoridades religiosas.

Parece com o primeiro quesito.

8- Sou um livre pensador individual, cujas convicções não se formaram por força de uma tradição ou a “autoridade” de outros.

Acho que foi assim com todos os demais deístas. Não me considero uma pessoa especial, nem mais sagaz que os outros. A gente é como a gente sente que é. É algo natural. Vem de dentro para fora, tão natural quanto o é a própria natureza.

9- Acredito que religião e Estado devem ser separados.

A grande maioria das pessoas concordaria com isto, sejam elas deístas ou não. Mas não entendo porque existem partidos políticos tão chamados cristãos. Creio que quem se denomina cristão deve lutar pelos seus direitos como cidadão que ele é e não pelo fato de ele ser cristão ou não, como se isto lhe rendesse algum privilégio especial.

10- Prefiro me considerar como um ser racional ou espiritual ao invés de religioso.

Com certeza. Mas eu não me considero um ser racional, eu o sou. Penso, logo existo. Já espiritual e religioso são outros quinhentos. E acho que toda a discussão sobre deísmo, ateísmo e teísmo se justificam nestas dúvidas.

A língua holandesa não é nada, senão um grande mistério. A forma como as palavras são agregadas e faladas no dia-a-dia tem pouco a ver com o que vemos nos dicionários, mas isto é, claro, algo que só descobrimos depois de muitos anos vivendo aqui e visitamos um dicionário mais uma vez. Sinto uma frustração enorme de ver-me confrontado com detalhes da lingual e supreender-me com o que elas significam mesmo depois de tantos anos vivendo aqui. Um grande exemplo disto é a palavra gewoon que o dicionário traduz como ‘simplesmente’ se dar maiores nuances do uso da palavra quando falada. Numa frase como:

‘Ik doe heel gewoon’

… é impossível traduzir ‘gewoon’ como ‘simplesmente’, pois para quem fala holandês está óbvio que ‘gewoon’ aqui é um advérbio e não um adjetivo. De forma que a frase acima não significa:‘eu faço bem simplesmente’ mas:

‘Eu não estou fazendo nada de mais’.

Outro exemplo é quando eles dizem:

‘Ik spreek gewoon Nederlands’

‘Eu falo simplesmente holandês’ quando eu não vejo necessidade alguma deste ‘simplesmente’ aqui. Significa que a pessoa fala holandês fluente além do inglês ou que a pessoa apenas fala holandês? E o ponto alto desta palavra é quando um genitor pergunta ao filho por onde ele andou e a resposta que ele dá é:

‘Gewoon!’

…que significa: ‘Por aí!’

Outra pergunta que sempre me fazem, é a mesma pergunta que eu sempre me faço: o que os holandeses querem dizer com ‘gezellig’? Trata-se de um adjetivo como agradável ou ‘gostoso’ mas referindo-se apenas a um ambiente em que as pessoas sentem-se à vontade. Os alemães tem um nome parecido, ‘gesellig’, mas não parece significar a mesma coisa, nem tampouco é falado durante as mesmas ocasiões, conforme fonte de confiança de quem fala as duas línguas fluentemente.  Tudo bem que os holandeses tem um adjetivo apenas para ocasiões ‘agradáveis’ mas porque os holandeses sentem necessidade de dizer:

‘Wat is het hier gezellig!’

…quando visitam uma casa que está à venda ou para alugar, sem móveis e sem pessoas morando nela?

E a vedete de 2009 é, sem dúvida, o Facebook. Tudo começou para mim quando no final do ano passado alguns colegas de trabalho descobriram o Facebook em seus próprios países, fizeram perfis para si, introduzindo o site no escritório, enviando convites que não paravam de chegar, pois apenas ignorar das mensagens não funcionava. Lá naquele modesto começo não havia nenhum rosto conhecido em todo o site, exceto um colega, de forma que eu apenas confirmei conhecê-lo. Na verdade eu havia, mesmo sem o saber, aberto um perfil. Obrigado a este colega por ter insistido e tido paciência até eu vencer minha relutância.
 
 

 
Rede de contato não é novidade para mim e, creio que, para brasileiro nenhum. Estamos todos no orkut (nome do engenheiro turco que o inventou em 2004), site que pertence ao Google onde nós, brasileiros, somos a maioria esmagadora. Logo no início o site foi traduzido para português e todos nos acomodamos. Eu tenho um perfil lá desde que vim para a Holanda, em 2005. Era necessário ser convidado por um outro membro para fazer parte. Como eu estava morando do outro lado do oceano, achei prático juntar todos os meus ex-colegas de trabalho no mesmo lugar e acompanhar suas vidas através das suas fotos e suas andanças publicadas. Naquela época a câmera digital ainda estava em ascenção.
 
 

 
Apesar de o orkut ter mais membros brasileiros do que de outras nacionalidades, acabei na verdade perdendo o contato com a maioria dos conhecidos brasileiros, de todas as partes. O problema, segundo consta, é a falta de interatividade do site. Informações básicas como nome, idade e logradouro não fascinam por muito tempo. Apenas uma vez a cada dois anos eu sentia real necessidade de atualizar meu perfil pois outros tipos de informações básicas, tal como peso, preferências e relacionamentos ficavam frequentemente inexatas. Naquela época não existia um equivalente na Holanda e poucos holandeses achavam importante integrar um site de contatos. Explicar que eu estava num site de contatos e dizer o nome dele (orkut) era sempre muito hilário, já que o nome oor- significa algo como ao mérito e kut é nome pejorativo para o órgão sexual feminino. Vejam vocês em que os holandeses pensavam toda vez que eu dizia este nome! Enquanto na universidade em 2007, abri um perfil no recém-chegado Hyves (outra forma de ‘hives’, ou colméia em inglês) por livre e espontânea ‘pressão’ dos colegas. Todos os 7 milhões de usuários daquele site parecem ser de origem holandesa, com a minha desimportante exceção. O Hyves parece ter-se inspirado no Orkut. O conteúdo dos perfis são mais destacados, é possível adicionar música de fundo, uma foto sua como papel de parede, incluir todos os seus gostos musicais, todos os filmes que você já assistiu em casa ou no cinema e todos os lugares para onde você já foi de férias. Interessante, exceto pelo fato de que eu não conheço ninguém lá. Aliás, tampouco lembro o meu nome de usuário e a senha. Eu me conectei umas duas vezes, se muito, desde então. Existem outros sites de contatos também, como o Twitter e o hi5, mas eu nunca sequer cheguei a visitá-los, justo por causa da minha senhafobia.
 
 

 
Nisto Facebook chegou para revolucionar: um site de contatos no qual você pode conectar-se simplesmente para escrever o que você está pensando no momento, por mais desinteressante que outros possam achar. Eu particularmente gosto de partilhar a nostalgia que sinto de meu país, alguma insatisfação pessoal voltada para o dia-a-dia neste país, bem como fazer comentários sobre as notas de outros membros. Reencontrei conhecidos de décadas atrás, alguns de quem eu mal lembrava o primeiro nome. Existem pessoas que desgostam do site e compreendo o porquê, mas acredito piamente que o site anda de mãos dadas com a nova tecnologia da informação dos últimos anos e que será praticamente impossível seguir ignorando-a no para sempre.
 

 
 
Admito que tem vários aplicativos que não entendo. Eles estão por toda parte, a exemplo do Farmville, com o qual é possível brincar interagindo virtualmente: tratam-se de fazendas virtuais que podem localizar-se ao lado de fazendas de conhecidos seus. Por meio de um sistema de acumulação de tarefas e prêmios, você semeia e expande sua fazenda. É possível também adquirir animais. A plantação pode murchar por falta de acesso. Eu definitivamente não consigo acompanhar isto e as folhas sempre murcham. Também é possível fazer parte de comunidades, a título do orkut, e a grande diferença é que as comunidades do Facebook enviam genuínas circulares em retorno com notícias e novidades. Eu sou ‘fã’, por exemplo, das comunidades de Bebel Gilberto, Oprah Winfrey e dos Beatles. Adoro também o espírito brincalhão presente em algumas mensagens e como todo mundo, por um minuto, pareço esquecer dos problemas no instante em que me concentro no site. E claro, adoro todos os comentários e feedbacks vindos do Brasil.
 
 

 
A coisa que mais me assusta é a perigosa e silenciosa combinação de Facebook com iPhone. O Facebook já conta com um aplicativo no mesmo, que é prático e viciante pois facilita ficar em dias com as últimas atualizações dos ‘amigos’. É possível, por exemplo, tirar uma foto de algo que lhe chamou a atenção, com o seu iPhone, e imediatamente publicá-la no Facebook com comentários e dentro de minutos. Todas estas possibilidades me distraem, por exemplo, de ler um livro no trem enquanto viajo para o trabalho ou de prestar atenção ás pessoas ao meu redor, e isto inclui o meu namorado. O Facebook é revolucionário mas pretendo lutar para ceder menos ás tentações da alta-tecnologia porquanto isto represente um sério risco ao meu relacionamento ou aos demais contatos de carne e osso, que não podem ser negligenciados.
 

 

 

 

 

 

 

 

Eu e meu namorado concluímos a última temporada em DVD da série ‘Queer as Folk’ (algo como: Estranho como gente), que foi ao ar de 2000 à 2005 e conta, portanto, com 5 temporadas. Admito que fiquei meio decepcionado com o final mas acredito piamente na intenção dos escritores e dos produtores de criar uma material diferente, que retratasse o dia-a-dia dos gays de forma realista, ainda que chocante. No Brasil, a série foi chamada de ‘Os Assumidos’ para a tv cabo. queer as folkOriginalmente inglesa, a série foi adaptada para a tevê americana com atores, sotaque e nomes próprios americanos. Por exemplo: nomes de caráter predominantemente britânicos como Stuart, Vince e Nathan foram trocados pelos comuns Brian, Michael e Justin na versão americana. A versão americana é fiel à inglesa em vários detalhes do roteiro mas é melhor dirigida. Outras ligeiras alterações foram feitas com relação à morte de Phil (o ator Jason Merrells) já no início da verão inglesa. Na versão americana, a vida do mesmo equivalente, Ted (o ator Scott Lowell), foi poupada para a felicidade de todos os fãs, o que sem dúvida contribuiu para o sucesso desta versão pois Ted é um rapaz tímido, tem medo de perder o emprego e de rejeição de uma forma geral, como todos nós. Na versão inglesa, a mãe de Vince, Hazel (a atriz Denise Black) é mais excêntrica e ‘perua’ do que Debbie, a mãe de seu equivalente americano, Michael da versão inglesa. A boate gay, ao redor da qual a vida de todos os personagens passarão a girar nesta e nas próximas temporadas continua chamando-se Babylon. A versão americana é mais ousada tanto no roteiro, no figurino, bem como nas cenas de sexo mais explícitas: pênis não-eretos e semi-eretos, bem como seios, por inteiro ou não na tela da tevê. Pênis totalmente eretos aparecem em silhuetas.
 
O seriado, porém, retrata a história de um tímido e simpático rapaz americano, Michael (o ator Hal Sparks; Craig Kelly na versão inglesa), que é gay assumido, e de seus amigos também gays, mas que são um tanto ao quanto diferentes dele, pois ele trabalha como gerente numa rede de supermercados e convive mais de perto com a realidade de não poder ser ‘assumido’ o tempo todo. Seus amigos também freqüentam a mesma boate que ele, Babylon, e ali partilham suas frustrações e vitórias.
 
debbie
A mãe de Michael, Debbie (a atriz Sharon Gless) é uma mulher à frente de seu tempo, apesar de trabalhar num diner (uma espécie de lanchonete). Debbie tem um irmão em casa que não somente é gay, como também soropositivo. Na lanchonete em que trabalha, ela serve seus fregueses, na maioria gays, exibindo broches e ensígnias de entidades e organizações gays em seu avental, como a conhecida americana PFLAG para pais, familiares e amigos de gays e lésbicas. As camisetas que ela veste, sempre coloridas, contam sempre com uma ou outra expressão divertida como:
 
Eu amo meu pênis
Meu filho gay me deixa tão orgulhosa
Nunca desperdice uma ereção.
 
Não admira que ela tome a frente em passeatas gays e sinta-se uma consulente e defensora dos direitos gays na Pennsylvania.
 
Um dos amigos de Michael que merece destaque é o Brian (o ator Gale Harold; Aidan Gillen na versão inglesa), belo empresário bem-sucedido no ramo propagandista, amigo de infância de Michael, com quem tem uma amizade platônica e mora numa charmoso sótão. Brian é apesar disto um homem arrogante, dono de uma libido desenfreada, afetivamente desapegado de todo mundo e usa as pessoas para sua auto-satisfação e auto-afirmação. Aqui o Brian difere de seu surrogate britânico: ele parece querer esforçar-se mais para chamar a atenção de Michael e de mantê-lo solteiro, apesar de não amá-lo como a um namorado. A versão americana praticamente gira em torno do relacionamento, a princípio proibido, entre Brian e Justin, pois Justin tem apenas 17 anos. Na versão inglesa a idade era apenas 15. lindsay-michaelEles se conheceram no mesmo dia em que o filho de Brian nasceu, fruto de amizade com a lésbica Lindsay, parceira de Melanie, que tem péssimo relacionamento com Brian. As mães já haviam simpatizado com Justin pois ele havia se identificado ao telefone, durante o sexo com Brian, na hora que elas ligaram avisando o nascimento do bebê. Uma pérola de Melanie, tipicamente sarcástica, é quando Brian e Justin chegam ao hospital às pressas e encontram mães e filho no leito. Melanie diz:
 
‘Parece que todos nós tivemos uma criança no mesmo dia.’
 
Justin leva na esportiva e ainda tem o privilégio de escolher o nome do bebê, Gus. Alfred na versão inglesa.
 
Os outros dois amigos íntimos de Michael são Ted e Emmett (o ator Peter Paige; Alexander Perry na versão inglesa). O primeiro não é tão diferente de Michael quanto à timidez e o segundo é definitivamente o tipo que vem à mente quando pensamos em gays: efeminado, sagaz e porque não dizer, atraente.
 
Eu e meu namorado começamos a assistir o seriado sem compromisso, durante o ‘jantar’ na mesinha de centro, desde o final de 2008 quando nos conhecemos. Em outras palavras, passamos quase um ano assistindo ao seriado. Valeu cada minuto. Algumas cenas são extremamente tocantes, não somente para nós gays mas para qualquer pessoa que conheça alguém que é gay e gostaria de entender melhor o que se passa em suas cabeças.queer-as-folk-2
 
Em algumas cenas a gente vê a vida da gente sendo retratada literalmente. É impossível não se identificar com certas situações, por mais exageradas que pareçam. Nem todos os problemas giram em torno dos relacionamentos homossexuais mas também em dos relações humanas de uma forma geral. Apesar de muitos de nós, gays, considerarmos Michael um sortudo por ter a mãe que tem, na verdade ele se envergonha por sua mãe estar sempre tão envolvida com assuntos gays, em boates ou mesmo entrometendo-se em sua vida afetiva. Afinal de contas, mãe é mãe e quer sempre o bem de seus filhos. Debbie nem sempre aprova os relacionamentos de seu filho, e com certeza não quando um destes confessa ser soropositivo.
 
Apaixonar-se por um soropositivo é possível, já que a princípio não há nada nele que deixe visivelmente claro que se trata de uma pessoa contaminada. Eu já cheguei a gostar e quase ir para a cama com um soropositivo, mas tive a sorte de ele ter me contado antes de termos tomado o próximo passo. Foi muito honesto da parte dele, agora vejo. Em nenhum momento eu havia considerado não usar a camisinha, mas até então como princípio de moral e não como medida de prevenção da possibilidade de eu ter sexo com um soropositivo.
 
Bebê a bordo na trama, mães heterossexuais envolvidas na vida dos filhos homossexuais, uma lésbica que teve uma ‘recaída’ e se envolveu com um homem e gays que passam a duvidar da própria homossexualidade, temos também gays que já foram casados com o sexo oposto e têm filhos, como no meu caso e no do meu namorado. casamentoInfelizmente ainda é dada pouca ênfase ao assunto mas é possível acompanhar apenas na versão americana, o drama de David (o ator Chris Potter), o primeiro namorado de Michael, que tem um filho de seu casamento heterossexual. Assim como acontece na vida real, existe pouca comunicação e nenhuma amizade entre homens gays divorciados e suas ex-esposas. Os filhos deste relacionamento aparentemente não fazem distinção sentimental entre o genitor homossexual e o heterossexual. Assim como em qualquer caso de divórcio, por qualquer motivo que seja, as crianças querem sentir-se amadas por seus pais e isto lhes basta. A minha pergunta é se eles continuarão pensando assim quando atingirem a maioridade.
 
O seriado termina com a seguinte mensagem sobre os gays: nossa sexualidade é o que nos distingue de todas as outras pessoas. Se não a exercemos, então não somos o que somos. E não deveríamos sentir-nos reprimidos ou envergonhados por expressarmos nossa sexualidade. A falta de tolerância e liberdade nos empurra para situações extremas. A exemplo de países onde os gays não tem autonomia qualquer, eles precisam encontrar-se clandestinamente nos famosos cinemas de filmes pornôs, que não passam de local de encontro para gays ou bissexuais que querem uma rápida e descompromissada sessão de sexo. A grande maioria destes são casados, como eu também era quando freqüentava estes locais. A maioria das boates que eu frequentava em Salvador, na Bahia, não contavam com um darkroom, apenas pista de dança. No máximo um local um pouco mais reservado para sentar-se ao lado de alguém que você acabou de conhecer e gostaria de ficar mais à vontade com esta pessoa.
 
Eu trazia comigo sempre uma ou duas camisinhas, mas nunca lubrificante. Hoje eu vejo o quão arriscado foi a superexposição: em nenhum momento eu cogitei a possibilidade de a camisinha rasgar-se, o que realmente aconteceu algumas vezes. Aqui na Holanda, a exemplo da Europa e outros países do primeiro mundo, onde os gays tem seus direitos garantidos, o equivalente aos cines pornôs são os dungeons (literalmente ‘calabouços’), geralmente no porão de edifícios antigos que abrigam uma boate ou bar na parte superiora. Ou os calabouços também podem estar no primeiro andar, acima do bar ou boate. Eles são mais parecidos com os darkrooms do Brasil, sendo que os darkrooms brasileiros são apertados e pequenos e é preciso concluir rápido o que se propôs fazer lá, pois a fila anda e outros estão à espera. Aqui na Holanda eles são espaçosos, tem mesmo luz avermelhada e cabines por todos os lados. Estas cabines contam com papel (higiênico), lubrificante e camisinha. Creio que não preciso contar maiores detalhes do que se passa dentro de uma darkroom. Por mais assutador que pareça, estão todos pelo menos protegidos ou tem a chance de proteger-se gratuitamente. Todos são gays assumidos. Ninguém tem medo de ser surpreendido por uma batida policial, ser preso e ter sua vida sexual exposta. Uma pessoa passa a frequentar um dungeon quando achar que chegou a hora. safesex
 
Eu gostaria muito que meu familiares e conhecidos assistissem Queer As Folk pois isto me pouparia de muitas perguntas embaraçosas como: se você sabia que era gay, por que casou? como se todo mundo exercesse constante controle sobre sua própria vida. A respeito de minha vida como gay estarei escrevendo uma coluna à parte em meu blog de agora em diante. Tudo vai se esclarecendo com o tempo e com a experiência. Nem tudo é tão óbvio e claro na vida. Afinal de contas não há nada mais estranho do que gente, there ‘s nought so queer as folk.

Desde recentemente moro em Flevoland ou Flevolândia, como diríamos em português.
 
 
Flevoland é uma província. Uma província abrange algumas cidades principais e algumas vilas, por exemplo, Flevoland conta com uma grande área de 1.419 km² que apesar de ser uma província, corresponde ao tamanho da cidade de Imperatriz do Maranhão. Até 2005 esta província contava com 370.000 habitantes que equivale mais ou menos à população de Florianópolis. O mais impressionante a respeito deste pedaço de chão europeu é que nada disto existia antes de setembro de 1949, quando a primeira parte desta província foi descoberta pela água pela primeira vez. Flevoland está para a Holanda assim como Brasilía está para o Brasil, com sua arquitetura moderna e arrojada e suas cidades-satélites.
 
Tratava-se do ponto mais alto da ousadia dos holandeses em quererem vencer o mar e conquistar solo seco. Nos mapas mais antigos da Holanda, esta área era um grande mar chamado Zuiderzee ou Mar do Sul que garantiu uma subsistência de pesca no país por muitas décadas. Mas os tempos eram outros e a pesca já não representava mais o ponto alto do produto interno bruto. Avião e carro já faziam parte do cotidiano e o interesse geral era locomover-se o mais rapido e confortavelmente possível. Isto sem mencionar que mesmo naquele período do pós-guerra, a Holanda já via-se confrontada com uma já impressionante explosão demográfica.
 
 
 Mas tudo começou bem antes disto, em 1916, quando os holandeses resolveram dar um basta às constantes enchentes que vinham assolando o país desde sempre. O arquiteto 200px-Dr__C__LelyCornelis Lely foi o responsável por um projeto no qual toda a água deste lago seria drenada por meio de contrução de diques de modo que um lado ficasse seco e tornasse possível ali a construção de casas. Por sobre o dique seriam construídas alto-estradas, de forma a ligar os dois lados da Holanda por sobre as águas. À duras penas e graças ao trabalho conjunto de vários operários sol-a-sol e sob chuva e vento fortes, foi concluído em 1932 o primeiro dique a cerrar o acesso do lago com o Mar do Norte, batizado de >Afsluitdijk. Esta forma de secagem de um lago chama-se ‘poldering’, sem equivalente em português para o nome. O nome ‘pôlder’ é usado na língua holandesa atual para referir-se à tudo o que é tipicamente holandês, assim como nós, brasileiros, chamamos tudo o que é típico de ‘tupiniquim’. Nem todo mundo ficou feliz com o ‘poldering’, pois a água do lago tornou-se doce, impedindo assim a existência das muitas formas de vida aquática, bem como toda a economia baseada na pesca.
 
 
A cidade de Lelystad, que é a capital de toda a província, começou a ser construída e habitada nos anos 60, já a cidade de Almere, que na verdade são várias cidades menores que formam um todo, no final dos anos 80. Nos anos 60, foram completados na zona sudeste de Amsterdã (chamado na época de Bijlmer, pronuncie Bélmer) grandes complexos habitacionais, edifícios para moradia, edifícios com garagens com um design um tanto futurístico para a época para suprir a demanda para moradia no país. O projeto, porém, não teve o sucesso planejado e poucos apartamentos foram vendidos, provavelemente porque eles eram pouco gezellig (agradáveis) de se morar, amplos e sobrepujantes demais talvez. As habitações continuaram vazias até o final da década de 70, quando o Suriname (nosso vizinho da América do Sul) tornou-se independente dos Países Baixos. Até o dia em que esta independência se concretizasse, os habitantes deste país tinham livre acesso para vir e morar na Holanda pelo tempo que quisessem e assim o fizeram. Do dia para a noite, o país foi invadido por hordes de surinameses que vieram em busca de um sonho, mas que levaram em pouca consideração o fato de que eles precisariam de um teto sobre a cabeça e de um emprego para se manterem. A solução mais prática e rápida para o problema da moradia para estes recém-chegados foram as habitações vazias já há quase duas décadas no sudeste de Amsterdã.
 
 
E assim formou-se a Holanda que eu conheço: holandeses, filhos de holandeses, nascidos aqui (leia-se autóctones) moram em Flevoland e os holandeses, não filhos de holandeses e/ou aqui não nascidos (leia-se alóctones) moram no Bijlmer. Para um brasileiro que vier visitar o sudeste de Amsterdã, ele não verá nada de errado: muitas árvores, vias cíclicas, creches, além de um comércio um tanto limitado mas concentrado e dinâmico. Para quem mora aqui, a cena é um tanto diferente: varandas amontoadas de bicicletas de criança, vasos de plantas sem plantas acumulados uns sobre os outros, varais extendidos com roupas íntimas masculinas e femininas, caixas de papelão com qualquer coisa imperecível dentro, sim, porque vai passar todo o inverno lá fora também. A cena consegue ficar pior para quem quer ir às compras e bem na entrada do principal supermercado local, depara-se com alguns dos antes mencionados alóctones, com suas aparências um tanto intimidante, oferecendo ‘qualquer coisa’ para quem ele considera ‘comprador’ em portencial, homens geralmente. Do outro lado, um grupo de meninas, entre seus 15 e 17 anos, todas com piercings nos nariz, calças caídas alguns centímetros abaixo da cintura e cabelos urgentemente precisando de tratamento discutem e fazem ameaças umas com as outras. Não lembra em nada a primeira Holanda que eu conheci em Hoorn há alguns anos atrás.
 
 
Como eu falei, existem várias Almere, sendo a principal, Almere Stad. Principalmente esta Almere consegue ser assustadoramente moderna. Todos os edifícios nela tem formas extremamente futurísticas que são suavizados apelas pelos lagos aqui e acolá e pelas árvores. O comércio de Almere Stad também é bem concentrado e dinâmico. Siga a rua principal de cima à baixo e você encontrará tudo o que precisa entre papelaria, loja de celulares, desktops e laptops, roupas de griffe, um grande cinema e um moderno teatro, com uma espetacular arquitetura em forma quadricular. Até alguns anos atrás, havia um palco hidráulico ‘permamente’ na praça principal, onde eu apareço nesta foto comprando flores em 2004, que infelizmente foi removido por motivo que desconheço.
 
 
Existem algumas cidades menores que foram a ‘grande’ Almere, mas não todas. Conheço, por exemplo, Almere Haven, a mais antiga de todas e a Almere Filmwijk (Bairro do Cinema), tendo este nome por ter todas as ruas com nomes de grandes atores dos primórdios do cinema e da televisão. Este último eu conheço desde 2004 e fica, na verdade, no centro. julho, agosto 2009 003A Almere que eu moro chama-se Almere Buiten ou ‘Almere de Fora’, nome que não faz jus à realidade, pois dá a entender que a cidade termina aqui, quando ela, na verdade, se extende para muito além daqui em sentido norte.
 
 

Moro num bairro chamado Regenboogbuurt (Bairro do Arco-íris) porque todas as casas dispostas em cada quarteirão, de um mesmo lado da rua, contam com pelo menos duas dentre as sete cores do arco-íris: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. julho, agosto 2009 023A frente das casas é totalmente coberta por vidros temperados, de modo que o mau-tempo não altera a sua cor e manutenção anual tampouco se faz necessária.
 
Kotterbos

Kotterbos

 Para alcançar a ampla área verde conhecida como Kotterbos, favorita dos almerenses para piquenique ou pescar ao longo do grande canal que nos separa da auto-estrada aqui perto (o que é um eufemismo já que praticamente qualquer lugar da Holanda, não importa o quão recôndito, nunca está muito longe de uma auto-estrada), tenho de passar por um bairro construído há mais ou menos 10 anos, chamado Eilandenbuurt, com casas e edifícios belamente modernos e futurísticos. As casas dispostas em cada rua tem a sua própria arquitetura, cores e estilo. Qualquer pessoa que tem uma opinião negativa de Almere definitivamente nunca visitou a cidade ou jamais foi além das fronteiras de Almere Stad. Quem aqui mora dispõe de bem mais qualidade de vida do que quem mora em qualquer lugar de Amsterdã pois aqui há o encontro equilíbrio entre arquitetura moderna, infraestrutura e natureza exuberante…
Com o fim do período de férias na Holanda (que são os meses de julho e agosto) deparei-me com uma interessante cena na estação onde eu pego o metrô para voltar para casa: uma multidão recém-retornada das férias alinhada lado a lado, uma atrás da outra, como se fossem soldados com a cabeça baixa, teclando em seus provavelmente também recém-comprados aparelhos. Interessante eu achei porque eu mesmo havia acabado de subir as escadas rolantes até a plataforma também com o meu aparelho em mãos. Ele não precisava exatamente estar nas minhas mãos, já que tenho um porta-aparelho de couro para mantê-lo livre de arranhões. Mas a grande verdade é que eu estou “viciado” nele.
Deixe-me contar brevemente minha experiência com celulares. Em 1996 eu havia ido a uma agência da Caixa Econômica Federal, no bairro da Pituba, em Salvador, Bahia para sacar o meu seguro-desemprego e assustei-me com o ruído de alarme que parecia tão próximo e ao mesmo tempo tão distante que não só me assustou como me confundiu . Olhei para as portas giratórias para certificar-me que não era alguém colocando as chaves no pequeno quadrado de proteção que os bancos têm para impedir que alguém entre com uma arma. Não havia ninguém, só o segurança, que parecia bem à vontade. A senhora bem à minha frente ‘sacou’ então o primeiro celular que eu vi na minha vida de dentro de sua bolsa. Em comparação com os celulares do ‘ano já’, aqueles pareciam walkie-talkies ou qualquer coisa usada por Spock no filme ‘Jornada nas Estrelas’. No Brasil eles eram apelidados de ‘tijolão'; aqui na Holanda de ‘geladeira’ (koelkast).
Deste ponto em diante, parecia que eu era a única pessoa do mundo que não tinha um ‘tijolo’. Em 1999 a telefonia celular do Brasil separou-se da EMBRATEL (Empresa Brasileira de Telecomunicações) para o benefício de todos os brasileiros. Aprendemos então que os ‘tijolos’ já estavam mais do que ultrapassados na Europa e nos EUA. Neste locais, o celular já era bem menor, mais fáceis de manusear e chamados de ‘digitais’. Em contrapartida com ‘analógico’. O que estes nomes significavam não importavam: era apenas como comparar um disco de vinil a um CD.
Comprei então o meu primeiro celular a cartão ou ‘pre-paid’ (pré-pago). Assim como ainda é, ele era válido por 6 meses para receber ligação mesmo não estando carregado. Esta opção eu achei uma mão na roda porque eu estava desempregado em 1999 e definitivamente não teria dinheiro para ‘carregar’ o celular com muito mais freqüência do que isto. O mais importante era que eu estava na era ‘digital’. A grande desvantagem era que o celular era permanentemente ligado à área onde ele havia sido comprado (acredito que o sistema de chip não havia chegado ainda), de forma que quando eu mudei naquele mesmo ano, o meu celular tornou-se automaticamente DDD (discagem direta a distância) e ninguém mais quis me ligar. Vendi o aparelho. Fiquei um tempo sem. Comprei outro em 2001. Achei caríssimo. Desliguei o aparelho. Comprei outro em 2003 lado a lado com o aparelho do trabalho, achei que tinha peso demais nos meus bolsos. Ao vir morar na Holanda, comprei um celular usado. Os números daqui começam sempre com 06 (zero-meia, o que os holandeses chamam de ‘nul zes’, que é também outro nome para celular) mais 8 dígitos. Dez dígitos em total. Eu nunca consegui decorar este número. E com o sistema de ‘chip’ eu sempre poderia comprar um novo aparelho e manter o número.
iphone-512Eu vi um I-Phone pela primeira vez em 2007. À título do ‘blackberry’ que fez mais sucesso nos EUA do que em outro lugar do mundo, achei que o I-Phone havia vindo apenas para substituir a antiga agenda de bolso que todos nós compravamos em dezembro. Não me deslumbrou o pensamento de que se o aparelho caísse num poça e erodisse, eu perderia todos os meus contatos, as datas de nascimento (que eu nunca lembro) e outros detalhes anotados aqui e ali junto com ele. Algumas pessoas me aconselharam, com as melhores intenções, nunca sequer tentar substituir a agenda por uma destes ‘aparelhinhos’.
No início de 2008, eu tomei a infeliz decisão de assinar um celular Nokia, da empresa de telefonia celular Vodafone (aos ouvidos de um brasileiro soa como Fodafone). Havia um famoso celular do qual se podia sintonizar todos os canais de rádio. Além disto, o celular era pequeno e bonito de se ver. Fora isto não havia nada de tão útil. Conectar a internet ou baixar uma música era complicado e porque não dizer, caro.
Mas não existe nada mais implacável que o tempo e chegamos enfim em 2009. Em fins de 2008 eu lavei o meu celular junto com a roupa suja e perdi todo o aparelho. Aqui na Holanda funciona assim com celulares: se você assina por um serviço, digamos, para pagar €20,- mais 150 minutos ao mês e você leva o aparelho mais moderno possível com você para casa. No meu caso, eu havia acabado de perder o aparelho mais moderno possível e fiquei completamente ‘incomunicável’. Comprei qualquer celular de segunda mão através do grande site de compra e venda www.marktplaats.nl. Até o fim de dezembro do ano passado, eu achava que celular era apenas para comunicar-me com o mundo em caso de emergência. Esta noção foi grandemente ultrapassada com a chegada do I-Phone no escritório em que eu trabalho. De uma hora para outra, comecei a sentir-me tão ‘2000 and late’.
Na véspera de ir para Barcelona com todos os meus colegas de trabalho em maio deste ano, comprei o I-Phone. Barcelona Team Event 2009 172Não consegui fazer outra coisa com ele senão olhá-lo. Mal consegui enviar uma mensagem de texto (SMS), fazer uma ligação qualquer ou sequer tirar uma foto dos meus colegas. Era tudo muito diferente e moderno. Mas em nenhum momento duvidei que havia tomado uma decisão excelente em ter adquirido o aparelho.
Tenho meu I-Phone desde então. Praticamente não preciso mais estar na frente de um computador toda hora apenas para acessar e-mails. Eu checo todas a minhas 4 contas e acesso o site da empresa para a qual trabalho diretamente dele e sem pagar nada mais por isto. Nem, todos os sites foram adaptados para o I-Phone de forma que às vezes você tem de usar o polegar e o indicador para aumentar algumas letras ou trazê-las para a direita ou para a esquerda. Mas esta adaptação é apenas uma questão de tempo. Os sortudos com um laptop ou desktop da ‘Apple’ podem fazer uso mais completo do I-Phone pois eles foram projetados para funcionar juntos.
Se você baixar o programa do I-Tunes, você tem acesso a um excelente programa que converterá todas as músicas em seu harddisk em mp3. Uma vez convertidas você pode criar listas e organizar suas músicas por exemplo sob novos títulos como ‘MPB’ ou ‘música brasileira’, ao invés do vago e mixto demais ‘música latina’ como os computadores da Microsoft simplificam tudo o que vem da América do Sul. Você pode colocar todos os seus CD’s em seu I-Phone, mas cuidado, se você tem, digamos uns 100 CD’s aconselho que compre o I-Phone que com mais gigabytes possível, pois você não vai parar apenas nos seus 100 CD’s, você continuará preenchendo o seu aparelho sempre com mais músicas, mesmo porque é possível baixar novos números com uma comodidade impressionante através da ‘i-Tunes Store’. E você simplesmente se apaixona de ver todos os seus álbuns de CD, com suas capas tão únicas, a um toque de dedo de distância de você.
Neste quesito eu tive um pouco de dor de cabeça, porque a minha conta nunca era aceita. Sem uma conta não é possível, por exemplo, baixar uma música na ‘i-Tunes’ Store. Eu queria por exemplo ter ‘Poker Face’ da Lady Gaga em meu aparelho. Os muitos fóruns na internet a respeito do assunto não explicavam nada, apenas repetiam as mesmas dúvidas que eu já tinha. A empresa de telefonia que comprou os direitos de revender o I-Phone na Holanda, T-mobile, disse que eu deveria ligar para o representante do fabricante do aparelho e do programa na Holanda. Assim eu fiz, apenas para ouvir que eles tampouco sabiam a natureza do meu problema e como resolvê-lo. Tive que manter contato direto com a equipe de atendimento ao cliente nos EUA (foi-me pedido que eu me explicasse em inglês pois holandês ou português não eram idiomas falados pela equipe de atendimento) e finalmente consegui criar uma conta na ‘i-Tunes Store’ com endereço de um hotel qualquer nos EUA, o que eu pude depois inverter para o meu endereço verdadeiro depois que a conta foi criada e aprovada.

Desde que fui informado que o meu pedido para tornar-me holandês foi aceito, tenho perdido noites de sono. Á uma semana da cerimônia oficial de naturalização, sinto-me invadido por um sentimento duplo e dúbio: a satisfação de finalmente sentir-me parte do país onde vivo atualmente e o que me soerguerá ao status de cidadão igual aos demais e a tristeza de deixar de ser cidadão do país que eu nasci e morei por mais de trinta anos. O motivo é que, segundo a atual legislação deste país, eu preciso abdicar da minha própria nacionalidade. Dupla nacionalidade é proibida, a menos que você seja legalmente “casado” com um outro cidadão do país.

passaporte-brasileiro

Não passa de mera formalidade, eu sei. Ninguém deixar de ser o que se é por causa de uma simples alteração de documento. Meu nome continuará o mesmo. No fundo, continuarei gostando de MPB (música popular brasileira), falando português com sotaque dos vários lugares que eu morei no Brasil (paixão especial por Salvador, na Bahia) e continuarei sentindo-me orgulhoso de o Brasil ser pentacampeão em futebol. De forma que o que para a maioria dos brasileiros que estão se naturalizando seja este passo considerado o “santo graal” da vida deles aqui, para mim é um grande motivo de conflito emocional.

Fico me perguntando o que vai mudar de aqui por diante. Se eu for ao Brasil de férias, terei de ficar na fila de fiscalização para os estrangeiros? Uma vez dentro do país, se eu desejar ficar mais tempo do que o planejado, terei de atender às regras estipuladas para estrangeiros como por exemplo, o prazo de estadia? O site Brasileiros na Holanda confirma o que todos afirmam: que um brasileiro não deixa de ser brasileiro. Mas eu acredito que só a prática mostrará o que é e o que não é verdade em detalhes.

E o que muda para mim aqui na Holanda? A primeira coisa que ouço de outros que já passaram por isto é que o direito a um “uitkering” ou seguro-desemprego é a maior vantagem, mas esta hipótese nunca me passou pela cabeça na verdade, pois além de o “uitkering” ser sempre menos do que o salário pago pela horas normais de trabalho, você tem de submeter-se às várias regras estipuladas pela UWV (o órgão que adminstra a distribuição do seguro-desemprego) como, entre outras coisas, não poder viajar, o que seria considerado extremo luxo nestes casos e precisar comprovadamente solicitar emprego semanalmente. Uma vantagem que me vem à mente é a de poder viajar pela Europa sem preocupar-me com as burocracias envolvidas para obtenção de um visto no caso de brasileiros.  Se bem que brasileiros não precisam de visto para visitar a Turquia e agora eu vou precisar.  Admito que há muitos locais e países aqui na Europa que eu adoraria conhecer um dia mas que seriam perfeitamente possíveis de ser visitados com um passaporte “verdinho”.

Nunca considerei tornar-me holandês um “santo graal”. Minha razão me dizia que eu poderia ter adiado esta decisão por mais alguns anos vindouros, mas que junto com ela, eu ia adiar meus projetos de vida. E acho realmente que a minha idade não me oferece mais esta possibilidade. Considerar-me um cidadão independente na Holanda, ter direito ao voto e participar ativamente na vida civil são pontos altos para mim. Mas estudar à nível universitário na Europa sem ter de pagar o triplo do que os europeus pagam, isto sim, considero uma vantagem incomparável.

passaporte-holandêsDe mais a mais, gosto de morar aqui. Aprendi a conhecer e respeitar alguns costumes locais que, no princípio eu deixei de fazê-lo. Alguns deles eu ainda não entendo. Mas nunca entendi certas coisas em meu próprio país tampouco. Nunca me considerei 100% brasileiro e nunca saí pelas ruas exibindo e/ou vestindo a bandeira do Brasil quando o Brasil nas ocasiões que eu presenciei o Brasil tornando-se campeão mundial. Sempre achei que certas coisas no Brasil poderiam ser melhores se nós nos incomodássemos mais mas nunca conheci ninguém morando lá que concordasse comigo. Mesmo morando aqui ainda é preciso tomar cuidado com as palavras que uso (se houverem brasileiros por perto) para referir-me ao país em que nasci e vivi por 30 anos pois isto seria sinal de eu estar me “degenerando”.

Uma vez holandês, continuarei decepcionando aqui também. Não consegui cultivar gosto por queijos requintados, não gosto de peixe defumado, não suporto “karnemelk” (um tipo de leite coalho com gosto azedo). Acho as festividades, as praias e o clima sem graça. Acho alguns holandeses extremamente intrometidos, sarcásticos e metidos a sabichões.

Mas aprendi que o mais importante é manter a mente sempre aberta. Talvez a virtude esteja realmente no meio. Só preciso descobrir como é que se alcança este estado de virtude.

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