De vez em quando, no meio de uma conversa com um holandês, sou interrompido para receber um elogio pela fluência. Eu considero a fluência do meu holandês sofrível, mas sou obrigado a acreditar no elogio quando ele vem assim tão repentinamente.

Ao mesmo de todos os tempos, percebo que “falar com fluência” tem um pouco a ver com repetição, um pouco como os papagaios fazem, apesar de ser esta uma analogia infeliz. Algumas expressões, tanto na língua portuguesa, como na holandesa, são prontas e devem ser usadas assim, para a situação correspondente.

Os bonecos dançando

Um exemplo é: daar hebben we de poppen aan het dansen (isto é, ‘os bonecos vão dançar’). Qualquer dicionário traduz como “agora estamos encrencados”, mas esta tradução ajuda muito pouco a saber em que situação você deve falar isto. Se você procurar o verbete “encrencado” num dicionário para holandês, você encontrará pelo menos 10 expressões que emitem a mesma idéia. Perguntar a um holandês ajuda muito pouco, pois eles usam as expressões quando a situação ocorre espontaneamente e passados dias ou meses não se recordam mais da situação em si.  

Meu parceiro me explicou que ‘os bonecos vão dançar’ é usado quando um clima passa de agradável para desagradável. A pessoa que diz que ‘os bonecos vão dançar’ avisa que o clima está desagradável e que é melhor fazer vista grossa. Até onde eu sei, não existe nada para esta situação em português. Talvez seja algo como não procurar sarna para se coçar.

O letreiro acima diz: Aqui apenas débito automático

Eu achei que tivesse evitado uma dança de bonecos outro dia no supermercado quando eu perguntei ao rapaz do caixa (que mais parecia uma criança) se o caixa era apropriado também para débito automático (sistema chamado de PIN). Alguns supermercados tem caixas específicos para quem quer pagar em dinheiro (contant) e outros apenas para débito automático (PIN).

Eu perguntei: ‘Is dit een PIN-kassa?’

Ele disse: ‘Desculpe, senhor. Não entendi.’

Eu repeti: ‘Is dit een PIN-kassa?’

Ele repetiu que não me havia entendido.

Na terceira vez, eu desisti e perguntei outra coisa (e o engraçado é que ele entendeu tudo o mais daí para a frente).

Isto ficou na minha cabeça. Se eu consigo me expressar sem problemas em holandês, então, o que aconteceu neste dia no supermercado? Contei a história para o meu parceiro e ele disse que eu provavelmente devo ter dado ênfase demais ao nome kassa (kás-sa),  o que deve ter soado como pindakaas (pronunciado pin-da-kás, pasta de amendoim, muito popular aqui na Holanda) ao ouvido do rapaz. Eu teria feito-me entender melhor se tivesse pronunciado pÍn-kassa, dando mais ênfase no pín. Em 5 anos morando na Holanda, nunca me preocupei com isto. Mais um desafio para mim, então.

E para completar, visitando o Zuiderzee Museum em Enkhuizen, eu disse que os kalkovens (fornos de cal) haviam sido trazidos de outras partes da Holanda para o parque do museu.

Os kalkovens (fornos de cal) do Zuiderzee Museum

Minha pronúncia foi imediatamente corrigida. Em quantas maneiras diferentes pode um ser humano pronunciar kalkoven? Eu pronunciei o “al” como em “au”, sem que o “l” tocasse o céu da boca, pois é assim que é pronunciado na maioria das vezes. O perú (de Natal), em holandês kalkoen é pronunciado “kaukÚn” e não “kaLlkún”.

Vai entender esta língua. Eu desisto.

Fonte foto bonecos: gentblog.be (nome do fotógrafo aparece na foto)