Outro dia uma conhecida minha me perguntou se entre os homossexuais também existia a ‘coisa comportamental’ dos heterossexuais. Entendi mais tarde que ela estava se referindo à distribuição dos papéis domésticos dentro de uma relação homossexual. Achei a pergunta difícil de responder porque nunca havia parado para pensar nisto antes. Claro que já me perguntaram várias vezes coisas que me deixaram embaraçado, algo como o famoso ‘quem dá, quem come’ mas nunca sobre o cotidiano da vida dos gays. 

Não há resposta fácil, pois o mantra ‘homem trabalha e sustenta a casa’ e  ‘mulher ‘cuida das crianças e cozinha’ já está ultrapassado aqui na Holanda há muitas décadas. Assim o é na maioria dos países norte-europeus. Mesmo o Brasil pode ser assim: tome por exemplo o caso da Soninha, ex-VJ (vi-djei) da MTV. O marido dela cuida da casa e das crianças e ela é quem paga as contas. Esta imagem de mulher forte, que desempenha o papel do homem, não é bem vista em alguns círculos pois vai de contra com o que todas as gerações anteriores fizeram.

Meu atual parceiro no início dos anos 90

Muitos homens holandeses cozinham e gostam de fazer isto. Algumas mulheres holandesas sequer sabem cozinhar. No Brasil que eu conhecia, cozinhar era para mulheres, já que ‘cozinha não é lugar de homem’. Não se supreenda de ver homens holandeses empurrando carrinhos de bebê. Para isto é só sentar-se num terras (terraço, a calçada de um restaurante ou lanchonete, servida de cadeiras) e aguardar alguns minutos. Há muito tempo que as mulheres holandesas libertaram-se do papel obrigatório de donas-de-casa e reprodutoras.

Lavar roupa todo dia, que agonia

Quando se é gay e se mora com outro, os papéis são inevitavelmente distribuídos e alguém terá de assumir alguns deles para o bom andamento da casa. É preciso passar, lavar, cozinhar e produzir renda. Na Holanda algumas pessoas contratam faxineiras que vêm à sua casa duas vezes por mês (por 3 ou 4 horas por faxina) e fazem a maior parte da limpeza exceto lavar, passar e cozinhar. Aqui não existem ‘secretárias’ que dormem no serviço, que ainda por cima lavam, passam, cozinham e fazem as vezes de uma babá. Isto aqui seria considerado trabalho escravo.

Mesmo se você tiver uma faxineira duas vezes por semana, as demais coisas continuam pendentes. E assim o é num relacionamento gay. Já fui anteriormente casado com uma mulher, com quem tenho uma filha. Os dias de sábado eram para carregar as pesadíssimas sacolas da feira. Eu cuidava da criança, ela realizava as tarefas da casa. Pode-se dizer que eu trazia o ‘sustento’ para casa. Mais tarde, já num relacionamento gay, continuei fazendo o mesmo porque eu não sabia fazer outra coisa. Eu estava acostumado a ter sempre alguém que lavasse, passasse e cozinhasse para mim. Fritar ovo era o ponto alto do meu conhecimento culinário. Nunca fui bom em consertos caseiros, subir no telhado, pintar parede ou consertar uma torneira, mas se necessário fosse, eu acharia isto preferível a tarefas domésticas. Eu achava ridículo contratar alguém para fazer isto, sem que eu ao menos tentasse. 

No meu penúltimo relacionamento (o qual foi com um holandês), eu tomei a iniciativa de lavar e passar as roupas, que se trata de uma atividade doméstica menos incisiva aqui do que no Brasil pois todo mundo tem máquina de lavar e secar, de forma que não se faz necessário, por exemplo, passar meias, cuecas e roupas de dentro. Durante o período de inverno, o casaco se torna a sua ‘segunda pele’. Ainda assim, pode ser cansativa esta tarefa. Este meu ex-parceiro cuidava da parte alimentícia e fui adiando a necessidade de aprender a cozinhar por mais alguns anos. E finalmente demonstrar toda a minha predisposição na cozinha ficou para o relacionamento atual pois eu cuido desta parte. Não somente cozinho mas também responsabilizo-me por tudo o que comemos durante o dia,  faço as compras e seleciono o que vamos comer.

Nenhuma destas tarefas faz sentir-me menos másculo. Não vejo nada em meus relacionamento atual ou nos anteriores que me lembrasse o relacionamento heterossexual que eu tinha ou nos papéis impostos pela “sociedade” a heterossexuais e homossexuais. Existem, por outro lado, grandes diferenças entre um relacionamento homossexual e um heterossexual no que tange a outros assuntos.

Escala Kinsey

Quando se trata da sexualidade homossexual, a grande maioria da pessoas pensaria apenas que serem ‘sodomizados’ uns pelos outros seria a  única forma imaginável de sexo. Por que outro motivo um homem escolheria outro homem, ao invés de alguém do sexo oposto e ainda ter de ‘bater de frente’ com toda uma sociedade que pensa ao contrário? Dentro da categoria ‘homossexuais’ somos subclassificados por afinidades, o que já foi seriamente estudado e é conhecido como escala Kinsey. Os homossexuais podem ser tão másculos e sérios quanto Rick Martin ou tão efeminados e engraçados quanto Jack MacFarland.

Jack MacFarland, da série "Will & Grace"

A aparência mais ou menos máscula de um homossexual não está diretamente ligado ao papel sexual dele, ou seja, uma travesti não é necessariamente a “mulher” de um relacionamento. Algumas travestis são bem-dotadas e não cogitam de jeito nenhum uma CRS (cirurgia de redesignação sexual) ou operação de sexo. Quanto se trata de homossexualidade, os olhos enganam muito.

Quem dá, quem come

Apesar de ferir os ouvidos, a pergunta faz sentido. Oras, se um homem um dia interessou-se por uma mulher e atualmente interessa-se por outro homem, ele trocou exatamento o que por o quê? Existe uma diferença muito grande entre um homem e uma mulher, que vão além das formas físicas e dos órgãos genitais. A textura da pele masculina e o odor também são diferenciais importantes, que muitas vezes são ignorados. Uma coisa não é trocada por outra. Apenas as mulheres conseguem produzir o odor e a textura próprias de uma fêmea. Quando se é homossexual (ou se é canditato a ser) este cheiro e textura são compelentes e funcionam um pouco como vício. É preciso ter um primeiro contato para se saber o quão forte o vício é ou será. A partir daí, existe uma certa química liberada no cérebro que causa um estado de euforia que não é mais suavizado da forma anterior.  

Existem até mesmo gays que não tem vida sexual ativa e os motivos são muitos: sofrem de frigidez (é bem mais comum do que se fala e homens com certeza também o tem), aceitam-se como gays mas preferem levar uma vida assexual ao invés de brigar contra todo um conjunto de leis e regras comportamentais milenares e/ou são extremamente tímidos. Quando finalmente se desvencilha de todo preconceito e se encontrou o grande amor de sua vida, a pergunta é, como se relacionar. A grande maioria dos gays são versáteis, isto é, eles desempenham papéis sexualmente ativos e passivos. Os apenas ativos ou apenas passivos são uma minoria. Quem é finalmente o que só ficará claro ao longo de um longo processo. Os papéis são invertidos e muitas vezes realizar apenas determinado tipo de papel tem a ver com a disposição do parceiro. Cada parceiro com quem um homem gay se relaciona libera uma química diferente no cérebro e os papéis sexuais podem alterar-se.

Cabeça aberta

Eu percebi ao longo dos anos que alguns heterossexuais que se dizem ‘cabeça aberta’, na verdade não o são. E para testar isto, é só começar a contar detalhes sobre a vida sexual dos gays e sente-se um imediato mal-estar. Não se pode esperar que pessoas de gerações anteriores entendam o que é homossexualidade, mas eu esperaria isto da geração atual ou de qualquer pessoa com menos de 50 anos.

Quer saber o quanto preconceito há? Se você for gay, tente trocar um beijo com alguém do mesmo sexo em público e/ou sentar-se ou caminhar de mãos dadas. Se você for heterossexual, peça que um casal gay faça isto. Num país tido como um dos mais tolerantes do mundo, a Holanda, os gays ainda tem medo de demonstrar afeto em público. Exceto no dia do orgulho gay, mal se vê dois homens ou duas mulheres de mãos dadas. Os jornais relatam casos de gays que são espancados por terem se exposto deste jeito. Eu e meu parceiro tentamos dar exemplo na medida do possível lembrando a todos que temos os mesmo direitos que os heterossexuais mas noto os olhares de discriminação e mesmo de sarcasmo. Ninguém ousa dizer algo preconceituoso a dois homens fortes que podem se defender mas tenho certeza absoluta de que eles o farão com outros, na primeira oportunidade se as julgarem franzinas e presas fáceis.  

Eu e meu parceiro atualmente

Ainda assim, acho que os gays deveriam ousar mais. E quando falo ‘os gays’ refiro-me a todos os gays da escala Kinsey sobre os quais eu escrevi acima. Atores e apresentadores holandeses dão bons exemplos aqui. Eles não somente se assumiram, como também mostram seus rostos nas paradas gays. Eu poderia citar o nome de vários atores e diretores brasileiros que são (de forma altamente suspeita) gays, mas não assumidos. Certa feita, em 2003, pedi um autógrafo na Praia do Porto da Barra, em Salvador a um ator que fazia o papel de um homem casado numa comédia sobre o dia-a-dia de um casal heterossexual. Este ator flertou comigo deixando-me mais pasmo do que lisonjeado. Eu não sabia que ele era gay. Um ator do gabarito dele poderia fazer mais do que flertar. A expressão da (homos)sexualidade dele não pássa disto. Ele poderia fazer toda a diferença na conquista dos direitos gays no Brasil, se ele se assumisse e tentasse mostrar a toda a população que os gays merecem respeito e os mesmos direitos.

Direitos iguais: casar, adotar filhos, etc são apenas a ponta do iceberg. Tudo isto já é possível aqui na Holanda desde 2001. Apesar de que a sociedade holandesa está acostumada com a idéia de que os gays tem os mesmos direitos, na prática convencer toda uma sociedade de que duas pessoas do mesmo sexo tem o direito de andar na rua de mãos dadas é algo que ainda não aconteceu aqui e tenho certeza que em lugar nenhum do mundo.