Você deve lembrar-se da minha formatura do curso de integração na Holanda. Naquela época Hoorn ainda era minha cidade domiciliar. O post, de 31 de março de 2006 trazia uma foto na qual eu e meus colegas de turma nos despedimos da escola, sentados na escadaria, ao lado Aloys do que foi nosso professor.

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Estou com o braço apoiado sobre a perna de Aloys

O Aloys não era apenas outro holandês que gostava muito do Brasil; ele era apaixondado por nossa cultura, língua e povos.

Em outubro daquele mesmo ano, ouvimos que o Aloys tinha um tumor no cérebro. Apesar dos incansáveis esforços de sua esposa, Eva, e de várias sessões de químio seu estado de saúde não melhorou e no último sábado, Aloys perdeu a batalha contra o tumor. Apesar de sua morte ter sido esperada, é sempre difícil de aceitar que uma pessoa saudável, que praticava ciclismo diariamente e que não fumava, morra aos 60 anos num país em que a expectativa de vida normalmente chega aos 80.

Em 2006, me ensinando a fazer o pão de queijo

Em 2006, Eva me ensinando a fazer o pão de queijo

Estive no enterro que foi realizado na última quarta-feira, dia 4 de fevereiro. A despedida do Aloys foi num restaurante que abrigava um salão em que os familiares fizeram seus discursos. Não havia uma única pessoa que não estivesse chorando. Foi mesmo de cortar o coração ouvir o choroso discurso de suas duas filhas, ambas grávidas, lamentando que pena é que o pai delas não iria conhecer os netos. A viúva do Aloys,

Eva, apenas leu uma poesia de Thiago de Melo em português. A poesia havia sido dedicada à ela por Aloys quando eles se conheceram. A poesia chama-se Madrugada Camponesa.

Madrugada camponesa, faz escuro ainda no chão, mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite, a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção feita de medo e arremedo para enganar solidão.
Agora vale a verdade cantada simples e sempre,
agora vale a alegria que se constrói dia-a-dia feita de canto e de pão.

Breve há de ser (sinto no ar) tempo de trigo maduro.
Vai ser tempo de ceifar.

Já se levantam prodígios, chuva azul no milharal,
estala em flor o feijão, um leite novo minando no meu longe seringal.

Já é quase tempo de amor.
Colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana, minha alma no seu pendão.

Faz escuro (já nem tanto), vale a pena trabalhar.
Faz escuro mas eu canto porque a manhã vai chegar.

Você se foi tão cedo, Aloys. Que triste. Que triste que você não vai conhecer seus netos. Não vamos nos esquecer de você e seus netos com certeza ouvirão muito de você. Minhas sinceras condolências para toda a família.