Ainda lembro bem de uma propaganda na televisão brasileira, que tinha por objetivo soerguer a fé do brasileiro na economia e o lema era Orgulho de ser brasileiro. Entre outras frases, ouvia-se a seguinte chamada: Eu sou brasileiro e não desisto nunca. Apesar de que a frase soava bem aos ouvidos, nunca me senti totalmente brasileiro e sempre achei que a chamada não era exatamente para mim. Sempre achei que os meus motivos para não sentir orgulho de ser brasileiro sempre foram mais fortes que os motivos em contrário. Mas o que é orgulho exatamente? O Dicionário Digital Aulete define assim o substantivo:

(or.gu. lho)
sm.
1 Sentimento de satisfação com suas próprias características ou ações, ou com as de outrem
2 Pej. Admiração excessiva de si próprio; SOBERBA. [ Antôn.: humildade]
3 Sentimento de dignidade pessoal e de sua preservação; ALTIVEZ; BRIO: Seu orgulho o impedia de pedir favores
4 Aquilo ou aquele de que(m) se tem orgulho (1): João Ubaldo Ribeiro é um dos orgulhos da literatura brasileira.
[F.: Do espn. orgullo, do cat. orgull.]:

A partir desta definição, vejo que sentir orgulho não é nada mais, nada menos que humano. Parecem ter duas vertentes, uma desejável (pontos 1, 3 e 4) e uma indesejável (ponto 2). Lembrando que a palavra em inglês é pride, dou uma breve olhada no Collins Cobuild Advanced Learner, que utilizei na universidade em Utrecht e novamente eu vejo 4 pontos que não diferem muito da definição dada pelo dicionário brasileiro:

pride /praid/ 1. Pride is a feeling of satisfaction which you have because you or people close to you have done something good or possess something good.

Já em holandês, temos a palavra trots, que é tanto substantivo (orgulho) quanto adjetivo (orgulhoso). O Dicionário Van Dale (que é um equivalente holandês ao Dicionário Aurélio no Brasil) tem o primeiro item como vertente indesejável, o que os dicionários dos outros idiomas primeiro definiram como desejável:

trots [de ~ (m)] 1. gevoel dat men meer is dan anderen. 2. het zelfgevoel dat het volbrengen van iets groots of het bezit van iets moois enz. geeft. 3. Persoon of zaak waarop men trots is.

A definição brasileira do termo era a única que eu conhecia quando saí do Brasil. Eu tinha bem em mente os pontos positivos do Brasil que atraíam os turistas para lá: praias, clima, festas, a hospitalidade, a informalidade e a simplicidade dos brasileiros. Eu era da opinião que todas as pessoas do mundo fossem iguais nestes quesitos. Não hesitei em comprar uma camisa de côr laranja com o nome HOLLAND na cidade turística de Volendam para usar no quente verão holandês e assim mostrar a todos que estou feliz por estar aqui. A côr laranja não tem nada a ver com as cores oficiais da bandeira holandesa que são vermelha, branca e azul. A côr laranja em holandês é oranje, o sobrenome da família real, Oranje van Nassau, algo do qual a maioria dos holandeses se orgulha de verdade. No mínimo, a minha camisa foi ignorada. No máximo, percebi algumas pessoas passando por mim com um ligeiro sorriso de zombaria no rosto. Aquela foi a penúltima vez que vesti a camisa em público. A última vez de fato foi na Copa do Mundo de 2006. Minha primeira Copa fora do Brasil. Já tendo sido informado de como os holandeses lidam com a palavra orgulho, a vesti apenas para assistir uma partida num círculo fechado de holandeses (todos devidamente encamisados) onde eu era o único não-holandês. Dentro de suas casas ou em seus jardins, o orgulho era demosntrado de tal forma que jamais seria aceito ou visto com bons olhos se tivesse sido no meio da rua. Apenas vestir as camisas côr de laranja não era o suficiente, você só se torna um torcedor ‘laranja’ de corpo e alma depois que passar um borrão de cores em sua bochecha que reproduz as cores da bandeira da Holanda. O grito de guerra deles é Hup Holland! caso estejam ganhando ou o juíz é chamado de hondenlul (algo um pouco mais ofensivo que babaca caso estejam perdendo). Fogos de artifício, bandeiras hasteadas nas frentes das casas e litros de cerveja são as marcas registradas destes acontecimentos, pelo menos até chegar a notícia (já esperada) de que os laranjas foram desclassificados e podem voltar para casa (em 2006, a Copa foi na Alemanha, não tão longe). No dia seguinte, o assunto é totalmente superado, esquecido e ignorado. Algumas das pessoas que estavam torcendo naquele dia específico mais tarde afirmam sequer gostar de futebol. Ficar falando de futebol não é trabalho para pessoas nuchter(sóbrias). Diferente do Brasil, os holandeses não se consideram juízes apitando o jogo. Não é desejável falar demais no assunto, afinal de contas como eles dizem:

Doe gewoon, dan doe je al gek genoeg!
Comportar-se normal, já é comportar-se estranho o suficiente!

Pelo menos é o que dizem. A prática revela o contrário. Os vencedores serão incansavelmente castigados pela mídia. Os jornais não pouparão os turcos que fizeram passeatas de carro, buzinando e fazendo algazarra para comemorar a chegada nas quartas-de-final em detrimento dos perdedores. Turcos e marroquinos são a segunda grande maioria étnica na Holanda e já estão na terceira geração. Eles nasceram aqui e falam holandês como língua materna, tendo turco ou árabe como secundárias. À esta atual geração, dá-se o nome alóctones, formando assim um bolsão cultural dentro da Holanda em oposição à maioria dos autóctones (originalmente daqui) que se consideram ateus.

Os holandeses tem uma relação parecida e diferente com os alemães. Diferente por que os alemães parecem incomodar a alguns mesmo estando em seus próprios países. Os holandeses os chamam de oosterburen ou vizinho do leste. Apesar de que os horrores da Segunda Guerra Mundial praticamente terem sido superados nas cabeças da atual geração batava, falar alemão em público ainda não é aconselhável. Os holandeses em si não foram mandados para campos de concentração, mas perderam pessoas queridas com quem trabalhavam ou estavam envolvidos de uma maneira ou de outra. Um exemplo disto é a história da família de Anne Frank, sem falar na praticamente total destruição da cidade de Roterdã e as estórias sobre bicicletas roubadas. Esta última diz que os nazistas ‘confiscavam’ as bicicletas, após deterem os donos delas, e as enviavam para campos de concentração na Alemanha em comboios separados para serem derretidas e se transformarem em outros produtos. Faz-se piada da frase Haben Sie mein Fahrrad gesehen? (Você viu minha bicicleta?). O tocante filme Irmãs Gêmeas, que eu cheguei a assistir ainda no Brasil, deixa claro que nos primeiros anos após o fim da Segunda Guerra Mundial o simples ‘falar alemão’ em território holandês era visto como algo odioso. Em 5 anos morando aqui, nunca vi ninguém vestindo a camisa oficial da Alemanha, que vem com as letras brancas DEUTSCHLAND em fundo preto, em contrapartida com camisas de outros países. As camisas do Brasil são extremamente populares na Holanda.

Eu, na Floresta Negra, Alemanha em 2007

Eu comprei uma camisa da Alemanha na Floresta Negra, mas resolvi adiar eternamente vesti-la na Holanda após ler vários artigos nos jornais holandeses de que alguns alemães na Holanda foram agredidos verbal ou fisicamente. Não se trata apenas de casos isolados pertinenentes ao período de Copa do Mundo, mas sim de uma ferida histórica que custa bem mais do que esperado para cicatrizar. Mas exatamente quando tempo dura até que se supere um tabu? Uma ou duas gerações? Talvez nunca. O interessante é que exatamente a partir da Copa do Mundo de 2006 que os alemães passaram a sentir novamente um pouco mais de orgulho de serem alemães. Durante muito tempo, o simples hastear da bandeira alemã na janela era mal visto na Alemanha. Esquecer os horrores da guerra é, de fato, mais fácil do que esquecer que o seu dócil e simpático avô foi um oficial da SS. Então, sim, eu diria que fazem-se necessárias várias gerações.

Desde o segundo semestre do ano passado, eu sou holandês também. Entre outras coisas tive de abrir mão de minha própria nacionalidade. Estou longe de estar orgulhoso de ser holandês mas conforme eu publiquei em meu post na época, eu tampouco tinha orgulho de ser brasileiro. Então, em que ponto estou? Eu deveria sentir orgulho de ser holandês, quando eles mesmos não parecem sentir? Lembro de um episódio de um programa humorístico da Holanda, chamado Koefnoen (um equivalente ao Casseta e Planeta), que fez uma sátira muito engraçada a respeito.

O episódio se chamava De Tovenaar van TON (A Feiticeira de TON), em contrapartida com O Mágico de Oz. TON é sigla para Trots op Nederland (Orgulhoso da Holanda ou Orgulho de ser holandês) para um partido político liderado por uma senhora política chamada Rita Verdonk, que era Ministra do Ministério da Imigração, na época em que cheguei na Holanda. Na sátira, Dorothy e seu cachorrinho que ela apresenta como Maurice de Hond (nome do geógrafo social que comanda a pesquisa ‘gallop’ dos partidos políticos na Holanda. Traduzido, seu nome seria Maurício, o Cachorro), o leão, o espantalho e o homem de lata indo atrás desta feiticeira para obterem soluções para seus problemas, respectivamente: Dorothy quer voltar a ter orgulho de ser holandesa por voltar à sua pátria querida sem ter de conviver novamente com os insuportáveis e eternos engarrafamentos (file, em holandês) entre outros problemas. O leão quer sua coragem, o espantalho quer um cérebro e o homem de lata quer um coração. Mas Maurice de Hond estraga o show descortinando a pessoa por trás da Feiticeira de Oz, ninguém menos que Rita Verdonk. A farsa tendo sido exposta, Dorothy bate seus sapatinhos um contra o outro dizendo:

Er is niks om trots op te zijn 
(Não há nada do que se orgulhar)

e desperta de seu sonho ‘em algum lugar do outro lado do arco-íris’, numa realidade na qual ela dá a partida em seu carro para visitar um tia enquanto o rádio transmite as últimas notícias dasfiles.

Até agora vim achando tudo isto muito cômico mas como cidadão holandês que agora sou, tenho pela primeira vez em anos a oportunidade de contribuir com a minha opinião. Há algumas semanas recebi a cédula eleitoral convidando-me a votar, o que me deixou muito lisonjeado, exceto pelo fato que eu não faço a mínima idéia de em que partido eu deveria votar. Não tenho nenhuma paixão por política. Nunca me preocupei em pesquisar os partidos políticos a fundo ou compará-los com o sistema político do Brasil. Existem, no entanto, alguns sites de ajuda como o StemWijzer (algo como Indicador Eleitoral) para ajudar o eleitor a se orientar. Por responder por volta de 30 perguntas, às quais você responde com Concordo ou Não concordo, o site lhe dá a sua posição política aproximada. Tentei levar em conta o fato de pertencer à uma minoria: estrangeiro e homossexual. O site indicou-me o partido muçulmano-holandês, o mesmo que favorece os grupos alóctones anteriormente mencionados. Está óbvio para mim que um partido como este não pode me representar. Em outra pesquisa realizada em outro site indicador, fui indicado para um partido chamado AVIP (Almere Voor Iedereen, Almere Para Todos). Almere é o nome da cidade onde vivo atualmente. Gosto do nome, mas não entendi como estou incluído nisto.

A quantidade de cadeiras (zetels) ocupadas é o que determina qual partido tomará a frente nas Primeira e Segunda Câmaras, bem como no Parlamento Europeu. Neste momento é o Christen Demoscratisch Appel (CDA, ou Apelo Democrático Cristão) o maior deles. Numa fusão com outros partidos, o CDA tinha o seu mais alto representante Jan Peter Balkenende como o primeiro-ministro da Holanda, também chamado de o ‘puxador da lista’ ou lijsttrekker em holandês. Recentemente esta fusão deixou de existir devido a desentendimentos dentro do partido. Diz-se, então, que o governo caiu. O primeiro-ministro já foi várias vezes satirizado como assemelhando-se ao ator Daniel Radcliffe, o ator que interpretou Harry Potter nos cinemas.

Como um partido cristão conseguiu chegar onde chegou na Holanda de 2010 é um mistério para mim, mas tenho certeza de que as pilarizações são, em parte, culpadas. Apesar de que, se o partido ocupou tantas cadeiras, foi porque o povo holandês o elegeu. As mesmas pessoas que se dizem contra a opressão e a intolerância e se denominam ‘ateus’, são as mesmas que votam num partido denominado ‘cristão’, no qual seus membros usam a Bíblia como inspiração para criar leis. Como homossexual assumido, com certeza não estarei votando neste partido.

O próximo partido com mais cadeiras é o PvdA ou Partij van de Arbeid (Partido do Trabalho), que satisfaz a maioria. Ou pelo menos a minoria gay. Este partido é representado pelo simpaticíssimo Wouter Bos. Acredito que este difira do PT, o atual partido no Brasil. A proposta deste partido é quebrar os anteriormente mencionados laços históricos de pilarização da Holanda e fundamentar o país em bases reais, concretas e modernas. Uma Holanda em que as origens e as crenças de uma pessoa já não importam. Mas que como cidadão, você também tem obrigações para o país. Gosto desta filosofia, mas o nome ‘gay’ é raramente mencionado pelos membros do partido. E a questão dos alóctones é vista ligeiramente por cima.

Propaganda do SP em frente à minha academia. Detalhe: Aqui na Holanda não é permitido colar cartazes de partido político diretamente em paredes.

O terceiro maior é o SP (Socialistische Partij) ou Partido Socialista. O símbolo deste partido é um tomate e representa ‘protesto’. Este, sim, parece mais com o PT do Brasil. O lijsttrekker deste partido é Jan Marijnissen. O SP tem objetiva dignidade e igualdade para todos mas sinto a impressão de que este partido também esquece das minorias, das quais eu faço parte, em seus projetos de lei.

E finalmente o quarto maior é o VVD, sigla para Volkspartij voor Vrijheid en Democratie ou Partido Popular para a Liberdade e Democracia . Este é o partido de Mark Rutte, um homem inteligente e carismático. Também é o partido de onde vem Geert Wilders, o fundador do PVV (Partij van de Vrijheid) ou Partido da Liberdade, que é um partido-de-um-homem-só. Wilders não é exatamente o que chamaríamos de homem atraente, ele tem uma cabelereira um tanto ao quanto diferente mas ele parece saber o que quer e não ter medo de ameaças ou retaliações como o fez Pim Fortuyn antes dele. Wilders conseguiu fazer toda uma Europa prender o fôlego por ocasião da exibição de um filme feito por ele chamado Fitna que criticava o islamismo como religião violenta aos poucos tomando conta da Europa.

Veja abaixo a primeira parte do filme:

O antecessor deste filme custou a vida de Theo Van Gogh, parente do próprio Van Gogh. Wilders é o tipo de político que jamais concordaria com a forma branda com a qual a problemática entre autóctones e alóctones é tratada na política holandesa atual. Há quem veja Wilders como Hitler, a exemplo de Jörg Haider e Le Pen, mas acima de tudo ele é visto como um político destemido e ousado e que fala a verdade. Ele arrasta consigo uma multidão cansada e irritada com os problemas do cotidiano, que mesmo não simpatizando totalmente com a figura de Wilders, vêem nele a última solução para os problemas da atual sociedade holandesa ou européia por extensão

Dia 3 de março é o dia em que eu começo a fazer diferença. Com um simples gesto. Quem sabe, um dia, eu possa sentir-me orgulhoso de ser o que eu sou de fato, seja lá o que isto for.