Meu parceiro tem Asperger.

Asperger é o nome dado a um dos espectros do Autismo. Com o nome espectro entenda-se uma variação do autismo. O nome Asperger é o nome do médico austríaco que deu início a um importante estudo a cerca de psicopatia em crianças, na época, consideradas ‘anormais’. Já o nome Autismo foi inventado em 1911 por Eugene Beuler, como uma manifestação de esquizofrenia. Foram escritos vários livros sobre o assunto de lá para cá e em 2010 há vários sites na internet e livros dissertando sobre o assunto mas o mais abrangente de todos é, sem dúvida, o livro de Tony Attwood, The Complete Guide to Asperger’s Syndrome (Guia Completo Sobre a Síndrome de Asperger). O Autismo diferencia-se de Asperger no sentido que este espectro não afeta as funções cognitivas do indivíduo, isto é, não afeta a sua capacidade de aprendizado. Ao contrário, contribui, sendo este espectro também conhecido como autismo de alta funcionalidade. Pessoas sob o espectro do autismo costumam ter excelente QI e consequentemente bons empregos. Diz-se que pessoas indubitavelmente inteligentes como Charles Darwin e Albert Einstein supostamente tinham Asperger.

Pessoas com Asperger também são tidas como pessoas de gostos únicos e especiais, nos quais elas se aprofundam. Algumas são excelentes em certa área das ciências exatas ou humanas, mas raramente as duas. Eles demonstram uma certa sensibilidade para com determinado assunto que lhes captam o interesse, que uma pessoa sem o espectro (neurotípico, vou falar mais tarde) não conseguiria. Para entender isto melhor eu li o livro O Estranho Caso do Cachorro Morto , de Mark Haddon. O livro é comovente e agradável de se ler, mesmo para quem não tem o hábito de ler livros. O personagem principal é um menino chamado Christopher, muito inteligente para a sua idade. Sua maneira de ver o mundo é tão pura e ingênua, mas ao mesmo tempo, ele só consegue ver de uma única maneira. O capítulo 181 explica isto bem:

Eu vejo tudo…Por exemplo, eu lembro estar de pé num campo num dia de quarta-feira, 15 de junho de 1994, porque mamãe e papai estavam indo de carro para Dover para pegar a balsa para a França e fizemos o que o papai chamou de pegar a rota cênica, e eu tive de parar para fazer xixi, e fui até um campo com vacas, e depois de fazer xixi, eu parei e olhei para o campo e percebi estas coisas:

1. Há 19 vacas no campo, dentre as quais 15 são pretas e 4 são brancas e marrons.
2. Há uma vila à distância, com 31 casas visíveis e uma igreja com uma torre quadrada, sem pináculo.
3. No campo há cumes, o que significa que em épocas medievais era isto que chamavam de campo de cume e sulco.
4. Na cerca-viva tem um pedaço de plástico velho da Asda, um frasco de Coca-cola amassado com um caracol em cima e um barbante laranja bem comprido.
5. O lado à nordeste do campo é o mais alto e a sudoeste é o mais baixo…
6. Vejo três tipos diferentes de grama e duas cores de flores no chão.
7. As vacas ficam quase todas de frente para a parte mais alta do campo.

Ele não tem a mesma flexibilidade que as pessoas ao seu redor de entender o mundo. E esta inflexibilidade acaba metendo-o em confusões quando o cão dos vizinhos, Wellington, é brutalmente assassinado com um gadanho no meio da noite. Pessoas com Asperger, também chamados pelos falantes de língua inglesa de Aspie, tem uma forma própria de ver o mundo. É como se eles vivessem um mundo próprio, com suas próprias regras, no qual não são eles os excluídos, mas todas as outras pessoas ao redor, nós os neurotípicos. Por exemplo, neurotípicos (eu e você) achamos que devemos contar uma mentirinha ‘branca’ de vez em quando para não ofender outra pessoa.

O Asperger assemelha-se ao autismo no sentido que todos sob o autismo tendem a demonstrar uma grande inabilidade para a vida social. Uma pessoa com Asperger entende o porque da mentirinha, mas não consegue aplicá-la em sua vida. Outro exemplo: neurotípicos (eu e você) conseguimos rir de nuances ou conotações de piadas mas uma pessoa com Asperger não a consegue, pelo menos não em princípio. Elas precisam de mais tempo para relativar o assunto literalmente e fazer a analogia com o que causou a graça. Na grande maioria das vezes, uma pessoa com Asperger acaba se cansando de tentar acompanhar a dinâmica deste tipo de conversa e fazendo outra coisa como ler uma revista.

No ano hoje, o assunto já está bem desmitificado. Existem grupos de ajuda espalhados em todo o mundo e com certeza em sua própria localidade mas é possível participar de debates em grupos como o asperger’s awareness page com seus quase 20.000 membros no conforto de seu lar se você for membro do Facebook. Eu fico sempre impressionado com a quantidade de pessoas buscando informações, partilhando suas experiências e ouvindo conselhos de outros membros quase que desesperadamente. É claro que nada disto substitui ajuda profissional. Mas é interessante ver quantas pessoas vivem na mesma situação. Mas a maioria das pessoas nestas comunidades são pais buscando informações práticas sobre como ajudar seus filhos. Uma vez ou outra há pais que também se revelam como portando o espectro ou como tendo sido diagnosticado recentemente, mas limitam o problema aos seus filhos. Há algumas mulheres que mencionam que são divorciadas de homens com Asperger e que Asperger foi, de fato, o motivo principal do divórcio. E por que não mencionar os artigos em jornais do mundo todo mencionando o Asperger como uma das características em certos criminosos, como hackers.

Por estes e outros motivos, foi que eu decidi ler o livro Asperger Syndrome – a love story (Síndrome de Asperger – uma história de amor) de Sarah Hendrickx e seu parceiro, Keith Newton, com quem ela não mora junto. O livro está infelizmente disponível apenas em inglês, pois é um definitivamente guia imperdível para todos os que tem um parceiro com Asperger. A forma cândida e direta como os detalhes são contados me chocou a princípio, mas ao final do livro eu entendo mais do que bem, que não há duas maneiras de se falar de Asperger. É preciso ser tão inflexível quanto às próprias pessoas no espectro. É romântico e ao mesmo tempo triste ouvir de Sarah as confusões em sua cabeça a respeito deste relacionamento. São duas metades numa mesma pessoa, uma desejável e outra indesejável, que não podem se separar pois as duas são a mesma pessoa. Ela conta que Keith é tão carinhoso e sempre faz questão de fazê-la sentir-se a pessoa mais importante do mundo enquanto estão juntos mas o outro lado também é verdade sobre quando não estão juntos. Como dizer sempre a verdade é desejável mas fere sentimentos. Como estar num relacionamento e estar apaixonado é bom, mas ao mesmo tempo não o é aceitar cacarterísticas ‘estranhas’ de outra pessoa. Isto faz de nós, parceiros de pessoas com Asperger, também especiais, pois aprendemos desde o começo, que o mundo é bem mais do que a fórmula pronta que nos foi dada. Aprendemos que temos de manter nossa mente bem aberta e mantermo-nos sóbrios quanto às nossas escolhas. Sem nos arrepender e sem ter de pedir desculpas.