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Fui diagnosticado com catarata no olho esquerdo no primeiro mês de trabalho na Irlanda, o que precipitou a minha decisão de voltar para a Holanda. A empresa a qual eu trabalhava oferecia um check-up gratuito com médico interinos aos novos funcionários que pudessem estar desconfiando de algum problema recente na visão.

No meu caso, nem tão recente assim. Eu nunca realmente precisei usar óculos mas usei ocasionalmente, sempre aconselhado por especialistas. Oftalmologia deve ser a área da medicina mais acessível do mundo. Em todos os meus empregos anteriores, eu poderia contar com um especialista da própria empresa. IMG_0015_NEW_0002Aos 18 anos e com emprego de tempo integral, já usava óculos que não combinavam com o meu rosto e não alteravam a minha visão nem para melhor, nem para pior. Fui convencido a comprar armação e lente com a deixa de que o uso frequente eliminaria todo e qualquer riscos futuros de um olho “preguiçoso”, uma vez que o meu grau não era forte (inferior a 1) e que eu era muito jovem para sofrer de alguma distorção na visão. O acessório me deixava anos mais velho mas eu até gostava da idéia; aos 18 anos eu já aparentava ter 21 ou 22 e não por causa de rugas, cabelos grisalhos ou barba. Tive a minha primeira experiência com o barbear aos 18 anos e dava para contar os fios presos na lâmina.

Esta não foi a minha única ocasião com óculos, como já mencionado. Com os meses a armação perdia o encanto, começava a ficar incômoda, pesada, um trambolho em cima do meu nariz e eu deixava de lado. E já que eu continuava “enxergando” e funcionando normalmente, até esquecia da existência dos óculos. eu1 Voltei a usar óculos em 2003 (aos 28 anos) e tive a mesma experiência sem propósito depois de ter gastado baldes de dinheiro comprando armação e lentes relativamente caras. Mais recentemente em 2009 (aos 34 anos) a última tentativa. Ficar horas sentado na frente de um computador fazia os meus olhos lacrimejar tanto que muitas vezes que tinha de ir ao banheiro só para enxaguá-los. Em todas as ocasiões, eu usava os óculos muito esporadicamente porque estar ou não com o óculos não fazia a menor diferença na capacidade de ler algo a distância ou de perto.

No geral eu conseguia ler de perto e de longe. Havia apenas poucos momentos, depois de um longo período lendo algo na tela do computador ou em um livro, em que os olhos ardiam e lacrimejavam. Olhei o meu histórico familiar: pai biológico usava óculos mas não sei se por necessidade ou como acessório, mãe idem e sofre atualmente de glaucoma, minha irmã mais velha óculos quando adolescente mas até onde eu sei, não usa mais, demais irmãos, até onde eu sei, tampouco usam óculos. A impressão que dá que é a “cegueira” pulou uma geração. Então, doutor, qual é o meu diagnóstico?

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Catarata. Foi isso o que a oftalmologista da ótica Mullins & Henry, da cidade de Maynooth, na Irlanda me informou de primeira mão. Eu havia sido redirecionado para lá pelo médico da empresa, que afirmou não ter meios mais sofisticados para fazer diagnósticos além de miopia, astigmatismo e presbiopia. Apesar de ter ficado chocado de ouvir isso, pois foi como se os meus super poderes tivessem sido tirados e mim e a partir daquele momento eu iria sentir dor como um reles humano, fiquei igualmente aliviado. Isso explicou tudo, todas as armações, todos os oculistas, todas as vezes en que os olhos lacrimejavam e ficam vermelhos e a dificuldade de ler e me concentrar por longos períodos. A oftalmologista deixou claro que a única solução para o meu caso seria uma operação.

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Como eu estava na Irlanda para uma breve experiência profissional, tentei começar um procedimento por lá mesmo. Em Dublin, há o Royal Victoria Eye and Ear Hospital ao qual eu fui encaminhado pelo clínico geral, que por sua vez a última oftalmologista da Mullins & Henry havia me indicado. Este hospital arquivaria o meu caso (não sei onde), eu ficaria numa longa fila de espera (tipo de 1 a 2 anos, por ainda ser “jovem”) e seria contatado quando chegasse a minha vez. Totalmente incerto como este contato se sucederia: se por e-mail, por telefone, por carta. Médicos e clínicos gerais do sistema público da Irlanda demonstram praticamente zero interesse no paciente antes da internação e isso me fez refletir que era hora de voltar para casa. Acrescente a isso problemas laterais, como por exemplo, a pequena casa que eu havia alugado havia sido arrombada enquanto estava trabalhando. garda-on-patrolFelizmente não roubaram nada mas absolutamente cada canto da casa havia sido revirado. Polícia chamada, impressão digital analisada e não detectada pois o meliante usava luvas, “considere-se um sortudo por ele não ter roubado nada, tchau”. Por mais que eu tivesse gostado da experiência de viver fora da Holanda por uns 6 meses, o que me deu um vislumbre do que é ser europeu e não simplesmente holandês, bati o martelo e decidi que era hora de voltar. O meu parceiro ficava na ponte-aérea e apesar dele dizer que não se importava, eu não achava isso justo com ele.

De volta à Holanda e devidamente registrado no endereço de sempre com o meu parceiro e com plano de saúde atualizado, hora de ouvir a versão dos médicos holandeses, que confirmaram o diagnóstico dos oftalmologistas irlandeses. specsavers_zpsvqqoxpboNaquele momento tive um flashback de um oculista holandês examinando o meu olho na ótica Specsavers, que é bem-renomada na Holanda, dizendo que eu não tinha nada além de um olho preguiçoso e que eu ia adorar a armação x, que era a minha cara e estava com 20% de desconto até amanhã. Estranho que este oculista não viu absolutamente nada de uma doença que eu aparentemente já tinha por ocasião da compra daquela armação e lentes. Eu provavelmente tenho catarata deste adolescente pelos cálculos dos vários especialistas. Na Holanda temos uma discussão sobre oculistas não-diplomados. A tendência é julgar um senhor de cabelo grisalho e jaleco branco, de voz amigável e sorriso no rosto como diplomado mas até recentemente na Holanda, uma pessoa com apenas conhecimento teórico em oftalmologia (estudou mas não se formou) poderia exercer a função sem problemas. Acredito que ele poderia oferecer os serviços dele mais baratos com o intuito de atrair clientes a loja, onde o cliente é atendido por um ‘oculista’ por ocasião da compra de armação e lentes. E foi exatamente o que aconteceu comigo.

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Eis que em julho de 2015 estou deitado na mesa de operação da clínica Zonnestraal, em Hoogeveen depois de várias idas e vindas à clínica para delatar o olho, escanear, olhar e reolhar e discutir e rediscutir com outros oftalmologistas qual o procedimento apropriado no meu caso. Nestas horas a gente precisa de alguém para apoio, para levar e trazer porque a pessoa fica inutilizada no dia da operação, para fazer o que seja. Felizmente tenho o meu parceiro, dedicadíssimo e atencioso mas fico me perguntando como se viram as pessoas que são ou estão sozinhas e não podem contar com ninguém numa hora destas. A operação foi um sucesso, durou uma hora e pude voltar para casa de imediato. 2015-11-05 12.28.51O pós-operatório provoca dores horríveis após o término do efeito da anestesia. Aqui na Holanda, paracetamol é liberado e os médicos aconselham até 6 por dia; eu tomei logo uns 4 de uma vez e me nocauteou. Quando acordei a dor estava mais suportável. No dia seguinte retirei a capinha que cobria o olho só para querer cobrir de novo e deixar lá quieto. Parecia o olho do Fred Krueger, vermelho, cheio de veias e pontos e inchado. A primeira semana é um ritual cansativo de pingar colírio várias vezes por dia; a quantidade de colírio vai caindo por gota semanalmente até chegar a zero várias semanas mais tarde.

Por volta de setembro, apesar da minha visão ter realmente sido restabelecida, notei um novo fenômeno: black drops into watermanchas e riscos dançando na direção para onde eu olhava, um pouco como se eu estivesse debaixo d’água e como se alguém tivesse desejado um outro líquido negro na água diante de mim. Muitas vezes, andando pela rua eu tinha a impressão que alguém estava tentando me abordar e eu fazia um movimento brusco para o lado só para perceber que não havia ninguém.

Entramos em contato com a filial local da clínica que realizou a operação e começamos uma nova novela de idas e vindas a clínica, e oftalmologistas que discutem com outros oftalmologistas e mais uma vez um procedimento incisivo no meu olho que incomoda por eu não ter permissão de piscar por um longo período. A vontade que dava era de dizer: deixa como está, valeu a intenção, vou para casa, tchau. Não sei o que é pior: esta patologia ou estes patólogos me usando como cobaia o tempo todo. Numa sexta-feira, a médica disse que entraria em contato na semana seguinta, a partir de terça-feira. Mas ela ligou no dia seguinte, em pleno sábado e marcou consulta para domingo. Com a clínica fechada. Atendimento VIP exclusivo para mim, finalmente. Ela disse que não estava conformada com o que poderia estar causando as manchas que eu estava vendo e me enviou ao departamento de oftalmologia da VUmC (Vrije Universiteit Medisch Centrum, Hospital Universitário) de Amsterdã, para última análise e cirurgia imediata (fosse qual fosse o diagnóstico). Fui atendido por uma oftalmologista muito simpática que me acompanhou daquele ponto até a recuperação total do meu olho. Ela explicou que a minha retina tinha se descolado. O meu primeiro pensamento foi: tem isso também? vitrectomyretinaldetachment1

A retina se desloca e vai encolhendo e leva inevitavelmente à cegueira. O tratamento seria inserir uma bolha de gás dentro do globo ocular que forçasse a parede do globo ocular para as dimensões corretas mas eu estava além deste procedimento. A bolha de gás não seria suficientemente eficaz; eu precisava de uma bolha de silicone. Tudo decidido de último momento.

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A operação estava prevista para durar uma hora ou menos até mas durou quase duas horas. Desde que resolvesse o problema, para mim tudo bem, mas um pequeno detalhe é que a bolha de silicone não se dissolve no olho, ela precisa ser retirada cirurgicamente. Pós-operatório: outro calvário. Paracetamol: muito, muito. Colírio: muito, muito. Cuidados mil: primeira semana a gente só respira, segunda semana, respira e inspira, terceira semana …

Terceira operação marcada para janeiro de 2016 caso o meu olho tivesse se recuperado corretamente. Checape: retina 100% recuperada. Hora de retirar a bolha de silicone. Operação realmente simples em comparação com as anteriores, pouca dor no pós-operatório e pouco paracetamol também. Já se passaram dois meses por ocasião de eu estar escrevendo isso mas o olho esquerdo infelizmente não perdeu a sensibilidade: uma vez ou outra eu sinto uma pressão no olho, como se alguém invisível estivesse empurrando o meu olho com o dedo. Admito que está ficando cada vez menos frequente. Vi vídeos no youtube de pessoas que fizeram a mesma operação e todas disseram que leva até 6 meses para total recuperação. Eu estou bem, as manchas dançantes sumiram mas ainda vejo resquícios da bolha de silicone. Elas são estáticas e não incomodam; ainda bem porque o último oftalmologista foi honesto o suficiente para dizer que se elas ainda não sumiram, provavelmente ficarão lá pelo resto da minha vida. A boa notícia é que não ficarei cego e provavelmente nunca precisarei de óculos de grau, só quando estiver bem velhinho (a visão do meu olho direito é magnífica e compensa a deficiência do olho esquerdo) e pensando de forma mais ampla, se eu tivesse nascido no século 18, eu provavelmente iria ficar totalmente cego de um olho antes dos 45 anos, se é que eu ia viver tanto tempo. Obrigado, ciência e tecnologia e todos os profissionais que aprenderam a usá-las para o benefício da humanidade.

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Uma pergunta e um conselho para você que leu isso até aqui e se identificou: você usa óculos a vida inteira mas o grau pouco importa, o seu olho sempre irrita e lacrimeja e você mal consegue ler 5 páginas seguidas de um livro? Procure o seu clínico geral e peça que o redirecione a um oftalmologista (depende de como o sistema de saúde funciona no seu país). Mencione a minha história. A sua visão pode estar passando por um grande risco mas ainda há tempo de corrigir.

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Em dezembro de 2012 fui diagnosticado como sendo portador da síndrome de burn-out. Achei o nome bastante assustador mas senti-me aliviado de saber que o mau estar que eu estava sentindo no final do ano tinha um nome. Como eu contraí burn-out? O que é burn-out? E finalmente, como se cura um burn-out?

bankpasO ano de 2012 começou bem. Muito bem, na verdade. Eu estava no Brasil com o meu parceiro aproveitando a nossa primeira viagem para lá juntos. Na virada do ano, o meu parceiro me pediu em casamento. O ano estava, portanto, marcado para ser um ano ocupado, pleno e, claro, estressante. Hora de trabalhar mais ainda, arregaçar as mangas, fazer o orçamento do casamento e começar a economizar dinheiro para o grande evento. Abrimos a nossa primeira conta conjunta e começamos a trabalhar em um site para bodas, que viria a tomar muito do nosso tempo. Mas o resultado final não decepcionou. O site ficou belíssimo e bem informativo. Nele pedimos aos convidados que não nos presenteassem com louças, enfeites, livros, que são muito elegantes, com certeza mas não há mais espaço para eles em nosso armário e em nossa biblioteca. Queríamos praticidade e solicitamos às pessoas que haviam pensado em nos dar um presente, que optasse por fazer uma contribuição em dinheiro e que esta fosse feita diretamente em nossa conta para que, com o valor arrecadado, pudéssemos custear a nossa lua-de-mel para Toronto. queer-as-folk-episode-14-saison-3-jpgSempre foi o nosso sonho irmos juntos a Toronto porque a cidade serviu de cenário para várias cenas externas do nosso programa favorito Queer As Folk.

Uma vez pronto o site, passamos a discutir quem convidaríamos para o nosso casamento, incluindo pessoas que sabíamos que não poderiam vir devido à distância. Eu preparei o draaiboek (roteiro) do casamento, que é o passo-a-passo de tudo o que aconteceria no grande dia, em que horário e por quem. O próximo passo seria elaborar uma grande pasta com todo o tipo de serviço que iríamos precisar contratar: ondertrouw (sistema holandês pré-nupcial), a cerimônia, a recepção, a festa, o fotógrafo, a roupa de casamento, os convites, o carro, o bolo, as alianças e finalmente, a lua-de-mel. O Willem acertou a parte da lua-de-mel, do ondertrouw e das alianças. Tivemos de fazer vários buracos em nossa agenda para conseguirmos ir, num dia útil qualquer, em pleno horário de trabalho, à prefeitura para confirmarmos a nossa intenção de casar. Isso incluiu uma outra viagem, em outra ocasião, à Groningen, para sermos entrevistados pela simpática juíza que faria o nosso discurso de casamento. Dias perdidos em que não podíamos fazer outra coisa. O tipo de alianças que agradou o Willem estava em Heerlen, o que nos rendeu um agradável final de semana em Aachen, na Alemanha.

Flyer FRONT-C1000-DIO Bonder 2012

Ligamos para todas as empresas existentes na Holanda que ofereciam automóvel de luxo para bodas que fosse conversível mas todos já haviam sido reservados. O mais engraçado era que os proprietários não davam maiores explicações: “Estão todos reservados, tchau”. A muito custo consegui encontrar um senhor um Groningen que alugava automóveis de luxo não-conversíveis, um Jaguar vermelho, na verdade. E ele seria o nosso chofer. E nos demos por satisfeitíssimos. Próximo problema: fotógrafo. Enviei vários e-mails e recebi algumas respostas como “Estou de férias” mas acabei optando por este fotógrafo a quem eu muito especificamente havia pedido que ele me mostrasse o “book” de outros trabalhos por ele realizados. Primeiramente ele não veio em casa mas combinou que dirigíssimos até uma cidade que ficava no meio do caminho entre a cidade dele e a nossa. Ele sentou, cruzou as pernas e falou ‘Ok, o que os senhores querem?’ Eu falei, ‘O que eu quero? Cadê o book do senhor?‘ mas a única coisa que ele tinha para me mostrar era algo que me lembrava um encarte de CD com fotos tão diminutas que mal dava para ver alguma coisa. Mas, pelo menos neste dia, pareceu ser um senhor simpático e honesto, disposto a ganhar dinheiro (“Eu não complico as coisas, não”, dizia ele toda hora) e tudo o que eu queria era mais este ponto preenchido em nossa agenda.

rokaPara a roupa de casamento, encomendamos várias brochuras de casamento como a Tip de Bruin, ROKA e mesmo Maison van den Hooge, onde eu já havia alugado um terno antes para uma sessão de fotos. Optamos pela ROKA por ter uma filial também em Groningen, onde iríamos nos casar e portanto iríamos para lá com frequência nos próximos meses. Deu para matarmos vários coelhos com uma paulada só. O atendimento na ROKA é 5 estrelas e decidimos alugar os fraques ali. Os fraques seriam para a cerimônia. Para a recepção e a festa não encontramos nada que nos agradasse e adiamos para olhar com calma na filial deles de Haarlem. Quanto ao bolo, entrei novamente em contato com várias pessoas por e-mail. Esta foi a parte mais irritante porque, além de cobrarem caro, as pessoas que oferecem este tipo de serviço não tem a menor imaginação para pensar que o bolo precisa ser transportado. A maioria das pessoas dizem apenas: “Não posso fazer nada.” Entregamos o pedido nas mãos de uma funcionária da casa-restaurante onde nos casaríamos e ela conseguiu resolver o problema à muito custo e com muitos telefonemas para mim. Eu acredito que ela me ligou umas 30 vezes no total, sem exagero. Mencionei que nós queríamos o nome Faggot (“veado”) em nosso bolo mas que os fornecedores que ela havia contatado negaram-se a princípio a fazê-lo por ser faggot um nome ofensivo?

Flyer FRONT-C1000-DIO Bonder 2012

No meio deste furacão todo que a minha vida se tornou, tentei manter-me o mais pontual e correto com os meus compromissos: o meu emprego de meio período onde trabalho há 6 anos, as aulas que eu dava na época na Vrije Universiteit para a minha própria empresa, o horários: das 19:00 às 21:30, depois de eu já ter trabalhado das 9:00 às 17:45. Às vezes eu trabalhava quase 12 horas por dia e só chegava em casa às 23:00 ou mais tarde. Depois da visita do Michel Teló na Holanda, eu fiquei conhecido como tradutor e intérprete e fui convidado para vários outros trabalhos. michel teló1No final de 2012 eu fui chamado para ser o intérprete do cantor brasileiro, Gusttavo Lima. Fui para a cama várias vezes às 04:00 da manhã. Eu sabia que estava me desgastando mas nunca imaginei, nunca desconfiei que isso fosse me atingir fisicamente. Afinal de contas, eu sempre me considerei muito forte, mental e físicamente e nunca tive problemas como depressão, enxaqueca, insônia, etc. Eu sempre fiz tudo o que eu tinha de fazer e sempre dei conta do recado. Por que desta vez seria diferente?

Faltando pouco mais de um mês para o casamento, percebi que algumas pessoas ainda não haviam confirmado presença (RSVP). A quantidade de pessoas influiria na decisão quanto ao tamanho do salão que alugaríamos para o casamento e na quantidade de comida e bebidas que ofereceríamos e por que não dizer, no próprio tamanho do bolo. Passei a enviar lembretes para algumas pessoas quase que diariamente. Alguns chegaram a confirmar ou declinar faltando dias para o casamento ou mesmo no dia do casamento. Algumas pessoas jamais sequer entraram em contato. Dia do casamento, chegamos para a cerimônia mas logo depois me dou conta que muita gente que havia confirmado presença não estava lá e não por má vontade: o chefe de uma das pessoas teve um ataque cardíaco, o vôo da outra pessoa foi cancelado, a outra pessoa teve diarréia, a outra teve de cuidar do marido que ia ser internado e ainda outra sofreu um leve acidente de carro, nada grave mas o suficiente para ter de ir ao hospital e em seguida ir para casa descansar.

beyonce-single-ladies-put-a-ring-on-it-webcastrRespirei fundo quando ouvi as notícias, contei até dez e disse para mim mesmo que ficaria tudo bem. No dia seguinte teríamos um jantar em família mas decidimos anulá-lo justamente por problemas familiares. Senão ao invés de um jantar requintado num dos restaurantes mais caros da cidade, teríamos uma comédia de tortas-na-cara e pagar pelo estrago. Tiramos o dia para ficarmos em casa e descansar. Casar cansa. No sábado, numa pequena mas aconchegante boate perto da Dam receberíamos por volta de 40 amigos mas infelizmente só compareceram 25. Tocamos a festa assim mesmo. Mas eu começo a sentir os primeiros sinais de saturação. Um deles é que, apesar de eu ter feito uma lista de músicas dos anos 70 e 80 e dado para o DJ e pedido para ele tocar exclusivamente aquelas músicas, várias vezes o vi tocando músicas que nem eu nunca ouvi na vida, enquanto os meus convidados estavam entediados, de pé, ao invés de estarem dançando. Várias vezes subi até o espaço do DJ para lembrar-lhe que eu estava pagando (caro) para ele tocar o que eu havia pedido. Dancei Single Ladies com minha amiga Sandra, que é professora de zumba e se propôs a vir em casa para praticarmos. Depois disso eu queria apenas ir para a lua-de-mel e descansar. A comissária de bordo da KLM nos ofereceu um brinde e foi muito gentil. Toronto é linda e muito amigável. A cidade toda parece ser gay e as pessoas penduram orgulhosamente a bandeira gay nas janelas de suas casas e apartamentos. Não comemos tão bem assim mas acho que se fosse possível comer bem em Toronto, lá seria um lugar perfeito. O café da manhã era excelente, com alguns rapazes de Taiwan perguntando como queríamos o nosso ovo.

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Tradução: Infelizmente prevenir não resolveu o problema!

De volta à Holanda, retomei o ritmo das aulas e voltei para o meu trabalho. Mas alguma coisa mudou dentro de mim. Eu não estava mais querendo trabalhar. Estava achando o ambiente no trabalho extremamente barulhento e maçante (é assim há vários anos mas só depois do casamento ficou óbvio para mim). Comecei a fugir de certos colegas literalmente e mais ou menos no fim de outubro, percebi que alguns colegas estavam fugindo de mim também. E foi a partir deste ponto que eu comecei a me olhar no espelho e a me perguntar o que estava errado. Comecei a ter dôr de cabeça todos os dias, me assustar com qualquer movimento brusco, me perder olhando para o computador e vendo apenas as letras mas não necessariamente lendo alguma coisa e perdendo aos poucos a vontade de abrir a porta e sair de casa. Para o que quer que fosse. No começo de novembro, eu e os colegas fomos convidados para uma reunião, assim que chegamos ao escritório. A urgência da reunião, acho, me deu um ataque de pânico. Eu me levantei e aguardei no canto. O meu chefe me perguntou qual o problema e eu lhe disse que precisava sair do escritório. Que ele me demitisse, se quisesse. Mas eu precisava ir embora. Ir para casa.

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Eu precisava voltar para o escritório no próximo dia de trabalho mas novamente pedi licença médica. E o restante aconteceu nesta ordem: falei com o Willem que pedi demissão, ele me alerta que pode ser burn-out, olho o assunto na wikipedia, marco consulta com o médico, ele confirma o burn-out, passo a consultar uma psicóloga e a frequentar sessões de fisioterapia psicossomática. Cancelei praticamente todos os meus compromissos. Recentemente comecei a frequentar um grupo de apoio. Hoje é 1o de fevereiro e estou me sentindo muito bem, ainda que com um pouco de dôr de cabeça. Estou trabalhando a metade da carga horária e daqui à abril estarei trabalhando a carga integral. Retomei às aulas e aos poucos estou reassumindo as rédeas. Para ter burn-out é fácil. Qualquer um pode ter. Difícil é sair dele. Se você acha que pode estar sofrendo desta mal, o meu primeiro conselho é ‘procure o seu médico’. Não se auto-medique e acima de tudo, não dê ouvidos a todo conselho alheio. Não use medicamentos controlados e muito menos aqueles que não foram prescritos por receita. Eles podem causar vício e não resolvem o problema a longo prazo mas troca um pelo outro. Fale com profissionais e faça parte de um grupo de apoio.

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