Desde que fui informado que o meu pedido para tornar-me holandês foi aceito, tenho perdido noites de sono. Á uma semana da cerimônia oficial de naturalização, sinto-me invadido por um sentimento duplo e dúbio: a satisfação de finalmente sentir-me parte do país onde vivo atualmente e o que me soerguerá ao status de cidadão igual aos demais e a tristeza de deixar de ser cidadão do país que eu nasci e morei por mais de trinta anos. O motivo é que, segundo a atual legislação deste país, eu preciso abdicar da minha própria nacionalidade. Dupla nacionalidade é proibida, a menos que você seja legalmente “casado” com um outro cidadão do país.

passaporte-brasileiro

Não passa de mera formalidade, eu sei. Ninguém deixar de ser o que se é por causa de uma simples alteração de documento. Meu nome continuará o mesmo. No fundo, continuarei gostando de MPB (música popular brasileira), falando português com sotaque dos vários lugares que eu morei no Brasil (paixão especial por Salvador, na Bahia) e continuarei sentindo-me orgulhoso de o Brasil ser pentacampeão em futebol. De forma que o que para a maioria dos brasileiros que estão se naturalizando seja este passo considerado o “santo graal” da vida deles aqui, para mim é um grande motivo de conflito emocional.

Fico me perguntando o que vai mudar de aqui por diante. Se eu for ao Brasil de férias, terei de ficar na fila de fiscalização para os estrangeiros? Uma vez dentro do país, se eu desejar ficar mais tempo do que o planejado, terei de atender às regras estipuladas para estrangeiros como por exemplo, o prazo de estadia? O site Brasileiros na Holanda confirma o que todos afirmam: que um brasileiro não deixa de ser brasileiro. Mas eu acredito que só a prática mostrará o que é e o que não é verdade em detalhes.

E o que muda para mim aqui na Holanda? A primeira coisa que ouço de outros que já passaram por isto é que o direito a um “uitkering” ou seguro-desemprego é a maior vantagem, mas esta hipótese nunca me passou pela cabeça na verdade, pois além de o “uitkering” ser sempre menos do que o salário pago pela horas normais de trabalho, você tem de submeter-se às várias regras estipuladas pela UWV (o órgão que adminstra a distribuição do seguro-desemprego) como, entre outras coisas, não poder viajar, o que seria considerado extremo luxo nestes casos e precisar comprovadamente solicitar emprego semanalmente. Uma vantagem que me vem à mente é a de poder viajar pela Europa sem preocupar-me com as burocracias envolvidas para obtenção de um visto no caso de brasileiros.  Se bem que brasileiros não precisam de visto para visitar a Turquia e agora eu vou precisar.  Admito que há muitos locais e países aqui na Europa que eu adoraria conhecer um dia mas que seriam perfeitamente possíveis de ser visitados com um passaporte “verdinho”.

Nunca considerei tornar-me holandês um “santo graal”. Minha razão me dizia que eu poderia ter adiado esta decisão por mais alguns anos vindouros, mas que junto com ela, eu ia adiar meus projetos de vida. E acho realmente que a minha idade não me oferece mais esta possibilidade. Considerar-me um cidadão independente na Holanda, ter direito ao voto e participar ativamente na vida civil são pontos altos para mim. Mas estudar à nível universitário na Europa sem ter de pagar o triplo do que os europeus pagam, isto sim, considero uma vantagem incomparável.

passaporte-holandêsDe mais a mais, gosto de morar aqui. Aprendi a conhecer e respeitar alguns costumes locais que, no princípio eu deixei de fazê-lo. Alguns deles eu ainda não entendo. Mas nunca entendi certas coisas em meu próprio país tampouco. Nunca me considerei 100% brasileiro e nunca saí pelas ruas exibindo e/ou vestindo a bandeira do Brasil quando o Brasil nas ocasiões que eu presenciei o Brasil tornando-se campeão mundial. Sempre achei que certas coisas no Brasil poderiam ser melhores se nós nos incomodássemos mais mas nunca conheci ninguém morando lá que concordasse comigo. Mesmo morando aqui ainda é preciso tomar cuidado com as palavras que uso (se houverem brasileiros por perto) para referir-me ao país em que nasci e vivi por 30 anos pois isto seria sinal de eu estar me “degenerando”.

Uma vez holandês, continuarei decepcionando aqui também. Não consegui cultivar gosto por queijos requintados, não gosto de peixe defumado, não suporto “karnemelk” (um tipo de leite coalho com gosto azedo). Acho as festividades, as praias e o clima sem graça. Acho alguns holandeses extremamente intrometidos, sarcásticos e metidos a sabichões.

Mas aprendi que o mais importante é manter a mente sempre aberta. Talvez a virtude esteja realmente no meio. Só preciso descobrir como é que se alcança este estado de virtude.