Eu, com 12 anos

Enquanto criança, minha mãe instilou em mim regras de comportamento, que segundo o parecer dela, seriam importantes para a minha vida social adulta como respeitar os idosos, não mentir, não interromper quando outros falassem e colocasse a vontade de outras pessoas acima das minhas. E assim eu fiz, ou achei que o fiz. Uma vez na 4ª série, uma professora furiosa interrogava a todos na sala de aula para descobrir quem havia quebrado o vitrô da cantina com uma bola durante o recreio. Fez-se um longo silêncio, o qual continuou após eu dizer que havia visto. Eu deveria ter entrado para o departamento de proteção às testemunhas, mas tudo que eu ouvi da professora foi um ‘Muito bem!’ e durante a saída da escola, represálias por parte deste colega e sua turma de amigos. Eu não tinha nada contra ele. Eu passava cola da algumas matérias para ele durante as provas, o que provavelmente me salvou a vida. Mas ninguém conseguia acreditar que eu tive coragem de dedurar um colega. Mas para mim nunca havia sido uma questão de ter coragem ou não, mas sim uma questão de falar a verdade. E que ele arcasse com as conseqüências do que havia feito.

Mas ainda durante a infância, eu lembrava aos amiguinhos que eles haviam feito algo errado quando os via fazendo algo diferente do que a minha mãe havia me ensinado. Eles me respondiam: ‘O mundo é dos mais espertos’. Será que foi a minha mãe ou os pais deles que esqueceram de contar a parte das regras de comportamento? Não posso dizer ao certo. Só posso dizer que conforme fui crescendo, percebi que regras e normas, ainda que importantes para a vida em sociedade, não eram acatadas pela maioria.

Enquanto Testemunha de Jeová, aprendi que o mundo estava dividido entre dois grupos de pessoas: as semelhantes à ovelhas, previamente escolhidas por Jeová para habitar no novo mundo quando este se transformar num paraíso e as semelhantes à cabritos que deliberadamente optaram por continuar vivendo neste velho mundo iníquo e continuar respirando o ‘ar’ contaminado deste mundo que pertence ao Diabo e que engloba tudo de ‘prejudicial’ que existe como mentira, palavrões, pornografia, etc. Sendo assim, eu deveria dizer a verdade sem rodeios às não-Testemunhas. Eu não sabia que existia um código secreto para não dizer a verdade ‘total’. De forma que, durante uma partida de vôlei em 1989 na Praia da Biquinha, em São Vicente, expliquei à uma moça de Santos, recém-chegada à religião, que todas as religiões falsas do mundo são representadas na Bíblia no livro de Apocalipse como Babilônia, a Grande, uma prostituta embriagada com uma taça de sangue, que representa o sangue de todos os que morreram por causa dela, montada numa fera de sete cabeças. Ao concluir a última frase, percebi que a bola não estava mais em movimento. Todos os presentes estavam parados de pé, olhando para mim com cara de espanto, achando que o meu testemunho foi desnecessário naquele ponto do progresso ‘espiritual’ daquela moça. Eu provavelmente estava sendo uma pedra de tropeço para ela. E que neste caso, era melhor que eu ‘amarrasse uma roda de pedra de moinho em meu pescoço e me atirasse ao mar’, frisando as palavras de Jesus (Marcos 9:42).

Quando comecei a trabalhar, tampouco consegui me ver imitando o comportamento das pessoas nos transportes públicos: acotovelando, empurrando e xingando para conquistar o seu próprio espaço, nunca foram coisas que eu conseguia fazer. Eu queria simplesmente ir e vir, sem o mínimo de incômodo da parte que quem quer que seja. Entendi muito cedo na vida que não existia tal coisa como ‘ser você mesmo’. É preciso se adaptar o tempo todo para poder viver em sociedade. Ser um ‘bom’ filho, irmão, aluno, parceiro e amigo é um termo relativo. ‘Não matar’ não é o ápice de ser um bom cidadão e sim ‘ler nas entrelinhas’ como eu me encaixo no contexto social em geral. Mas isto só funciona quando acatado igualmente por todos e estou mais do que convencido que isto nunca vai acontecer.

Vindo visitar a Holanda em 2004 tive a impressão de que a utopia de ‘os outros, primeiro’ existia. A primeira visão que tenho é dos carros enfileirados corretamente (i.e. não ziguezagueando de uma faixa para a outra) na auto-estrada, obedecendo perfeitamente as regras de trânsito. A partir daí, a próxima coisa que eu vi só fez contribuir com a idéia anterior de ordem e harmonia: ruas limpas, inexistência de favelas e de crianças maltrapilhas pedindo esmolas em semáforos, etc. Nos supermercados as pessoas se cumprimentavam e se despediam; nos vilarejos os moradores colocavam frutas ou flores de seus jardins em frente de suas casas para vender, com uma placa anunciando o valor a ser depositado num pequeno cofre, que não se valia de nenhuma proteção em especial. Carros e bicicletas paravam para o pedestre caminhando em linha reta ou numa zebrapad (faixa de pedestres). Achei tudo muito honesto. Me perguntei na época porque o Brasil (que eu conhecia) não era assim. Anos mais tarde, ao voltar para o Brasil, percebi para a minha própria frustração, que eu estava desacostumado com como as coisas eram por lá. Por que que a faixa de pedestres é praticamente invisível e inútil no Brasil? De quem é a culpa? Dos pedestres que páram por medo de ser atropelados ou dos motoristas, que estão convencidos da superioridade de quem guia para poder decidir sobre a vida e a morte de pedestres? Enquanto eu atravessava a Avenida Garibaldi, em Salvador não tive paciência de ver uma senhora de aparentemente 80 anos lutando com suas muletas para atravessar a rua no limitado tempo oferecido pelos semáforos, ao passo que os outros pedestres simplesmente sumiam de vista. Eu não somente a atravessei em meus braços, como a levei até a porta de sua casa. Eu é quem me senti bem de fazer isto. Esta senhora deve estar assustada até agora. Mas eu fui aparentemente o único incomodado com a situação desta senhora naquele momento.

Eu só precisava de mais tempo.

Aqui estamos nós, Europa 2010. Moro numa cidade grande. Passo a maior parte do meu tempo na capital, Amsterdã. Mal vejo os vizinhos. Durante o inverno, a cidade parece fantasma. Tenho a impressão de que as pessoas ficam mais grosseiras durante este período, embora não possa provar. Os carros dificilmente páram para as bicicletas nem mesmo quando elas estão devidamente iluminadas e vindo da direção certa. Na Holanda, não é preciso se preocupar com quem vem da esquerda, pois quem vem da direita SEMPRE tem a preferência. Se as luzes da minha bicicleta não funcionam, porém, eu não arrisco sair com ela durante o inverno, quando os dias são mais curtos. E no entanto, já várias vezes quase fui atropelado. Nunca xinguei o motorista mas acredito que deveria tê-lo feito. O motorista nestas ocasiões simplesmente ‘fingiram’ não ter feito nenhuma manobra perigosa e ignoraram a minha presença completamente.

Trens. A empresa holandesa de trens chama-se na vida prática dos holandeses NS, abreviação para Nederlandse Spoorwegen ou Ferrovias Holandesas. Ela comanda o transporte ferroviário na maioria das províncias. Apesar de prover um bom serviço a maior parte do tempo, no inverno a coisa muda. Com certeza quando há fenômenos metereológicos. Há sempre atrasos, os passageiros ficam por mais de meia hora expostos a um frio subumano e a culpa é simplesmente ‘razões logísticas’. Isto ocorreu repetidas vezes, de dezembro do ano passado até o mês atual do ano corrente.

Holandeses cansados e irritados após longa espera pelo trem

Quando o trem finalmente chega na estação, hordas de holandeses cansados, estressados e congelados invadem os vagões com habilidade tal que você tampouco consegue embarcar ou esquivar-se do tumulto, ao mesmo tempo que outros passageiros desembarcam. Eu só consigo embarcar depois que todos o fazem antes. Nunca há lugar para sentar na segunda classe, que é a classe que eu viajo. Considero viajar na primeira classe um assalto ao próprio bolso apesar de que a NS promete mais espaço e tranquilidade para relaxar e ler um livro, mas durante os atrasos no inverno, foram feitas exceções para que passageiros da segunda classe sentassem-se na primeira classe. E nesta hora eu fiquei grato por não pagar mais para viajar nela. Mesmo sendo sortudo suficiente para achar um assento, mexer-se nele ou realizar qualquer outra ação como tirar o casaco, afrouxar o cachecol e ler um livro até a sua estação de destino após sentar-se não é possível. Alguns bancos são voltados uns para os outros, joelhos tocando joelhos. O passageiro imediatamente ao seu lado, apesar de estar ele mesmo também num trem lotado, extende os braços diante de seu rosto com o seu jornal favorito, para poder lê-lo mais comodamente, ignorando totalmente a sua existência. Isto para não mencionar aquele homem de nogócios de terno e gravata que resolveu ligar para todos os contatos de sua agenda eletrônica e fazer uma espécie de conferência em voz alta sobre todas as transações a serem feitas, detalhadamente. Entre um coupé (vagão) e outro, tem alguns assentos embutidos que não ocupam espaço denecessário e fornecem cobiçado espaço para sentar quando o vagão está lotado. Geralmente há dois, um ao lado do outro. Mas uma única pessoa costuma tomar os dois assentos com apenas um par de nádegas. Continua lendo o seu jornal ou conferindo o seu iPhone, ignorando toda e qualquer presença externa no trem. Nunca consegui entender porque certos jovens holandeses fazem tanta questão de sentar-se, jogando-se literalmente no assento mais próximo que foi desocupado, como se sua vida dependesse disto, ignorando idosos e mulheres grávidas, apenas para levantar-se na estação seguinte, 5 minutos adiante. Finalmente é hora de desembarcar. Sempre há um ou outra senhora com carrinho de bebê apesar de que todo mundo que mora neste país sabe muito bem que das 17:00-19:00 são os horários de pico das ferrovias holandesas e que carrinhos de bebê e bicicletas são inviáveis. Talvez por causa desta ciência, ninguém queira ajudá-las a desembarcar, já que o piso do trem fica há mais ou menos uns 30 centímetros do chão e não há rampas, apenas um único degrau, que vem junto com o trem.

A letra "S" indica silêncio em vários idiomas

Vagão silencioso. Ou não. O tipo de trem holandês de dois andares ou double-decker bem como os compridos chamados de Intercity costumam ter um vagão inteiro silencioso ou stiltecoupé. Outros tipos de trem como o Sprinter, menores e mais simples, servem-se de menos luxo.

Sprinter

Diferente do que a brasileira Ana Maria, de São Paulo comentou em seu blog Psiulândia a respeito de vagões silenciosos na Inglaterra (ela tem um blog totalmente voltado para a busca de um mundo mais silencioso), o site da NS vem com regras bem menos fixas e por isto mesmo menos óbvias, deixando espaço para as pessoas decidirem como devem se comportar nos vagões silenciosos. O nome holandês geluidsoverlast significa literalmente ‘abuso sonoro’ e não necessariamente ‘poluição sonora’:

Huisregels in Stiltezone
In de stiltezone reist u rustig, zonder dat u uw medereizigers stoort met geluidsoverlast. Fluisteren en naar muziek luisteren is natuurlijk toegestaan, zolang medepassagiers er geen last van hebben. Als iemand wegens te weinig zitplaatsen toch ‘gedwongen’ met een medereiziger in een stiltezone zit, dient hij vanzelfsprekend hiermee rekening te houden.

Regulamentos no Vagão Silencioso
O vagão silencioso é um local de silêncio, de forma que pedimos que evite quaisquer tipos de sons que possam incomodar aos demais no vagão. É permitido sussurrar ou ouvir música, contanto que não incomode. Se outro passageiro sentir-se ‘obrigado’ a sentar-se no vagão silencioso por falta de assentos em outro vagão, ele deverá obviamente levar estes regulamentos em consideração.

Fiz uma tradução livre, mas dá uma boa idéia do texto em holandês. Primeiro, em holandês eles não especificam o que pode causar o geluidsoverlast. Fica por conta de sua imaginação e consciência. Por que eles não mencionam MP3, celulares, fones de ouvido mal-ajustados do qual se ouve exatamente o que a pessoa está ouvindo? E a depender da capacidade de audição de um indivíduo sussurrar pode ser gritar. Alguém sentir-se ‘obrigado’ a sentar-se no vagão silencioso deve ser alguma piada de mau gosto, porque mesmo se o trem não estiver lotado, todo mundo dá a preferência de sentar-se de frente, para a direção de destino do trem e não achteruit (de costas). Ou seja, num vagão comum, não lotado e fora do horário de pico, TODOS os vagões terão pelo menos 1 pessoa sentada de frente para o destino do trem ocupando de alguma forma os 4 assentos perto de si. Ninguém vai dividir assento com outros 3 simplesmente porque o passageiro x que quer silêncio tem este desejo individual e esta pessoa já sabe antecipadamente que ele não vai conseguir viajar 45 minutos sem abrir a boca.

No escritório. Temos um rádio comunitário do qual podemos conectar todas as principais estações de rádio da Holanda. Infelizmente com a chegada do iPhone e do iPod em 2009, o rádio foi colocado de lado a favor da lista personalizada de seu iPhone com as suas músicas favoritas. Enquanto apenas um ou outro colega tinham iPhone, era fácil manejar isto mas depois que todos tem um aparelho, alguns colegas passaram a incomodar-se com ter de ouvir o gosto musical de outra pessoa, além do volume com o qual esta pessoa queria ouvir a sua música favorita. Apesar de alguns perguntarem se podiam tocar suas músicas favoritas e a resposta unânime e democrática ser sim, sempre havia um ou outro que não concordava e que contestava no meio do caminho. Eu admito que nunca tive maiores problemas com isto, pois se eu não quisesse ouvir a música sendo tocada, eu simplesmente poria meus fones de ouvido e ouviria minhas próprias músicas, em detrimento da comunicação com colegas, o que não é politicamente correto. Reclamações foram feitas nos bastidores e a decisão tomada foi que a lista de música personalizada do iPhone havia sido banida. Dali em diante, apenas rádio. Achei uma pena não poder mais ouvir a voz da Daniela Mercury escritório afora, mas o problema parece ter-se resolvido e as reclamações acabaram. Moral da história: é preferível ouvir a seleção do radialista do que a do colega.