Fui diagnosticado com catarata no olho esquerdo no primeiro mês de trabalho na Irlanda, o que precipitou a minha decisão de voltar para a Holanda. A empresa a qual eu trabalhava oferecia um check-up gratuito com médico interinos aos novos funcionários que pudessem estar desconfiando de algum problema recente na visão.

No meu caso, nem tão recente assim. Eu nunca realmente precisei usar óculos mas usei ocasionalmente, sempre aconselhado por especialistas. Oftalmologia deve ser a área da medicina mais acessível do mundo. Em todos os meus empregos anteriores, eu poderia contar com um especialista da própria empresa. IMG_0015_NEW_0002Aos 18 anos e com emprego de tempo integral, já usava óculos que não combinavam com o meu rosto e não alteravam a minha visão nem para melhor, nem para pior. Fui convencido a comprar armação e lente com a deixa de que o uso frequente eliminaria todo e qualquer riscos futuros de um olho “preguiçoso”, uma vez que o meu grau não era forte (inferior a 1) e que eu era muito jovem para sofrer de alguma distorção na visão. O acessório me deixava anos mais velho mas eu até gostava da idéia; aos 18 anos eu já aparentava ter 21 ou 22 e não por causa de rugas, cabelos grisalhos ou barba. Tive a minha primeira experiência com o barbear aos 18 anos e dava para contar os fios presos na lâmina.

Esta não foi a minha única ocasião com óculos, como já mencionado. Com os meses a armação perdia o encanto, começava a ficar incômoda, pesada, um trambolho em cima do meu nariz e eu deixava de lado. E já que eu continuava “enxergando” e funcionando normalmente, até esquecia da existência dos óculos. eu1 Voltei a usar óculos em 2003 (aos 28 anos) e tive a mesma experiência sem propósito depois de ter gastado baldes de dinheiro comprando armação e lentes relativamente caras. Mais recentemente em 2009 (aos 34 anos) a última tentativa. Ficar horas sentado na frente de um computador fazia os meus olhos lacrimejar tanto que muitas vezes que tinha de ir ao banheiro só para enxaguá-los. Em todas as ocasiões, eu usava os óculos muito esporadicamente porque estar ou não com o óculos não fazia a menor diferença na capacidade de ler algo a distância ou de perto.

No geral eu conseguia ler de perto e de longe. Havia apenas poucos momentos, depois de um longo período lendo algo na tela do computador ou em um livro, em que os olhos ardiam e lacrimejavam. Olhei o meu histórico familiar: pai biológico usava óculos mas não sei se por necessidade ou como acessório, mãe idem e sofre atualmente de glaucoma, minha irmã mais velha óculos quando adolescente mas até onde eu sei, não usa mais, demais irmãos, até onde eu sei, tampouco usam óculos. A impressão que dá que é a “cegueira” pulou uma geração. Então, doutor, qual é o meu diagnóstico?

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Catarata. Foi isso o que a oftalmologista da ótica Mullins & Henry, da cidade de Maynooth, na Irlanda me informou de primeira mão. Eu havia sido redirecionado para lá pelo médico da empresa, que afirmou não ter meios mais sofisticados para fazer diagnósticos além de miopia, astigmatismo e presbiopia. Apesar de ter ficado chocado de ouvir isso, pois foi como se os meus super poderes tivessem sido tirados e mim e a partir daquele momento eu iria sentir dor como um reles humano, fiquei igualmente aliviado. Isso explicou tudo, todas as armações, todos os oculistas, todas as vezes en que os olhos lacrimejavam e ficam vermelhos e a dificuldade de ler e me concentrar por longos períodos. A oftalmologista deixou claro que a única solução para o meu caso seria uma operação.

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Como eu estava na Irlanda para uma breve experiência profissional, tentei começar um procedimento por lá mesmo. Em Dublin, há o Royal Victoria Eye and Ear Hospital ao qual eu fui encaminhado pelo clínico geral, que por sua vez a última oftalmologista da Mullins & Henry havia me indicado. Este hospital arquivaria o meu caso (não sei onde), eu ficaria numa longa fila de espera (tipo de 1 a 2 anos, por ainda ser “jovem”) e seria contatado quando chegasse a minha vez. Totalmente incerto como este contato se sucederia: se por e-mail, por telefone, por carta. Médicos e clínicos gerais do sistema público da Irlanda demonstram praticamente zero interesse no paciente antes da internação e isso me fez refletir que era hora de voltar para casa. Acrescente a isso problemas laterais, como por exemplo, a pequena casa que eu havia alugado havia sido arrombada enquanto estava trabalhando. garda-on-patrolFelizmente não roubaram nada mas absolutamente cada canto da casa havia sido revirado. Polícia chamada, impressão digital analisada e não detectada pois o meliante usava luvas, “considere-se um sortudo por ele não ter roubado nada, tchau”. Por mais que eu tivesse gostado da experiência de viver fora da Holanda por uns 6 meses, o que me deu um vislumbre do que é ser europeu e não simplesmente holandês, bati o martelo e decidi que era hora de voltar. O meu parceiro ficava na ponte-aérea e apesar dele dizer que não se importava, eu não achava isso justo com ele.

De volta à Holanda e devidamente registrado no endereço de sempre com o meu parceiro e com plano de saúde atualizado, hora de ouvir a versão dos médicos holandeses, que confirmaram o diagnóstico dos oftalmologistas irlandeses. specsavers_zpsvqqoxpboNaquele momento tive um flashback de um oculista holandês examinando o meu olho na ótica Specsavers, que é bem-renomada na Holanda, dizendo que eu não tinha nada além de um olho preguiçoso e que eu ia adorar a armação x, que era a minha cara e estava com 20% de desconto até amanhã. Estranho que este oculista não viu absolutamente nada de uma doença que eu aparentemente já tinha por ocasião da compra daquela armação e lentes. Eu provavelmente tenho catarata deste adolescente pelos cálculos dos vários especialistas. Na Holanda temos uma discussão sobre oculistas não-diplomados. A tendência é julgar um senhor de cabelo grisalho e jaleco branco, de voz amigável e sorriso no rosto como diplomado mas até recentemente na Holanda, uma pessoa com apenas conhecimento teórico em oftalmologia (estudou mas não se formou) poderia exercer a função sem problemas. Acredito que ele poderia oferecer os serviços dele mais baratos com o intuito de atrair clientes a loja, onde o cliente é atendido por um ‘oculista’ por ocasião da compra de armação e lentes. E foi exatamente o que aconteceu comigo.

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Eis que em julho de 2015 estou deitado na mesa de operação da clínica Zonnestraal, em Hoogeveen depois de várias idas e vindas à clínica para delatar o olho, escanear, olhar e reolhar e discutir e rediscutir com outros oftalmologistas qual o procedimento apropriado no meu caso. Nestas horas a gente precisa de alguém para apoio, para levar e trazer porque a pessoa fica inutilizada no dia da operação, para fazer o que seja. Felizmente tenho o meu parceiro, dedicadíssimo e atencioso mas fico me perguntando como se viram as pessoas que são ou estão sozinhas e não podem contar com ninguém numa hora destas. A operação foi um sucesso, durou uma hora e pude voltar para casa de imediato. 2015-11-05 12.28.51O pós-operatório provoca dores horríveis após o término do efeito da anestesia. Aqui na Holanda, paracetamol é liberado e os médicos aconselham até 6 por dia; eu tomei logo uns 4 de uma vez e me nocauteou. Quando acordei a dor estava mais suportável. No dia seguinte retirei a capinha que cobria o olho só para querer cobrir de novo e deixar lá quieto. Parecia o olho do Fred Krueger, vermelho, cheio de veias e pontos e inchado. A primeira semana é um ritual cansativo de pingar colírio várias vezes por dia; a quantidade de colírio vai caindo por gota semanalmente até chegar a zero várias semanas mais tarde.

Por volta de setembro, apesar da minha visão ter realmente sido restabelecida, notei um novo fenômeno: black drops into watermanchas e riscos dançando na direção para onde eu olhava, um pouco como se eu estivesse debaixo d’água e como se alguém tivesse desejado um outro líquido negro na água diante de mim. Muitas vezes, andando pela rua eu tinha a impressão que alguém estava tentando me abordar e eu fazia um movimento brusco para o lado só para perceber que não havia ninguém.

Entramos em contato com a filial local da clínica que realizou a operação e começamos uma nova novela de idas e vindas a clínica, e oftalmologistas que discutem com outros oftalmologistas e mais uma vez um procedimento incisivo no meu olho que incomoda por eu não ter permissão de piscar por um longo período. A vontade que dava era de dizer: deixa como está, valeu a intenção, vou para casa, tchau. Não sei o que é pior: esta patologia ou estes patólogos me usando como cobaia o tempo todo. Numa sexta-feira, a médica disse que entraria em contato na semana seguinta, a partir de terça-feira. Mas ela ligou no dia seguinte, em pleno sábado e marcou consulta para domingo. Com a clínica fechada. Atendimento VIP exclusivo para mim, finalmente. Ela disse que não estava conformada com o que poderia estar causando as manchas que eu estava vendo e me enviou ao departamento de oftalmologia da VUmC (Vrije Universiteit Medisch Centrum, Hospital Universitário) de Amsterdã, para última análise e cirurgia imediata (fosse qual fosse o diagnóstico). Fui atendido por uma oftalmologista muito simpática que me acompanhou daquele ponto até a recuperação total do meu olho. Ela explicou que a minha retina tinha se descolado. O meu primeiro pensamento foi: tem isso também? vitrectomyretinaldetachment1

A retina se desloca e vai encolhendo e leva inevitavelmente à cegueira. O tratamento seria inserir uma bolha de gás dentro do globo ocular que forçasse a parede do globo ocular para as dimensões corretas mas eu estava além deste procedimento. A bolha de gás não seria suficientemente eficaz; eu precisava de uma bolha de silicone. Tudo decidido de último momento.

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A operação estava prevista para durar uma hora ou menos até mas durou quase duas horas. Desde que resolvesse o problema, para mim tudo bem, mas um pequeno detalhe é que a bolha de silicone não se dissolve no olho, ela precisa ser retirada cirurgicamente. Pós-operatório: outro calvário. Paracetamol: muito, muito. Colírio: muito, muito. Cuidados mil: primeira semana a gente só respira, segunda semana, respira e inspira, terceira semana …

Terceira operação marcada para janeiro de 2016 caso o meu olho tivesse se recuperado corretamente. Checape: retina 100% recuperada. Hora de retirar a bolha de silicone. Operação realmente simples em comparação com as anteriores, pouca dor no pós-operatório e pouco paracetamol também. Já se passaram dois meses por ocasião de eu estar escrevendo isso mas o olho esquerdo infelizmente não perdeu a sensibilidade: uma vez ou outra eu sinto uma pressão no olho, como se alguém invisível estivesse empurrando o meu olho com o dedo. Admito que está ficando cada vez menos frequente. Vi vídeos no youtube de pessoas que fizeram a mesma operação e todas disseram que leva até 6 meses para total recuperação. Eu estou bem, as manchas dançantes sumiram mas ainda vejo resquícios da bolha de silicone. Elas são estáticas e não incomodam; ainda bem porque o último oftalmologista foi honesto o suficiente para dizer que se elas ainda não sumiram, provavelmente ficarão lá pelo resto da minha vida. A boa notícia é que não ficarei cego e provavelmente nunca precisarei de óculos de grau, só quando estiver bem velhinho (a visão do meu olho direito é magnífica e compensa a deficiência do olho esquerdo) e pensando de forma mais ampla, se eu tivesse nascido no século 18, eu provavelmente iria ficar totalmente cego de um olho antes dos 45 anos, se é que eu ia viver tanto tempo. Obrigado, ciência e tecnologia e todos os profissionais que aprenderam a usá-las para o benefício da humanidade.

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Uma pergunta e um conselho para você que leu isso até aqui e se identificou: você usa óculos a vida inteira mas o grau pouco importa, o seu olho sempre irrita e lacrimeja e você mal consegue ler 5 páginas seguidas de um livro? Procure o seu clínico geral e peça que o redirecione a um oftalmologista (depende de como o sistema de saúde funciona no seu país). Mencione a minha história. A sua visão pode estar passando por um grande risco mas ainda há tempo de corrigir.

Fonte: De terugkeer

Mês que vem completa dois anos que não posto nada aqui. Acumulei assunto, tanta coisa aconteceu nos últimos dois anos que nem sei por onde começar. Relendo o meu próprio post percebo que uma rotina maçante tinha me afundado num burn-out e apesar de querer ficar longe dela, ela estava me esperando nos meses a frente. Infelizmente não havia outra opção senão reencará-la. Tentei o máximo que pude esconder a minha cara de insatisfação das pessoas ao meu redor mas quando uma pessoa não toma decisões por si própria, outros tomam. Em junho de 2013 fui demitido. O meu chefe foi tão cuidadoso ao me informar de minha demissão para não me magoar mas por dentro eu estava festejando. Eu poderia ir para casa imediatamente e ainda teria o meu salário pago normalmente até agosto. A partir de setembro do mesmo ano eu teria um uitkering (seguro-desemprego) que no meu caso específico, duraria pouco mais de um ano. Um verdadeiro alívio apesar de saber que seria apenas a contagem regressiva para algo que eu não sabia o quê.

O meu primeiro pensamento era o de relaxar de imediato. Perdi o interesse nos estudos e no trabalho. Eu queria poder passar o dia inteiro sem ter pensar em nada. E se tivesse de pensar em alguma coisa, que fosse em mim próprio. Percebi que, apesar de ter exposto a minha situação em redes sociais, ninguém estava realmente preocupado com os meus problemas, o que eu acho normal. Só não consegui deixar de notar que estas mesmas pessoas só me procuravam para falar dos problemas delas. facebook-remover-amigosNão importasse a fase da vida eu estivesse passando, os problemas deles sempre eram mais importantes que os meus. Deletei estas pessoas da minha vida, o que não foi tarefa fácil já que alguns eram parentes e outros eram pessoas que eu considerava amigas por muitos anos, apesar de nunca ter visto nenhuma prova de amizade ao longo de vários anos da parte deles. Achei deliciosamente egoísta mandar todo mundo às favas.


oktoberfestAo final de 2013 fui à Alemanha para participar da oktoberfest e reencontrei-me com pessoas que eu já conhecia do Brasil. Conheci também várias outras pessoas com quem foi possível reinventar amizades e respirar novos ares. O ar que eu estava respirando dos últimos anos estava viciado. 4358Eu e o Willem passamos a virada do ano na Escócia onde assistimos fantástico concerto da banda Pet Shop Boys e foi muito divertido cantarolar ao vivo canções que marcaram a minha infância. De volta à Holanda, a realidade era outra e eu precisava entender que o ano de 2014 significaria para mim procurar um novo emprego e tentar atrair mais alunos para o curso de português. Apesar dos meus sinceros esforços, ficou claro para mim antes do fim do primeiro semestre de 2014 que a economia da Holanda estava estagnada.

Olha-se ao redor e apenas se ouve que fulano e ciclano está desempregado.  Ouve-se nas notícias que mais empresas estarão demitindo mais funcionários, o governo estará cortando verbas e subsídios, apertando o cinto ao passo que a monarquia holandesa que vive em estado de negação anuncia todos os anos que a crise já passou. Passou para quem? Em algumas províncias, a taxa de desemprego bateu os 10% este ano apesar de a maioria dos holandeses continuarem achando que é apenas 6% que é a taxa de 2006. grafiekApesar desta porcentagem afetar a todos, a maior parte dos desempregados são os jovens, especialmente os de origem marroquina e os estrangeiros, que na Holanda, não caem em categoria nenhuma. Solicitar emprego na Holanda não é o fim do mundo. Eles tem um website muito bem elaborado no qual se preenche um currículo e onde novas vagas surgem diariamente. Tudo o que o desempregado tem de fazer é solicitar pelo menos uma vaga por semana e comprovar isso por escrito. A parte cansativa é ouvir respostas do tipo ‘demos a vaga para outro, boa sorte com a sua busca’.

desempregoA gente vai começando a desconfiar que o problema é ser estrangeiro. Digo, pelo menos um emprego mediano, do qual se pode pagar as dívidas e quem sabe poupar algum dinheiro. Algumas solicitações incluiam que o solicitante pagasse o próprio transporte para ir ao trabalho e ainda por cima por um salário ridiculamente irrisório. Uma outra empresa deixou claro que não me daria um emprego para uma vaga a qual eu sou bem experiente porque eu tenho um ‘sotaque’, apesar de nada disto ter sido declarado no anúncio de emprego, a única exigência era: goed Nederlands (holandês razoável). Jura? Tenho de perder o meu sotaque para algum dia ter um emprego na Holanda? Como se faz isso, batendo a minha cabeça na parede até perder a memória de quem eu sou? Mais uma vez a Holanda tenta justificar algo que não tem justificativa. Eu entrei em contato com uma organização local, que de bom grado entrou em contato com a empresa para deixá-los a par que eu não concordava com a sua política de contratação  mas não demora muito para perceber que a organização tem pouca ou nenhuma vontade de defender a pessoa que se sente vítima de discriminação. Entendo que várias pessoas no mundo sofram discriminação mas acho que depende delas aceitar este fato sem fazer absolutamente nada. Eu tampouco consegui nada e desisti. Comecei a enviar currículo para outros países. Tendo estado recentemente em Munique e em Edimburgo, imaginei que seria um interessante desafio trabalhar por lá mas infelizmente os destinos que me foram oferecidos não foram exatamente os esperados, um deles foi Malta, para onde eu nunca quis ir. O segundo destino oferecido, Irlanda, me atraiu mais pela proximidade com a Holanda e semelhança com a Escócia. Parti do princípio de que eu teria um problema de logística nos primeiros meses caso aceitasse o emprego.

Esta oferta de emprego na Irlanda tornou-se realidade e aceitei prontamente. paddys-irish-pub-1Não é o emprego melhor remunerado do mundo mas um que poderia me dar experiência em suporte técnico a qual eu talvez poderia aprimorar e quem sabe tornar o meu currículo mais interessante quando eu voltar para a Holanda. Quando eu voltasse. Mas agora a questão é ‘se’ eu algum dia quero voltar para a Holanda. Estou aqui desde setembro do ano passado e admito que estou gostando mais do que tinha esperado. E o que torna este país tão diferente são os próprios irlandeses, extremamente amigáveis e que definitivamente mantém uma relação íntima com o álcool. Depois do burn-out de 2012 acredito que é bom para mim morar num país assim por um tempo mas não estou sentindo nenhuma falta da Holanda. O ano de 2015 apenas começou; vamos ver se estarei me sentindo assim por volta de setembro.

Em dezembro de 2012 fui diagnosticado como sendo portador da síndrome de burn-out. Achei o nome bastante assustador mas senti-me aliviado de saber que o mau estar que eu estava sentindo no final do ano tinha um nome. Como eu contraí burn-out? O que é burn-out? E finalmente, como se cura um burn-out?

bankpasO ano de 2012 começou bem. Muito bem, na verdade. Eu estava no Brasil com o meu parceiro aproveitando a nossa primeira viagem para lá juntos. Na virada do ano, o meu parceiro me pediu em casamento. O ano estava, portanto, marcado para ser um ano ocupado, pleno e, claro, estressante. Hora de trabalhar mais ainda, arregaçar as mangas, fazer o orçamento do casamento e começar a economizar dinheiro para o grande evento. Abrimos a nossa primeira conta conjunta e começamos a trabalhar em um site para bodas, que viria a tomar muito do nosso tempo. Mas o resultado final não decepcionou. O site ficou belíssimo e bem informativo. Nele pedimos aos convidados que não nos presenteassem com louças, enfeites, livros, que são muito elegantes, com certeza mas não há mais espaço para eles em nosso armário e em nossa biblioteca. Queríamos praticidade e solicitamos às pessoas que haviam pensado em nos dar um presente, que optasse por fazer uma contribuição em dinheiro e que esta fosse feita diretamente em nossa conta para que, com o valor arrecadado, pudéssemos custear a nossa lua-de-mel para Toronto. queer-as-folk-episode-14-saison-3-jpgSempre foi o nosso sonho irmos juntos a Toronto porque a cidade serviu de cenário para várias cenas externas do nosso programa favorito Queer As Folk.

Uma vez pronto o site, passamos a discutir quem convidaríamos para o nosso casamento, incluindo pessoas que sabíamos que não poderiam vir devido à distância. Eu preparei o draaiboek (roteiro) do casamento, que é o passo-a-passo de tudo o que aconteceria no grande dia, em que horário e por quem. O próximo passo seria elaborar uma grande pasta com todo o tipo de serviço que iríamos precisar contratar: ondertrouw (sistema holandês pré-nupcial), a cerimônia, a recepção, a festa, o fotógrafo, a roupa de casamento, os convites, o carro, o bolo, as alianças e finalmente, a lua-de-mel. O Willem acertou a parte da lua-de-mel, do ondertrouw e das alianças. Tivemos de fazer vários buracos em nossa agenda para conseguirmos ir, num dia útil qualquer, em pleno horário de trabalho, à prefeitura para confirmarmos a nossa intenção de casar. Isso incluiu uma outra viagem, em outra ocasião, à Groningen, para sermos entrevistados pela simpática juíza que faria o nosso discurso de casamento. Dias perdidos em que não podíamos fazer outra coisa. O tipo de alianças que agradou o Willem estava em Heerlen, o que nos rendeu um agradável final de semana em Aachen, na Alemanha.

Flyer FRONT-C1000-DIO Bonder 2012

Ligamos para todas as empresas existentes na Holanda que ofereciam automóvel de luxo para bodas que fosse conversível mas todos já haviam sido reservados. O mais engraçado era que os proprietários não davam maiores explicações: “Estão todos reservados, tchau”. A muito custo consegui encontrar um senhor um Groningen que alugava automóveis de luxo não-conversíveis, um Jaguar vermelho, na verdade. E ele seria o nosso chofer. E nos demos por satisfeitíssimos. Próximo problema: fotógrafo. Enviei vários e-mails e recebi algumas respostas como “Estou de férias” mas acabei optando por este fotógrafo a quem eu muito especificamente havia pedido que ele me mostrasse o “book” de outros trabalhos por ele realizados. Primeiramente ele não veio em casa mas combinou que dirigíssimos até uma cidade que ficava no meio do caminho entre a cidade dele e a nossa. Ele sentou, cruzou as pernas e falou ‘Ok, o que os senhores querem?’ Eu falei, ‘O que eu quero? Cadê o book do senhor?‘ mas a única coisa que ele tinha para me mostrar era algo que me lembrava um encarte de CD com fotos tão diminutas que mal dava para ver alguma coisa. Mas, pelo menos neste dia, pareceu ser um senhor simpático e honesto, disposto a ganhar dinheiro (“Eu não complico as coisas, não”, dizia ele toda hora) e tudo o que eu queria era mais este ponto preenchido em nossa agenda.

rokaPara a roupa de casamento, encomendamos várias brochuras de casamento como a Tip de Bruin, ROKA e mesmo Maison van den Hooge, onde eu já havia alugado um terno antes para uma sessão de fotos. Optamos pela ROKA por ter uma filial também em Groningen, onde iríamos nos casar e portanto iríamos para lá com frequência nos próximos meses. Deu para matarmos vários coelhos com uma paulada só. O atendimento na ROKA é 5 estrelas e decidimos alugar os fraques ali. Os fraques seriam para a cerimônia. Para a recepção e a festa não encontramos nada que nos agradasse e adiamos para olhar com calma na filial deles de Haarlem. Quanto ao bolo, entrei novamente em contato com várias pessoas por e-mail. Esta foi a parte mais irritante porque, além de cobrarem caro, as pessoas que oferecem este tipo de serviço não tem a menor imaginação para pensar que o bolo precisa ser transportado. A maioria das pessoas dizem apenas: “Não posso fazer nada.” Entregamos o pedido nas mãos de uma funcionária da casa-restaurante onde nos casaríamos e ela conseguiu resolver o problema à muito custo e com muitos telefonemas para mim. Eu acredito que ela me ligou umas 30 vezes no total, sem exagero. Mencionei que nós queríamos o nome Faggot (“veado”) em nosso bolo mas que os fornecedores que ela havia contatado negaram-se a princípio a fazê-lo por ser faggot um nome ofensivo?

Flyer FRONT-C1000-DIO Bonder 2012

No meio deste furacão todo que a minha vida se tornou, tentei manter-me o mais pontual e correto com os meus compromissos: o meu emprego de meio período onde trabalho há 6 anos, as aulas que eu dava na época na Vrije Universiteit para a minha própria empresa, o horários: das 19:00 às 21:30, depois de eu já ter trabalhado das 9:00 às 17:45. Às vezes eu trabalhava quase 12 horas por dia e só chegava em casa às 23:00 ou mais tarde. Depois da visita do Michel Teló na Holanda, eu fiquei conhecido como tradutor e intérprete e fui convidado para vários outros trabalhos. michel teló1No final de 2012 eu fui chamado para ser o intérprete do cantor brasileiro, Gusttavo Lima. Fui para a cama várias vezes às 04:00 da manhã. Eu sabia que estava me desgastando mas nunca imaginei, nunca desconfiei que isso fosse me atingir fisicamente. Afinal de contas, eu sempre me considerei muito forte, mental e físicamente e nunca tive problemas como depressão, enxaqueca, insônia, etc. Eu sempre fiz tudo o que eu tinha de fazer e sempre dei conta do recado. Por que desta vez seria diferente?

Faltando pouco mais de um mês para o casamento, percebi que algumas pessoas ainda não haviam confirmado presença (RSVP). A quantidade de pessoas influiria na decisão quanto ao tamanho do salão que alugaríamos para o casamento e na quantidade de comida e bebidas que ofereceríamos e por que não dizer, no próprio tamanho do bolo. Passei a enviar lembretes para algumas pessoas quase que diariamente. Alguns chegaram a confirmar ou declinar faltando dias para o casamento ou mesmo no dia do casamento. Algumas pessoas jamais sequer entraram em contato. Dia do casamento, chegamos para a cerimônia mas logo depois me dou conta que muita gente que havia confirmado presença não estava lá e não por má vontade: o chefe de uma das pessoas teve um ataque cardíaco, o vôo da outra pessoa foi cancelado, a outra pessoa teve diarréia, a outra teve de cuidar do marido que ia ser internado e ainda outra sofreu um leve acidente de carro, nada grave mas o suficiente para ter de ir ao hospital e em seguida ir para casa descansar.

beyonce-single-ladies-put-a-ring-on-it-webcastrRespirei fundo quando ouvi as notícias, contei até dez e disse para mim mesmo que ficaria tudo bem. No dia seguinte teríamos um jantar em família mas decidimos anulá-lo justamente por problemas familiares. Senão ao invés de um jantar requintado num dos restaurantes mais caros da cidade, teríamos uma comédia de tortas-na-cara e pagar pelo estrago. Tiramos o dia para ficarmos em casa e descansar. Casar cansa. No sábado, numa pequena mas aconchegante boate perto da Dam receberíamos por volta de 40 amigos mas infelizmente só compareceram 25. Tocamos a festa assim mesmo. Mas eu começo a sentir os primeiros sinais de saturação. Um deles é que, apesar de eu ter feito uma lista de músicas dos anos 70 e 80 e dado para o DJ e pedido para ele tocar exclusivamente aquelas músicas, várias vezes o vi tocando músicas que nem eu nunca ouvi na vida, enquanto os meus convidados estavam entediados, de pé, ao invés de estarem dançando. Várias vezes subi até o espaço do DJ para lembrar-lhe que eu estava pagando (caro) para ele tocar o que eu havia pedido. Dancei Single Ladies com minha amiga Sandra, que é professora de zumba e se propôs a vir em casa para praticarmos. Depois disso eu queria apenas ir para a lua-de-mel e descansar. A comissária de bordo da KLM nos ofereceu um brinde e foi muito gentil. Toronto é linda e muito amigável. A cidade toda parece ser gay e as pessoas penduram orgulhosamente a bandeira gay nas janelas de suas casas e apartamentos. Não comemos tão bem assim mas acho que se fosse possível comer bem em Toronto, lá seria um lugar perfeito. O café da manhã era excelente, com alguns rapazes de Taiwan perguntando como queríamos o nosso ovo.

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Tradução: Infelizmente prevenir não resolveu o problema!

De volta à Holanda, retomei o ritmo das aulas e voltei para o meu trabalho. Mas alguma coisa mudou dentro de mim. Eu não estava mais querendo trabalhar. Estava achando o ambiente no trabalho extremamente barulhento e maçante (é assim há vários anos mas só depois do casamento ficou óbvio para mim). Comecei a fugir de certos colegas literalmente e mais ou menos no fim de outubro, percebi que alguns colegas estavam fugindo de mim também. E foi a partir deste ponto que eu comecei a me olhar no espelho e a me perguntar o que estava errado. Comecei a ter dôr de cabeça todos os dias, me assustar com qualquer movimento brusco, me perder olhando para o computador e vendo apenas as letras mas não necessariamente lendo alguma coisa e perdendo aos poucos a vontade de abrir a porta e sair de casa. Para o que quer que fosse. No começo de novembro, eu e os colegas fomos convidados para uma reunião, assim que chegamos ao escritório. A urgência da reunião, acho, me deu um ataque de pânico. Eu me levantei e aguardei no canto. O meu chefe me perguntou qual o problema e eu lhe disse que precisava sair do escritório. Que ele me demitisse, se quisesse. Mas eu precisava ir embora. Ir para casa.

burnout

Eu precisava voltar para o escritório no próximo dia de trabalho mas novamente pedi licença médica. E o restante aconteceu nesta ordem: falei com o Willem que pedi demissão, ele me alerta que pode ser burn-out, olho o assunto na wikipedia, marco consulta com o médico, ele confirma o burn-out, passo a consultar uma psicóloga e a frequentar sessões de fisioterapia psicossomática. Cancelei praticamente todos os meus compromissos. Recentemente comecei a frequentar um grupo de apoio. Hoje é 1o de fevereiro e estou me sentindo muito bem, ainda que com um pouco de dôr de cabeça. Estou trabalhando a metade da carga horária e daqui à abril estarei trabalhando a carga integral. Retomei às aulas e aos poucos estou reassumindo as rédeas. Para ter burn-out é fácil. Qualquer um pode ter. Difícil é sair dele. Se você acha que pode estar sofrendo desta mal, o meu primeiro conselho é ‘procure o seu médico’. Não se auto-medique e acima de tudo, não dê ouvidos a todo conselho alheio. Não use medicamentos controlados e muito menos aqueles que não foram prescritos por receita. Eles podem causar vício e não resolvem o problema a longo prazo mas troca um pelo outro. Fale com profissionais e faça parte de um grupo de apoio.

Nederlands

Carne de boi é assada em fogo desde a pré-história pois assim a carne ficava mais macia para digestão. Este hábito espalhou-se entre os índios que o adaptou às suas necessidades. Os índios que vieram para a América do Sul, os índios tupis, aprenderam a defumar a carne sobre grelhas de madeira.

Origem

Na região dos pampas, uma extensa região do estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, da Argentina e do Uruguai foi os vaqueiros, conhecidos como gaúchos, tornaram o prato famoso. Cada região que adotou a carne defumada sobre grelha desenvolveu uma técnica diferente de preparo.

O nome churrasco foi trazido pelos espanhóis de uma palavra anterior à chegada dos romanos na Península Ibérica: sukarra (chamas de fogo, incêndio), formada por su (fogo) e karra (chama). Este vocábulo existe em espanhol castelhano como “socarrar” e significa ‘chamuscar’.

Churrascarias

Uma das técnicas de prepare que ficou muito famosa foi o rodízio de carnes, também conhecido como “espeto-corrido”, no qual garçons servem todos os pratos disponíveis na casa, normalmente no espeto (daí o nome). A versão mais aceita sobre o rodízio é a de que ele tenha nascido em meados da década de 60 em Jacupiranga – SP numa churrascaria chamada Churrascaria 477. Um dia a churrascaria estava lotada de romeiros vindos da festa do Bom Jesus de Iguape. Um garçom atrapalhado trocou os pedidos de várias mesas e gerou uma grande confusão. A solução foi servir todos os espetos em todas as mesas. A ideia agradou os clientes e tornou-se conhecida mundialmente.


A picanha (número 13 do desenho ao lado) é um tipo de corte de carne bovina tipicamente brasileira. O nome vem de uma vara comprida utilizada pelos boiadeiros do Rio Grande do Sul e Mato Grosso para tocar o gado. Esta vara, chamada picana (em espanhol), possuía um ferrão na ponta para picar o gado na parte posterior do animal, que passou a ser chamada picanha. Na Holanda picanha é um pouco difícil de se conseguir pois o açougueiro não corta a carne de forma padrão e claro, não esqueça de pedir que não retire a gordura dela.

Confira na tabela abaixo como o mesmo tipo de carne é preparada no Brasil e na Holanda. 

 

Português

Nederlands

Peito: músculos e fibras,  cozimento demorado: cozidos e caldos Borst:  rollades, stoofvlees, borstvlees 
Pescoço: Uma carne barata: sopas ou cozidos. Nek: soepvlees, runderlappen en gehakt.
Cupim: Churrascos ou grelha, pode ser cozido lentamente em panela de pressão e assado no forno.  Bult van het zeboe-bultrund
Acém: Fica próximo ao pescoço e é geralmente utilizada para ensopados ou carnes de panela. Rib: rollades en ribstukken. Klapstuk: klapstuk en runderlappen. Borst:  rollades, stoofvlees, borstvlees
Braço, pá ou paleta: ensopados, molhos e para moer.  Driehoekstuk: magere runderlappen en biefstuk
Músculo (ossobuco): caldos, sopas e cozidos. Voorschenkel: schenkel en soepvlees
Capa de filé: assados e refogados. Rib: rollades en ribstukken
Aba de filé: É um corte especial de lombo, o T-bone tem parte final do contrafilé de um lado do osso e a parte central do filé mignon do outro. Dunne lende onderste deel: lendebiefstuk (entrecote), rosbief, T-bone steak. HAAS: Het fijnste deel van het rund: ossehaas, chateau-briand en tournedos.
Ponta de agulha: É indicada para carne moída, refogados, cozidos e também para ensopados. Borst:  rollades, stoofvlees, borstvlees. Vanglap: voorste deel: runderlappen, stoofvlees en gehakt
Filé de costela: cozimento lento: churrascos, ou carnes cozidas com legumes. Dunne lende voorste deel: lendebiefstuk (entrecote), rosbief, T-bone steak
Contrafilé: bifes de chapa, grelhados, steaks e churrasco. Dunne lende achterste deel: lendebiefstuk (entrecote), rosbief, T-bone steak
Filé mignon Dunne lende dwars: lendebiefstuk (entrecote), rosbief, T-bone steak
Picanha: continuidade ao coxão duro:  churrasco. É importante prepará-la com gordura para que a maciez fique mais acentuada.  Staartstuk bovenste deel: staartstuk, rosbief en malse runderlappen. Muis bovenste deel: rosbief, rookvlees en rollade
Alcatra: para churrasco, espeto e na grelha, bom corte para bifes. Staartstuk onderste deel: rosbief en malse runderlappen. MUIS onderste deel: rosbief, rookvlees en rollade. :Kwaliteitsbiefstuk, kogelbiefstuk en gehakt
Maminha de alcatra: para assados, churrasco ou grelha. Pouco tempo no fogo para não ressecar. Spierstuk: kwaliteitsbiefstuk, kogelbiefstuk en gehakt 
Fraldinha: assada em churrasco ou na grelha, cortada em tiras grossas ou assada inteira. Vanglap achterste deel: runderlappen, stoofvlees en gehakt
Patinho: Uma carne magra utilizada para cozidos e bifes. Moída para almôndegas ou bolos de carne. Platte bil: kwaliteitsbiefstuk, rosbief en gehakt
Coxão duro Bovenbil: kogelbiefstuk, rollade en gehakte biefstuk
Coxão mole: Grelha ou frigideira, bife rolê. Muis onderste deel: rosbief, rookvlees en rollade
Lagarto: panela ou carne desfiada, assados e recheados. Muis achterste deel: rosbief, rookvlees en rollade
Rabo: carne com osso, rabada. Muis (staart): rosbief, rookvlees en rollade

No dia 23 de agosto, numa quinta-feira ensolarada e incomumente agradável na Holanda, eu casei com o meu parceiro, com quem convivo há 3 anos. Foi um dia muito especial em vários aspectos. Eu faço parte de um contexto agora. Eu tenho alguns direitos garantidos. E um deles é que agora eu me encaixo na categoria dos brasileiros que se candidatam à dupla nacionalidade, a saber, brasileira e holandesa.

Muito barulho por nacionalidade

Todos os países do primeiro mundo, inclusive a Holanda, tem um grupo majoritário de imigrantes. 11% da população consiste em não-ocidentais e os maiores subgrupos deste grupo são os turcos e os marroquinos. Eles vieram para cá no pós-guerra, no periodo de crescimento econômico da Holanda nos anos 60 e 70 num programa idealizado pelos países do primeiro mundo para receber trabalhadores de países mais pobres, para fazer trabalho pesado, mal remunerado para o qual havia pouca mão-de-obra naquela época. A Holanda não tinha leis sobre imigração claramente definidas e acabou tornando-se o lar definitivo destas trabalhadores.

Tanto a Holanda quanto os próprios imigrantes achavam que tudo era temporário. Por ocasião de voltar para casa, os imigrantes que partiram primeiro não se adaptaram mais ao seu país de origem e retornaram à Holanda. Alguns conseguiram mesmo uma forma de seguro desemprego por terem estragado a saúde no trabalho pesado e insalubre no qual trabalhavam. E este foi o estopim de vários outros que seguiram o mesmo exemplo. Estes grupos de imigrantes criaram entidades e organizações para lutar por seus direitos, que os orientou sobre os seus direitos e deveres. E conseguiram, assim, obter acesso à nacionalidade holandesa. Lado a lado da nacionalidade que já tinham.

Kerwin Duinmeijer

A princípio, ninguém viu isto com maus olhos mas o incidente do trem sequestrado em 1977 e o primeiro caso de violência gratuita em 1983 com o assassinato de Kerwin Duinmeijer, fez muitos se perguntarem se talvez era possível proteger a Holanda por fechar as suas fronteiras e controlar melhor quem entrava e quem saia. Os que já estavam dentro, precisariam se integrar, aprender a língua local e interagir com todos em comum.

Alguns partidos políticos não vêem a dupla cidadania com bons olhos e basicamente o motivo é o fato de as pessoas que têm apenas uma se sentirem inferiores. Os partidos afirmam que uma pessoa com mais de uma nacionalidade não se integrará totalmente à sociedade, afinal de contas, ela pertence apenas parcialmente à sociedade em que vive, de forma que alguém pode afirmar que irá seguir apenas metade das regras estipuladas igualmente para TODOS.

Os partidos políticos que são a favor defendem o fato de haverem muitos holandeses em outros países, também com dupla cidadania. Se a regra valer dentro da Holanda para imigrantes, vale também para holandeses emigrantes. Se você desejar mudar-se para outro país pelo motivo que for, terá de abdicar da própria nacionalidade. No meu post de 11 de agosto de 2009, escrito uma semana antes eu ter me tornado holandês, eu compartilhei não somente a minha satisfação por ter esta nacionalidade, mas também a minha decepção de perder a minha nacionalidade brasileira. Naquela época, nunca havia me passado pela cabeça que eu e meu parceiro um dia nos casaríamos. Eu sabia que precisaria abdicar da nacionalidade brasileira caso me tornasse holandês.

Eu sei o que você fez no verão de 2009

Carta-convite para a cerimônia de naturalização no dia 18 de agosto de 2009

Apesar de naturalizar-me holandês nunca tivesse sido parte dos meus planos originais quando vim para a Holanda, consegui com êxito e uma tentativa só obter o staatsexamen, documento que comprova o nível de holandês do imigrante em menos de um ano na Holanda. Porém, para solicitar naturalização era preciso na época comprovar convivência familiar de pelo menos 3 anos na Holanda. Em março de 2008 eu havia chegado neste ponto. Mas ainda tinha dúvidas sobre naturalizar-me e quanto ao meu futuro na Holanda. No final de 2008 terminei o meu relacionamento anterior e os meus planos eram esticar o máximo possível a minha estadia. O meu visto de permanência estava validado para até 2013. Por um tempo eu não teria com o que me preocupar.

No ínterim, conheci o meu parceiro atual. Esta notícia não agradou o meu ex, que me deu um ultimato até o final de 2009 para eu decidir a minha permanência na Holanda. Ele oficializaria o término do nosso relacionamento e que não morávamos mais no mesmo endereço. As poucas alternativas desagradáveis eram:

  1. pedir ao meu ex que não oficializasse o término do relacionamento pois eu não teria mais a base para renovar o visto de permanência, que era reunião familiar.
  2. pedir ao meu ex que registrasse parceria comigo apenas por ocasião da naturalização e depois discretamente desfizéssemos a parceria
  3. pedir ao meu novo parceiro que oficializasse o nosso “relacionamento” de apenas alguns meses e alterasse o nosso status no Facebook de “não faço a menor idéia do que está acontecendo” para “está acontecendo alguma coisa que não sei o que é”.
  4. ficar na Holanda até que o meu visto de permanência expirasse e caso o meu relacionamento no momento não desse certo e eu não conhecesse outra pessoa, voltaria para o Brasil e recomeçaria a minha vida lá, com a bagagem trazida da Europa.
  5. naturalizar-me e abdicar da nacionalidade brasileira. Existem apenas algumas poucas exceções inúteis que poucas pessoas se encaixam para ter dupla nacionalidade. Uma delas é o risco de perder um herança no país de origem. A única herança que eu tenho lá são as dívidas dos outros e estas eu gostaria de perder com muito prazer.

Desejo de matar “um”

As alternativas 1 e 2 estavam fora de cogitação pois em 2008 eu e o meu ex mal conseguíamos literalmente olhar um para a cara do outro. Qualquer coisa que eu lhe pedisse época, mesmo que fosse um ovo estrelado, eu receberia um retumbante “não” como resposta. A alternativa 3 nem me passou pela cabeça, pois, apesar de eu já estar apaixonado pelo meu parceiro, a última coisa que eu queria era morar com alguém depois de ter acabado de sair de uma situação dessas e ter odiado a experiência. A alternativa 4, sim, me passou pela cabeça. Mas eu tinha dúvidas sobre se queria passar mais outros 3 ou 4 invernos neste país à espera de um milagre. Então, agora você sabe porque abdiquei da nacionalidade brasileira.

Direitos e deveres

Muitas mulheres heterossexuais brasileiras têm dupla cidadania e nunca precisaram passar por nenhuma destas situações constrangedoras. Elas vieram para a Holanda em situações melhor definidas do que eu. Algumas já vem casadas com os seus esposos holandeses. Têm filhos juntos. Têm direitos garantidos e claramente especificados desde o início. Esta foi a parte em que eu pequei. Eu queria apenas uma experiência na Europa. O que acontecesse seria bagagem suficiente para quando eu voltasse para o Brasil. Se eu voltasse para o Brasil, algum dia. Portanto, não me espantei quando, depois de quase 4 anos convivendo e tendo passado por várias situações desagradáveis juntos, eu simplesmente fui “banido” como um desconhecido, sem direitos e com obrigações de pagar dívidas feitas em comum, quando na verdade, apenas o meu ex fez uso enquanto eu ainda tinha de arcar com toda uma nova bateria de dívidas incluindo aluguel, compras, plano de saúde, etc.

Mas eu nunca me senti ressentido por isto. O alívio de não ter de conviver mais com uma pessoa que você não suporta vale a pena todo o esforço e sacrifício. No entanto, eu tinha uma questão prática a ser resolvida: e agora? Pelo sim, pelo não, dei entrada no processo para naturalização. Espelhei-me em colegas de trabalho da Turquia e da Polônia que queriam desesperadamente tornar-se holandês mas ainda não tinham os documentos necessários para tal. “Por que você ainda não deu entrada no processo?” era uma pergunta quase que diária. Quando confirmei que o havia feito, algumas pessoas começaram a me ver e a tratar como um semi-deus.

Após muitos altos e baixos com o meu novo parceiro, finalmente alcançamos um ponto de estabilidade que dura até hoje e que coincidentemente passou por todo o processo da naturalização. Foi bom ter alguém com quem contar nestas horas. A carta da “rainha” chegou confirmando que o meu pedido havia sido aceito. No dia 18 de agosto de 2009 houve uma cerimônia de naturalização a qual eu fui acompanhado do meu novo parceiro e a partir deste dia sou considerado, para todos os efeitos, holandês. O meu passaporte “vermelhinho” estaria disponível num órgão da prefeitura previamente estipulado e eu pagaria um valor determinado por ele.

Se a via crúcis virou circo, estou aqui

Esta é a parte romantizada da naturalização. Ninguém conta as partes irritantes que envolve uma burocracia insuportável com funcionários que se contradizem ou “lembram” apenas mais tarde que “mais” uma coisa que você precisava fazer.

O que acontece é que o “novo holandês” precisa agora comprovar dentro de, no máximo um ano, que ele renunciou à sua nacionalidade. O processo é o seguinte:

  • O Ministério das Relações Exteriores, chamado aqui na Holanda abreviadamente de IND, me envia um documento com o qual eu entro em contato com a Embaixada do Brasil que por sua vez me envia um documento em inglês que diz que “eu quero” abdicar da minha nacionalidade. Este documento, assim todo e qualquer outro documento deste porte, precisa ser legalizado e você é quem paga por isto. Com este documento eu vou à Embaixada do Brasil em Roterdã e preencho novos formulários e pago adiantado por cartas registradas que receberei no futuro.
  • Após um período que lembra uma eternidade, recebo uma correspondência do Brasil, em nome do presidente da República, confirmando que o meu nome aparecerá no Diário Oficial e a partir deste ponto, terei abdicado da nacionalidade brasileira. Este documento por sua vez precisa ser legalizado e traduzido para holandês e inglês. A legalização precisa sempre ser feita antes da tradução pois a informação em letras diminutas no “selo” precisa igualmente traduzido. Toda vez que um documento precisa ser enviado para alguém para um serviço, é mais outro longo período de espera que faz você perder o fio da meada de em que ponto o processo estava.
  • Documento legalizado e traduzido, hora de enviá-lo para um endereço específico da IND. Algum tempo depois o documento retorna. Recebo a notícia de que está faltando o carimbo da tradutora. Mais uma vez carta registrada. Semanas se passam. O documento com o carimbo correto chega, fui a IND e finalmente “saldei a minha dívida” com a Holanda.

No ínterim já estava em meados de 2010, de modo que todo o processo para abdicar da nacionalidade brasileira durou por volta de 1 ano, entre cartas registradas que vêm e que vão.

Cara, crachá, cara, crachá

Em meados de 2010 eu decidi voltar à faculdade. A decisão foi baseada na fase mais estável da minha vida. Dificilmente alguma coisa mudaria no futuro próximo e valeria a pena investir dinheiro numa educação que me rendesse dividendos no futuro na Holanda. A partir deste ano, eu e meu parceiro passamos a viajar juntos, coisa que nunca havíamos feito antes, pois estávamos sempre tendo de resolver alguma coisa que poderia exigir a nossa presença física a qualquer momento.

Em 2011 resolvemos visitar o Brasil pela primeira vez juntos e como já era de esperar foi uma experiência fantástica, exceto pela desconfiança dos funcionários da alfândega com o meu passaporte. E eles não pareciam nem um pingo amigáveis (“Por favor, fique aqui neste canto, senhor”). Apenas olhar para a foto no passaporte e para o meu rosto aparentemente não era suficiente. Ele teve de fazer várias perguntas como “por que eu decidi me naturalizar”. Eu respondi que havia sido forçado (eu queria ter dito coagido, mas alguma coisa me deteve). Ele perguntou onde eu morava e o que fazia na Holanda. Respondi às perguntas educadamente. O meu parceiro já havia sido atendido e já estava liberado no lado brasileiro, enquanto eu ainda estava respondendo perguntas. Após 3 semanas no Brasil, ao fazer o trajeto contrário, fui detido novamente pelos mesmos funcionários que me fizeram as mesmas perguntas e agiram absolutamente da mesma forma. Nenhuma reação quando eu disse “Mas o senhor fez as mesmas perguntas para mim quando eu entrei no Brasil”.

Na virada do ano, o meu parceiro me supreendeu me pedindo em casamento. Na hora eu não pensei muito mas todas as novas possibilidades começaram a “dançar” em meus pensamentos. Não consegui parar de me perguntar se seria possível ainda ter dupla nacionalidade após o casamento. Talvez eu pudesse matar dois coelhos com uma cajadada só.

Se a via crúcis virou circo, estou aqui (2)

Durante um ano e meio eu vivi feliz e tranquilamente, tendo quase feito as pazes com o fato de que eu não seria mais brasileiro. Mas conforme eu disse, isto acabou quando o meu parceiro me pediu em casamento.

A minha primeira reação foi procurar a minha amiga Eliana, que também foi a mestra-de-cerimônias do meu casamento, para perguntar o que ela sabia sobre o assunto. A informação que eu tinha e que eu já havia discutido com outros expatriados brasileiros vinha nesta ordem “casamento + naturalização = dupla nacionalidade”. Mas o caminho contrário “naturalização + casamento = ? levantava várias dúvidas. A Eliana me informou que o site do Consulado Brasileiro em Roterdã continha um link para Readquisão ou Revogação de Perda da Nacionalidade. Uma luz no fim do túnel. Este link explicava passo a passo quais documentos eu precisaria e para onde enviá-los. Não consegui me conter, preenchi o formulário e estava pronto para enviar. Mas alguma coisa me deteve. Será que estou fazendo a coisa certa? Será que o momento é oportuno? Informações fidedignas eu só conseguiria diretamente da fonte mas fui incentivado pelo meu parceiro a ter paciência e esperar até depois do casamento.

Pedi informações informalmente na página Brasileiros na Holanda no Facebook mas o meu post foi apagado dois minutos após eu ter publicado. A moderadora do site explicou que este assunto requeria maior discrição já que funcionários de repartições públicas podem estar em qualquer lugar. Eu não havia pensado nisto. E como faço para saber se alguém está ou esteve numa situação semelhante a minha? Como compartilhar experiências? Escrevi um post em minha própria página do Facebook mas novamente não fui longe. A experiência na ordem “casamento + naturalização” parece ser a única existente.

Baixei a guarda e esperei até o casamento. Assim que voltei da lua-de-mel marquei uma consulta sobre o assunto na prefeitura local, a qual eu iria acompanhado do meu parceiro/cônjuge. A primeira visita foi frustrada. O nosso problema não poderia ter tratado naquele dia. De uma segunda vez fomos atendidos. Tentei ser o mais direto possível sobre o que eu queria, pois mesmo sendo direto o suficiente, algumas pessoas acham que eu estou apenas procurando um tradutor para traduzir documentos para o português. Apesar de termos sido atendidos por uma senhora simpatico e aparentemente muito competente (éramos amiúde interrompidos por outros funcionários que vinham lhe fazer perguntas sobre as suas próprias tarefas), ela não soube de imediato a resposta à pergunta e se desculpou dizendo que esta pergunta era muito incomum e que nos muitos anos que ela trabalha na prefeitura, ninguém nunca lhe perguntou isto. Ela nos pediu paciência para fazer alguns telefonemas pois descobrir a resposta a esta pergunta levaria tempo. Após meia hora de muito suspense, a sentença: sim, existe uma brecha na lei que ainda permite que um indivíduo tenha duas nacionalidades. E esta brecha está na Rijkswet op het Nederlandschap, algo que podemos traduzir como “constituição da cidadania holandesa”, artigo 15, parágrafo 2b. O artigo narra as exigências para quem quer recuperar a cidadania perdida e acumulá-la à atual: apresentar documento que comprova residência de pelo menos 5 anos no Brasil durante infância e adolescência. Parece simples mas o único “documento” que contém esta informação é um histórico escolar. E que bom que, apesar de bem velho, eu ainda tenho o meu. Nunca pensei que fosse precisar mais dele aos 37 anos. O que realmente não soou simples foi a informação que eu teria de legalizar o documento no Brasil.

O próximo passo é entrelaçar o que é da Holanda e o que a Holanda quer com o que é do Brasil e o que o Brasil quer. Novamente é preciso contar e recontar a mesma história várias vezes, em todos os idiomas que você sabe falar e mesmo assim, tem sempre um funcionário que pensa que você está procurando um tradutor juramentado. Escrevi para o consulado do Brasil em Roterdã e aguardei uma semana sem respostas. Resolvi telefonar. Foi-me confirmado que eu teria de legalizar o documento no Brasil, já que o consulado, para a minha frustração, não o faz.

Pergunta: Posso enviar estes documentos por correio?

Resposta: Pode, sim senhor. Mas o senhor terá de telefonar para o Ministério das Relações Exteriores e combinar isto diretamente com eles.

Pergunta: O senhor tem um número ou e-mail?

(tempo procurando)

Resposta: O senhor sabia que nada disso é necessário, né?

Pergunta: Como assim?

Resposta: O senhor pede o seu passaporte brasileiro e pronto. Não é o Brasil que complica. É a Holanda.

Pergunta: É mesmo? Bem, um funcionário do IND disse que eles são “informados” de que eu pedi passaporte brasileiro e que quando isto acontecer, eu terei de me apresentar e levar os documentos que comprovam que existe uma brecha na lei no meu caso.

Resposta: Nada disto. Consulado e Embaixada do Brasil não entram em contato com Embaixada da Holanda.

Pergunta: O senhor tem certeza disto? É a minha vida que está em jogo.

Resposta: Tenho, sim.

O “tenho” dele não me convenceu. Estava um tanto ao quanto hesitante. Eu não passei por tudo que eu já passei neste país em 8 anos, não derramei tantas lágrimas, não me humilhei várias vezes, para botar tudo a perder por causa de um pedaço de papel traduzido e legalizado. Se é isto o que eles querem, é isto o que terão.

Entrei em contato com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil via e-mail. Fiquei surpreso com a agilidade com a qual recebi uma resposta. Provavelmente 5 minutos após eu ter clicado “enviar”. Fui explicado que a legalização é gratuita. Tudo que eu precisava fazer era enviar o documento com envelope para resposta com selo suficientes para cobrir uma correspondência registrada mas que a tradução do documento infelizmente também deveria ser feita no Brasil e legalizada por um órgão competente da Holanda no Brasil. Eu deveria ligar para eles e anotar o nome da pessoa que receberia o envelope para mim. A IND havia me explicado claramente que a tradução também precisava estar legalizada mas não explicou onde. Se eu tiver de fazer tudo isto por carta seria muito complicado, mesmo porque a legalização da parte da Holanda não sai de graça. E anotar o nome de uma pessoa que eu não conheço para receber um documento meu, é correto? E se esta pessoa falecesse? E se entrasse de férias? E se…? Liguei para a IND em total estado de confusão mental e eles me explicaram que todo e qualquer documente da Holanda pode ser legalizado em território holandês. Acho que estas foram as primeiras palavras que fizeram sentido para mim depois das que confirmavam que eu ainda poderia ter dupla cidadania!

Ainda assim, preciso de alguém no Brasil que envie os documentos para mim do território brasileiro.

“Vá ali rapidinho no Brasil e legalize o documento.”

O MRE não envia documentos para o exterior. E claro, que não é nenhum grande problema encontrar uma pessoa no Brasil que se disponha mas detesto incomodar as pessoas pedindo favores. Por que estou escrevendo tudo isto? Primeiro porque acredito que informação deve ser compartilhada. De uma próxima vez que alguém estiver numa situação semelhante, saberá exatamente o que tem de fazer. Segundo, porque não é crime nenhum readquirir a nacionalidade perdida e acumular a que você já tem no momento, desde que a lei holandesa o permita de qualquer forma. Como pode ver, eu pesquisei o assunto muito bem e toda e qualquer informação de que dupla cidadania será proibida não pássa de boato. Há milhares de brasileiros (diga-se de passagem: brasileiras) com dupla cidadania neste país, neste exato momento. E terceiro, para os muitos sonhadores que vez ou outra escrevem perguntando o que eles devem fazer para ficar na Holanda. Além de uma passagem aérea e dinheiro suficiente até se ajeitar, é preciso de muitas lágrimas, humilhação e um sorriso estampado no rosto, sempre.

Em janeiro de 2010 escrevi um post chamado Deísmo que foi um verdadeiro sucesso de leitura e crítica, ainda anteontem (28-04-2012) recebi um. Gostaria de agradecer por todo o prestígio. Para mim é uma grande honra.

Mas tenho más notícias ao deístas e com certeza péssimas notícias à maioria teísta (que crê que Deus existe e que ele é onipotente e onipresente): desde 2011 eu me considero ateu. Isto é parte do motivo pelo qual eu não escrevi muito nos últimos meses. Eu precisava me inspirar. Eu precisava ruminar as palavras certas várias vezes para depois poder escrevê-las. Outro motivo foi a falta de tempo, em virtude da pequena empresas que montei no ano passado, além dos estudos que sigo como tradutor e intérprete. Mas definitivamente gosto de escrever e não pretendo parar nunca. Tenho vários outros tópicos em mente que estão ligados à nova maneira como vejo o mundo de lá para cá.

Nos primeiros meses após eu ter escrito o post do deísmo, comecei a me perguntar criticamente até que ponto eu acreditava realmente em Deus e acima de tudo, por que eu acreditava nele. Antes de me aprofundar no assunto do ateísmo, gostaria de esclarecer que o objetivo deste post não é criticar a fé de ninguém mas o leitor tem o livre arbítrio de optar por não continuar a leitura, e se o fizer é porque provavelmente também quer encontrar bons motivos para não acreditar mais em Deus. De forma que espero que tenha a mente aberta para entender os meus motivos pessoais.

Crise de Consciência

A fim de formar uma boa base para o meu ateísmo, resolvi mexer em toda a estrutura da minha “religiosidade”, a qual foi os anos da minha adolescência que passei entre as Testemunhas de Jeová. Assim como alguns outros ex-membros das Testemunhas de Jeová, eu continuava mantendo uma postura tolerante para com eles, apesar de um dia terem me rejeitado por eu ser diferente. E o motivo para tal é que as Testemunhas de Jeová acreditam na máxima de que os homens que tomam a frente da religião em Brooklyn, Nova Iorque, conhecidos internamente sob o código de escravo fiel e discreto, sejam a própria “organização de Deus na terra” e que todos os demais que se afiliarem à religião (pessoas imperfeitas esforçando-se, amiúde sem êxito, a viver uma vida sem pecados) devem aceitar isto como fato antes de tornarem-se membros. Estes também precisam entender que, se “falharem” (fizerem algo errado), não terá sido por culpa de Deus mas da própria pecaminosidade humana, pois, conforme um texto bíblico conhecido de cor e salteado pelas Testemunhas de Jeová, reza: “não é do homem que anda o dirigir os seus passos” (Jeremias 10:23).

De forma que baixei o livro Crise de Consciência em meu iPad, escrito por Raymond Franz, nada mais, nada menos que um membro do “Corpo Governante”. Corpo Governante é o nome jurídico dado aos homens nos Estados Unidos que tomam a dianteira da religião. Estes homens vivem e trabalham em Betel que significa “casa de Deus”, nome carinhoso dado à sede mundial das Testemunhas de Jeová em Brooklyn, Nova Iorque. Para mim seria importantíssimo saber o que realmente acontece nos bastidores deste “corpo” para poder dar o próximo passo. Eu nunca havia ouvido falar de um ex-membro do Corpo Governante que tivesse “vazado” informações particulares comprometedoras a respeito do dia-a-dia e das reuniões altamente confidencias em Betel realizadas. A impressão que algumas Testemunhas de Jeová têm (e eu também tinha) é que algo sobrenatural ocorria em Betel e que Jeová falava diretamente com eles e eles, por sua vez, nos transmitiam as informações cuidadosamente traduzidas por meio da revista A Sentinela.

Raymond Franz

Raymond Franz foi batizado aos 16 anos como Testemunha de Jeová nos primórdios da história da religião, em 1939. Assim como a maioria, ele ‘nasceu dentro’ da religião. Naquela época dava-se ênfase especial a ajudar nos países onde a ‘necessidade’ era maior, de forma que Franz ainda muito jovem seguiu “a cartilha” passo a passo e tornou-se missionário. Um missionário das Testemunhas de Jeová é visto internamente como um ministro especial. Ele domina a língua falada e escrita perfeitamente, fala mais de um idioma e está pronto para partir de seu país e morar no exterior, geralmente em países do terceiro mundo por um tempo determinado e que acima de tudo, dedica um quantidade exuberante de horas mensalmente ao serviço de “pregação” (como elas chamam o nome “evangelização”), tal qual um emprego por tempo integral. A diferença é que estes missionários não recebem salário algum, que dirá pomposo. Vivem de uma pequena ajuda de custo da Sociedade Torre de Vigia (o nome jurídico de Betel) e aceitam doações voluntárias do membros da religião por onde eles passam. Franz, nesta posição, passou até por várias privações físicas as quais ele expõe abertamente em seu livro. Devido ao excelente trabalho por Franz realizado, ele foi convidado à fazer parte do Corpo Governante a partir de 1964. Tratava-se de um inegável “privilégio”, extendido a uma pequena minoria apenas, minoria esta que também declara ter esperança celestial, isto é, que logo após a morte “serão imediatamente transformados, como que num piscar de olhos”. – 1 Cor 15:52.

Talvez por vir de uma família abastada ou talvez por ter tido acesso a boas escolas, ele foi convidado a participar de algo ‘grande’: a elaboração de uma obra que, para as Testemunhas de Jeová na época, era equivalente à Enciclopédia Barsa. Chamava-se Ajuda ao Entendimento da Bíblia lançado em inglês em 1971 em 4 volumes. Praticamente qualquer palavra, nome ou verbete em grego ou hebraico imaginável poderia ser pesquisado em ordem alfabética nesta coleção. Interessante é que o livro foi traduzido para várias idiomas, inclusive o português, após Franz ter pedido resignação das Testemunhas de Jeová. Mas por que o Franz pediria resignação?

Após dedicar-se fisica, psicologica e mentalmente por mais de quatro décadas às Testemunhas de Jeová, Franz acabou pedindo resignação de seus “privilégios”. Não porque estava cansado ou precisava aposentar-se, mas por ter simplesmente ousado defender um ponto de vista pessoal que ia além do do Corpo Governante. Tudo começou em 1975 quando ele começou a questionar-se porque determinadas leis a respeito de neutralidade em tempo de guerra eram mais rígidas para alguns países africanos do que para os países nas Américas. Em alguns países africanos homens foram brutalmente espancados, mulheres foram estupradas e crianças ficaram traumatizadas pelo resto de suas vidas por não terem acatado um simples pedido do governo local de se identificarem com um crachá específico. Até este ponto tudo parecia condizer com o que já havia acontecido anteriormente na Alemanha nazista com as Testemunhas de Jeová (na época chamadas de Estudantes da Bíblia) identificadas pelos nazistas com triângulos roxos. Por mais cruéis que os nazistas pudessem ter sido, ao menos eles deram aos Estudantes da Bíblia a chance de continuarem vivos, desde que assinassem um simples documento. Conforme as publicações das próprias Testemunhas de Jeová na época esclareciam, este documento apenas dizia que a pessoa em questão não assumiria nenhuma postura contra o Terceiro Reich. O documento nunca disse que era preciso mudar de religião ou negar a Jeová. Mas o Corpo Governante achou isso um ultraje ao “nome de Jeová” e incentivou todos os membros a não assinarem, o que levou à morte desnecessária de milhares de pessoas, alguns ainda bem jovens.

Apostasia

Mas quando a mesma situação ocorreu no México alguns anos mais tarde, o Corpo Governante pareceu ser bem mais condescendente. As Testemunhas de Jeová locais poderiam adquirir uma tal “carteirinha” que as tornavam isentas de servir ao exército. E adquiri-la não era somente uma questão de solicitá-la, era preciso subornar algum funcionário local para tal e mesmo este suborno foi discretamente incentivado pelo Corpo Governante.

Este foi a primeira vez que a fé de Franz foi abalada. A partir daí, ele não conseguiu ser mais o mesmo e continuou argüindo sobre outros “por quês”. Franz foi muito cândido ao descrever, por exemplo, como o Corpo Governante tratava assuntos de ordem íntima e pessoal de outros membros de Betel, que por si só eram horrivelmente embaraçosos. Exemplo: uma “irmã” “confessou” que ela e seu marido praticavam e gostavam de praticar sexo anal e oral. A regra entre as Testemunhas de Jeová na época e creio ainda hoje em dia é que, caso uma pessoa tenha “tropeçado”, ela precisa confessar-se, ser disciplinada e aguardar em silêncio para receber o “perdão” de Jeová em seu devido tempo. Um casal em sua intimidade e a honestidade de uma mulher confessando-se para outro ser humano (acreditando ela que ele representa a Deus) compensado com a expulsão, o que as Testemunhas de Jeová chamam de desassociação. E esta era a disciplina.

Visto Franz também ter sido acusado de agir contra a própria organização, a tão chamada ‘apostasia’, ele foi forçado a pedir resignação de seu cargo. Tendo trabalhado de graça como missionário durante toda a sua vida e em seguida no Betel de Brooklyn onde ele contava com uma ajuda de custo, ele e sua esposa perderam tudo e tiveram de procurar um lugar para morar. Algumas pessoas que se disponibilizaram em ajudar Franz e sua esposa eram coincidentemente ex-Testemunhas de Jeová que igualmente haviam deixado a organização por motivos semelhantes. Estes bons samaritanos de plantão e quaisquer pessoas que sequer lhes cumprimentassem, eram expulsos um a um, após cartas e mais cartas com forte teor de ameaças enviadas diretamente pela Sociedade Torre de Vigia. Em seu livro, Franz publica as cartas em sua totalidade.

A vereda dos justos é como a luz clara

A parte que mais me tocou foi a em que Franz mencionou que as reuniões do Corpo Governante não passavam de encontros casuais, mal-preparados e que a maioria dos membros não demonstravam o menor interesse de estarem ali. Estes mesmos homens, considerados líderes pelas Testemunhas de Jeová, recebem um bom salário para manterem um padrão de vida elevado, ao mesmo tempo que dão a entender para milhares de Testemunhas de Jeová no mundo todo de que são homens humildes e o único “canal de comunicação” de Jeová com o “seu povo”. Na verdade, não passam de meros mortais como quaisquer outros, na presidência de uma multinacional, visando lucro acima de qualquer coisa. Todas as Testemunhas de Jeová que um dia foram presas, espancadas, encarceradas ou assassinadas por causa de sua “consciência” devem as suas vidas a estes homens mal-preparados que um dia decidiram publicar na revista A Sentinela como elas deveriam encarar uma certa situação que punham as suas vidas em risco.

No ínterim Franz é falecido. Aos meus olhos, um exemplo de um verdadeiro homem. Pena que eu soube dele tarde demais. Em parte alguma em seu livro ele fez menção de as Testemunhas de Jeová serem uma grande fraude. O título de seu livro deixa claro que o problema gira em torno da lealdade à uma organização (uma religião) e não a Deus. Apesar de que, nos primórdios das Testemunhas, elas acreditassem que “religião era laço e extorsão”, excluindo a si próprias com estas palavras, atualmente elas se consideram, sim, uma religião, pois o nome vem do latim religio e significa tão somente ‘religação’ (com Deus, subentende-se). As crenças das Testemunhas de Jeová, porém, sofrem drástica metamorfose com os anos, segundo a conveniência do Corpo Governante delas. Um exemplo é a data para o Armagedom. Este nome está na Bíblia mas significa apenas “monte do Megido”, um lugar onde aconteceu uma batalha específica e fora isto, não tem nenhum significado especial mas que virou sinônimo de ”fim do mundo”.

E este “fim do mundo” tem sido um excelente slogan para as Testemunhas de Jeová. Além de não saberem quando vai acontecer, não fazem a menor idéia de como vai acontecer. Algumas têm pesadelos constantes com fogo, explosões, céus acinzentados, crateras que se abrem pelo chão, pessoas que apodrecem vivas e várias outras idéias hollywoodianas retiradas originalmente de qualquer um dos livros do velho testamento. Para diminuir a frustração delas, uma data é marcada aleatoriamente. O fim do mundo nunca chega na data prevista, eles se desculpam, deixam o assunto ser esquecido por um tempo e agendam uma próxima data. Se por acaso a pessoa “tropeçar” (cansar-se de tanta mentira e fizer algo útil de sua vida como estudar), eles dirão que a culpa foi da pessoa, por ter interpretado as coisas muito literalmente.

O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová encontrou um versículo na Bíblia para justificar estas alterações fraudulentas: “Mas a vereda dos justos é como a luz clara que clareia mais e mais até o dia estar firmemente estabelecido”. – Prov. 4:18. Eu acho esta passagem belissimamente poética mas estou certo que não justifica as milhares de mortes nos campos de concentração na Alemanha nazista, muito menos os assassinatos, os estupros nos países da África e a alteração das datas para o fim do mundo que o Corpo Governante continua empurrando em cima dos membros, claro que de forma muito mais discreta nos últimos dias do que nos anos anteriores.

Por que eu acredito em Deus mesmo?

Infelizmente Franz nunca chegou no ponto que eu queria ter lido. Li o livro dele com enorme prazer mas ele morreu à míngua, acreditando realmente que Deus existia. O meu próximo passo foi me perguntar honestamente: “por que eu acredito em Deus?” Como foi que isto começou?

Recentemente comecei a escrever a minha história como Testemunha de Jeová. É impossível escrever tudo de uma vez, de forma que vou dividindo em partes por ordem cronológica. Se você lir a minha história, verá que no fundo, ela não é tão diferente da sua ou de qualquer outro brasileiro de qualquer formação religiosa. E por extensão tampouco difere da formação de uma criança na Arábia Saudita, na China ou na África. Desde cedo na vida somos bombardeados com religião. Nos primeiros meses ou semanas de vida, numa época em que sequer sabíamos falar ou raciocinar, fomos “batizados” por um padre que respingou água em nossa cabeças. E a partir daquele momento, a pessoa é, digamos assim, “católico”. Quando crianças participa-se da catequese. Bíblias eram distribuídas gratuitamente ems alas de aulas. Aula de religião. E diferente das aulas de inglês, esta era obrigatória. Em nenhum momento, durante toda a minha infância e adolescência, nenhum adulto em poder de suas faculdades mentais plenamente desenvolvidas me perguntou honestamente se eu queria fazer parte de alguma religião. Ter uma religião é algo óbvio na maioria das culturas. Você TEM de acreditar em Deus, céu, inferno e no fim do mundo.

Deus, um delírio


Eu decidi ler algo ainda mais forte para encouraçar as minhas convicções. Quando vim morar aqui na Holanda, eu me assustei com as pessoas afirmando serem “atéias”. Apesar de, na época, eu já ser bem adulto e informado, eu me perguntei como era possível uma sociedade atéia ser exemplar, trabalhar, pagar impostos e não fazer mal a ninguém. Mas isto é o que eu vejo há 7 anos morando aqui. Em 2011 eu li o livro Sam Harris ‘A morte da fé’ em holandês. Achei o livro esclarecedor mas ao mesmo tempo, eu queria motivos para não acreditar em Deus e não motivos pelos quais as religiões, heranças de nossos pais, não devam ser levadas a sério. O livro de Sam Harris não era ainda o que eu precisava. Então encontrei na internet o livro de Richard Dawkins “Deus, um delírio” em português brasileiro e este sim, li com muito entusiasmo.

Eu queria entender como alguém pode ter tanta certeza de que Deus não existe. Porque se ele não existe, de onde vem todas as coisas? Como o universo pode ser tão perfeito? Como todos os pequenos detalhes dentro deste universo podem ser ainda mais impressionantes como a maneira como as células se reproduzem, como o sangue é bombeado ou mesmo como uma flor se desabrocha. Vamos supor que tudo isto apareceu por acaso, será que pode desaparecer por acaso da mesma maneira que surgiu? No final das contas, eu sei que as respostas à estas perguntas são apenas filosóficas e pessoais. Eu também havia entendido que “optar” por ‘deus não existe’ significaria passar uma borracha em cima de várias outras crenças que vêm acopladas à Deus: anjos, extraterrestres, diado e demônios, todas as formas de me expressar com palavras que incluam Deus (deus-nos-acuda, Deus me livre!, graças a Deus, etc)*.

Mas o que eu gostaria de saber mesmo era qual o ponto de vista de um professor de uma renomada universidade. O livro de Richard Dawkins começa muito parecido com o de Sam Harris mas de certa forma a gente sente mais auto-confiança nas palavras de Dawkins. Ele vai mais a fundo na ciência e deixa claro por a mais b que muitas das crenças religiosas não tem o menor respaldo científico mas que já estamos tão acostumados a acreditar que Jesus andou sobre as águas, que ressuscitou os mortos, que ascendeu aos céus, que Moisés dividiu o Mar Vermelho e que uma serpente falou com Eva e frustrou os planos de deus por ela simplesmente ter comido um fruto proibido, que acabamos achando isto normal.

A Bíblia nos ensina que deus é onipotente, onipresente e onisciente. Ou seja, neste exato momento em que estou teclando isto, deus está me observando. Aliás, apesar de soar arrogante, ele está agora mesmo atrás do meu ombro. É isto que onipresente significa, não? E se ele é onipotente, ele resolveria o problema da falta de variedade de frutas no Jardim do Éden e imporia maior controle na população das cobras falantes facilmente. Eu e você não poderíamos fazer isto, mas se tal termo “onipresente” fosse aplicado na vida real, ele poderia. E por ultimo ele é onisciente, de forma que ele ve a humanidade se auto-destruir de braços cruzados e não fez nada para impedir.

Ele vê milhares de pessoas padecerem até a morte de fome, sede, doenças e não faz nada. Se nós estivéssemos falando de uma pessoa de verdade com todos estes poderes, nós os chamaríamos de sádico. É como se o Superman existisse e visse a Lois Lane caindo de um prédio mas se negasse a salvá-la por algum motivo pessoal, talvez vê-la sendo esmagada contra o chão?

O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová tem outra fábula para explicar o porque de deus ficar de braços cruzados. Usando da história de Jó na Bíblia como base, elas creem estarem sendo testadas pelo Diabo. E este teste, convenientemente, inclui as criaturas espirituais que ninguém nunca viu. Partindo do princípio que nunguém lê ou leu a Bíblia por ter mais o que fazer, farei um resumo:

  • – Na Terra: Jó é rico e tem vários filhos e filhas belíssimas
  • No céu: o diabo (apesar de ter tantas outras pessoas com quem se preocupar) invadiu o escritório de deus e lhe propôs uma aposta. Apesar de deus ser contra jogatina, ele aceitou. O diabo testaria Jó e em troca Jó poria a culpa em deus. Detalhe: milhares de anjos estavam observando calados, como que eles mesmos tendo alguma dúvida
  • – Na terra: o diabo mata a todos os filhos de Jó, os seus gados são roubados (os capatazes de Jó devem ter morrido também) e para completar, Jó teve o corpo todo infestado de furúnculos. A sua esposa chegou a conclusão que dizer que tudo era culpa de deus resolveria a situação. Mas Jó em nenhum momento disse nada.
  • – No céu: o diabo perdeu a aposta e….?

Nada mudou. Tudo continua na mesma. A moral da história era que deus está de mão amarradas por que o diabo passou na cara dele que se ele ajudasse as pessoas, elas apenas o serviriam por interesse. E é nestas horas que eu começo a enxergar um monte de coisas desnecessárias na Bíblia:

  • – toda a humanidade envelhece e morre porque Eva comeu do fruto proibido. Ou seja, nós pagamos eternamente pelo erros dos outros.
  • – Jesus veio para nos salvar. Salvar do que? Por que já faz 2000 anos que ele esteve aqui e na minha opinião as coisas apenas pioraram. Se ele nunca tivesse nascido, ele teria nos salvado dele e de todas as guerras que já ocorreram em nome da religião

Deus sem você não existe

E este é um dos motivos pelos quais deixei de me considerar deísta. Deístas acreditam que deus exista mas que por algum motivo, ele não se envolve com os problemas da humanidade. Isto soa como uma pessoa que comprou algo para pagar em 12 prestações mas que após a 6a mensalidade decidiu parar de pagar e não se importa com as cartas de cobrança e de ameaça de ter o nome do SPC. Se o deus do deísmo existe, não consigo vê-lo muito diferente do meu pai biológico e de quaisquer outros politicos corruptos que prometem mundos e fundos sem a menor intenção de cumpri-los.

As palavras aqui podem soar duras mas caso queira realmente se libertar da hereditariedade da religião (a menos que, por exemplo, tenha decidido virar católico após os 30 anos) será preciso gritar isto para os 4 cantos do mundo e manter posição firme. A sua página de contatos sociais é abarrotada diariamente de posts que rezam algo como “Com Deus eu posso tudo”, mas tente publicar algo como “Você sem deus é você e deus sem você não existe” e corra sérios riscos de ser “desamigado” por vários deles. O que não é algo necessariamente ruim. Ao menos saberá claramente quem gosta de você. Quem gosta de você respeitará o seu ponto de vista. Se este amigo fosse o vizinho da frente, ele faria você “sumir” do universo para lhe evitar? Então, faça um favor a si mesmo e se livre deles antes. Conheça pessoas que pensam como você. Faça parte de grupos como o ATEA (124.000 cliques de “curtir”) e fortaleça a sua falta de fé. Outro grupo interessante é o SOU ATEU, BRASIL (quase 7000 membros). De vez em quando o grupo é bombardeado por um religioso fanático semi-analfabeto (ou totalmente analfabeto) dizendo que todo mundo vai queimar no fogo do inferno e isto é apenas uma reafirmação de o quanto a religião cega as pessoas e de que estamos realmente no rumo certo, no rumo da razão, no rumo de uma sociedade laica, que não precisa de deus para formar bons cidadãos.

*Para escrever este post até aqui eu optei por escrever Deus com letra maiúscula. Fiquei apreensivo que o leitor pudesse se ofender e parar no meio. Eu também evitei usar outros termos como “divindade” etc pois o leitor poderia se confundir. Creio que se você leu até aqui e continua interessado, não vai desistir agora. Doravante leia-se “deus”, com inicial minúscula.

O ano passou rápido, rápido demais e somente agora dei-me conta de que, se não escrever algo nos próximos dias, não terei tido nenhum post publicado este ano em meu blog. Mas eu tenho uma boa explicação para isto. Em primeiro lugar, se eu realmente conseguir concluir este post, ele será o primeiro escrito por mim no Brasil – estou aqui de férias e utilizando o laptop do meu parceiro. Tentarei fazer um resumo de como eu experimentei o ano de 2011 mas para tal terei de voltar à meados de 2010.

Muitas pessoas fazem votos de sucessos e consecuções no ano novo, seja lá o que isto signifique. Tudo que eu desejei de 2010 para 2011 foi não acumular mais frustrações. Eu tenho algumas, assim como todo mundo e tento não me concentrar demais nelas. Nas frustrações que, ao meu ver, foram diretamente causadas e fomentadas por mim mesmo, eu me esforço em amenizá-las e manter um sorriso no rosto. Na empresa onde trabalho há quase 5 anos, eu vinha igualmente há 5 anos me batendo de frente com o gerente-geral da empresa, que aos meus olhos nunca passou de algo parecido com um capitão do mato das histórias brasileiras do tempo dos escravos, cujo único objetivo era perseguir escravos rebeldes e ‘fujões’. Eu e este gerente deixamos claro um ao outro desde o princípio que não nos simpatizávamos e que isto não estava prestes a acontecer em nenhum momento no futuro próximo. A presença dele me sufocava, a sua voz sempre alta me incomodava, seus gestos hipocritamente e exageradamente amigáveis para com alguns, que os aceitavam como que barganhando uma carreira na empresa, funcionavam aparentemente bem, dando a impressão de tê-los como aliados. Sempre fiz questão de não fazer parte deste jogo imundo de favores. Eu sequer saberia como fazer parte disto. Não sei ficar rindo para pessoas a quem não simpatizo. Mas posso cumprimentar e dar bom dia. Sempre fiz o meu trabalho de forma séria e os erros que cometi caem facilmente na categoria ‘humanos’. Nunca achei que estava devendo algo a alguém e com certeza não ao gerente-geral.

Para explicar melhor como os problemas entre eu e ele escalaram-se, terei de recuar um pouco para meados de 2010. Agosto de 2010: o gerente-geral odioso teve a grande oportunidade de se vingar de mim, a qual estava ansiosamente esperando há anos. O subgerente (coincidentemente o ex dele, colocado na empresa no famoso kruiwagen, pistolão) resolveu fazer um caça às bruxas a todo mundo que estivesse ‘usando’ Facebook no computador de trabalho, com diretrizes recém-inventadas e pouco claras, repassadas em tom de voz irritadiço como ‘desconecte o Facebook agora’. A minha simples pergunta foi ‘por quê?’. Sim, por quê? Por que de repente? Por que tão arbitrariamente? E por que o tom de voz irritadiço? Eu trabalhava na empresa há 3 anos e meio e esperaria uma resposta mais razoável e no mínimo respeitosa. Mais tarde descobri que vários outros colegas foram pressionados da mesma forma a deletarem as suas contas no Facebook. Como eu me neguei a obedecer e ainda retruquei com o mesmo tom de voz irritadiço, fui convidado para uma ‘reunião’ pessoal. O subgerente não soube dizer outra coisa senão o ‘tá demais’. O que ‘tá demais’? Eu não entendo esta língua. O fato de eu ter o Facebook conectado em meu computador não quer dizer de jeito nenhum que eu o esteja ativamente usando. E de mais a mais, nunca houve até o momento uma diretriz clara à respeito do uso de internet na empresa, nunca houve uma reunião a respeito e nunca o assunto foi discutido. De uma hora para outra, o Facebook e seus usuários viraram alvo de perseguição. Mas eu, em especial, virei alvo de perseguição nas mãos do gerente-geral e do subgerente que sempre me trataram com antipatia e indiferença. O subgerente não teve argumentos fortes para discutir comigo: aumentar o tom da voz dele ao ver que não estava conseguindo os resultados desejados não me intimidou e ele chamou então o gerente-geral. Os dois juntos conseguiram transformar a sala de reuniões num circo, tal qual eu nunca havia visto nada igual, nem durantes os conflitos de trabalho que eu já tive no Brasil. O gerente-geral aproveitou o ensejo para apontar vários “erros” cometidos por mim, vários “favores” que a empresa já me fez e vários defeitos na minha personalidade. Em nenhum momento tive a oportunidade de falar. A algazarra durou meia-hora e fiquei com dor de cabeça permanente após a discussão, por 5 dias seguidos.

Estava claro para mim que eu precisava abandonar esta empresa imediatamente. Senão eu poderia ainda furar o gerente-geral ou o subgerente no pescoço com uma caneta tinteiro e claro, ir para a cadeia.

Sede da empresa jurídica em Amsterdã

Na mesma semana fui à uma empresa jurídica para conflitos no trabalho (DAS), que coincidentemente ficava em frente ao prédio do escritório que eu trabalho e me foram dadas coordenadas quanto a como eu deveria me portar e quais documentos eu deveria apresentar. Várias coisas precisariam ser “provadas”. Mas como provar algo que é simplesmente a minha experiência? As coisas horríveis que eu ouvi foram ditas e gritadas e não escritas ou gravadas. Um outro outro colega disse que testemunharia a meu favor mas ele mesmo correria o risco de perder o seu emprego. Eu precisava pensar no assunto e consultar o travesseiro. Eu tinha alguns e-mails enviados para mim pelo gerente-geral sobre problemas que tivemos anteriormente e os quais eu salvei. Ele nunca perdia a oportunidade que usar termos como “play stupid” que não é inglês autêntico mas quem sabe falar holandês capta a expressão “dommetje spelen” (fazer-se de bobo/joão-sem-braço). Já no início do meu contrato em 2007, nos desentendemos porque, segundo os poderes a mim conferidos pela empresa, eu penalizei alguém que estava me assediando, um brasileiro frustrado que vivia na Alemanha estava chamando a todos os alemães de nazistas e racistas. Ele criou um perfil falso com a minha foto e escreveu acima “Daniel, racista”. Descobri mais tarde que este brasileiro era o ex-parceiro dele. Houve, mais tarde, repetidas situações nas quais sarcasmo e ironia despropositados eram lançados ao ar. A má notícia é que eu não tinha a menor dúvida de que ele queria desesperadamente me atingir. A boa é que o gerente-geral nunca mais dirigiu a palavra a mim, poupando-me de ter de encará-lo.

Como ‘psicopata’ (conforme alguns o chamavam) e bipolar ele tinha um extenso currículo. Segundo estes colegas que se autodemitiram, quase sempre por não terem sua privacidade respeitada, terem-lhes prometido aumentos salariais impossíveis, terem suas fotos expostas sem o seu consentimento, etc. Alguns destes abandonaram o escritório em meio do expediente, bateram a porta em estrondo e nunca mais puseram os pés no escritório. Até meados de 2010, este ‘psicopata’ gerente-geral reinou absoluto no local de trabalho. Imaginei que, se a situação seguisse assim insustentável por tempo ilimitado, eu deveria desde já começar a olhar além do meu mundinho e procurar alternativas. Criei perfis em vários sites de ofertas de trabalho, fiz telefonemas e disponibilizei-me para entrevistas. Por volta de setembro/outubro de 2010, fiz uma série de entrevistas para a função de tradutor e corretor de textos numa grande rede de reservas de hotéis. Não era nenhum salário brilhante mas eu mataria dois coelhos com uma cajadada só: eu me livraria do calo em meu sapato chamado gerente-geral, não agrediria ninguém e portanto não correria o risco de passar uma noite no xilindró. Apesar de ter chegado à última entrevista da série na rede de reservas de hotéis, não fui selecionado para a função e infelizmente fui obrigado a continuar aceitando a minha situação conflituosa anterior.

E assim terminou o ano de 2010, com gosto de raiva, frustração e impotência.

Janeiro de 2011. O gerente-geral foi “misteriosamente” demitido. O dono da empresa, ‘com lágrimas nos olhos’ anunciava a demissão do gerente-geral, que era, além disto, um amigo pessoal. Seu rosto demostrava luto, ao contrário da expressão estampada nos rostos de todos os outros. Eu sentia vontade de soltar fogos de artifícios e pagar uma rodada de cerveja para quem quer que fosse mas tive de fingir com o meu melhor conhecimento teatral que estava em choque ou em estado de negação. Com todo respeito, quem algum dia poderia chorar por aquele energúmeno? O sub-gerente pediu que respeitássemos a memória do ex-gerente-geral e evitássemos conversas internas sobre o assunto. Eu e alguns colegas fizemos exatamente o oposto: começamos uma investigação sem precedentes para descobrirmos o que levou à demissão do gerente-geral. Mas todos calaram-se. Para alguns foi um alívio verem-se livres do gerente-geral. O início de uma nova vida. Uma nova dinastia de paz e felicidade estava à caminho. Mas o que poderia ter sido tão horrível? Como simplesmente esquecer o assunto e perder a grande oportunidade de ‘passar’ tudo na cara dela se um dia o encontrasse por acaso na rua? Não sou a Madre Teresa de Calcutá, nem quero ser. Com ajuda da equipe de colegas que se dedicaram incansavelmente como investigadores vários “podres” sobre o gerente-geral foram desenterrados, inclusive detalhes de sua vida sexual (o que não me interessa) mas nada de grave que justificasse uma demissão sumária. Gostei, no entanto, de saber que a station wagon que ele dirigia não lhe pertencia, e sim à empresa. Por que demorou tanto para fazerem uma fiscalização mais séria?

Toda a situação conflituosa convenceu-me ainda mais a procurar alternativas para 2011. Eu tinha certeza absoluta de que não queria mais trabalhar nesta mesma empresa. Mas numa das muitas consultas ao travesseiro, concluí que o meu problema não era este subgerente ou aquele gerente-geral, esta empresa ou aquela empresa; o meu problema era ‘ter patrão’. Fazendo uma retrospectiva rápida da minha vida trabalhista, não é difícil de perceber que nunca fui bom em acatar ordens, muito menos as dadas em tom de arrogância e truculência. Eis um resumo:

1988 – 14 anos, primeiro emprego numa rede de farmácia em Santos. Erros de outros eram dados a mim com assinatura falsa. Eu exigi uma compensação por isto.

1992 – 18 anos, segundo emprego numa fábrica de calçados em Sergipe. Alguns dos ‘chefes’ eram de fato bipolares, acho até que bipolaridade era parte integrante do currículo. Deixei alguns falando sozinho. Fui taxado de ‘arrogante’ inúmeras vezes. Não vou nem mencionar as conotações racistas porque ouvir que tudo não passa de algo da minha cabeça me incomoda mais ainda. Não ser arrogante para algumas pessoas é não defender-se e ouvir passivamente outras pessoas lhe humilharem. Então, sim, sou arrogante.

1998 – 23 anos, lecionando inglês, aguardar quase dois meses por um salário mixuruca enquanto o seu ‘chefe’ está trocando de carro é coisa que eu não consegui mais engolir a partir desta época: aprendi a cruzar os braços, trabalho em troca em salário.

2002 – 27 anos, guiando, salários melhores mas patrões que pensam que você apenas trabalha. Você perdeu todos os direitos de ir ao cinema, fazer compras, ter um relacionamento. Em certa reunião reclamei que trabalhávamos quase 50 horas semanais e que o salario fixado não cobria os sacrifícios. Eu praticamente falei sozinho. Não tive o respaldo de meus colegas e fui demitido um mês depois de ter sido acusado de um erro que não cometi.

2006 – 32 anos, faxina na Holanda. Dividindo um edifício inteiro com uma jovem holandesa, dei-me conta de que ela estava empurrando a parte mais ‘suja’ e pesada do trabalho (remover teias de aranha e aspirar o pó de 3 amplos andares) para cima de mim enquanto ela estava ocupada fazendo telefonemas para vender ‘tupperware’. Não hesitei em entregá-la.

E antes que eu ouça algo como ‘esqueça o passado e perdoe os ofensores’, o passado só fica para trás quando o que quer que estivesse em déficit é superado de forma permanente. Perdão genuíno a quem lhe ofendeu só chega quando esta pessoa pede-lhe perdão de forma espontânea. Quando e como isto acontece é algo muito pessoal. Superar o déficit do passado depende muitas vezes de sorte, independente do esforço que se faz para corrigi-lo. Ao menos vale o conselho: sem se esforçar e apenas depender da sorte é que não conseguiremos corrigir este déficit. Na mesma época em que estava dando por perdido encontrar um novo emprego (já que o gerente-geral-capitão-do-mato havia sido demitido sumariamente de qualquer forma), recebi um convite para dar aulas de português para holandeses por um instituto de ensino que já atuava há alguns anos no mercado holandês com certo êxito. A entrevista foi em Rotterdam, cheguei pontualmente mas aguardei 1 hora pelo entrevistador e idealizador do instituto que atrasou-se, e que não teve a gentileza de desculpar-se, deixando uma impressão péssima já em nosso primeiro contato. O restante da entrevista decorreu bem e comecei a trabalhar em meados de janeiro de 2011. A primeira aula foi um sucesso e eu me perguntei a partir daí por que eu nunca havido levado à sério dar aulas até aquele momento. Lecionar português é tão difícil quanto lencionar qualquer outra língua estrangeira e tive de me atualizar urgentemente. Infelizmente não demorou muito até que eu descobrisse que este emprego também era outra ‘furada’. O dono do instituto não cumpria a sua palavra para com os próprios alunos, tinha um método estranho e ambivalente de calcular preços e horas, atrasava a entrega dos materiais didáticos e comecei a ter problemas sérios pessoais com ele quando começou a atrasar o meu pagamento. Recorri à já conhecida tática dos ‘braços cruzados’. E acreditem-me, funciona como um talismã.

Ao invés de canalizar as minhas energias para a pequenez de espírito de certas pessoas, como eu sempre o fazia antes, resolvi desta vez poupar-me, manter o espírito quieto e apenas ‘observar’. Observar o quê? Observar como uma pequena empresa deveria funcionar ou como não deveria funcionar. O que os clientes acham importante? O que eu iria querer se fosse o cliente? A partir de fevereiro comecei as pensar seriamente na probabilidade de ter o meu próprio negócio mas como fazê-lo? Quais as exigências formais e quais os primeiros passos a serem dados? Qual seria o meu público alvo? Que produto oferecer? Como torná-lo atraente e competitivo? Por volta de março de 2011 eu já tinha, não somente as respostas à estas perguntas, como havia começado ativamente a montar a empresa. Eu e meu parceiro decidimos juntos batizá-la de DAS Taaltraining. Coincidentemente é o mesmo nome da empresa jurídica de conflitos no trabalho que eu havia buscado em 2010. É além disto cada uma das iniciais do meu nome. O nome ‘escola’ ou ‘curso’ não são comumente usados para referir-se à cursos de idiomas na Holanda. Eu percebi que os nomes training e instituut eram os mais usados.

O próximo passo foi procurar uma empresa que criasse um website para a minha empresa. Eu já tinha em mente como queria a aparência do meu website e o grande desafio foi certificar-se se os desenvolvedores holandeses tivessem entendido as minhas instruções claramente. Descobri, no ínterim, que sou bom em dar ordens. Após longos 4 meses, o site ficou pronto. A empresa foi oficialmente lançada em junho de 2011 e em julho comecei a minha primeira turma. A preparação das aulas exigiu uma quantidade impressionante de tempo. Outra parte complicada foi contratar um contador que entendesse o quão desafiador tudo aquilo estava sendo para mim e onde eu estava precisando de ajuda. Outro desafio foi a parte de marketing: deixar interessados a par de tudo que ando fazendo através do Facebook, do Twitter, do Hyves, do Orkut, etc. Em 2011 consegui concluir 5 turmas e tenho outras 3 no momento. Se os planos derem certo, terei 4 já em janeiro de 2012, assim que voltar à Holanda. Empolgante é, mas representa também uma avalanche de trabalho, que dura às vezes até 1:00 da madrugada.

O trabalho secular mudou da água para o vinho. O novo subgerente é uma pessoa razoável e definitivamente não sofre de bipolaridades. Infelizmente o subgerente assumiu o lugar do ex-gerente-geral mas de certa forma, por motivos desconhecidos, está tentando também tornar-se uma pessoa mais razoável. Acho que todos os esforços dele ainda são sofríveis, mas prefiro as suas tentativas frustradas do que nenhuma tentativa, ou uma idéia preconcebida de que portar-se estranhamente seja algo aceitável, como era o caso anteriormente. Ganhamos novos colegas e a maioria nunca ouviu falar do odioso ex-gerente-geral. Parece tudo muito bom e muito bem. Mas alguma coisa quebrou dentro de mim e eu não consigo mais acreditar, nem sequer fingir que acredito que as pessoas ‘mudem’, pelo menos não se eu parar para pensar no histórico de pessoas bipolares com quem já trabalhei e conheci. Tornei-me, digamos assim, uma pessoa cínica. Acredito que quando hei de dar-me bem com alguém, isto acontece de forma espontânea e natural, sem interesses anexos e sem que eu tente provar isto à ninguém.

Durante a segunda metade do ano não tive mais tempo para concentrar-me em bipolaridades alheias. Precisei dividir o meu tempo sistematicamente entre os meus estudos (1o ano de tradução e interpretação LOI, atrasado devido aos acontecimentos deste ano), a manutenção da minha pequena empresa bem como o trabalho de relações humanas com os meus alunos, as minhas aulas dominicais de alemão com o Klaus Siebert, que mora há muitos anos aqui na Holanda e a atenção que deve ser dada sempre ao meu parceiro e aos amigos que não somente me apreciam mas também fazem questão de se encontrarem comigo para sairmos e nos divertirmos. Enfim, foi 2011 o ano em que finalmente fiz contato – comigo mesmo.

Retomei os meus estudos como intérprete e tradutor este semestre e resolvi debruçar-me nos livros antigos sobre a língua holandesa, mais para entretenimento do que para aprendizagem. E como estou dando aulas particulares também, achei interessante voltar a minha atenção para a língua holandesa. Adoro discutir detalhes da língua com o meu parceiro e tirar novas conclusões sobre tudo. Um dos muitos livros que eu tenho (e o qual estou analizando) é o Dubbel Dutch, de Kevin Cook, Editora Kemper Conseil Publishing. O livro é em inglês e escrito sob o ponto de vista de um inglês para outro inglês mas qualquer pessoa que domina a língua inglesa num nível intermediário/avançado entenderá imediatamente que existem mais diferenças entre o inglês e o holandês do que supõe a vã filosofia.

Não pense que o simples fato de saber falar inglês o vai ajudar  a aprender o holandês razendsnel, por que não vai. Vamos falar do inglês, idioma que eu amo, a propósito. O inglês tem regras gramaticais complexas e palavras muito específicas para casa situação. Ouvi uma pessoa dizer uma vez que o inglês fotografa a ação. Um exemplo é o verbo olhar. Qualquer pessoa com um conhecimento básico de inglês sabe que olhar em inglês é look mas um falante mais experiente sabe que deve usar glance para se referir a uma rápida olhadela e stare para um olhar fixo e penetrante. Usando look para tudo conseguirá ser entendido também, mas o seu domínio limitado da língua deixará a desejar. No mais, a língua inglesa não conhece inversões como o holandês e o alemão, o que poupa um bocado de tempo de um brasileiro. Outra grande vantagem é que pouquíssimos substantivos são referidos por gênero. Não há distinção entre masculino e feminino no artigo definido em inglês. Deve existir uma ou outra exceção de substantivos, com os quais é preciso saber que ao se referir á ele, é preciso lembrar-se do gênero, por exemplo ship (navio).

O Titanic era grande. Ele afundou.

Titanic was big. She sank.

No mais, a ordem gramatical da língua inglesa faz enorme sentido para um brasileiro, de modo que com apenas inglês básico você pode entender alguém e fazer-se entender.

O mesmo não é verdade em relação à língua holandesa. Não quero aqui entrar nos méritos da pronúncia, pois o que é complicado para alguns pode ser simples para outros. Estou falando da língua versus a língua. Se adquiriu um “excelente” dicionário holandês-inglês-holandês, depare-se com palavras (básicas) que não se ouve em lugar nenhum. E ao tentar utilizar a dita palavra, um holandês nativo fará uma engraçada careta de “não é bem isto” ou dirá: “Esta palavra a gente não usa mais”. E por que os dicionários deste país não estão atualizados? Acredito que é porque seria render-se ao fato de que o idioma (que é uma das principais referências na vida de uma pessoa) está enfestado de palavras que não fazem mais o menor sentido. Algumas expressões idiomáticas atuais no dito idioma ainda traz consigo palavras que mais se assemelham ao alemão (adoro esta língua também, mas é uma outra língua) que deveriam ser urgentemente extintas da língua, pois estas mesmas fazem parte do corpo das cartas enviadas pela gemeente (órgão mais ou menos comparável à prefeitura, mas com um departamento para acompanhar os novos moradores e imigrantes) e que uma pessoa num nível básico da língua jamais poderia compreender. Não existe sensibilidade para moderar o uso da língua, o que é básico e o que não é, o que todo mundo precisa saber e o que é ‘dispensável’.

Não quero que este post fique parecendo apenas mais uma crítica sem base à língua holandesa. Quero que sirva para abrir os olhos de todo mundo que me escreve perguntando como esta pessoa pode aprender holandês fluente em dois dias, baseado no fato de esta pessoa já falar inglês. Por isto citarei exemplos, fique à vontade para comentar, argumentar, concordar, discordar e mostrar outros exemplos pois tudo isto é para o benefício de todos nós que moramos aqui e dos que estão à caminho.

Pegue o seu dicionário para holandês na estante (seja ele qual for, no idioma que for) e procure a tradução para holandês de responder/answer. O que você encontrou?

ONOV WW (onovergankelijk werkwoord = verbo intransitível) antwoorden

Caso não seja uma pessoa muito voltada para linguística, deve ter esquecido o que intransitível significa. Significa que uma outra palavra não transita/não vem após o mesmo. Ou seja, após o verbo responder não se usa substantivo (uma palavra) como, e.g. telefone. Este é o verbo que queremos antwoorden.  

Agora faça um teste com o seu parceiro holandês (partindo do princípio que você tem um. Se não, me perdoe. Diga a ele que é apenas um teste). Peça para ele dizer em holandês Answer now!/Responda já! e ele dirá Geef een antwoord nú!. Resultado do experimento: segundo o dicionário, não deveria ter sido Antwoord nú!? Praticamente inexistente, apesar de que é isto o que está na maioria dos dicionários.

Se achou inglês fácil nos tempos de escola, então deve ter aprendido isto rápido:

Eu estou fazendo outra coisa.

I am doing something else.

A única coisa com a qual você teve de prestar atenção foi que “outra coisa” em inglês não é “other thing” mas something else. Quase todo mundo com um certo nível de inglês sabe isto. O início da frase, porém, é praticamente idêntico ao português se traduzido ao pé da letra.

Mas em holandês a coisa muda de figura. A gente aprende, a princípio, que o gerúndio (esta coisa de : fazendo, falando, andando que o pessoal de call-centers usa e abusa) não existe em holandês, o que existe é um tal de aan het + verbo. Então:

Eu estou fazendo algo.

Ik ben iets aan het doen.

 Outra coisa é iets anders, então a frase ficaria:

Ik ben iets anders aan het doen.

Teste do parceiro. Peça para ele dizer a frase acima em holandês e ele dirá Ik ben met iets anders bezig. Resultado do experimento: onde foi parar o aan het doen? Se existe, é pouco falado. Simplesmente dizer que “também está correto” não responde a minha pergunta inicial de porque os dicionários não supriram esta informação (creio eu, básica da língua) explicando as diferenças entre elas?

Vamos fazer a viagem contrária e investigar bezig num dicionário de holandês para outro idioma:

Eu sinto a ligeira impressão que os dicionários deste país não querem aceitar o simples fato que no dia-a-dia bezig é o atual aan het doen. Comentando isto com o meu parceiro, ele disse:

Depende de com quem se está falando. Gente simples se comunica de um jeito e gente de certa educação, de outro. Com quem você pretende se comunicar, afinal?

 Pode até ser. Mas deve existir em algum lugar um denominador comum, eu suponho. E de mais a mais, qualquer idioma sofre alterações de tempos em tempos (tal qual a nossa própria língua portuguesa) e novos vocábulos precisam ser aceitos, uma vez assimilados pelo grande público. Exemplo: o famoso verbo ontvrienden do Facebook (diretamente do inglês unfriend) que já poderá ser encontrado em versões atualizadas do Groot Van Dale, dicionário este que está para os holandeses tal qual o Aurélio para nós brasileiros. Não sei se o equivalente disto existe em português. 

Os exemplos são infinitos. Vou escrever mais outros 3 ou 4 posts a respeito deste mesmo assunto. Um último exemplo apenas antes de terminar este atual post.  Pegue o seu dicionário outra vez e procure a tradução para holandês de lembrar-se/remember. O que encontrou?

OV ONOV WW (overgankelijk en onovergankelijk werkwoord = verbo transitível e intransitível) zich herinneren

 Teste do parceiro. Peça para ele dizer a frase acima em holandês Lembra-se?/Do you remember? achando que talvez ele dirá algo como Herinner je? mas que para a sua surpresa, ele dirá Weet je nog? Da mesma forma, iets niet meer weten é simplesmente esquecer. Muito, muito mais usado do que vergeten, o qual é (na minha opinião) um dos verbos mais inúteis da língua holandesa (não entrando no mérito da trabalheira que dá aprender a diferença entre heb vergeten e ben vergeten). Se quiser dizer que esqueceu algo em casa, diga algo como:

Ik liet mijn portemonnee liggen.

E não: Ik heb mijn portemonnee vergeten.

Se quiser dizer que finalmente lembrou (de) algo, não se diz em holandês Ik weet nog mas Ik weet weer, ou seja, você sabe de novo

Espero não demorar muito para escrever mais a respeito em posts vindouros. Vou me esforçar pois ando sem tempo ultimamente em conexão com os meus estudos.

Acabo de retornar de uma consulta com o fisioterapeuta e não acho que ele esteja muito satisfeito comigo. Hoje foi a nossa segunda consulta e acho que a último também. Há duas semanas atrás foi a primeira vez. Tive um encontro com ele e com um outro fisioterapeuta, que coincidentemente, era um brasileiro. Minha queixa: meu braço se desloca com certa facilidade quando eu faço movimentos bruscos.

A primeira vez foi em meados de 2000: eu desloquei o braço durante uma luta corporal com o meu parceiro na época. Deslocamento é chamado na medicina de luxação. Fui levado às pressas de táxi até o hospital mais próximo em dor angustiante, principalmente sobre as lombadas das estradas. Ao chegar ao hospital tive de aguardar algo como um hora mais ou menos, deitado sobre uma maca, até fazer uma ressonância eletromagnética e ter os resultados em mãos para que os médicos tivessem certeza que nada estava quebrado. O problema é que era 1 hora da madrugada e o enfermeiro encarregado disto estava ocupado com outras coisas. A dor que eu sentia ia dos ombros até o meio da minha coluna. O mais leve movimentar de dedos ou pescoço fazia todo o meu tórax revolver-se de dor. Com o braço relocado, a dor tornou-se imediatamente tolerável. Fui engessado até o pescoço e aconselhado a usar a tipóia por um mês.

Segui as recomendações médicas passo a passo e aos poucos fui conquistando a auto-confiança e recuperando meus movimentos.

Anotações em minha agenda de 2003 que incluem um desenho do motorista sobre o acidente, o qual, após perícia foi comprovado ser uma fraude. O motorista simplesmente cochilou atrás do volante.

No dia 24 de janeiro de 2003,  tive uma luxação no mesmo local num acidente de carro. Eu era guia de turismo e estava empolgado pois havia sido contratado recentemente por uma empresa de turismo. Eu fiz a seguinte anotação em minha agenda de 2003:

“Esta deveria ter sido a programação para hoje mas eu jamais poderia ter previsto que hoje talvez pudesse ser o último dia da minha vida. Uma hora e meia depois de J., motorista novo da empresa x me pegar de carro (uma pick-up) aqui em casa, o carro quase colidiu com um caminhão. J. Consegiu desviar-se, jogando o carro 3 metros abaixo num barranco. Salvamo-nos mas tive luxações sérias bem como um ombro deslocado. J. Teve 7 pontos na nuca e ficou temporariamente imobilizado do pescoço para baixo. O carro capotou várias vezes, ficando finalmente com as rodas para o ar. Recebemos atendimento emergencial na Vitalmed de Sauípe…O acidente foi num local chamado Diogo, a 8 km de Sauípe…A mão com a qual estou escrevendo agora está engessada. O braço direito está na tipóia. Estou tomando analgésicos e anti-inflamatórios.”

A pick-up ficou irreconhecível. Experimentar a sensação de que você poderia ter morrido muda toda a sua vida. E com certeza mudou a minha, pois eu acredito que tudo o que aconteceu em sequëncia depois disto, levando-me a onde estou e quem eu sou, 7 anos mais tarde, está diretamente relacionado a este acidente. Ou seja, para mim, a experiência foi apenas positiva.

Eu de tipóia e minha filha, no mesmo mês do acidente de carro.

Exceto pelo fato de que o mesmo braço sofreu uma segunda luxação e de lá para cá, ele nunca mais foi o mesmo.

Movimentos bruscos como quando por ocasião de um espirro ou como quando se perde o equilíbrio (por exemplo, ao pisar numa casca de banana ou quando a neve vira gelo) são proibidos para mim, pois eu sei que isto é o que eu preciso para deslocar o meu braço. A dor nunca mais foi tão excruciante como em 2000 ou em 2003, mas é suficiente para fazer a minha pressão cair ou deixar-me tonto, mesmo depois que eu consigo reajustar o braço.   

A última vez que aconteceu foi há uns dois meses atrás quando eu estava praticando  patinar inline ou em linha. Este tipo de patinação é uma modalidade do pacote viver melhor que eu incluí na minha vida para o ano de 2010.

Nova paixão: ciclismo

A outra modalidade é ciclismo, esporte pelo qual estou apaixonado. Mas patinar na modalidade inline pode ser arriscado, pode-se, na pior das hipóteses, quebrar o pescoço ou fraturar a região pélvica e ficar incapacitado pelo resto da vida com a perda do controle ao cair para trás.  

Aos 35, quase 36 anos não quero correr mais riscos. Queria um conselho profissional. E por isto fui ao fisioterapeuta do meu bairro. Após muito esticarem o meu braço para cima e para baixo, para direita e para esquerda, perguntando-me “dói?”, eles disseram que eu não tenho nada nos ossos, mas sim nos músculos. Fiquei céptico, afinal de contas frequento a academia a um ano e meio. Eles disseram que o que eu precisava era recuperar a minha auto-estima. Mas não é a perda de auto-estima que causa a dor quando eu faço um movimento brusco, não? Não, eles disseram.

músculos do dorso da escápula

Mas os músculos ao redor do dorso da escápula, entre os quais o músculo supra-espinhal, aparentemente não estão fazendo o dever-de-casa deles direito. Mas que isto pode ser corrigido com fisioterapia. Em todo caso, uma cirurgia definitivamente não é necessário. Marcamos consulta para dali a duas semanas…

…a qual foi hoje. Reafirmei ao fisioterapeuta (o brasileiro não esteve presente desta vez) o meu ceticismo, apesar de que eu respeito a opinião médica e profissioanal dele, mas a dor que eu sinto, é uma dor física real e não algo na minha cabeça, tipo um trauma do passado. Como eu disse, eu considero o episódio dos acidentes algo positivo. Mas agora eu quero praticar meus esportes sem sentir medo. Será que isto é pedir demais? O fisioterapeuta (muito simpático, devo admitir) ao pressentir que o próximo assunto seria eu dizer que iria buscar uma segunda opinião (interessante que isto não existe em holandês, o nome é falado em inglês mesmo: second opinion) disse que não estava aan het bagatelliseren (algo como trivializando) o meu caso mas que este era o melhor julgamento dele. Eu perguntei a ele: meus músculos ficaram flácidos após o acidente? Músculos não são sempre firmes? E com certeza no meu caso, ainda me considerando jovem e praticando esportes?

Eu me desculpei pelo ceticismo. Ele me recomendou uma série de exercícios para o músculo que eu terei de fazer diariamente, pelo menos até semana que vem, quando eu tenho outra consulta com outro fisioterapeuta que vai me indicar demais exercícios. Mas eu continuo céptico.

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