O ano passou rápido, rápido demais e somente agora dei-me conta de que, se não escrever algo nos próximos dias, não terei tido nenhum post publicado este ano em meu blog. Mas eu tenho uma boa explicação para isto. Em primeiro lugar, se eu realmente conseguir concluir este post, ele será o primeiro escrito por mim no Brasil – estou aqui de férias e utilizando o laptop do meu parceiro. Tentarei fazer um resumo de como eu experimentei o ano de 2011 mas para tal terei de voltar à meados de 2010.

Muitas pessoas fazem votos de sucessos e consecuções no ano novo, seja lá o que isto signifique. Tudo que eu desejei de 2010 para 2011 foi não acumular mais frustrações. Eu tenho algumas, assim como todo mundo e tento não me concentrar demais nelas. Nas frustrações que, ao meu ver, foram diretamente causadas e fomentadas por mim mesmo, eu me esforço em amenizá-las e manter um sorriso no rosto. Na empresa onde trabalho há quase 5 anos, eu vinha igualmente há 5 anos me batendo de frente com o gerente-geral da empresa, que aos meus olhos nunca passou de algo parecido com um capitão do mato das histórias brasileiras do tempo dos escravos, cujo único objetivo era perseguir escravos rebeldes e ‘fujões’. Eu e este gerente deixamos claro um ao outro desde o princípio que não nos simpatizávamos e que isto não estava prestes a acontecer em nenhum momento no futuro próximo. A presença dele me sufocava, a sua voz sempre alta me incomodava, seus gestos hipocritamente e exageradamente amigáveis para com alguns, que os aceitavam como que barganhando uma carreira na empresa, funcionavam aparentemente bem, dando a impressão de tê-los como aliados. Sempre fiz questão de não fazer parte deste jogo imundo de favores. Eu sequer saberia como fazer parte disto. Não sei ficar rindo para pessoas a quem não simpatizo. Mas posso cumprimentar e dar bom dia. Sempre fiz o meu trabalho de forma séria e os erros que cometi caem facilmente na categoria ‘humanos’. Nunca achei que estava devendo algo a alguém e com certeza não ao gerente-geral.

Para explicar melhor como os problemas entre eu e ele escalaram-se, terei de recuar um pouco para meados de 2010. Agosto de 2010: o gerente-geral odioso teve a grande oportunidade de se vingar de mim, a qual estava ansiosamente esperando há anos. O subgerente (coincidentemente o ex dele, colocado na empresa no famoso kruiwagen, pistolão) resolveu fazer um caça às bruxas a todo mundo que estivesse ‘usando’ Facebook no computador de trabalho, com diretrizes recém-inventadas e pouco claras, repassadas em tom de voz irritadiço como ‘desconecte o Facebook agora’. A minha simples pergunta foi ‘por quê?’. Sim, por quê? Por que de repente? Por que tão arbitrariamente? E por que o tom de voz irritadiço? Eu trabalhava na empresa há 3 anos e meio e esperaria uma resposta mais razoável e no mínimo respeitosa. Mais tarde descobri que vários outros colegas foram pressionados da mesma forma a deletarem as suas contas no Facebook. Como eu me neguei a obedecer e ainda retruquei com o mesmo tom de voz irritadiço, fui convidado para uma ‘reunião’ pessoal. O subgerente não soube dizer outra coisa senão o ‘tá demais’. O que ‘tá demais’? Eu não entendo esta língua. O fato de eu ter o Facebook conectado em meu computador não quer dizer de jeito nenhum que eu o esteja ativamente usando. E de mais a mais, nunca houve até o momento uma diretriz clara à respeito do uso de internet na empresa, nunca houve uma reunião a respeito e nunca o assunto foi discutido. De uma hora para outra, o Facebook e seus usuários viraram alvo de perseguição. Mas eu, em especial, virei alvo de perseguição nas mãos do gerente-geral e do subgerente que sempre me trataram com antipatia e indiferença. O subgerente não teve argumentos fortes para discutir comigo: aumentar o tom da voz dele ao ver que não estava conseguindo os resultados desejados não me intimidou e ele chamou então o gerente-geral. Os dois juntos conseguiram transformar a sala de reuniões num circo, tal qual eu nunca havia visto nada igual, nem durantes os conflitos de trabalho que eu já tive no Brasil. O gerente-geral aproveitou o ensejo para apontar vários “erros” cometidos por mim, vários “favores” que a empresa já me fez e vários defeitos na minha personalidade. Em nenhum momento tive a oportunidade de falar. A algazarra durou meia-hora e fiquei com dor de cabeça permanente após a discussão, por 5 dias seguidos.

Estava claro para mim que eu precisava abandonar esta empresa imediatamente. Senão eu poderia ainda furar o gerente-geral ou o subgerente no pescoço com uma caneta tinteiro e claro, ir para a cadeia.

Sede da empresa jurídica em Amsterdã

Na mesma semana fui à uma empresa jurídica para conflitos no trabalho (DAS), que coincidentemente ficava em frente ao prédio do escritório que eu trabalho e me foram dadas coordenadas quanto a como eu deveria me portar e quais documentos eu deveria apresentar. Várias coisas precisariam ser “provadas”. Mas como provar algo que é simplesmente a minha experiência? As coisas horríveis que eu ouvi foram ditas e gritadas e não escritas ou gravadas. Um outro outro colega disse que testemunharia a meu favor mas ele mesmo correria o risco de perder o seu emprego. Eu precisava pensar no assunto e consultar o travesseiro. Eu tinha alguns e-mails enviados para mim pelo gerente-geral sobre problemas que tivemos anteriormente e os quais eu salvei. Ele nunca perdia a oportunidade que usar termos como “play stupid” que não é inglês autêntico mas quem sabe falar holandês capta a expressão “dommetje spelen” (fazer-se de bobo/joão-sem-braço). Já no início do meu contrato em 2007, nos desentendemos porque, segundo os poderes a mim conferidos pela empresa, eu penalizei alguém que estava me assediando, um brasileiro frustrado que vivia na Alemanha estava chamando a todos os alemães de nazistas e racistas. Ele criou um perfil falso com a minha foto e escreveu acima “Daniel, racista”. Descobri mais tarde que este brasileiro era o ex-parceiro dele. Houve, mais tarde, repetidas situações nas quais sarcasmo e ironia despropositados eram lançados ao ar. A má notícia é que eu não tinha a menor dúvida de que ele queria desesperadamente me atingir. A boa é que o gerente-geral nunca mais dirigiu a palavra a mim, poupando-me de ter de encará-lo.

Como ‘psicopata’ (conforme alguns o chamavam) e bipolar ele tinha um extenso currículo. Segundo estes colegas que se autodemitiram, quase sempre por não terem sua privacidade respeitada, terem-lhes prometido aumentos salariais impossíveis, terem suas fotos expostas sem o seu consentimento, etc. Alguns destes abandonaram o escritório em meio do expediente, bateram a porta em estrondo e nunca mais puseram os pés no escritório. Até meados de 2010, este ‘psicopata’ gerente-geral reinou absoluto no local de trabalho. Imaginei que, se a situação seguisse assim insustentável por tempo ilimitado, eu deveria desde já começar a olhar além do meu mundinho e procurar alternativas. Criei perfis em vários sites de ofertas de trabalho, fiz telefonemas e disponibilizei-me para entrevistas. Por volta de setembro/outubro de 2010, fiz uma série de entrevistas para a função de tradutor e corretor de textos numa grande rede de reservas de hotéis. Não era nenhum salário brilhante mas eu mataria dois coelhos com uma cajadada só: eu me livraria do calo em meu sapato chamado gerente-geral, não agrediria ninguém e portanto não correria o risco de passar uma noite no xilindró. Apesar de ter chegado à última entrevista da série na rede de reservas de hotéis, não fui selecionado para a função e infelizmente fui obrigado a continuar aceitando a minha situação conflituosa anterior.

E assim terminou o ano de 2010, com gosto de raiva, frustração e impotência.

Janeiro de 2011. O gerente-geral foi “misteriosamente” demitido. O dono da empresa, ‘com lágrimas nos olhos’ anunciava a demissão do gerente-geral, que era, além disto, um amigo pessoal. Seu rosto demostrava luto, ao contrário da expressão estampada nos rostos de todos os outros. Eu sentia vontade de soltar fogos de artifícios e pagar uma rodada de cerveja para quem quer que fosse mas tive de fingir com o meu melhor conhecimento teatral que estava em choque ou em estado de negação. Com todo respeito, quem algum dia poderia chorar por aquele energúmeno? O sub-gerente pediu que respeitássemos a memória do ex-gerente-geral e evitássemos conversas internas sobre o assunto. Eu e alguns colegas fizemos exatamente o oposto: começamos uma investigação sem precedentes para descobrirmos o que levou à demissão do gerente-geral. Mas todos calaram-se. Para alguns foi um alívio verem-se livres do gerente-geral. O início de uma nova vida. Uma nova dinastia de paz e felicidade estava à caminho. Mas o que poderia ter sido tão horrível? Como simplesmente esquecer o assunto e perder a grande oportunidade de ‘passar’ tudo na cara dela se um dia o encontrasse por acaso na rua? Não sou a Madre Teresa de Calcutá, nem quero ser. Com ajuda da equipe de colegas que se dedicaram incansavelmente como investigadores vários “podres” sobre o gerente-geral foram desenterrados, inclusive detalhes de sua vida sexual (o que não me interessa) mas nada de grave que justificasse uma demissão sumária. Gostei, no entanto, de saber que a station wagon que ele dirigia não lhe pertencia, e sim à empresa. Por que demorou tanto para fazerem uma fiscalização mais séria?

Toda a situação conflituosa convenceu-me ainda mais a procurar alternativas para 2011. Eu tinha certeza absoluta de que não queria mais trabalhar nesta mesma empresa. Mas numa das muitas consultas ao travesseiro, concluí que o meu problema não era este subgerente ou aquele gerente-geral, esta empresa ou aquela empresa; o meu problema era ‘ter patrão’. Fazendo uma retrospectiva rápida da minha vida trabalhista, não é difícil de perceber que nunca fui bom em acatar ordens, muito menos as dadas em tom de arrogância e truculência. Eis um resumo:

1988 – 14 anos, primeiro emprego numa rede de farmácia em Santos. Erros de outros eram dados a mim com assinatura falsa. Eu exigi uma compensação por isto.

1992 – 18 anos, segundo emprego numa fábrica de calçados em Sergipe. Alguns dos ‘chefes’ eram de fato bipolares, acho até que bipolaridade era parte integrante do currículo. Deixei alguns falando sozinho. Fui taxado de ‘arrogante’ inúmeras vezes. Não vou nem mencionar as conotações racistas porque ouvir que tudo não passa de algo da minha cabeça me incomoda mais ainda. Não ser arrogante para algumas pessoas é não defender-se e ouvir passivamente outras pessoas lhe humilharem. Então, sim, sou arrogante.

1998 – 23 anos, lecionando inglês, aguardar quase dois meses por um salário mixuruca enquanto o seu ‘chefe’ está trocando de carro é coisa que eu não consegui mais engolir a partir desta época: aprendi a cruzar os braços, trabalho em troca em salário.

2002 – 27 anos, guiando, salários melhores mas patrões que pensam que você apenas trabalha. Você perdeu todos os direitos de ir ao cinema, fazer compras, ter um relacionamento. Em certa reunião reclamei que trabalhávamos quase 50 horas semanais e que o salario fixado não cobria os sacrifícios. Eu praticamente falei sozinho. Não tive o respaldo de meus colegas e fui demitido um mês depois de ter sido acusado de um erro que não cometi.

2006 – 32 anos, faxina na Holanda. Dividindo um edifício inteiro com uma jovem holandesa, dei-me conta de que ela estava empurrando a parte mais ‘suja’ e pesada do trabalho (remover teias de aranha e aspirar o pó de 3 amplos andares) para cima de mim enquanto ela estava ocupada fazendo telefonemas para vender ‘tupperware’. Não hesitei em entregá-la.

E antes que eu ouça algo como ‘esqueça o passado e perdoe os ofensores’, o passado só fica para trás quando o que quer que estivesse em déficit é superado de forma permanente. Perdão genuíno a quem lhe ofendeu só chega quando esta pessoa pede-lhe perdão de forma espontânea. Quando e como isto acontece é algo muito pessoal. Superar o déficit do passado depende muitas vezes de sorte, independente do esforço que se faz para corrigi-lo. Ao menos vale o conselho: sem se esforçar e apenas depender da sorte é que não conseguiremos corrigir este déficit. Na mesma época em que estava dando por perdido encontrar um novo emprego (já que o gerente-geral-capitão-do-mato havia sido demitido sumariamente de qualquer forma), recebi um convite para dar aulas de português para holandeses por um instituto de ensino que já atuava há alguns anos no mercado holandês com certo êxito. A entrevista foi em Rotterdam, cheguei pontualmente mas aguardei 1 hora pelo entrevistador e idealizador do instituto que atrasou-se, e que não teve a gentileza de desculpar-se, deixando uma impressão péssima já em nosso primeiro contato. O restante da entrevista decorreu bem e comecei a trabalhar em meados de janeiro de 2011. A primeira aula foi um sucesso e eu me perguntei a partir daí por que eu nunca havido levado à sério dar aulas até aquele momento. Lecionar português é tão difícil quanto lencionar qualquer outra língua estrangeira e tive de me atualizar urgentemente. Infelizmente não demorou muito até que eu descobrisse que este emprego também era outra ‘furada’. O dono do instituto não cumpria a sua palavra para com os próprios alunos, tinha um método estranho e ambivalente de calcular preços e horas, atrasava a entrega dos materiais didáticos e comecei a ter problemas sérios pessoais com ele quando começou a atrasar o meu pagamento. Recorri à já conhecida tática dos ‘braços cruzados’. E acreditem-me, funciona como um talismã.

Ao invés de canalizar as minhas energias para a pequenez de espírito de certas pessoas, como eu sempre o fazia antes, resolvi desta vez poupar-me, manter o espírito quieto e apenas ‘observar’. Observar o quê? Observar como uma pequena empresa deveria funcionar ou como não deveria funcionar. O que os clientes acham importante? O que eu iria querer se fosse o cliente? A partir de fevereiro comecei as pensar seriamente na probabilidade de ter o meu próprio negócio mas como fazê-lo? Quais as exigências formais e quais os primeiros passos a serem dados? Qual seria o meu público alvo? Que produto oferecer? Como torná-lo atraente e competitivo? Por volta de março de 2011 eu já tinha, não somente as respostas à estas perguntas, como havia começado ativamente a montar a empresa. Eu e meu parceiro decidimos juntos batizá-la de DAS Taaltraining. Coincidentemente é o mesmo nome da empresa jurídica de conflitos no trabalho que eu havia buscado em 2010. É além disto cada uma das iniciais do meu nome. O nome ‘escola’ ou ‘curso’ não são comumente usados para referir-se à cursos de idiomas na Holanda. Eu percebi que os nomes training e instituut eram os mais usados.

O próximo passo foi procurar uma empresa que criasse um website para a minha empresa. Eu já tinha em mente como queria a aparência do meu website e o grande desafio foi certificar-se se os desenvolvedores holandeses tivessem entendido as minhas instruções claramente. Descobri, no ínterim, que sou bom em dar ordens. Após longos 4 meses, o site ficou pronto. A empresa foi oficialmente lançada em junho de 2011 e em julho comecei a minha primeira turma. A preparação das aulas exigiu uma quantidade impressionante de tempo. Outra parte complicada foi contratar um contador que entendesse o quão desafiador tudo aquilo estava sendo para mim e onde eu estava precisando de ajuda. Outro desafio foi a parte de marketing: deixar interessados a par de tudo que ando fazendo através do Facebook, do Twitter, do Hyves, do Orkut, etc. Em 2011 consegui concluir 5 turmas e tenho outras 3 no momento. Se os planos derem certo, terei 4 já em janeiro de 2012, assim que voltar à Holanda. Empolgante é, mas representa também uma avalanche de trabalho, que dura às vezes até 1:00 da madrugada.

O trabalho secular mudou da água para o vinho. O novo subgerente é uma pessoa razoável e definitivamente não sofre de bipolaridades. Infelizmente o subgerente assumiu o lugar do ex-gerente-geral mas de certa forma, por motivos desconhecidos, está tentando também tornar-se uma pessoa mais razoável. Acho que todos os esforços dele ainda são sofríveis, mas prefiro as suas tentativas frustradas do que nenhuma tentativa, ou uma idéia preconcebida de que portar-se estranhamente seja algo aceitável, como era o caso anteriormente. Ganhamos novos colegas e a maioria nunca ouviu falar do odioso ex-gerente-geral. Parece tudo muito bom e muito bem. Mas alguma coisa quebrou dentro de mim e eu não consigo mais acreditar, nem sequer fingir que acredito que as pessoas ‘mudem’, pelo menos não se eu parar para pensar no histórico de pessoas bipolares com quem já trabalhei e conheci. Tornei-me, digamos assim, uma pessoa cínica. Acredito que quando hei de dar-me bem com alguém, isto acontece de forma espontânea e natural, sem interesses anexos e sem que eu tente provar isto à ninguém.

Durante a segunda metade do ano não tive mais tempo para concentrar-me em bipolaridades alheias. Precisei dividir o meu tempo sistematicamente entre os meus estudos (1o ano de tradução e interpretação LOI, atrasado devido aos acontecimentos deste ano), a manutenção da minha pequena empresa bem como o trabalho de relações humanas com os meus alunos, as minhas aulas dominicais de alemão com o Klaus Siebert, que mora há muitos anos aqui na Holanda e a atenção que deve ser dada sempre ao meu parceiro e aos amigos que não somente me apreciam mas também fazem questão de se encontrarem comigo para sairmos e nos divertirmos. Enfim, foi 2011 o ano em que finalmente fiz contato – comigo mesmo.