Quando eu era pequenino, costumava falar como pequenino, pensar como pequenino, raciocinar como pequenino; mas agora que me tornei homem, eliminei as [características] de pequenino

– 1 Cor. 13.11, Tradução do Novo Mundo

Aos 12 anos eu já estava plenamente consciente que o mundo estava de pernas para o ar. Mas a questão mais crucial era eu mesmo. Se interessar-se por pessoas do mesmo sexo é algo desnatural, por que parece ser tão natural em mim? Existem exceções? Este era apenas um dos muitos problemas com os quais me vi confrontado naquela idade.

Cruzeiro x cruzado

Outro problema de menos importância, mas ainda assim cansativo, era o divórcio corrente dos meus pais. O meu pai havia partido alguns anos antes e minha mãe tinha um novo parceiro, um rapaz apenas 9 anos mais velho do que eu. A súbita alteração de papéis paternos confundiu e frustrou a mim e a meus irmãos. E como se tudo já não estivesse ruim o suficiente, mudávamos constantemente, à vezes não morando mais do que 6 meses na mesma casa. Isto incluia mudar de escolar no meio do semestre e adaptar-se a novos colegas e professores. E para completar, a economia do país era um caos; uma verdadeira montanha-russa de moedas mudando constantemente de nomes: cruzeiro (até 1986), cruzado (até 1989), cruzado novo (até 1990), cruzeiro (até 1993) e finalmente real (desde 1994 até os dias atuais). A inflação ultrapassou 300% no final dos anos 80 e aumentos de preços sobre qualquer produto era o nosso pão de cada dia.

Novo contato

Mudamo-nos da cidade da Praia Grande para São Vicente e nos instalamos no bairro do Jóckey Club. Um dia, em 1987 ao chegar em casa depois de ter brincado um pouco com outras crianças na rua, encontrei uma senhora sentada em nossa sala. Só de olhar para a postura dela, era fácil perceber que que se tratava-se de alguém religioso. Ela estava folheando a revista Despertai! (com um assunto sobre a ONU e a fome na África) com a minha mãe, deixou um convite com o endereço do local onde as reuniões eram realizadas, o assim chamado Salão do Reino e prometi que iria visitor um dia. Convidei a minha irmã a ir comigo; ela se dispôs mas infelizmente não tivemos êxito em encontrar o local.

Numa segunda tentativa, desta vez desacompanhada, tive mais sorte e assisti a minha primeira reunião por conta própria. A partir desta primeira visita, comecei a integrar-me a uma rotina de estudos e a fazer parte de um novo círculo de pessoas, diferente do círculo anterior. Havia um assim-chamado “estudo bíblico” na casa de uma senhora de meia-idade, chamada Diva, que ficava há uma quadra de onde eu morava. Eu passei a fazer parte deste grupo e gostava imensamente de comentar.

O paraíso é agora

Ali eu conheci as duas senhoras que iriam dirigir um “estudo bíblico” comigo pelos próximos seis meses. Elas utilizavam um livro vermelho chamado “Poderá viver para sempre no paraíso na terra” que era bem interessante por que fazia referência a vários outros livros e à personalidades importantes; além de me ajudar a adquirir um vocabulário bem mais amplo e diferente. Todas as crenças fundamentais das Testemunhas de Jeová estavam nele.O estudo funcionava assim: eu lia um ou dois parágrafos e algumas perguntas (que apareciam ao pé de cada página) me eram feitas. Basicamente o livro tinha o intuito de me preparar para ser uma futura Testemunha de Jeová. Eu precisaria estudá-lo até o fim para depois “decidir” o que eu queria da minha vida. Nos primeiros 6 meses em que eu estudei, eu já havia decidido que queria ser Testemunha de Jeová, mesmo que ninguém em casa o quisesse. Era uma decisão minha e um compromisso que eu estava assumindo comigo mesmo. Entre os motivos para eu ter tomado esta decisão estava:

  • os novos amigos que eu fiz
  • fazer parte de um grupo de amigos distintos e inteligentes
  • acreditar que estava de fato indo em direção à cura total dos pensamentos homossexuais
  • acreditar que o Armagedom estava próximo e que dependia de mim salvar as vidas de todos da minha família e também outras pessoas

Antigo Salão da congregação Parque Bitaru

A minha vida passou a girar cada vez mais em torno das testemunhas até chegar a um ponto que isto se tornou algo quase obsessivo. Eu estava envolvido com todos os projetos das Testemunhas de Jeová locais, inclusive um no qual ensaiávamos os cânticos, separando o grupo por barítonos e sopranos e cada grupo cantava em separado. Nesta fase “pré-testemunhiana”, mudamo-nos mais uma vez para um bairro que ficava no extremo oposto da cidade, quebrando mais uma vez a minha rotina e o meu progresso. Eu iria fazer parte daquela congregação pelos próximos 4 anos.

Meu melhor amigo TJ: Luís

Eu cultivei uma amizade muito especial: Luís.

Luís

Acredito que nos conhecemos no serviço de campo (ir de casa em casa contatando as pessoas), tendo sido designado para trabalhar juntos uma vez e assim tudo começou. Eu e ele nos tornamos grandes amigos e seus pais aprovavam a nossa amizade e praticamente se tornaram os meus “pais adotivos”. Sempre que eu voltava para a minha própria casa, eu estranhava os meus irmãos, a minha mãe, o meu padastro, a rua em que morava – tudo me era alheio, eu me sentia desconfortável e tudo o que eu mais queria era estar novamente com o Luís em sua casa e estar o mais ocupado possível com assuntos “teocráticos”.

Justiça seja feita

O Luís tornou-se não apenas o meu companheiro de assuntos teocráticos, mas um companheiro para tudo: andar de bicicleta, brincar de jogos eletrônicos, ir à praia e ás vezes nos encontrarmos com outras Testemunhas para jogar vôlei e futebol. Eu não jogava nada, só observava. Ele sumia entre os outros e admito que sentia um pouco de ciúmes dele. Luís tinha todo um currículo entre as Testemunhas de Jeová locais. Diferente de mim, ele havia “nascido na verdade”. Os seus outros “melhores” amigos eram todos filhos de anciãos ou pioneiros ou pertenciam à uma família com longa tradição entre as Testemunhas.

Os pais do Luís aprovavam a nossa amizade por eu ser “teocrático” e consequentemente uma boa influência para ele. Com o tempo fui descobrindo que nem tudo era flores. Luís ia mal na escola e tinha notas baixas e era continuamente pressionado pelos seus pais por causa disto. E a parte mais embaraçosa era quando eles me citavam como exemplo que ele deveria seguir. Aliás, com menos de um ano na nova congregação já havia granjeado o respeito de todos, já havia estado na casa de todos. Todos achavam impressionante a minha vontade de ser Testemunha de Jeová naquela idade mesmo sem ter parentes que o fossem. O próximo congresso se aproximava e o boato era de que eu iria me batizar. Eu não havia pensado nisto ainda. O Luís disse que com certeza iria se batizar no próximo congresso, Justiça Divina. Os pais dele iam ficar orgulhosos dele por um tempo e o deixariam em paz. Eu concordei em me batizar também. O meu pedido de batismo foi aceito sem maiores problemas.

Estádio do Morumbi, São Paulo

Um terceiro “amigo” juntou-se a nós: Jefferson. Assim como eu, ele não “nasceu na verdade” e a sua família ainda estava no estudo-reunião-estudo aparentemente ninguém fazia algum “grande” progresso, exceto o Jefferson. Eu gostava dele mas admito que ele era mediocre e não necessariamente uma pessoa sagaz. Não me espantou ele ter decidido batizar-se tão de repente mais do que ele ter sido aprovado para o batismo. Os meses voaram e eis que chegou o dia do batismo. Seria no congresso Justiça Divina, no Estádio do Morumbi, em São Paulo (onde eu viveria um grande momento 2 anos mais tarde), no dia 20 de agosto de 1988. Faltando pouco para o ônibus partir, demos Jefferson por falta; ele não estava entre nós. Jefferson não tinha telefone convencional e celular ainda não existia. Pedimos ao pai do Luís, Florisvaldo, que aguardasse pois iríamos à casa de Jefferson (1km dali) e tentaríamos acordá-lo. Era por volta das 7:30 da manhã. Visto estarmos vestidos socialmente e com gravata, não conseguimos correr propriamente. Chegando lá, gritamos alto o suficiente para acordarmos um defunto. Conseguimos acordar os vizinhos dele. Batemos à porta e nada. Após 10 minutos batemos em retirada e juntamo-nos ao grupo.

Anotei a data do meu batismo em vários lugares, inclusive em meu cancioneiro, para não esquecê-la, pois o orador havia mencionado que esta seria a data “mais importante” de nossas vidas e entoamos o cântico “A Deus Nós Nos Dedicamos”, que eu ainda consigo ouvir sendo entoado enquanto teclo isto. Lembro do Luís ao meu lado quando respondemos às perguntas do batismo com um ‘sim’.

1ª pergunta: Arrependeu-se de seus pecados e deu meia-volta, reconhecendo-se perante Jeová como pecador condenado que precisa de salvação, e reconheceu perante ele que esta salvação procede dele, o Pai, por intermédio de seu Filho Jesus Cristo?

2ª pergunta: À base desta fé em Deus e na sua provisão de salvação, dedicou-se sem reserva a Deus, para fazer doravante a Sua vontade, conforme ele lhe revela por meio de Jesus Cristo e mediante a Bíblia, sob o poder esclarecedor do espírito santo?

Durante a bagunça, eu me perdi do Luís. Ao emerger da piscina suja, com restos de gramado do estádio na boca, recebi a minha toalha e caminhei com os demais em direção aos vestuários sem fotos, sem abraços, sem rostos conhecidos. Por um segundo que continua intacto em minha memória, eu me perguntei se sabia realmente o que estava fazendo. Pensei em Jefferson. Será que Jeová o fez cair em sono profundo para não estar aqui e eu estou justamente porque Jeová me quer? E o que me torna tão mais especial do que o Jefferson? Afinal de contas, o Jeferson não aparentava ter tendências homossexuais. Por que Jeová escolheria uma fruta com indícios de apodrecimento? Provavelmente porque eu fui escolhido para fazer parte das outras ovelhas, sobreviver o Armagedom e soerguer-me à perfeição pelos próximos mil anos que se seguirão e aí sim, eu me libertarei de todo e qualquer pensamento libidinoso que é o “ar” do mundo de Satanás.