Minha mãe sempre foi o exato oposto do meu pai: muito falante, despachada e muito popular. Pelo menos, posso descrevê-la com estes adjetivos referente aos meus anos de infância (1974-1984). Minha mãe é uma senhora alta, esbelta, de pele negra, nascida em 1950 na cidade de Itaporanga d’Ajuda, no estado de Sergipe, Brasil. Detestava ir às compras com ela pois, diferente de mim, ela sempre foi muito popular, conhecia todo mundo e todo mundo a conhecia. Num curto trajeto de ônibus com todos os outros passageiros sentados comodamente, eu tinha de lidar com o fato de fazer todo o percurso vendo minha mãe em pé conversando alegre e abundantemente com o motorista, enquanto o aviso na parte superior do veículo, ao lado do retrovisor interno: FALE AO MOTORISTA SOMENTE O INDISPENSÁVEL destacava-se diante dos meus olhos. De tempos em tempos tínhamos de desalojar o quarto para dar espaço à uma pessoa em necessidade. A lei em casa, por minha mãe estipulada, sempre foi: “onde come um, comem dois”. Minha mãe também achava importante que fôssemos pessoas orgulhosas, que não nos humilhássemos ao ponto de pedir algo a alguém, não importasse o quanto precisássemos e o clichê, que não aceitássemos nada de estranhos.

O nome de solteira da minha mãe era Barbosa, mas de um forma ou de outra, ela não continuou com este sobrenome após casada. Seu senso de humor, sua risada frouxa enquanto assistíamos os Trapalhões num domingo à noite, suas leituras vespertínias da bíblia na cama dela, enquanto a chuva de granizo lá fora nos assustava e nos fazia encolher para mias perto, as estórias de lobisomem que ainda me dão calafrio (embora eu não acredite mais nelas) ainda são fortes lembranças. Nas lembranças mais recônditas, lembro de uma mulher, que antes de sair para trabalhar, dava cada um dos filhos um beijo na bochecha, seguido de recomendações. Talvez pelo fato de não termos sido criados com outros parentes como primos, sobrinhos e tios ou por termos tido um pai um tanto ao quanto omisso, éramos apegados à figura materna de uma forma exageradamente. Mas ela trabalhava o dia inteiro. Era o arrimo da família. E assim, minha mãe acumulou profissões: manicure/pedicure, cabeleireira (1970-1983), cobradora de ônibus (1983-1988) e vendedora (1988-2004). Como vendedora ela se destacou muito mais, pois ela tem o que chamam de o “dom da lábia”. Eu e meus irmãos definitivamente não herdamos esta qualidade. Desde 2005 minha mãe é aposentada e desde 2000 ela é Testemunha de Jeová e dedica grande parte de seu tempo à obra missionária deles.

Parentes e Aderentes

Não sei muito sobre o passado da família minha mãe, mas sei alguma coisa que me foi contada diretamente por minha mãe e um pouco da história recente da família. Sei que a mãe dela se chamava Laudice Barbosa dos Santos e que o pai biológico se chamava João Francisco dos Santos. Ela parece ser filha única deste casamento. Esta senhora, Laudice, parece não ter sido casada com este senhor por muito tempo. Se ela teve outros relacionamentos (fixos) não sei, mas minha mãe tem vários meio-irmãos que foram aparecendo ao longo do caminho na estrada da vida. Minha mãe é, então, o mais velho de todos.

O primeiro destes irmãos de minha mãe que eu conheci, foi o tioHumberto. Conforme eu mencionei em meu post sobre o meu pai, ele era agradável e atencioso. Ele veio morar conosco em 1980, junto com sua esposa, Josefina, que é irmã do homem que veio a ser o meu padastro. O casamento não deu certo. Deste relacionamento nasceu Rogério, que era um bebê na época. Perdemos o contato com ele. Às vésperas de partirmos para Sergipe, em 1991, o encontramos levando uma vida sossegada com mulher e (novo) filho numa chácara, para cujos donos ele trabalhava, em Campo Limpo Paulista, no interior de São Paulo. O elo entre eu e ele havia se perdido.

Deste ponto em diante, eu me perco na árvore genealógica da minha família materna. A família do meu padrasto está ligada à família de minha mãe de tal forma que eu nunca consegui entender. Eis uma interessante estória de bigamia para mórmom nenhum botar defeito. O pai do meu padastro, Aurelindo Florentim, casou-se com uma certa senhora doravante denominada Das Dores e com ela teve vários filhos, entre os quais, Josefina. Mas Aurelindo também tinha um caso com a irmã dela, doravante denominada Paixão, com quem também teve muitos filhos e dentre os quais nasceu o meu padastro. E todos moravam juntos na mesma casa, num pequeno sítio, numa localidade chamada Quebradas, na cidade de Salgado, em Sergipe.

Com tio Humberto, minha mãe e tia Josefina

Uma outra meio-irmã de minha mãe também se chamava Josefina. Por acaso ela também trabalhava numa chácara (também em Campo Limpo Paulista) já há muitos anos, muito embora ela seja semi-paralítica e tivesse uma casa na cidade de Itaporanga d’Ajuda. Casada com um senhor chamado João já há muitos anos, ela tinha uma casal de filhos, cujos nomes eu não lembro visto que nosso relacionamento não passou desta visita à chácara. Digo tinha porque o filho dela foi assassinado há alguns anos atrás, numa troca de tiros com policiais. Ele não era realmente o que eu chamaria de ‘filho exemplar’ e a morte dele não parece ter sido algo inesperado.

Outra meio-irmã chama-se Amélia. Parece que este nome tem a ver com o nome do pai dela, que também é pai de Josefina e Humberto: Zé de Amélia. Mais um nome que eu ouvi e que ninguém sabe nada a respeito, nem mesmo o ano da morte ou se já morreu realmente. Esta ‘tia’ não é exatamente o que você espera de uma tia. Amélia é alta, de pele muito escura e esbelta assim como todos os outros. A diferença é que ela é simplesmente uma fealdade. Ela é definitivamente Amélia, a feia. E apesar de nunca ter sido casada, ela teve muitos filhos, nem sei dizer quantos, pois tudo que eu lembro era uma “ninhada” de crianças pequenas chorando e reclamando. E de repente minha família cresceu! Lembro apenas de um filho dela, Diego (tinha mais ou menos 12 anos em 1995), por quem eu definitivamente nunca senti a menor afinidade. Depois que eu me mudei de Sergipe (1995) eu nunca mais os vi, ou tive notícias deles.

Ainda há uma terceira irmã com vários filhos, que vivia numa casa muito humilde, na cidade de Laranjeiras, em Sergipe (em 1994 pelo menos). Mas mal lembro o nome dela. E menos ainda os nomes das crianças.

Mudanças

Quando eu tinha por volta de 5 anos, a imagem da minha mãe representava para mim tudo de bom e bonito que pudesse existir: amor, paciência, apatia, desapego. Para mim ela era a pessoa mais perfeita do mundo e quando ela estava por perto, poucas coisas me incomodavam. A figura paterna preenchia uma determinada necessidade psicológica em mim; a figura materna preenchia uma necessidade emocional. Uma das lembranças que uso como prova disto foi quando minha mãe precisou viajar para o estado Sergipe em 1980, à 2000 km de distância de onde morávamos e eu e meus irmãos ficamos para trás, apenas com o nosso pai. Apenas o caçula, Danilo, foi junto. Fomos todos juntos até a rodoviária para nos despedir. Simplesmente dar um abraço, para mim, não era o suficiente, eu queria literalmente ir junto mas meu pai me separou de minha mãe com, de forma que ela conseguiu embarcar com o meu irmão, sentar-se e aguardar o ônibus partir. Enquanto eu via o ônibus fazendo a manobra para partir, eu sentia uma necessidade orgânica de chorar, pois eu sabia que aquele ônibus não iria dar ré, não importava quantos rios de lágrimas eu chorasse.

Tudo muda. Minha mãe também mudou. Após a separação dos meus pais em 1983, a vida com certeza ficou mais difícil para todos. Mudávamos com muita frequência. Morávamos na Praia Grande, litoral de São Paulo chamado de Baixada Santista. Estudávamos numa escola que chamávamos intimamente de Toschi. Crescemos. Vieram as irritações. Nem sempre conseguia comunicar-me com minha mãe. Achava que ela desnecessaria e muito frequentemente me rotulava de ‘egoísta’. Se houveram alguns elogios, eu não lembro. As boas notas que eu trazia da escola não pareciam ter valor muito aos olhos dela, na minha opinião. Meu grande interesse em aprender inglês aos 8 anos de idade nunca foi realmente compensado, além de uma coleção de três volumes chamada Inglês Sem Mestre, comprada em 1986, assim que nos mudamos para São Vicente. Mas o que mais eu poderia esperar de minha mãe? Por que eu deveria achar que ela iria me incentivar em aprender algo completamente inútil, quando a vida tinha outras urgências. Talvez ela só estivesse tentanto ser prática. E embora minha mãe tivesse reagido muito bem quando do comunicado de eu ser gay em 1997, acho que não posso dizer o mesmo da decisão de viver a vida gay na prática, enquanto debaixo do mesmo teto. Nossa relação estava desgastada quando eu cheguei aos 18 anos e não esperei nem mais um segundo para sair de casa. E este dia não foi nem um pouco agradável.

Saúde debilitada

Mudávamo-nos com muito mais freqüência do que anteriormente. Era simplesmente irritante termos de nos matricular em outra escola e nos acostumarmos a novos professores e colegas. Em 1986 mudamo-nos da Praia Grande para São Vicente. A saúde de minha mãe começou a deteriorar-se. Ela sempre teve ataques de falta-de-ar, mas eles ficaram cada vez mais agressivos em São Vicente. Os ataques eram assustadores: minha mãe mal conseguia falar, da boca dela vinha um chiado irritante e os movimentos eram poucos. Faziam-se necessáriaos vários procedimentos sendo o mais comum, inalação. Inalação consistia em uma espécie de chá feito de ungüento de hortelã e limão, o qual, ainda em água fervente, era colocado abaixo do nariz de minha mãe, que o inalava, tendo a cabeça coberta para aproveitar o máximo o vapor. Eu estava convencido de que minha mãe morreria mais cedo ou mais tarde e o quanto antes eu me acostumasse com a idéia de ser órfão, melhor. Então viveríamos apenas sob a guarda do meu padastro, com quem não tínhamos na época as melhores das relações. A idéia me perturbava. Em 1989, minha mãe foi diagnosticada como tendo desenvolvimento miomatoso ou mioma. Agora eu sei que se trata de algo comum e que muitas mulheres o tem, mas eu nunca havia ouvido falar disto aos meus 15 anos. Ela foi internada na Santa Casa de Misericórdia de Santos e o mioma foi retirado. Ela se recuperou bem apesar de não termos tido muitas esperanças.

Santa Casa de Misericórdia, Santos

Em 1991 minha mãe decide que iríamos mudar-nos para Sergipe. O motivo pelo qual nos mudamos eu nunca entendi completamente, mas entre outros motivos, estava a saúde de minha mãe. Se isto tinha base ou não, eu não sei, mas de uma forma ou de outra, os ataques de falta de ar cessaram com a chegada em Sergipe. E minha mãe está muito viva, completando este ano 60 anos. Apenas a visão dela está se deteriorando muito rapidamente. A mudança para Sergipe mostrou ter sido uma grande erro apesar de minha mãe ter construído aí uma bela casa. Financeiramente a situação era insustentável. Meu padastro saiu do emprego. Eles tentaram montar uma ‘granja’, mas era trabalho pesado, tendo de levantar muito cedo para sacrificar as galinhas, limpá-las e transportá-las até a feira local. Eu e meus irmãos ajudamos algumas vezes. Infelizmente a granja não foi adiante depois que o fornecedor da granja (Sr. Hildebrando) foi fuzilado à queima-roupa dentro de seu estabelecimento comercial.

De volta para São Paulo

Por volta desta mesma época eu e meus irmãos nos casamos e saímos de casa para vivermos nossas próprias vidas e infelizmente já não podíamos ajudá-la. Eu me mudei para a Bahia, onde eu continuaria morando por mais 10 anos até sair do país. Apesar da distância eu fui acompanhando por onde minha mãe estava. Eu os visitei uma vez, com um ex-parceiro meu, na cidade de Rio Real, no norte do estado da Bahia. Numa segunda ocasião, minha mãe já estava morando em Guaianazes, no estado de São Paulo. E o mais impressionante é que ela já estava falando com sotaque paulista. Em 2003 eu fui ter com eles e minha mãe estava morando numa cidade chamada Campo Limpo Paulista. Você deve lembrar que Campo Limpo Paulista é onde os irmãos de minha mãe trabalhavam em chácaras. O lugar é simplesmente lindo e tem muito verde. Fiquei tranquilo de saber que minha mãe estava morando num lugar tão bonito e que meu padastro estava trabalhando.

Um telefonema de vez em quando e já morando aqui na Holanda, fui visitar a minha mãe em 2008. Desta vez ela estava morando em Itupeva, perto de Jundiaí, interior de São Paulo. Também outro lugar belíssimo, com muito verde, montanhas e flores. Meu padastro estava em outro emprego mas pelo menos era o que ele tanto queria, ser caminhoneiro. Fiquei extremamente feliz com as notícias. Minha mãe aposentou-se e pode dedicar-se por tempo integral às Testemunhas, como ela já o queria desde 2000. Na mesma casa em Itupeva mora a minha irmã e seu esposo, Mendes, com que é recentemente casada. Meu irmão caçula, Danilo, morava sozinho mas por motivos financeiros voltou para morar com a minha mãe por alguns meses, enquanto se preparava para o casamento, que já ocorreu, nos fins de 2009. Meu outro irmão, Demacio, que está separado da mãe de seus filhos há alguns anos, foi para São Paulo morar com a minha mãe e trabalhar mas acredito que ele deseja voltar para Sergipe, para ficar perto de suas duas belíssimas filhas, Remilly e Raíssa.

Raíssa, Remilly, eu e Brenda

Raíssa, Remilly, eu e Brenda

Testemunhas de Jeová

Acredito que o primeiro contato da minha mãe com as Testemunhas foi na década de 70. Deve ter funcionado como uma grande rede de contato, que a ajudou a fazer amizades mais rapidamente em São Paulo, que provavelmente ainda era um lugar estranho para os meus pais. Livros publicados pelas Testemunhas e Jeová sempre estiveram em casa. No começo da década de 80, duas senhoras passaram a freqüentar nossa casa regularmente, ensinando para mim a para minha irmão o livro Meu Livro de Histórias Bíblicas. Isto causou um impacto muito profundo em mim e definitivamente mudou o curso da minha vida pelos 14 anos seguintes. Uma vez ou outra íamos todos ao Salão do Reino, mas quando chegávamos lá, eu percebia que a minha mãe não tinha a menor idéia de o que estávamos fazendo lá. Eu gostava de estar no meio daquelas pessoas bem vestidas e pareciam tão educadas mas quando íamos novamente ao Salão do Reino, eu já não lembrava quando havíamos estado pela última vez. Eu ingressei e larguei as Testemunhas (1986-1996) e nunca pensei realmente que uma ocasião todos decidiriam levar a religião a sério.

Visitei minha mãe novamente em 2008, pela última vez. Ela me pareceu mais tranqüila, apesar de alguns problemas. Estava fazendo o que gosta e reduziu alguns deles a um mínimo múltiplo comum. Com meus irmãos por perto ela se sente mais acompanhada. Minha irmã, seu marido e filho moram na mesma casa. Ela tem grandes planos para o futuro ainda, dentre os quais morar num pequeno sítio (já comprado) na cidade de Rio Real. Não vejo a minha mãe com muitos talentos para ser vovó, mas pareceu-me ter aceitado as tarefas extras que a vida lhe deu, os casamentos mal-fadados meu e dos meus irmãos e o fato de eu ser gay. Assim como todo mundo, ela está vivendo a aprendendo.