Meu pai era um homem de poucas palavras, se é que tinha alguma coisa para dizer. Não tenho muitas lembranças dele pois ele apenas chegava e saía. No entanto, restam as memórias de um homem sempre com a barba por fazer, de voz rasteira e rabugenta e olhar raso. Qual teria sido o passado deste homem? Eu não faço a menor idéia, afinal de contas eu era uma criança e não conseguia entender totalmente o mundo ao meu redor. Eu queria fazer parte do cenário familiar-afetivo que aparentemente todo mundo tinha: pai chega, passa a mão na cabeça, abraça o filho e pergunta como foi o dia na escola. Eu entendia que meus pais precisavam trabalhar para o sustento da família e que não podiam me dar a atenção que outros pais podiam.

Tínhamos os finais de semana juntos, pelo menos. Não lembro se estávamos juntos no pleno sentido da palavra mas lembro de que uma vez ou outra meu pai tomava tempo para instilar em nós (eu e meus irmãos) a ‘arte’ de desenhar. Ele achava importante que tivéssemos uma boa coordenação motora. E lá isto ele tinha. Posicionando um frasco de talco em forma de um cão São Bernardo sobre uma prateleira, ele exigia que reproduzíssemos a imagem com a maior perfeição possível. Embora as intenções dele fossem das melhores, ás vezes ele ultrapassava a fronteira entre o desejável e o possível para nós crianças. Talvez tudo isto tivesse influenciado a coordenação motora, minha e dos meus irmãos. Houve um tempo em que eu gostava de desenhar, desenhar qualquer coisa. Rostos. Paisagens. Desenhos animados. Minha irmã gostava de desenhar moda, ela queria ser estilista. Infelizmente ela não deu prosseguimento. E meu irmão caçula ainda faz traços belíssimos: desde rostos à natureza morta. Será que coordenação motora é um dom genetico? Então devo agradecer ao meu pai. Nem eu, nem meus irmãos nos tornamos desenhistas, mas desenvolvemo-nos, de certo, modo, uma técnica de desenhar, além de escrevermos corretamente e termos todos boa caligrafia.

Mas não faço a menor idéia do que ele pensava naquela época ou do que ele está pensando neste momento. Não, ele não morreu. Ele está bem vivo e deve ter por volta dos seus 65 anos. Mas não temos contato há muito tempo. E o fato, para mim desconhecido, de ele não ter feito questão de maior contato é o motivo que me inspirou a escrever esta coluna em meu blog. Senhoras e senhores, começo uma narração da minha vida mencionando o meu pai biológico e como todo mundo hoje em dia tem acesso à internet, estou seguro de que ele também poderá ter acesso às minhas palavras.

Não sei ao certo como ele e minha mãe se conheceram. Em algum ponto no passado, no início da década de 70, eles devem ter se conhecido ainda em Sergipe, terra natal de ambos. A capital, Aracaju, une pessoas de todo o estado, daí presumo que seja onde eles se conheceram. Meu pai vem de um vilarejo chamado Ponta dos Mangues, que pertence à cidade segipana de Pacatuba, não muito distante da fronteira com o estado de Alagoas. Apesar da pouca idade, 25 anos, meu pai já tinha 2 filhos de um casamento fracassado em São Paulo. Estes dois filhos dele eu só iria conhecer pessoalmente em 2003. Minha mãe, de Itaporanga d’Ajuda, interior de Sergipe. A família Barbosa morava em Itaporanga já há muitas décadas. Ambos estavam na capital em busca de emprego e melhores oportunidades e optaram por mudar-se para São Paulo, movimento este que entrou para a história como êxodo rural, no qual muitos nordestinos ou retirantes abandonaram suas cidades e partiram em rumo de uma vida melhor, na então promissora São Paulo. Meu pai teve algum tipo de educação em construção civil: ele projetava peças a serem usadas na construção, de forma que não era necessário encomendá-las desde o fabricante, o que pouparia tempo e dinheiro. Este educação deve ter sido a base dos primeiros anos da vida deles em São Paulo.

Até onde eu sei, nasceram 5 crianças deste relacionamento, sendo eu o terceiro de todos e o primeiro dos homens e tendo a primeira criança nascido morta. Apesar de eu nunca ter me sentido à vontade com o meu pai, lembro de uma vez ele ter me levado ao seu local de trabalho: talvez o vigésimo andar de um edifício em construção e de apresentar-me aos colegas de trabalho que pareceram satisfeitos de me conhecer. É o único momento que eu lembro de ele ter sentido algum ‘orgulho’ de mim. Nas outras ocasiões, acho que ele não sentiu orgulho nenhum. Não, por exemplo, quando ele me pegou brincando de bonecas com minha irmã. Bom, deixe-me explicar aqui: eu não estava realmente brincando com as bonecas da minha irmã. Minha irmã só precisava de ajuda para que alguém segurasse a boneca e ‘desse mamadeira’, enquanto ele pusesse as outras duas ‘para dormir’. Meu pai jamais iria entender este tipo de brincadeira. Ouvi o ruído do cinto dele sendo retirado com velocidade das calças e com o mesmo reflexo que eu me virei para conferir que ruído foi aquele; eu consegui me esquivar do golpe de cinto, o qual acabou por acertar o chão. O interessante deste episódio é que ele poderia ter feito uma segunda tentativa, mas não a fez.

É Dia dos Pais e chegou a hora de entregar ao meu pai meu presente: uma ‘camisa’ de cartolina com uma mensagem. Abro a porta do quarto que range, mas apesar disto ele parece estar dormindo; logo percebo que ele só está bem acordado. O quarto semi-escuro torna a situação toda mais constrangedora ainda. Ele me olha com aquela cara de “está fazendo o que aqui?”, eu mostro o presente.

Me aproximei, dei um beijo na bochecha, dele com a barba por fazer, o que me arranhou a boca e me deu calafrios e saí correndo do quarto. Aos 8 anos de idade, eu estava convencido que não precisava do meu pai para nada. Por volta da mesma idade, conheci meu tio, irmão da minha mãe, José Humberto que, de alguma forma, atuou como um pai para mim. Diferente do meu pai e igual a todos os outros pais do mundo, meu tio era carinhoso e com certeza atencioso. Nos meses anteriores, haviam chegado várias cartas da irmã de meu pai, Maria Matildes. Digo, irmã de meu pai, porque eu nunca havia visto esta pessoa antes e não passava de mais uma pessoa estranha no mundo. Suas cartas traziam notícias sobre os últimos meses de vida do pai de meu pai, Domingos Rafael. Meu avô, provavelmente. Eu sabia que as outras pessoas tinham avôs, mas eu pensava que não no meu caso. Bom, de qualquer forma, ele estava nas últimas. E meu pai partiu para vê-lo antes de sua morte, para nunca mais voltar. Antes que eu me esqueça, o pai dele foi enterrado no cemitério de Pirambu, Sergipe.

Agora eu entendo que o fato de ele nunca mais ter voltado não era óbvio na época. Ele não partiu dizendo isto. Mas com alguns meses em sua nova morada, ele havia adquirido uma nova parceira. E minha mãe fez o mesmo. E assim terminou o casamento deles. Diferente do que leio sobre filhos de pais divorciados, não senti falta nenhuma dele. Ao contrário, todos os dias eu sentia uma ansiedade muito grande por viver na expectativa de que ele retornasse, nem que fosse para apanhar alguns pertences esquecidos. Mas felizmente ele nunca mais retornou a São Paulo. Tampouco tivemos qualquer notícia por telefonema ou carta nos 8 anos que se seguiriam.

Minha mãe tinha então um novo parceiro, com o qual ela é casada há muitos anos agora. Ela queria que considerássemos o seu novo parceiro como um pai mas isto foi impossibilitado pelo fato de termos ficado na expectaviva do retorno do nosso pai biólogico ao passo que o casamento deles já era caso consumado. O tempo passou inexoravelmente e estou com 16, quase 17 anos. Mudámo-nos para Sergipe, Itaporanga d’Ajuda, cidade natal de minha mãe.

Com Seu Deda (que conheci por acaso durante as minhas férias em Mangue Seco)

Passei alguns dias lá, mas os próximos meses passei em Pirambu. Lá é onde meu pai morava com a parceira dele, a mãe dele, minha avó, Bertulina, mais conhecida como Dona Nina e Flávio, filho de um irmão do meu pai. Eu não sabia que eu tinha tantos parentes e aderentes. A parceira do meu pai não era exatamente o que eu chamaria de uma ‘madastra ideal’, pois ela era apenas 2 anos mais velha do que eu, mas achei interessante o ponto de vista dela sobre o meu pai, a quem eu deveria conhecer melhor do que ela. E o ponto de vista dela nem sempre era positivo. Flávio, meu primo, morava com eles. Minha avó parecia gostar realmente de mim e disse uma vez que gostava também da minha mãe. No quarto dela encontrei uma foto da minha mãe adolescente. ‘Roubei’ a foto, digamos assim. Infelizmente ela já era na época muito idosa e ela não conseguia entender bem o que eu falava e eu tampouco a ela.

Na mesma cidadezinha, haviam também outros parentes, como o Seu China. O Seu China é irmão do meu pai, por parte de pai. Deixe-me explicar. O meu avô era casado com Dona Nina, mas ele tinha uma segunda família, uma segunda esposa, embora não oficialmente casado; sim, bigamia . De modo que os filhos do casamento e os filhos da união extra oficial tem por volta da mesma idade. O Seu China havia vindo da relação extra oficial de meu avô. E odiava meu pai. Motivo este nunca cheguei a descobrir, dado o fato que ele tampouco queria falar comigo, por eu ser filho do próprio. Acho que minha tentativa de conhecer minha família não teve êxito em Pirambu. Já com meu pai, a relação foi bem menos intensa. Quando o vi pela primeira vez, depois de tantos anos, eu mau o reconheci de tão queimado do sol que seu rosto estava. Ele não me reconheceu tampouco, afinal, eu havia deixado de ser uma criança de 8 anos para tornar-me um homem de quase 17. Ele vinha do mar, com sua rede e vara de pescar e cheirava a camarão. Ele me deu um abraço, abraço este que me lembrou a sensação de calafrio que eu tinha antes, quando eu era criança e ele estava por perto. Muito pior ainda que o cheiro de camarão em si que ele exalava.


Ele se denominava um pirata, como se isto fosse equivalente de capitão. Ele, junto com outros 5 homens, partiam com sua embarcação para alto-mar e só retornavam depois de muitos dias com o barco cheio. E assim ele ganhava a vida. Ele havia desistido da construção civil. Talvez por falta de melhores oportunidades. Talvez por falta de vontade. Ele fez uma mudança radical na vida dele. Eu quis em muitos momentos perguntar o porque da escassez de contato durante todos aqueles anos, mas decidi que seria mais interessante esperar até que ele tomasse a iniciativa. O que nunca aconteceu. E apesar de eu estar jantando com o meu pai, na mesma mesa novamente, depois de tantos anos, eu via a mesma história se repetindo: ele escondendo-se atrás do prato de comida com a boca ocupada apenas com o mastigar.

Um belo dia eu fiz as malas e parti, sem me despedir. Alguns anos mais tarde, tive um ultimo contato pessoal com o meu pai. Eu já estava casado e o convidei para passer uma noite em casa e conhecer minha família. Mais uma vez ele decepcionou por ser tão pouco comunicativo e demonstrar tão pouco interesse nas pessoas, que eram sangue de seu sangue. Em 2001, já gay assumido, recebi um telefonema surpresa de meu pai, que a princípio me deixou feliz, pois por um segundo que fosse, eu acreditei que ele estava disposto a reatar os vínculos familiares, por ele tão negligenciados. Mas ele apenas precisava de ajuda em forma de informação, para ele adquirir sua aposentadoria. Ele não disse nenhuma outra palavra além disto. E neste momento, eu resolvi fechar o ultimo capítulo de meu pai. Escrevi uma longa carta para ele expressando a minha decepção e o quanto a atitude egoísta dele, em relação aos filhos dele me enojava. Se ele não estava disposto a aproximar-se com o intuito de construir uma relação conosco, não precisava tampouco entrar em contato para tratar de assuntos práticos de sua vida pessoal. No meu coração decidi que era hora de excluí-lo da minha vida, pois a gente não escolhe quem é o pai da gente e por isto mesmo, a gente deveria ter o livre-arbítrio de escolher quem a gente não quer mais que continue sendo nosso parente. Afinal de contas, o que é sangue exatamente? Em que isto me beneficia? Claro que eu gostaria que as coisas tivessem sido diferentes, mas não foram. E acho melhor aceitar e fazer as pazes com isto, do que viver o resto da minha me perguntando: “e se…?”