Apesar das críticas que eu li em vários blogs, comprei e li de capa a capa o livro “Comer, Rezar, Amar” (em inglês) de Elizabeth Gilbert, que teve mais de 4 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Eu havia assistido à entrevista dela no programa da Oprah Winfrey e anotei que este seria o próximo livro que eu iria ler. Devido às muitas mudanças na minha vida este ano,  não li tanto quanto eu havia planejado.  Apesar de o próprio livro entitular-se “a busca de uma mulher para todas as coisas da vida” acho que um título perfeitamente possível seria “a busca de um ser humano para todas as coisas da vida”. Ou melhor ainda “a busca de um ser humano para as coisas mais importantes da vida”.

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 Me entenda bem – não sou um leitor tão assíduo assim – sou um simples leitor, sem maiores pretensões, que lê de forma lenta e dentro dos meus próprios limites. Posso levar semanas para concluir um livro em alguns casos, mas gosto que o conteúdo do livro fique bem absorvido pelas minhas memórias e que este acrescente algo ás minhas opiniões, caso contrário, sequer começarei a lê-lo. De forma que houveram páginas que me fizeram rir audivelmente, outras que me fizeram chorar copiosamente e outras com as quais em nada concordei. Algumas páginas achei mesmo maçantes.

 Após finalmente chegar perto de sua idealização de um ainda vivo “sonho americano” após os ataques terroristas de 11 de setembro, Elizabeth Gilbert viu-se ás voltas com dilemas e circunstâncias por ela mesma criadas que a fizeram sofrer de ataques de ansiedades, os quais foram ficando cada vez mais fortes, até que um dia um destes ataques, ocorrido dentro do banheiro, a fez cogitar seriamente o suicídio. A vida, as obrigações, as expectativas dos outros, a bela fachada montada da “família feliz”, tudo isto a forçou a prostrar-se e a querer desistir. Claro que as conseqüências são sempre mais dolorosas do que a gente supõe, por exemplo, a gente não imagina que o divórcio vá ser contestado por um dos cônjuges, o que poderá ter como conseqüência que todo o processo tanto dure quanto custe mais.  No meio de todo este redemoinho, ela ainda se envolve emocionalmente com um homem que tampouco oferece o consolo que ela havia esperado. O relacionamento não pende para lado algum e Elizabeth sabe que ela não está se ajudando por continuar nele.

E como não existe receita infalível para a felicidade, acho a de Elizabeth muito válida. A sua situação como escritora-correspondente a possibilitou viajar, oportunidade esta que ela aproveitou sem hesitar para se conhecer melhor. Por ocasião da possibilidade de viajar para determinados países, ela já havia estado envolvida em diversos assuntos espirituais,  pela yoga e pelo hinduísmo de maneira geral, de forma que a receita de Elizabeth é extremamente pessoal e não deverá valer para outra qualquer outra pessoa mas a moral da história, sim, é válida para toda mulher ou homem que busca auto-satisfação: se você está infeliz, faça algo para mudar a sua vida. Não é que de repente você não terá mais medo de mudar, mas você ousará e abrirá espaço para que as mudanças ocorram. E acredite, quando se chega neste ponto de conscientização, as mudanças ocorrerão e sempre para melhor.           

 Os problemas não deixaram de existir da noite para o dia, mas Elizabeth descobriu que era preciso aprender a valorizar-se antes e depois à outra pessoa. Aquele período de redescobrimento de si durou um ano, o qual foi tempo suficiente para visitar três países que são a deram a ela a chance de experimentar num nível elevado para um dos verbos que são o título de seu livro, a saber, Itália, Índia e Indonésia (os três começando com a letra “I”, com a qual a escritora associa ao primeiro pronome do singular em inglês “eu”).

O que a levou à Itália foi sua paixão pela língua italiana, o qual ela descreve (em inglês pelo menos) com uma língua “mais bonita do que rosas” no capítulo 7. 

Durante anos, desejei poder falar italiano, idioma este que considero mais bonito que as rosas, mas que nunca consegui encontrar uma justificativa prática para estudá-lo… O que eu iria fazer com italiano? Não era o caso de eu querer mudar de país um dia.  Seria mais prático aprender a tocar sanfona.”

Ela acha absolutamente tudo lindo quando dito em italiano, até mesmo frases rotineiras como “attraversiamo” (vamos atravessar a rua) e mesmo palavrões (VAFFANCULO ou Vá tomar no – – ) quando os dois maiores times de futebol de Roma estavam jogando. Assim como em todos os outros países onde ela esteve ele conseguia fazer amizades muito fácilmente com os moradores do local que logo a incluiam em seus dia-a-dia e problemas. Apesar da escritora descrever os italianos como charmosos,  não foi lá ainda que ela conheceu um grande amor. O ‘grande amor’ dela na Itália foi uma visita à bela cidade de Veneza, na qual ela deliciou-se com a pizza mais divina de toda a Itália num singelo restaurante, dirigido por mãe e filha, escondido numa rua igualmente singela. Tendo-se convencido de que o prazer de comer era apenas parte de um todo em busca da felicidade, Elizabeth resolve que é hora de ir embora para casa, refletir em tudo o que havia experimentado de novo e decidir qual seria o próximo passo.

O capítulo 37 é o mais chato de ler porque fica difícil localizar-se no tempo, diferente dos capítulos anteriores sobre a Itália transcorrendo sempre sobre cheiros, sabores e texturas. A partir deste ponto, Elizabeth fala sobre “Ashrams” ou locais para a prática de yoga e outras formas de mediação, guru e sânscrito como se o leitor obviamente só poderia estar familiarizado com estes termos. Mas conforme você avança na leitura, você vai entendendo que esta percepção foi adquirida após uma longa batalha da escritora com ela mesma para se deixar chegar a um estado ‘zen’ de meditação, de que ela deveria abrir-se mais, deixar-se ‘vulnerabilizar’ pela crença do “om namah shivaya” (a divindade que habita dentro de mim). É preciso ter a mente aberta para prosseguir lendo os capítulos sobre a Índia, mas não creio que ninguém vá converter-se ao hinduísmo apenas baseado nas experiências pessoais de outra pessoa. Algumas delas são muito boas, como a estória da torre e das 10 instruções para se alcançar a felicidade, no capítulo 60, mas eu gosto mais da parte quando ela mesma se censura pelo fato de ser muito tagarela e de ela quer ser conhecida como a “menina mais calada do templo”.

“Retornando ao Ashram,…, cheguei a conclusão de que tagarelo demais. Para ser sincera, tenho tagarelado a vida inteira, mas tagarelar mesmo eu tenho feito depois que cheguei no Ashram… Esta é a estória da minha vida. É assim que eu sou. Ultimamente tenho achado que isto talvez pese no lado espiritual. Silêncio e solidão são práticas espirituais universalmente reconhecidas…”

Não vou contar aqui o que acontece em seguida, mas o exato fato de ela ser tagarela e ter tentado deixar de ser tagarela, a tornou muito útil no Ashram.  Chegou a hora de deixar a Índia e falar do próximo destino, a Indonésia, mais especificamente, Bali. Há informações interessantes sobre o país e a escritora fez uma excelente pesquisa histórica. Eu não sabia, por exemplo, que Bali era o único país com formação religiosa hinduísta da Indonésia. Neste país, todos sem sempre os mesmos 4 nomes, a saber: Wayan, Made (falado Madê), Nyoman e Ketut, que significam primeiro, segundo, terceiro e quarto, segundo a ordem de nascimento. A partir do quinto, volta-se ao primeiro nome e repete-se o ciclo. O que eu achei interessante nestes capítulos até o fim do livro foi como um cidadão americano se sente num país mais pobre. Em certo capítulo, Elizabeth conversa com um senhor desdentado e ele explica o porque de ele estar assim, ao passo que ela pensa: e o que que isto tem a ver? Mais adiante, ela tenta ajudar uma nova conhecida financeiramente e é interessante ver como pessoas de outras culturas lidam ou encaram o dinheiro. E finalmente, porque não dizer incomumente, um grupo de brasileiros, o que inclui embaixadores no núcleo rico da Indonésia. Elizabeth é apresentada de uma pessoa à outra até chegar a este núcleo. E como é típico de brasileiros, um charmoso senhor deste grupo estaria dando uma “feijoada” esta noite em sua casa e Elizabeth foi convidada. Não demora muito para que eles comecem a flertar um com o outro e conforme eles vão se conhecendo melhor, tudo explode numa deliciosa relação amorosa, com muito sexo. Tanto sexo, que Elizabeth acaba tendo um inflamação na vagina e precisa de cuidados médicos.

As partes em que Elizabeth começa a apaixonar-se pelo brasileiro e as dúvidas que ela passa a ter são bem familiares para mim. Como ela se pegou olhando para ele na cama, passando a mão nos cabelos dele e adorando cada minuto da companhia, ao passo que ela estava completamente armada para não apaixonar-se de novo também é bem conhecido por mim. Recomendo grandemente o livro mas abra bem a mente antes e deixe-se levar pela única verdade universal com a qual todo mundo concorda: todos queremos ser felizes.