Eu nunca havia ouvido este nome antes. Deparei-me com o termo enquanto discutia filosofia com o meu namorado durante o café-da-manhã. Descobri que Deísmo é o nome que se dá à aceitação da existência de Deus, questionando-se o envolvimento dele com a humanidade e com todo o sitema religioso. Por que comecei a discutir este assunto com o meu namorado? Não sei, mas mostrou ser um assunto esclarecedor, porque eu sempre me considerei agnóstico, mas naquela manhã, por um motivo ou por outro, eu descobri que era outra coisa. Mas agnóstico não é o mesmo que deísta. Agnósticos crêem que a simples conjectura quanto a existência de Deus é pura perda de tempo.

1987, eu com 13 anos em frente ao Salão do Reino

Eu nunca neguei ter inclinação para acreditar em Deus. Oras, fui Testemunha de Jeová por quase uma década (1987-1996) e como tal, estudei a Bíblia (Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas) à fundo. Era mais do que um simples ritual de aprender canções tocadas ao som de piano ou assistir alguma espécie de show-de-um-homem-só enquanto uma multidão ouvia atentamente. Era, já naquela época, tão cedo em minha vida, uma forma de vida, um completo sistema de leis e regras que eu acreditava genuinamente serem verdadeiras. E que se eu simplesmente conseguisse seguí-las, sem importar o quão difícil ou complicado pudesse ser, eu alcançaria a felicidade plena nesta vida e na próxima.

Ao abandonar as Testemunhas por outros motivos que vão além da falta de fé, passei a questionar algumas de suas doutrinas. Não foi decisão fácil deixar o grupo, mas me abriu a mente de forma a rever tudo o que eu havia aprendido até então. Eu não sabia que as doutrinas estavam tão arraigadas dentro de mim, e que eu continuaria tendendo a segui-las mesmo estando determinado a seguir um outro estilo de vida. Exemplos dos meus questionamentos:

1- Houveram milagres realmente? Eva falou com uma serpente? Uma mula falou realmente com Balaão? O sol parou sob ordens de Josué? Elias voou numa carroça de fogo? Entre outros efeitos especiais.

2- Por que que eu tenho de viver minha vida inteira aguardando o Armagedom apenas baseado em profecias de terremotos e guerras? E por que justo na minha vez?

3- Eu realmente deveria resignar-se a morrer à aceitar uma transfusão de sangue em caso de um acidente.

4- Eu deveria realmente ir atrás de outras pessoas e convencê-las do quanto eu estava convencido das minhas crenças.

5- Eu realmente queria viver para sempre apenas com aquele mesmo grupo de pessoas, sem incluir outras pessoas excelentes que eu conhecia, mas que ‘infelizmente’ não tinham afinidades com as Testemunhas.

6- Por vestir terno e gravata, seguir o ritual de três reuniões semanais, pregar para outros (ir ao serviço de campo, como elas chamavam), ir a congressos e assembléias eu realmente estava mais próximo de Deus.

Se Deus existe, ele sabe melhor do que qualquer um outro quem eu sou e como me sinto. Será que fingir ser outra pessoa deixaria Deus mais satisfeito? Eu não me sentiria feliz, por exemplo, se alguém que não gosta de mim, de repente agisse como se gostasse. Eu questionaria os motivos pelo qual esta pessoa está fazendo isto. Deus com certeza faria o mesmo. Concluí, por mim mesmo, que Deus, ou Jeová, conforme as Testemunhas de Jeová o chamam, ficaria mais satisfeito se eu professasse, não importando em que pé minha vida esteja, que acredito nele de todo o coração. E esta fé, ainda que não gritada de cima dos tetos é verdadeira e sincera. E prefiro isto a fantasiar-me de menino direito para provar publicamente algo que não sinto, e não sou e não é real.

Por outro lado, tenho dificuldades para crer em teorias como a da Grande Explosão. Não consigo admitir que uma simples explosão no ‘universo’ fez com que todos os planetas girassem com precisão matematica em torno do sol e organizasse todos os outros sistemas solares de tal forma no espaço como sabemos atualmente. E que esta mesma explosão deu início à vida na Terra sendo que esta forma rudimentar de vida se transformou no homem que somos hoje: inteligentes, voando de um continente para outro, comunicando-se uns com os outros através de distâncias impressionantes sem sequer sair do lugar e que a fantástica capacidade dos nossos olhos de enxergar em cores, a perfeita sincronia do funcionamento dos nossos órgãos internos, a concepção de uma criança, o desabrochar de uma linda e colorida seja tudo resumidamente fruto desta explosão.

Cientistas ainda discutem entre si a respeito de se o homem realmente já foi um símio ou não. Ninguém sabe responder por que falamos línguas diferentes. E por que somos tão diferentes uns dos outros: negros, brancos e amarelos? Por que damos nomes diferentes aparentemente às mesmas coisas, como Deus por exemplo? Enquanto a ciência balbucear a resposta a estas perguntas, continuo acreditando que existe um Criador. Não que esta seja uma resolução orgulhosa minha, mas mais porque não vejo outra resposta. Mantenho a mente aberta sempre, pois não quero me tornar mais ‘agnóstico’, mais um que acredita que é impossível achar a resposta à estas perguntas; acho esta postura um tanto ao quanto cômoda.

E como eu não quero ser considerado um pessoa cômoda, entrei num grupo de quase 1000 pessoas que, de alguma forma, se consideram ‘deístas’, no Facebook. O clube ostenta um logotipo de uma pirâmide, cuja parte superior da mesma está separada da parte inferior e acima dela, as seguintes palavras IN NATURE’S GOD WE TRUST (alusão às palavras que aparecem na moeda dos Estados Unidos) e que significa “Nós confiamos no Deus da Natureza”. O clube se chama simplesmente ‘Deísmo’ e acredito que devem haver por volta de outros 10 clubes no Facebook. Não compreendo por que existem diferentes grupos de ‘deístas’. Novamente a subdivisão da divisão. Existem muito mais grupos de ‘ateístas’ no Facebook e um destes teria por volta de 5000 membros. Me pergunto porque os poucos ‘deístas’ que existem (incluindo os que descobriram recentemente que o são) não se únem para formar um grande grupo no qual teríamos contacto com muito mais pessoas e todos poderíamos expressar o que pensamos uns aos outros, já que não há muito mais pessoas que queiram ouvir nossas opiniões.

Desde a semana passada leio o que chamam de a Bíblia do Deísmo, o livro ‘A Era da Razão’ (de 1793), de Thomas Paine via iPhone. Qualquer um que tem um celular tipo iPhone e lê em inglês pode acessá-lo com o aplicativo da Stanza.

Paine era um político mas também escritor e seu livro chocaria muito gente que eu conheço na Europa de 2010. Abaixo vai um trecho do capítulo 4, Sobre as Bases do Cristianismo, que trata dos fatos em torno de Satanás. Achei particularmente engraçado a parte que ele chama a conversa da serpente com Eva, de tête-à-tête, especialmente quando eu penso que se trata de um livro de 236 anos:

…Os mitólogos cristãos, após confinarem Satanás num abismo, foram obrigados a soltá-lo novamente para darem continuamento à fábula. Ele foi então apresentado no jardim do Éden, em forma de cobra ou serpente e nesta forma, ele entra numa conversa íntima com Eva, que não parece surpresa de ver uma cobra falar; e o assunto deste tête-à-tête é, que ele a convence a comer da maçã e este ato condena toda a humanidade.

Após dar a Satanás este triunfo por sobre toda a criação, supõe-se que os mitólogos da igreja (católica) teriam sido tão gentis ao ponto de mandá-lo de volta ao abismo, ou caso não, poriam uma montanha em cima dele (pois dizem que a fé remove montanhas) ou ele embaixo da montanha, conforme os mitólogos anteriores o fizeram, a fim de impedir que ele se infiltrasse no meio das mulheres de novo e causasse mais estrago. ..

…Eles apresentam então um homem cheio de virtudes e amigável, Jesus Cristo, que é ao mesmo tempo Deus e homem, e também filho de Deus, concebido de forma celestial, para ser sacrificado de propósito, porque dizem que Eva estava desejando comer maçã.

Mas eu prefiro manter a mente aberta e tentar entender seus motivos. Basicamente Paine bombardeia a Bíblia e critica absolutamente a tudo e a todos mencionados na Bíblia. Seu livro tem duas partes. A primeira parte eu já concluí. Comecei a segunda parte que trata é do Novo e do Velho Testamentos; estou empolgado e quero continuar lendo com a mente aberta, o que significa que eu posso concordar com Paine em algumas coisas e discordar em outras. Definitivamente não quero novamente que a minha maneira de pensar seja lavada por idéias alheis, nem mesmo as de Paine, mas aceito dicas e orientações de bom grado para desta forma dar mais base às minhas próprias idéias. Estou tentando casar minhas idéias com as afirmações deístas, conforme as li na Wikipedia.

Afirmações deístas e minhas próprias afirmações:

1- Acredito em um Deus, mas não pratico nenhuma religião em particular.

Concordo plenamente. Já tive uma religião e sei como funciona.

2- Acredito que a palavra de Deus são as leis da natureza e do Universo, não os livros ditos “sagrados” escritos por homens em condições duvidosas.

Devo admitir que tenho um grande respeito pela Bíblia Sagrada. Acho difícil refutar absolutamente tudo que ela contém. Será que sou menos deísta por causa disto. Tenho tendência de refutar tudo que é demasiadamente extremo.

3- Gosto de usar a razão para pensar na possibilidade de existência de outras dimensões, não aceitando doutrinas elaboradas por homens.

Gosto de pensar na existência de outras dimensões. Se ‘usar a razão’ significa algo como ‘nunca vi, não acredito’ não é meu ponto de vista ainda.

4- Acredito que os ideais religiosos devem tentar reconciliar e não contradizer a ciência.

Com certeza. Mas da mesma forma que a ciência ainda não conseguiu, por exemplo, encontrar uma cura para a AIDS, me pergunto o quanto a ciência realmente sabe e se eu devo tomar a palavra da ciência sempre como a última palavra em verdade absoluta.

5- Creio que se pode encontrar Deus mais facilmente fora do que dentro de alguma religião.

Nem dentro nem fora dela. Acho que se pode encontrar Deus somente depois que a gente se encontra. E ele pode estar dentro do quarto de dormir da gente. Já que ele é onipresente e onipotente. Ao mesmo tempo, creio que ir á uma igreja ou Salão do Reino funciona para algumas pessoas e elas se sentem, assim, melhores seres humanos. Então também é válido.

6- Desfruto da liberdade de procurar uma espiritualidade que me satisfaça.

Com certeza. O fato de eu me considerar deísta é prova disto.

7- Prefiro elaborar meus princípios e meus valores pessoais pelo raciocínio lógico, do que aceitar as imposições escritas em livros ditos “sagrados” ou autoridades religiosas.

Parece com o primeiro quesito.

8- Sou um livre pensador individual, cujas convicções não se formaram por força de uma tradição ou a “autoridade” de outros.

Acho que foi assim com todos os demais deístas. Não me considero uma pessoa especial, nem mais sagaz que os outros. A gente é como a gente sente que é. É algo natural. Vem de dentro para fora, tão natural quanto o é a própria natureza.

9- Acredito que religião e Estado devem ser separados.

A grande maioria das pessoas concordaria com isto, sejam elas deístas ou não. Mas não entendo porque existem partidos políticos tão chamados cristãos. Creio que quem se denomina cristão deve lutar pelos seus direitos como cidadão que ele é e não pelo fato de ele ser cristão ou não, como se isto lhe rendesse algum privilégio especial.

10- Prefiro me considerar como um ser racional ou espiritual ao invés de religioso.

Com certeza. Mas eu não me considero um ser racional, eu o sou. Penso, logo existo. Já espiritual e religioso são outros quinhentos. E acho que toda a discussão sobre deísmo, ateísmo e teísmo se justificam nestas dúvidas.