O último episódio de LOST foi ao ar semana passada. E com ele terminou um dos únicos programas de televisão que mais me entreteve durante anos. O programa começou por ocasião da minha vinda para a Holanda.

E como sempre no Brasil, todo mundo estava assistindo novelas. Os sites de rede social anunciaram que o término da novela Celebridade havia prendido quase todo mundo na frente da televisão. Eu tentei acompanhar a novela América mas não consegui manter o rítmo por mais de um ano. Como eu estava totalmente engajado na missão de aprender holandês, decidi parar com os programas de televisão do Brasil e viver de fato a vida que eu havia escolhido para mim. E isto incluia assistir a programas tipicamente holandeses, como o então recém-inaugurado Mooi Weer De Leeuw (algo que pode ser subentendido como “O De Leeuw voltou” e “Tempo bom – o De Leeuw”), Paul de Leeuw é o nome do apresentador e cantor holandês de meia-idade, também homossexual, assumido, amado e odiado na Holanda pelo excesso de sua espontaneidade nos programas que ele apresenta) na língua holandesa e Raymann is laat, que tinha mais um caráter alóctone.

Admito que assistir estes programas ajudou-me a destapar os ouvidos para a língua holandesa, mas uma vez entende-se o que está se passando e o que se está falando, é impossível não tornar-se crítico no sentido mais negativo da palavra e achar todos os programas da televisão holandesa insuportáveis.

Fiquei um tempo sem assistir televisão.

Um ano mais tarde, o meu ex-parceiro apareceu em casa com dois DVD’s de LOST da 1ª temporada. Eu lembrava de ter visto algo a respeito do propaganda no canal holandês NET5 mas ignorei na época, estava ocupado demais com outras coisas. Assisti apenas um capítulo e me apaixonei imediatamente. Eu precisava saber onde eu estava em relação ao show e o quanto eu havia perdido. Já estávamos no começo de 2007 e a NET5 estava anunciando o começo da 3ª temporada. Por meio do site holandês de compra e venda marktplaats, descobri que era possível encomendar todas as temporadas anteriores a preço de banana. E assim o fiz. Assisti todos os episódios em tempo de acompanhar a temporada que se iniciava. Na Holanda, o programa passa com mais ou menos 1 semana de atraso em relação aos EUA. Ter TV a cabo aqui não é uma opção, é a única opção, de forma que todo mundo teria acesso. Uma amiga brasileira minha estava a caminho do Brasil e pedi que ela comprasse todas as temporadas anteriores para eu poder assistir ouvindo em português do Brasil.

O meu entusiasmo não foi partilhado por ninguém que eu conhecia, dei-me conta. Ouvi comentários como: a série é complicada demais e não faz sentido. Isto fez-me perguntar, se, para eu gostar de algo, este algo precisava ser necessariamente simples. Significava isto que eu não poderia tentar compreender o roteiro ou mesmo dar uma nova forma a ele? E se algumas cenas eram irreais, eu não poderia usar a minha imaginação e deixar-me levar por ela? Respondi sim às duas perguntas e nunca parei de assistir o programa.

Matthew Fox, como imagem de fundo de meu pc

Acabei virando fã de carteirinha, com pôsteres do ator Matthew Fox pendurados na parede do meu quarto (coisa que eu nunca fiz, nem na minha adolescência) e ficando obcecado com tudo o que tinha a ver com a Iniciativa Dharma, o monstro da fumaça e fazendo dos atores minha tela de fundo do computador.

Algo que me atraiu desde o princípio foi não ser obrigado a estar no mesmo recinto cliché de filmes americanos, ouvindo apenas inglês nova-iorquino. Num mundo ainda mais globalizado que o do final do século XX, não dá mais para olhar para o mundo como se ele fosse singular. O mundo é preto, branco e amarelo, gordo e magro, rico e pobre, honesto e desonesto, católico, ateu e muçulmano. Todos estes ingredientes estavam presentes em LOST. E apesar de que uma cena ou outra ter sido bastante picante, creio que para uma série que durou 6 anos, as cenas (realmente óbvias) de sexo foram irrizórias. Não tenho nada contra as cenas de sexo, apenas acho que influencia um roteiro para melhor. Se eu quisesse ver pessoas nuas fazendo sexo eu assistiria um filme pornô, certo? Não esquecendo de mencionar que o Rodrigo Santoro teve uma curta participação em LOST, falando inglês perfeito durante 7 episódios, tendo uma morte dramática no episódio Exposé, da 3ª temporada.

LOST me emocionou muitas vezes. Na maioria das vezes porque me recordava de algo pelo qual eu mesmo havia passado. Eu tenho os meus capítulos favoritos e ás vezes eu pego os DVD’s apenas para assisti-los:

Piloto Partes 1 e 2: Jack (Matthew Fox) intercede numa briga entre Sayid e Sawyer e diz a famosa frase que virou o tema de um dos episódios: If we cannot live together, we’re gonna die alone (Se não conseguimos conviver uns com os outros, vamos morrer em separados). Sayid e SaywerEste segundo episódio mostrou o que iríamos ver ao longo de todo a série: pessoas de todas as raças tendo de conviver juntas. Eu nunca tive problemas com isto, sempre achei a mistura belíssima e sedutora mas quando eu vi o Hurley, eu imaginei que ele iria perder peso ao longo da trama, pelo único e simples fato de que alguém me convenceu que ser gordo simplesmente é errado, mas eu mesmo aprendi a aceitar e gostar do Hurley como ele é, independente da aparência dele.

Coelho Branco (White Rabbit): quando Locke diz a Jack que ele havia olhado no olho da ilha e o que havia visto era lindo. Locke tenta convencer Jack que a ilha é especial e que ele deve aceitar a incumbência que lhe foi outorgada pela ilha: liderar.

A Mariposa (The Moth) foi o episódio em que Charlie viu-se forçado a parar com o uso da heroína e cortar o cordão umbilical disto com a realidade pré-ilhéia dele, de quando ele fazia parte da banda Drive Shaft, com o seu irmão mais velho. A dor da abstinência é visível em seus olhos e só quem já conseguiu parar com um vício químico sabe o que isto significa.

Os Outros 48 Dias (The Other 48 Days) é um dos episódios mais perfeitos já feitos para a televisão. Quando se assiste LOST pela primeira vez, você se chacoalha no sofá (ou onde estiver sentado) com cada cena, de cada novo episódio. O avião havia se separado em dois durante a queda e haviam sobreviventes na seção traseira também. Como estas pessoas sobreviveram estes 48 dias isolados do grupo principal é explicado vividamente neste magnífico episódio.

S.O.S. Apesar de Rose e Bernard não participarem das aventuras mais arriscadas do acampamento, o flashback sobre como eles se conheceram me fez chorar e ainda faz, toda vez que assisto. Eles se apaixonaram tão rápido, mas quanto mais velhos vamos ficando, com menos tempo a perder, vamos tendo mais certeza das coisas. E Bernard estava certo de seu amor por Rose quando a pediu em casamento num jantar romântico ao som de violinos, mas ao invés de responder sim, Rose lhe explica emocionada que tem câncer e que os médico lhe deram no máximo um ano de vida. Após um minuto de silêncio que parece ter durado uma eternidade, Bernard diz: “Você ainda não respondeu a minha pergunta”.

Rose e Bernard

Um Conto de Duas Cidades (A Tale of Two Cities) A 3ª temporada começa magnífica apresentando-nos Juliet Burke. E eu chorando. Ela insere um CD no player que tocará a belíssima canção de Petula Clark, Downtown. Juliet é uma dos Outros, um grupo de pessoas que já morava na ilha antes dos sobreviventes do avião chegarem e tudo o que Juliet quer é voltar para casa e ficar junto de sua irmã e seu filho mas o destino quis diferente.

Um Estranho numa Terra Estranha (Stranger in a Strange Land) foi considerado pelos próprios roteiristas um dos piores episódios, o qual tinha mesmo uma xerife na cidade. Jack tem uma tatuagem, que havia sido feita por uma ex-namorada dele da Tailândia, que não era realmente uma tatuadora, era uma definidora. Ela definiu com aquela tatuagem que Jack havia nascido para ser líder, mas isto o deixava irritado, com medo e solitário. Se algum dia eu tiver uma tatuagem, será aquela.

Os Maiores Sucessos (Greatest Hits) de Charlie não foram suas canções, nem a fama da Drive Shaft, mas 5 coisas extremamente simples que ele havia feito como quando ganhou um piano de sua mãe, quando aprendeu a nadar com o seu pai, quando seu irmão mais velho lhe deu um anel de família, quando ele ajudou uma moça (por acaso a amada de Sayid, ela disse a Charlie: se algum dia alguém disser a você que você não é um herói, não acredite, você é muito mais do que isto!) que estava prestes a ser assaltada no Covent Garden, em Londres e, claro, a noite em que ele conheceu a Claire.

Charlie, anotando seus 5 sucessos

A 4ª temporada começou com O Começo do Fim (The Beginning of the End) que me lembra agora que em 2008 meu relacionamento também estava no começo do fim. Assisti ao episódio em meio à caixas de mudança, já que estávamos recém chegados em Amsterdã e usei parte do diálogo para um trabalho de subtítulos para a faculdade.

A Forma das Coisas por Vir (The Shape of Things To Come) foi o mais sangrento de todos os episódios. Alguns atores queridos morreram e fiquei um pouco decepcionado. Os demais episódios que achei muito bem dirigidos e atuados foi O Acidente (The Incident) no final da 5ª temporada e Ab Aeterno, contando a segredo da longevidade de Richard, no começo da 6ª e última temporada.

Pretendo assistir todos os episódios muitas vezes ainda. Amei ver os atores envelhecendo. Deve ter sido uma experiência e tanto para eles e com certeza o foi para nós, lostmaníacos, que envelhecemos junto com eles, perdidos nesta ilha em que alguns de nós querem partir e outros querem ficar.