Desde recentemente moro em Flevoland ou Flevolândia, como diríamos em português.
 
 
Flevoland é uma província. Uma província abrange algumas cidades principais e algumas vilas, por exemplo, Flevoland conta com uma grande área de 1.419 km² que apesar de ser uma província, corresponde ao tamanho da cidade de Imperatriz do Maranhão. Até 2005 esta província contava com 370.000 habitantes que equivale mais ou menos à população de Florianópolis. O mais impressionante a respeito deste pedaço de chão europeu é que nada disto existia antes de setembro de 1949, quando a primeira parte desta província foi descoberta pela água pela primeira vez. Flevoland está para a Holanda assim como Brasilía está para o Brasil, com sua arquitetura moderna e arrojada e suas cidades-satélites.
 
Tratava-se do ponto mais alto da ousadia dos holandeses em quererem vencer o mar e conquistar solo seco. Nos mapas mais antigos da Holanda, esta área era um grande mar chamado Zuiderzee ou Mar do Sul que garantiu uma subsistência de pesca no país por muitas décadas. Mas os tempos eram outros e a pesca já não representava mais o ponto alto do produto interno bruto. Avião e carro já faziam parte do cotidiano e o interesse geral era locomover-se o mais rapido e confortavelmente possível. Isto sem mencionar que mesmo naquele período do pós-guerra, a Holanda já via-se confrontada com uma já impressionante explosão demográfica.
 
 
 Mas tudo começou bem antes disto, em 1916, quando os holandeses resolveram dar um basta às constantes enchentes que vinham assolando o país desde sempre. O arquiteto 200px-Dr__C__LelyCornelis Lely foi o responsável por um projeto no qual toda a água deste lago seria drenada por meio de contrução de diques de modo que um lado ficasse seco e tornasse possível ali a construção de casas. Por sobre o dique seriam construídas alto-estradas, de forma a ligar os dois lados da Holanda por sobre as águas. À duras penas e graças ao trabalho conjunto de vários operários sol-a-sol e sob chuva e vento fortes, foi concluído em 1932 o primeiro dique a cerrar o acesso do lago com o Mar do Norte, batizado de >Afsluitdijk. Esta forma de secagem de um lago chama-se ‘poldering’, sem equivalente em português para o nome. O nome ‘pôlder’ é usado na língua holandesa atual para referir-se à tudo o que é tipicamente holandês, assim como nós, brasileiros, chamamos tudo o que é típico de ‘tupiniquim’. Nem todo mundo ficou feliz com o ‘poldering’, pois a água do lago tornou-se doce, impedindo assim a existência das muitas formas de vida aquática, bem como toda a economia baseada na pesca.
 
 
A cidade de Lelystad, que é a capital de toda a província, começou a ser construída e habitada nos anos 60, já a cidade de Almere, que na verdade são várias cidades menores que formam um todo, no final dos anos 80. Nos anos 60, foram completados na zona sudeste de Amsterdã (chamado na época de Bijlmer, pronuncie Bélmer) grandes complexos habitacionais, edifícios para moradia, edifícios com garagens com um design um tanto futurístico para a época para suprir a demanda para moradia no país. O projeto, porém, não teve o sucesso planejado e poucos apartamentos foram vendidos, provavelemente porque eles eram pouco gezellig (agradáveis) de se morar, amplos e sobrepujantes demais talvez. As habitações continuaram vazias até o final da década de 70, quando o Suriname (nosso vizinho da América do Sul) tornou-se independente dos Países Baixos. Até o dia em que esta independência se concretizasse, os habitantes deste país tinham livre acesso para vir e morar na Holanda pelo tempo que quisessem e assim o fizeram. Do dia para a noite, o país foi invadido por hordes de surinameses que vieram em busca de um sonho, mas que levaram em pouca consideração o fato de que eles precisariam de um teto sobre a cabeça e de um emprego para se manterem. A solução mais prática e rápida para o problema da moradia para estes recém-chegados foram as habitações vazias já há quase duas décadas no sudeste de Amsterdã.
 
 
E assim formou-se a Holanda que eu conheço: holandeses, filhos de holandeses, nascidos aqui (leia-se autóctones) moram em Flevoland e os holandeses, não filhos de holandeses e/ou aqui não nascidos (leia-se alóctones) moram no Bijlmer. Para um brasileiro que vier visitar o sudeste de Amsterdã, ele não verá nada de errado: muitas árvores, vias cíclicas, creches, além de um comércio um tanto limitado mas concentrado e dinâmico. Para quem mora aqui, a cena é um tanto diferente: varandas amontoadas de bicicletas de criança, vasos de plantas sem plantas acumulados uns sobre os outros, varais extendidos com roupas íntimas masculinas e femininas, caixas de papelão com qualquer coisa imperecível dentro, sim, porque vai passar todo o inverno lá fora também. A cena consegue ficar pior para quem quer ir às compras e bem na entrada do principal supermercado local, depara-se com alguns dos antes mencionados alóctones, com suas aparências um tanto intimidante, oferecendo ‘qualquer coisa’ para quem ele considera ‘comprador’ em portencial, homens geralmente. Do outro lado, um grupo de meninas, entre seus 15 e 17 anos, todas com piercings nos nariz, calças caídas alguns centímetros abaixo da cintura e cabelos urgentemente precisando de tratamento discutem e fazem ameaças umas com as outras. Não lembra em nada a primeira Holanda que eu conheci em Hoorn há alguns anos atrás.
 
 
Como eu falei, existem várias Almere, sendo a principal, Almere Stad. Principalmente esta Almere consegue ser assustadoramente moderna. Todos os edifícios nela tem formas extremamente futurísticas que são suavizados apelas pelos lagos aqui e acolá e pelas árvores. O comércio de Almere Stad também é bem concentrado e dinâmico. Siga a rua principal de cima à baixo e você encontrará tudo o que precisa entre papelaria, loja de celulares, desktops e laptops, roupas de griffe, um grande cinema e um moderno teatro, com uma espetacular arquitetura em forma quadricular. Até alguns anos atrás, havia um palco hidráulico ‘permamente’ na praça principal, onde eu apareço nesta foto comprando flores em 2004, que infelizmente foi removido por motivo que desconheço.
 
 
Existem algumas cidades menores que foram a ‘grande’ Almere, mas não todas. Conheço, por exemplo, Almere Haven, a mais antiga de todas e a Almere Filmwijk (Bairro do Cinema), tendo este nome por ter todas as ruas com nomes de grandes atores dos primórdios do cinema e da televisão. Este último eu conheço desde 2004 e fica, na verdade, no centro. julho, agosto 2009 003A Almere que eu moro chama-se Almere Buiten ou ‘Almere de Fora’, nome que não faz jus à realidade, pois dá a entender que a cidade termina aqui, quando ela, na verdade, se extende para muito além daqui em sentido norte.
 
 

Moro num bairro chamado Regenboogbuurt (Bairro do Arco-íris) porque todas as casas dispostas em cada quarteirão, de um mesmo lado da rua, contam com pelo menos duas dentre as sete cores do arco-íris: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. julho, agosto 2009 023A frente das casas é totalmente coberta por vidros temperados, de modo que o mau-tempo não altera a sua cor e manutenção anual tampouco se faz necessária.
 
Kotterbos

Kotterbos

 Para alcançar a ampla área verde conhecida como Kotterbos, favorita dos almerenses para piquenique ou pescar ao longo do grande canal que nos separa da auto-estrada aqui perto (o que é um eufemismo já que praticamente qualquer lugar da Holanda, não importa o quão recôndito, nunca está muito longe de uma auto-estrada), tenho de passar por um bairro construído há mais ou menos 10 anos, chamado Eilandenbuurt, com casas e edifícios belamente modernos e futurísticos. As casas dispostas em cada rua tem a sua própria arquitetura, cores e estilo. Qualquer pessoa que tem uma opinião negativa de Almere definitivamente nunca visitou a cidade ou jamais foi além das fronteiras de Almere Stad. Quem aqui mora dispõe de bem mais qualidade de vida do que quem mora em qualquer lugar de Amsterdã pois aqui há o encontro equilíbrio entre arquitetura moderna, infraestrutura e natureza exuberante…