Em dezembro de 2012 fui diagnosticado como sendo portador da síndrome de burn-out. Achei o nome bastante assustador mas senti-me aliviado de saber que o mau estar que eu estava sentindo no final do ano tinha um nome. Como eu contraí burn-out? O que é burn-out? E finalmente, como se cura um burn-out?

bankpasO ano de 2012 começou bem. Muito bem, na verdade. Eu estava no Brasil com o meu parceiro aproveitando a nossa primeira viagem para lá juntos. Na virada do ano, o meu parceiro me pediu em casamento. O ano estava, portanto, marcado para ser um ano ocupado, pleno e, claro, estressante. Hora de trabalhar mais ainda, arregaçar as mangas, fazer o orçamento do casamento e começar a economizar dinheiro para o grande evento. Abrimos a nossa primeira conta conjunta e começamos a trabalhar em um site para bodas, que viria a tomar muito do nosso tempo. Mas o resultado final não decepcionou. O site ficou belíssimo e bem informativo. Nele pedimos aos convidados que não nos presenteassem com louças, enfeites, livros, que são muito elegantes, com certeza mas não há mais espaço para eles em nosso armário e em nossa biblioteca. Queríamos praticidade e solicitamos às pessoas que haviam pensado em nos dar um presente, que optasse por fazer uma contribuição em dinheiro e que esta fosse feita diretamente em nossa conta para que, com o valor arrecadado, pudéssemos custear a nossa lua-de-mel para Toronto. queer-as-folk-episode-14-saison-3-jpgSempre foi o nosso sonho irmos juntos a Toronto porque a cidade serviu de cenário para várias cenas externas do nosso programa favorito Queer As Folk.

Uma vez pronto o site, passamos a discutir quem convidaríamos para o nosso casamento, incluindo pessoas que sabíamos que não poderiam vir devido à distância. Eu preparei o draaiboek (roteiro) do casamento, que é o passo-a-passo de tudo o que aconteceria no grande dia, em que horário e por quem. O próximo passo seria elaborar uma grande pasta com todo o tipo de serviço que iríamos precisar contratar: ondertrouw (sistema holandês pré-nupcial), a cerimônia, a recepção, a festa, o fotógrafo, a roupa de casamento, os convites, o carro, o bolo, as alianças e finalmente, a lua-de-mel. O Willem acertou a parte da lua-de-mel, do ondertrouw e das alianças. Tivemos de fazer vários buracos em nossa agenda para conseguirmos ir, num dia útil qualquer, em pleno horário de trabalho, à prefeitura para confirmarmos a nossa intenção de casar. Isso incluiu uma outra viagem, em outra ocasião, à Groningen, para sermos entrevistados pela simpática juíza que faria o nosso discurso de casamento. Dias perdidos em que não podíamos fazer outra coisa. O tipo de alianças que agradou o Willem estava em Heerlen, o que nos rendeu um agradável final de semana em Aachen, na Alemanha.

Flyer FRONT-C1000-DIO Bonder 2012

Ligamos para todas as empresas existentes na Holanda que ofereciam automóvel de luxo para bodas que fosse conversível mas todos já haviam sido reservados. O mais engraçado era que os proprietários não davam maiores explicações: “Estão todos reservados, tchau”. A muito custo consegui encontrar um senhor um Groningen que alugava automóveis de luxo não-conversíveis, um Jaguar vermelho, na verdade. E ele seria o nosso chofer. E nos demos por satisfeitíssimos. Próximo problema: fotógrafo. Enviei vários e-mails e recebi algumas respostas como “Estou de férias” mas acabei optando por este fotógrafo a quem eu muito especificamente havia pedido que ele me mostrasse o “book” de outros trabalhos por ele realizados. Primeiramente ele não veio em casa mas combinou que dirigíssimos até uma cidade que ficava no meio do caminho entre a cidade dele e a nossa. Ele sentou, cruzou as pernas e falou ‘Ok, o que os senhores querem?’ Eu falei, ‘O que eu quero? Cadê o book do senhor?‘ mas a única coisa que ele tinha para me mostrar era algo que me lembrava um encarte de CD com fotos tão diminutas que mal dava para ver alguma coisa. Mas, pelo menos neste dia, pareceu ser um senhor simpático e honesto, disposto a ganhar dinheiro (“Eu não complico as coisas, não”, dizia ele toda hora) e tudo o que eu queria era mais este ponto preenchido em nossa agenda.

rokaPara a roupa de casamento, encomendamos várias brochuras de casamento como a Tip de Bruin, ROKA e mesmo Maison van den Hooge, onde eu já havia alugado um terno antes para uma sessão de fotos. Optamos pela ROKA por ter uma filial também em Groningen, onde iríamos nos casar e portanto iríamos para lá com frequência nos próximos meses. Deu para matarmos vários coelhos com uma paulada só. O atendimento na ROKA é 5 estrelas e decidimos alugar os fraques ali. Os fraques seriam para a cerimônia. Para a recepção e a festa não encontramos nada que nos agradasse e adiamos para olhar com calma na filial deles de Haarlem. Quanto ao bolo, entrei novamente em contato com várias pessoas por e-mail. Esta foi a parte mais irritante porque, além de cobrarem caro, as pessoas que oferecem este tipo de serviço não tem a menor imaginação para pensar que o bolo precisa ser transportado. A maioria das pessoas dizem apenas: “Não posso fazer nada.” Entregamos o pedido nas mãos de uma funcionária da casa-restaurante onde nos casaríamos e ela conseguiu resolver o problema à muito custo e com muitos telefonemas para mim. Eu acredito que ela me ligou umas 30 vezes no total, sem exagero. Mencionei que nós queríamos o nome Faggot (“veado”) em nosso bolo mas que os fornecedores que ela havia contatado negaram-se a princípio a fazê-lo por ser faggot um nome ofensivo?

Flyer FRONT-C1000-DIO Bonder 2012

No meio deste furacão todo que a minha vida se tornou, tentei manter-me o mais pontual e correto com os meus compromissos: o meu emprego de meio período onde trabalho há 6 anos, as aulas que eu dava na época na Vrije Universiteit para a minha própria empresa, o horários: das 19:00 às 21:30, depois de eu já ter trabalhado das 9:00 às 17:45. Às vezes eu trabalhava quase 12 horas por dia e só chegava em casa às 23:00 ou mais tarde. Depois da visita do Michel Teló na Holanda, eu fiquei conhecido como tradutor e intérprete e fui convidado para vários outros trabalhos. michel teló1No final de 2012 eu fui chamado para ser o intérprete do cantor brasileiro, Gusttavo Lima. Fui para a cama várias vezes às 04:00 da manhã. Eu sabia que estava me desgastando mas nunca imaginei, nunca desconfiei que isso fosse me atingir fisicamente. Afinal de contas, eu sempre me considerei muito forte, mental e físicamente e nunca tive problemas como depressão, enxaqueca, insônia, etc. Eu sempre fiz tudo o que eu tinha de fazer e sempre dei conta do recado. Por que desta vez seria diferente?

Faltando pouco mais de um mês para o casamento, percebi que algumas pessoas ainda não haviam confirmado presença (RSVP). A quantidade de pessoas influiria na decisão quanto ao tamanho do salão que alugaríamos para o casamento e na quantidade de comida e bebidas que ofereceríamos e por que não dizer, no próprio tamanho do bolo. Passei a enviar lembretes para algumas pessoas quase que diariamente. Alguns chegaram a confirmar ou declinar faltando dias para o casamento ou mesmo no dia do casamento. Algumas pessoas jamais sequer entraram em contato. Dia do casamento, chegamos para a cerimônia mas logo depois me dou conta que muita gente que havia confirmado presença não estava lá e não por má vontade: o chefe de uma das pessoas teve um ataque cardíaco, o vôo da outra pessoa foi cancelado, a outra pessoa teve diarréia, a outra teve de cuidar do marido que ia ser internado e ainda outra sofreu um leve acidente de carro, nada grave mas o suficiente para ter de ir ao hospital e em seguida ir para casa descansar.

beyonce-single-ladies-put-a-ring-on-it-webcastrRespirei fundo quando ouvi as notícias, contei até dez e disse para mim mesmo que ficaria tudo bem. No dia seguinte teríamos um jantar em família mas decidimos anulá-lo justamente por problemas familiares. Senão ao invés de um jantar requintado num dos restaurantes mais caros da cidade, teríamos uma comédia de tortas-na-cara e pagar pelo estrago. Tiramos o dia para ficarmos em casa e descansar. Casar cansa. No sábado, numa pequena mas aconchegante boate perto da Dam receberíamos por volta de 40 amigos mas infelizmente só compareceram 25. Tocamos a festa assim mesmo. Mas eu começo a sentir os primeiros sinais de saturação. Um deles é que, apesar de eu ter feito uma lista de músicas dos anos 70 e 80 e dado para o DJ e pedido para ele tocar exclusivamente aquelas músicas, várias vezes o vi tocando músicas que nem eu nunca ouvi na vida, enquanto os meus convidados estavam entediados, de pé, ao invés de estarem dançando. Várias vezes subi até o espaço do DJ para lembrar-lhe que eu estava pagando (caro) para ele tocar o que eu havia pedido. Dancei Single Ladies com minha amiga Sandra, que é professora de zumba e se propôs a vir em casa para praticarmos. Depois disso eu queria apenas ir para a lua-de-mel e descansar. A comissária de bordo da KLM nos ofereceu um brinde e foi muito gentil. Toronto é linda e muito amigável. A cidade toda parece ser gay e as pessoas penduram orgulhosamente a bandeira gay nas janelas de suas casas e apartamentos. Não comemos tão bem assim mas acho que se fosse possível comer bem em Toronto, lá seria um lugar perfeito. O café da manhã era excelente, com alguns rapazes de Taiwan perguntando como queríamos o nosso ovo.

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Tradução: Infelizmente prevenir não resolveu o problema!

De volta à Holanda, retomei o ritmo das aulas e voltei para o meu trabalho. Mas alguma coisa mudou dentro de mim. Eu não estava mais querendo trabalhar. Estava achando o ambiente no trabalho extremamente barulhento e maçante (é assim há vários anos mas só depois do casamento ficou óbvio para mim). Comecei a fugir de certos colegas literalmente e mais ou menos no fim de outubro, percebi que alguns colegas estavam fugindo de mim também. E foi a partir deste ponto que eu comecei a me olhar no espelho e a me perguntar o que estava errado. Comecei a ter dôr de cabeça todos os dias, me assustar com qualquer movimento brusco, me perder olhando para o computador e vendo apenas as letras mas não necessariamente lendo alguma coisa e perdendo aos poucos a vontade de abrir a porta e sair de casa. Para o que quer que fosse. No começo de novembro, eu e os colegas fomos convidados para uma reunião, assim que chegamos ao escritório. A urgência da reunião, acho, me deu um ataque de pânico. Eu me levantei e aguardei no canto. O meu chefe me perguntou qual o problema e eu lhe disse que precisava sair do escritório. Que ele me demitisse, se quisesse. Mas eu precisava ir embora. Ir para casa.

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Eu precisava voltar para o escritório no próximo dia de trabalho mas novamente pedi licença médica. E o restante aconteceu nesta ordem: falei com o Willem que pedi demissão, ele me alerta que pode ser burn-out, olho o assunto na wikipedia, marco consulta com o médico, ele confirma o burn-out, passo a consultar uma psicóloga e a frequentar sessões de fisioterapia psicossomática. Cancelei praticamente todos os meus compromissos. Recentemente comecei a frequentar um grupo de apoio. Hoje é 1o de fevereiro e estou me sentindo muito bem, ainda que com um pouco de dôr de cabeça. Estou trabalhando a metade da carga horária e daqui à abril estarei trabalhando a carga integral. Retomei às aulas e aos poucos estou reassumindo as rédeas. Para ter burn-out é fácil. Qualquer um pode ter. Difícil é sair dele. Se você acha que pode estar sofrendo desta mal, o meu primeiro conselho é ‘procure o seu médico’. Não se auto-medique e acima de tudo, não dê ouvidos a todo conselho alheio. Não use medicamentos controlados e muito menos aqueles que não foram prescritos por receita. Eles podem causar vício e não resolvem o problema a longo prazo mas troca um pelo outro. Fale com profissionais e faça parte de um grupo de apoio.