Mês que vem completa dois anos que não posto nada aqui. Acumulei assunto, tanta coisa aconteceu nos últimos dois anos que nem sei por onde começar. Relendo o meu próprio post percebo que uma rotina maçante tinha me afundado num burn-out e apesar de querer ficar longe dela, ela estava me esperando nos meses a frente. Infelizmente não havia outra opção senão reencará-la. Tentei o máximo que pude esconder a minha cara de insatisfação das pessoas ao meu redor mas quando uma pessoa não toma decisões por si própria, outros tomam. Em junho de 2013 fui demitido. O meu chefe foi tão cuidadoso ao me informar de minha demissão para não me magoar mas por dentro eu estava festejando. Eu poderia ir para casa imediatamente e ainda teria o meu salário pago normalmente até agosto. A partir de setembro do mesmo ano eu teria um uitkering (seguro-desemprego) que no meu caso específico, duraria pouco mais de um ano. Um verdadeiro alívio apesar de saber que seria apenas a contagem regressiva para algo que eu não sabia o quê.

O meu primeiro pensamento era o de relaxar de imediato. Perdi o interesse nos estudos e no trabalho. Eu queria poder passar o dia inteiro sem ter pensar em nada. E se tivesse de pensar em alguma coisa, que fosse em mim próprio. Percebi que, apesar de ter exposto a minha situação em redes sociais, ninguém estava realmente preocupado com os meus problemas, o que eu acho normal. Só não consegui deixar de notar que estas mesmas pessoas só me procuravam para falar dos problemas delas. facebook-remover-amigosNão importasse a fase da vida eu estivesse passando, os problemas deles sempre eram mais importantes que os meus. Deletei estas pessoas da minha vida, o que não foi tarefa fácil já que alguns eram parentes e outros eram pessoas que eu considerava amigas por muitos anos, apesar de nunca ter visto nenhuma prova de amizade ao longo de vários anos da parte deles. Achei deliciosamente egoísta mandar todo mundo às favas.


oktoberfestAo final de 2013 fui à Alemanha para participar da oktoberfest e reencontrei-me com pessoas que eu já conhecia do Brasil. Conheci também várias outras pessoas com quem foi possível reinventar amizades e respirar novos ares. O ar que eu estava respirando dos últimos anos estava viciado. 4358Eu e o Willem passamos a virada do ano na Escócia onde assistimos fantástico concerto da banda Pet Shop Boys e foi muito divertido cantarolar ao vivo canções que marcaram a minha infância. De volta à Holanda, a realidade era outra e eu precisava entender que o ano de 2014 significaria para mim procurar um novo emprego e tentar atrair mais alunos para o curso de português. Apesar dos meus sinceros esforços, ficou claro para mim antes do fim do primeiro semestre de 2014 que a economia da Holanda estava estagnada.

Olha-se ao redor e apenas se ouve que fulano e ciclano está desempregado.  Ouve-se nas notícias que mais empresas estarão demitindo mais funcionários, o governo estará cortando verbas e subsídios, apertando o cinto ao passo que a monarquia holandesa que vive em estado de negação anuncia todos os anos que a crise já passou. Passou para quem? Em algumas províncias, a taxa de desemprego bateu os 10% este ano apesar de a maioria dos holandeses continuarem achando que é apenas 6% que é a taxa de 2006. grafiekApesar desta porcentagem afetar a todos, a maior parte dos desempregados são os jovens, especialmente os de origem marroquina e os estrangeiros, que na Holanda, não caem em categoria nenhuma. Solicitar emprego na Holanda não é o fim do mundo. Eles tem um website muito bem elaborado no qual se preenche um currículo e onde novas vagas surgem diariamente. Tudo o que o desempregado tem de fazer é solicitar pelo menos uma vaga por semana e comprovar isso por escrito. A parte cansativa é ouvir respostas do tipo ‘demos a vaga para outro, boa sorte com a sua busca’.

desempregoA gente vai começando a desconfiar que o problema é ser estrangeiro. Digo, pelo menos um emprego mediano, do qual se pode pagar as dívidas e quem sabe poupar algum dinheiro. Algumas solicitações incluiam que o solicitante pagasse o próprio transporte para ir ao trabalho e ainda por cima por um salário ridiculamente irrisório. Uma outra empresa deixou claro que não me daria um emprego para uma vaga a qual eu sou bem experiente porque eu tenho um ‘sotaque’, apesar de nada disto ter sido declarado no anúncio de emprego, a única exigência era: goed Nederlands (holandês razoável). Jura? Tenho de perder o meu sotaque para algum dia ter um emprego na Holanda? Como se faz isso, batendo a minha cabeça na parede até perder a memória de quem eu sou? Mais uma vez a Holanda tenta justificar algo que não tem justificativa. Eu entrei em contato com uma organização local, que de bom grado entrou em contato com a empresa para deixá-los a par que eu não concordava com a sua política de contratação  mas não demora muito para perceber que a organização tem pouca ou nenhuma vontade de defender a pessoa que se sente vítima de discriminação. Entendo que várias pessoas no mundo sofram discriminação mas acho que depende delas aceitar este fato sem fazer absolutamente nada. Eu tampouco consegui nada e desisti. Comecei a enviar currículo para outros países. Tendo estado recentemente em Munique e em Edimburgo, imaginei que seria um interessante desafio trabalhar por lá mas infelizmente os destinos que me foram oferecidos não foram exatamente os esperados, um deles foi Malta, para onde eu nunca quis ir. O segundo destino oferecido, Irlanda, me atraiu mais pela proximidade com a Holanda e semelhança com a Escócia. Parti do princípio de que eu teria um problema de logística nos primeiros meses caso aceitasse o emprego.

Esta oferta de emprego na Irlanda tornou-se realidade e aceitei prontamente. paddys-irish-pub-1Não é o emprego melhor remunerado do mundo mas um que poderia me dar experiência em suporte técnico a qual eu talvez poderia aprimorar e quem sabe tornar o meu currículo mais interessante quando eu voltar para a Holanda. Quando eu voltasse. Mas agora a questão é ‘se’ eu algum dia quero voltar para a Holanda. Estou aqui desde setembro do ano passado e admito que estou gostando mais do que tinha esperado. E o que torna este país tão diferente são os próprios irlandeses, extremamente amigáveis e que definitivamente mantém uma relação íntima com o álcool. Depois do burn-out de 2012 acredito que é bom para mim morar num país assim por um tempo mas não estou sentindo nenhuma falta da Holanda. O ano de 2015 apenas começou; vamos ver se estarei me sentindo assim por volta de setembro.