Eu e meu namorado concluímos a última temporada em DVD da série ‘Queer as Folk’ (algo como: Estranho como gente), que foi ao ar de 2000 à 2005 e conta, portanto, com 5 temporadas. Admito que fiquei meio decepcionado com o final mas acredito piamente na intenção dos escritores e dos produtores de criar uma material diferente, que retratasse o dia-a-dia dos gays de forma realista, ainda que chocante. No Brasil, a série foi chamada de ‘Os Assumidos’ para a tv cabo. queer as folkOriginalmente inglesa, a série foi adaptada para a tevê americana com atores, sotaque e nomes próprios americanos. Por exemplo: nomes de caráter predominantemente britânicos como Stuart, Vince e Nathan foram trocados pelos comuns Brian, Michael e Justin na versão americana. A versão americana é fiel à inglesa em vários detalhes do roteiro mas é melhor dirigida. Outras ligeiras alterações foram feitas com relação à morte de Phil (o ator Jason Merrells) já no início da verão inglesa. Na versão americana, a vida do mesmo equivalente, Ted (o ator Scott Lowell), foi poupada para a felicidade de todos os fãs, o que sem dúvida contribuiu para o sucesso desta versão pois Ted é um rapaz tímido, tem medo de perder o emprego e de rejeição de uma forma geral, como todos nós. Na versão inglesa, a mãe de Vince, Hazel (a atriz Denise Black) é mais excêntrica e ‘perua’ do que Debbie, a mãe de seu equivalente americano, Michael da versão inglesa. A boate gay, ao redor da qual a vida de todos os personagens passarão a girar nesta e nas próximas temporadas continua chamando-se Babylon. A versão americana é mais ousada tanto no roteiro, no figurino, bem como nas cenas de sexo mais explícitas: pênis não-eretos e semi-eretos, bem como seios, por inteiro ou não na tela da tevê. Pênis totalmente eretos aparecem em silhuetas.
 
O seriado, porém, retrata a história de um tímido e simpático rapaz americano, Michael (o ator Hal Sparks; Craig Kelly na versão inglesa), que é gay assumido, e de seus amigos também gays, mas que são um tanto ao quanto diferentes dele, pois ele trabalha como gerente numa rede de supermercados e convive mais de perto com a realidade de não poder ser ‘assumido’ o tempo todo. Seus amigos também freqüentam a mesma boate que ele, Babylon, e ali partilham suas frustrações e vitórias.
 
debbie
A mãe de Michael, Debbie (a atriz Sharon Gless) é uma mulher à frente de seu tempo, apesar de trabalhar num diner (uma espécie de lanchonete). Debbie tem um irmão em casa que não somente é gay, como também soropositivo. Na lanchonete em que trabalha, ela serve seus fregueses, na maioria gays, exibindo broches e ensígnias de entidades e organizações gays em seu avental, como a conhecida americana PFLAG para pais, familiares e amigos de gays e lésbicas. As camisetas que ela veste, sempre coloridas, contam sempre com uma ou outra expressão divertida como:
 
Eu amo meu pênis
Meu filho gay me deixa tão orgulhosa
Nunca desperdice uma ereção.
 
Não admira que ela tome a frente em passeatas gays e sinta-se uma consulente e defensora dos direitos gays na Pennsylvania.
 
Um dos amigos de Michael que merece destaque é o Brian (o ator Gale Harold; Aidan Gillen na versão inglesa), belo empresário bem-sucedido no ramo propagandista, amigo de infância de Michael, com quem tem uma amizade platônica e mora numa charmoso sótão. Brian é apesar disto um homem arrogante, dono de uma libido desenfreada, afetivamente desapegado de todo mundo e usa as pessoas para sua auto-satisfação e auto-afirmação. Aqui o Brian difere de seu surrogate britânico: ele parece querer esforçar-se mais para chamar a atenção de Michael e de mantê-lo solteiro, apesar de não amá-lo como a um namorado. A versão americana praticamente gira em torno do relacionamento, a princípio proibido, entre Brian e Justin, pois Justin tem apenas 17 anos. Na versão inglesa a idade era apenas 15. lindsay-michaelEles se conheceram no mesmo dia em que o filho de Brian nasceu, fruto de amizade com a lésbica Lindsay, parceira de Melanie, que tem péssimo relacionamento com Brian. As mães já haviam simpatizado com Justin pois ele havia se identificado ao telefone, durante o sexo com Brian, na hora que elas ligaram avisando o nascimento do bebê. Uma pérola de Melanie, tipicamente sarcástica, é quando Brian e Justin chegam ao hospital às pressas e encontram mães e filho no leito. Melanie diz:
 
‘Parece que todos nós tivemos uma criança no mesmo dia.’
 
Justin leva na esportiva e ainda tem o privilégio de escolher o nome do bebê, Gus. Alfred na versão inglesa.
 
Os outros dois amigos íntimos de Michael são Ted e Emmett (o ator Peter Paige; Alexander Perry na versão inglesa). O primeiro não é tão diferente de Michael quanto à timidez e o segundo é definitivamente o tipo que vem à mente quando pensamos em gays: efeminado, sagaz e porque não dizer, atraente.
 
Eu e meu namorado começamos a assistir o seriado sem compromisso, durante o ‘jantar’ na mesinha de centro, desde o final de 2008 quando nos conhecemos. Em outras palavras, passamos quase um ano assistindo ao seriado. Valeu cada minuto. Algumas cenas são extremamente tocantes, não somente para nós gays mas para qualquer pessoa que conheça alguém que é gay e gostaria de entender melhor o que se passa em suas cabeças.queer-as-folk-2
 
Em algumas cenas a gente vê a vida da gente sendo retratada literalmente. É impossível não se identificar com certas situações, por mais exageradas que pareçam. Nem todos os problemas giram em torno dos relacionamentos homossexuais mas também em dos relações humanas de uma forma geral. Apesar de muitos de nós, gays, considerarmos Michael um sortudo por ter a mãe que tem, na verdade ele se envergonha por sua mãe estar sempre tão envolvida com assuntos gays, em boates ou mesmo entrometendo-se em sua vida afetiva. Afinal de contas, mãe é mãe e quer sempre o bem de seus filhos. Debbie nem sempre aprova os relacionamentos de seu filho, e com certeza não quando um destes confessa ser soropositivo.
 
Apaixonar-se por um soropositivo é possível, já que a princípio não há nada nele que deixe visivelmente claro que se trata de uma pessoa contaminada. Eu já cheguei a gostar e quase ir para a cama com um soropositivo, mas tive a sorte de ele ter me contado antes de termos tomado o próximo passo. Foi muito honesto da parte dele, agora vejo. Em nenhum momento eu havia considerado não usar a camisinha, mas até então como princípio de moral e não como medida de prevenção da possibilidade de eu ter sexo com um soropositivo.
 
Bebê a bordo na trama, mães heterossexuais envolvidas na vida dos filhos homossexuais, uma lésbica que teve uma ‘recaída’ e se envolveu com um homem e gays que passam a duvidar da própria homossexualidade, temos também gays que já foram casados com o sexo oposto e têm filhos, como no meu caso e no do meu namorado. casamentoInfelizmente ainda é dada pouca ênfase ao assunto mas é possível acompanhar apenas na versão americana, o drama de David (o ator Chris Potter), o primeiro namorado de Michael, que tem um filho de seu casamento heterossexual. Assim como acontece na vida real, existe pouca comunicação e nenhuma amizade entre homens gays divorciados e suas ex-esposas. Os filhos deste relacionamento aparentemente não fazem distinção sentimental entre o genitor homossexual e o heterossexual. Assim como em qualquer caso de divórcio, por qualquer motivo que seja, as crianças querem sentir-se amadas por seus pais e isto lhes basta. A minha pergunta é se eles continuarão pensando assim quando atingirem a maioridade.
 
O seriado termina com a seguinte mensagem sobre os gays: nossa sexualidade é o que nos distingue de todas as outras pessoas. Se não a exercemos, então não somos o que somos. E não deveríamos sentir-nos reprimidos ou envergonhados por expressarmos nossa sexualidade. A falta de tolerância e liberdade nos empurra para situações extremas. A exemplo de países onde os gays não tem autonomia qualquer, eles precisam encontrar-se clandestinamente nos famosos cinemas de filmes pornôs, que não passam de local de encontro para gays ou bissexuais que querem uma rápida e descompromissada sessão de sexo. A grande maioria destes são casados, como eu também era quando freqüentava estes locais. A maioria das boates que eu frequentava em Salvador, na Bahia, não contavam com um darkroom, apenas pista de dança. No máximo um local um pouco mais reservado para sentar-se ao lado de alguém que você acabou de conhecer e gostaria de ficar mais à vontade com esta pessoa.
 
Eu trazia comigo sempre uma ou duas camisinhas, mas nunca lubrificante. Hoje eu vejo o quão arriscado foi a superexposição: em nenhum momento eu cogitei a possibilidade de a camisinha rasgar-se, o que realmente aconteceu algumas vezes. Aqui na Holanda, a exemplo da Europa e outros países do primeiro mundo, onde os gays tem seus direitos garantidos, o equivalente aos cines pornôs são os dungeons (literalmente ‘calabouços’), geralmente no porão de edifícios antigos que abrigam uma boate ou bar na parte superiora. Ou os calabouços também podem estar no primeiro andar, acima do bar ou boate. Eles são mais parecidos com os darkrooms do Brasil, sendo que os darkrooms brasileiros são apertados e pequenos e é preciso concluir rápido o que se propôs fazer lá, pois a fila anda e outros estão à espera. Aqui na Holanda eles são espaçosos, tem mesmo luz avermelhada e cabines por todos os lados. Estas cabines contam com papel (higiênico), lubrificante e camisinha. Creio que não preciso contar maiores detalhes do que se passa dentro de uma darkroom. Por mais assutador que pareça, estão todos pelo menos protegidos ou tem a chance de proteger-se gratuitamente. Todos são gays assumidos. Ninguém tem medo de ser surpreendido por uma batida policial, ser preso e ter sua vida sexual exposta. Uma pessoa passa a frequentar um dungeon quando achar que chegou a hora. safesex
 
Eu gostaria muito que meu familiares e conhecidos assistissem Queer As Folk pois isto me pouparia de muitas perguntas embaraçosas como: se você sabia que era gay, por que casou? como se todo mundo exercesse constante controle sobre sua própria vida. A respeito de minha vida como gay estarei escrevendo uma coluna à parte em meu blog de agora em diante. Tudo vai se esclarecendo com o tempo e com a experiência. Nem tudo é tão óbvio e claro na vida. Afinal de contas não há nada mais estranho do que gente, there ‘s nought so queer as folk.