Com o fim do período de férias na Holanda (que são os meses de julho e agosto) deparei-me com uma interessante cena na estação onde eu pego o metrô para voltar para casa: uma multidão recém-retornada das férias alinhada lado a lado, uma atrás da outra, como se fossem soldados com a cabeça baixa, teclando em seus provavelmente também recém-comprados aparelhos. Interessante eu achei porque eu mesmo havia acabado de subir as escadas rolantes até a plataforma também com o meu aparelho em mãos. Ele não precisava exatamente estar nas minhas mãos, já que tenho um porta-aparelho de couro para mantê-lo livre de arranhões. Mas a grande verdade é que eu estou “viciado” nele.
Deixe-me contar brevemente minha experiência com celulares. Em 1996 eu havia ido a uma agência da Caixa Econômica Federal, no bairro da Pituba, em Salvador, Bahia para sacar o meu seguro-desemprego e assustei-me com o ruído de alarme que parecia tão próximo e ao mesmo tempo tão distante que não só me assustou como me confundiu . Olhei para as portas giratórias para certificar-me que não era alguém colocando as chaves no pequeno quadrado de proteção que os bancos têm para impedir que alguém entre com uma arma. Não havia ninguém, só o segurança, que parecia bem à vontade. A senhora bem à minha frente ‘sacou’ então o primeiro celular que eu vi na minha vida de dentro de sua bolsa. Em comparação com os celulares do ‘ano já’, aqueles pareciam walkie-talkies ou qualquer coisa usada por Spock no filme ‘Jornada nas Estrelas’. No Brasil eles eram apelidados de ‘tijolão’; aqui na Holanda de ‘geladeira’ (koelkast).
Deste ponto em diante, parecia que eu era a única pessoa do mundo que não tinha um ‘tijolo’. Em 1999 a telefonia celular do Brasil separou-se da EMBRATEL (Empresa Brasileira de Telecomunicações) para o benefício de todos os brasileiros. Aprendemos então que os ‘tijolos’ já estavam mais do que ultrapassados na Europa e nos EUA. Neste locais, o celular já era bem menor, mais fáceis de manusear e chamados de ‘digitais’. Em contrapartida com ‘analógico’. O que estes nomes significavam não importavam: era apenas como comparar um disco de vinil a um CD.
Comprei então o meu primeiro celular a cartão ou ‘pre-paid’ (pré-pago). Assim como ainda é, ele era válido por 6 meses para receber ligação mesmo não estando carregado. Esta opção eu achei uma mão na roda porque eu estava desempregado em 1999 e definitivamente não teria dinheiro para ‘carregar’ o celular com muito mais freqüência do que isto. O mais importante era que eu estava na era ‘digital’. A grande desvantagem era que o celular era permanentemente ligado à área onde ele havia sido comprado (acredito que o sistema de chip não havia chegado ainda), de forma que quando eu mudei naquele mesmo ano, o meu celular tornou-se automaticamente DDD (discagem direta a distância) e ninguém mais quis me ligar. Vendi o aparelho. Fiquei um tempo sem. Comprei outro em 2001. Achei caríssimo. Desliguei o aparelho. Comprei outro em 2003 lado a lado com o aparelho do trabalho, achei que tinha peso demais nos meus bolsos. Ao vir morar na Holanda, comprei um celular usado. Os números daqui começam sempre com 06 (zero-meia, o que os holandeses chamam de ‘nul zes’, que é também outro nome para celular) mais 8 dígitos. Dez dígitos em total. Eu nunca consegui decorar este número. E com o sistema de ‘chip’ eu sempre poderia comprar um novo aparelho e manter o número.
iphone-512Eu vi um I-Phone pela primeira vez em 2007. À título do ‘blackberry’ que fez mais sucesso nos EUA do que em outro lugar do mundo, achei que o I-Phone havia vindo apenas para substituir a antiga agenda de bolso que todos nós compravamos em dezembro. Não me deslumbrou o pensamento de que se o aparelho caísse num poça e erodisse, eu perderia todos os meus contatos, as datas de nascimento (que eu nunca lembro) e outros detalhes anotados aqui e ali junto com ele. Algumas pessoas me aconselharam, com as melhores intenções, nunca sequer tentar substituir a agenda por uma destes ‘aparelhinhos’.
No início de 2008, eu tomei a infeliz decisão de assinar um celular Nokia, da empresa de telefonia celular Vodafone (aos ouvidos de um brasileiro soa como Fodafone). Havia um famoso celular do qual se podia sintonizar todos os canais de rádio. Além disto, o celular era pequeno e bonito de se ver. Fora isto não havia nada de tão útil. Conectar a internet ou baixar uma música era complicado e porque não dizer, caro.
Mas não existe nada mais implacável que o tempo e chegamos enfim em 2009. Em fins de 2008 eu lavei o meu celular junto com a roupa suja e perdi todo o aparelho. Aqui na Holanda funciona assim com celulares: se você assina por um serviço, digamos, para pagar €20,- mais 150 minutos ao mês e você leva o aparelho mais moderno possível com você para casa. No meu caso, eu havia acabado de perder o aparelho mais moderno possível e fiquei completamente ‘incomunicável’. Comprei qualquer celular de segunda mão através do grande site de compra e venda www.marktplaats.nl. Até o fim de dezembro do ano passado, eu achava que celular era apenas para comunicar-me com o mundo em caso de emergência. Esta noção foi grandemente ultrapassada com a chegada do I-Phone no escritório em que eu trabalho. De uma hora para outra, comecei a sentir-me tão ‘2000 and late’.
Na véspera de ir para Barcelona com todos os meus colegas de trabalho em maio deste ano, comprei o I-Phone. Barcelona Team Event 2009 172Não consegui fazer outra coisa com ele senão olhá-lo. Mal consegui enviar uma mensagem de texto (SMS), fazer uma ligação qualquer ou sequer tirar uma foto dos meus colegas. Era tudo muito diferente e moderno. Mas em nenhum momento duvidei que havia tomado uma decisão excelente em ter adquirido o aparelho.
Tenho meu I-Phone desde então. Praticamente não preciso mais estar na frente de um computador toda hora apenas para acessar e-mails. Eu checo todas a minhas 4 contas e acesso o site da empresa para a qual trabalho diretamente dele e sem pagar nada mais por isto. Nem, todos os sites foram adaptados para o I-Phone de forma que às vezes você tem de usar o polegar e o indicador para aumentar algumas letras ou trazê-las para a direita ou para a esquerda. Mas esta adaptação é apenas uma questão de tempo. Os sortudos com um laptop ou desktop da ‘Apple’ podem fazer uso mais completo do I-Phone pois eles foram projetados para funcionar juntos.
Se você baixar o programa do I-Tunes, você tem acesso a um excelente programa que converterá todas as músicas em seu harddisk em mp3. Uma vez convertidas você pode criar listas e organizar suas músicas por exemplo sob novos títulos como ‘MPB’ ou ‘música brasileira’, ao invés do vago e mixto demais ‘música latina’ como os computadores da Microsoft simplificam tudo o que vem da América do Sul. Você pode colocar todos os seus CD’s em seu I-Phone, mas cuidado, se você tem, digamos uns 100 CD’s aconselho que compre o I-Phone que com mais gigabytes possível, pois você não vai parar apenas nos seus 100 CD’s, você continuará preenchendo o seu aparelho sempre com mais músicas, mesmo porque é possível baixar novos números com uma comodidade impressionante através da ‘i-Tunes Store’. E você simplesmente se apaixona de ver todos os seus álbuns de CD, com suas capas tão únicas, a um toque de dedo de distância de você.
Neste quesito eu tive um pouco de dor de cabeça, porque a minha conta nunca era aceita. Sem uma conta não é possível, por exemplo, baixar uma música na ‘i-Tunes’ Store. Eu queria por exemplo ter ‘Poker Face’ da Lady Gaga em meu aparelho. Os muitos fóruns na internet a respeito do assunto não explicavam nada, apenas repetiam as mesmas dúvidas que eu já tinha. A empresa de telefonia que comprou os direitos de revender o I-Phone na Holanda, T-mobile, disse que eu deveria ligar para o representante do fabricante do aparelho e do programa na Holanda. Assim eu fiz, apenas para ouvir que eles tampouco sabiam a natureza do meu problema e como resolvê-lo. Tive que manter contato direto com a equipe de atendimento ao cliente nos EUA (foi-me pedido que eu me explicasse em inglês pois holandês ou português não eram idiomas falados pela equipe de atendimento) e finalmente consegui criar uma conta na ‘i-Tunes Store’ com endereço de um hotel qualquer nos EUA, o que eu pude depois inverter para o meu endereço verdadeiro depois que a conta foi criada e aprovada.