Após o batismo, entrei imediatamente no ritmo de vida das Testemunhas de Jeová (doravante chamadas de TJ´s). O tratamento dispensado ao recém-batizado é diferente, mais íntimo e mais amigável. As portas se abrem para participar de tarefas internas (chamadas de “privilégios”) para o bom andamento das atividades. Algumas das tarefas eram fazer a oração, conduzir o microfone, servir como indicador (i.e., indicar às pessoas onde havia assento livre e contar o número de presentes a cada reunião), controlar som e acústica, atender atrás do balcão de literaturas, ser o leitor da Sentinela e do estudo bíblico semanal, etc. Ao mesmo tempo espera-se mais de alguém jovem, espera-se empenho (“zelo”) e que dê um bom exemplo aos demais na congregação (único termo para “igreja”). Os congressos, eventos anuais de dimensões gigantescas, uniam os circuitos (todas as congregações das cidades circunvizinhas) e assim como no congresso em que me batizei, partíamos de ônibus em direção a um grande estádio de futebol, cantarolando por todo o caminho até chegarmos ao destino. Uma vez no local, trabalhávamos na organização e no trânsito como indicadores e às vezes na alimentação, servindo hambúrgueres e refrigerantes aos “irmãos”.

Pioneiro

O Jefferson, que iria se batizar no mesmo dia que eu, nunca mais pôs os pés no Salão do Reino. A família dele também parou de se associar com as TJ’s e o nome dele era frequentemente sussurrado quando exemplos de pessoas de “fraca fé” eram citados, deixando assim bem claro, que não era o meu caso ou das pessoas “fiéis” ao redor, não nós que nos esforçávamos e dávamos o nosso máximo de horas do serviço de campo, não perdíamos nenhuma reunião, chegávamos às reuniões sempre preparados para ajudar com comentários bem ponderados. Como eu passei imediatamente a servir como pioneiro auxiliar (muitas vezes com o meu melhor amigo e “irmão na fé”, Luís) fui igualmente convidado a participar no palco de algumas assembléias. O primeiro convite me surpreendeu e eu teria de compartilhar diante de uma multidão num ginásio em Cubatão como eu conseguia conciliar o serviço de pioneiro com as tarefas “extracurriculares” (i.e., as obrigações que excluíam as atividades cristãs). Em outra ocasião fui convidado a representar o filho de um ancião que lhe pedia conselho. Ele tiraria também as dúvidas da minha irmã sobre problemas na adolescência. Passamos várias semanas ensaiando. Eu estava orgulhoso de mim mesmo pelo reconhecimento.

Foi uma época de descobertas que se mostraram tanto positivas quanto negativas. Ouvi críticas de alguns “irmãos” que acharam injusto que eu, com um currículo tão breve, já tivesse sido convidado mais de uma vez para participar de assembléias ao passo que outros, com carreiras mais longas ou tendo “nascido na verdade” (nascidos de pais TJ’s), não haviam tido tal privilégio. O trabalho de indicador nas assembléias era igualmente frustrante. Algumas pessoas não queriam colaborar e mostravam-se agressivas. De volta a nossa rotina diária como TJ, descobri que alguns “irmãos” poderiam extremamente críticos e impossíveis de se agradar. No mesmo ano do meu batismo, eu conheci a grande maioria dos “irmãos” mais intimamente, onde moravam, o que faziam, que tipo de vida levavam fora do Salão do Reino, etc. E claro, desenvolvi uma opinião sobre cada um deles.

Os núcleos

A minha congregação dividia o Salão do Reino com outra. Esta outra congregação havia eventualmente comprado o local. Nós usávamos o local em dias alternados. Esta outra congregação foi a primeira de São Vicente, fundada nos anos 50. Apesar de eu ter me tornado TJ ainda muito jovem, já tinha a impressão de já ter me tornado TJ tarde demais. A nossa congregação tinha por volta de 120 publicadores e era “oficiosamente” subdividida em núcleos. Eu deveria fazer parte do núcleo leste mas não havia muitas TJ´s naquela área na época, exceto duas meninas que haviam estudado comigo na mesma sala de aula que eu, no ano anterior; uma delas pertencia à congregação vizinha e a outra a minha congregação. No Salão do Reino e na presença da mãe dela, era parecia uma pessoa, amigável, educada, até tímida. Mas na escola ela me ignorava completamente e tinha uma atitude que não lembrava a pessoa que eu via no Salão: mal-humorada, grosseira e exibida. Filha de um ancião radical, antiquado e desamigável cujos discursos eram horrivelmente monótonos e de uma simpática senhora que era pioneira regular, C. tinha amigos “mundanos” (não associados com as TJ’s) e uma vez eu a ouvi falando “gíria”. Ela tinha a mesma idade que eu e considerava-se “ainda não pronta para o batismo”. O estudo bíblico era na casa deles. Ainda perto deles morava outra família de TJ’s. Nesta família, havia mãe e filhas eram pioneiras. O caçula, o Gabriel, apesar de ter uma personalidade amigável, era pueril demais para os meus princípios. Eu não frequentava as casas deles, eles nunca me convidaram e nunca me senti conectado a eles. Decidi mudar-me para o núcleo norte, o que era contra as regras do pai de C. Mas já que ser TJ foi algo que eu escolhi aos 12 anos de livre e espontânea vontade, eu queria estar ao lado de pessoas com quem eu me sentisse bem. Passei a fazer parte do grupo do estudo do pai do Luís.

Todo mundo é TJ

De uma hora para outra parecia que todo mundo era TJ. O Luís morava há 200 metros do Salão do Reino. Logo em frente à casa dele, morava a família da E. e É., irmãs vindas de uma antiga família de TJ’s.

Da esquerda para a direita:  estudante da nossa congregação, É. e eu. Em Santo André, 1990.

Da esquerda para a direita: estudante da nossa congregação, É. e eu. Em Santo André, 1990.

Tanto a mãe, a avó como a bisavó (ainda vivas na época) eram todas TJ’s há várias décadas. O pai era desassociado. Na casa germinada à do Luís, moravam a N., o seu esposo e seu filhinho de 2 anos, recém-chegados à congregação. Um pouco mais acima morava a família do A., filho de um ancião português casado com uma senhora espanhola, que moravam há muitos anos no Brasil. Eles tinham uma joalheria no centro da cidade. A., com o seu rosto deformado por cravos e espinhas mas com belíssimos olhos azuis, já deveria ser um rapaz com mais de 20 anos na época mas eu adorava conversar com ele. Ele tinha um quê de rebelde e também me convidava para a casa dele para assistirmos filmes juntos. E foi a primeira vez que eu vi um videocassete. O problema é que, quando o irmão mais novo dele estava por perto, não poderíamos falar mais à vontade e eu tinha de partir imediatamente. Ele era dissociado. Mais adiante morava R., namorada de alguns anos do Antônio, cuja família inteira era TJ, exceto pelo pai. Ainda na rua do Luís, morava uma outra família de TJ, que optou permanecer na outra congregação. Era estranho estarmos trabalhando de casa em casa sob o sol escaldante e vermos este “irmão” só de bermudas, em casa, lavando o carro dele.

Da esquerda para a direita: F. (a viúva), N. (a vizinha do Luís) e eu.

Da esquerda para a direita: F. (a viúva), N. (a vizinha do Luís) e eu.

Descendo a rua do Luís em sentido sul, moravam a F. e seus três filhos. Apesar das dificuldades financeiras, ela era pioneira regular há muitos anos. Viúva, sem renda, com filhos pequenos e pais idosos em casa para ela sustentar. O filho mais velho dela, o H., tinha a mesma idade que eu e aparecia no Salão do Reino esporadicamente. O estudo bíblico semanal era realizado na casa deles. Descendo a rua mais um pouco, chegávamos à casa da irmã D., também pioneira, casada com um senhor não-TJ e tinha três filhos, sendo um dos filhos deficiente mental. Deste ponto em diante, a impressão que eu tinha é que a cada duas casas morava uma família de TJ´s. De 1988 a 1991 passei a maior parte do meu tempo com as pessoas acima mencionadas, como pioneiro auxiliar, no Salão, nos congressos ou em suas casas.

No meu bairro não moravam muitos irmãos mas não muito longe morava a M.H., que já era adulta na época. Ela não era tão assídua, saía pouco ao serviço de campo e era particularmente preocupada com as finanças. Mas era, ao mesmo tempo, extremamente alegre e generosa. Ela era a melhor amiga de S., que deveria ter uns 25 anos e, apesar dos problemas, também era pioneira auxiliar com muita frequência, especialmente quando estava entre empregos. A família dela toda era TJ mas muito humilde. S. era diferente das outras meninas, era extremamente engraçada e falava coisas que uma TJ não deveria falar. Além disto, S. estava sempre metida em encrencas. Enfim, eu nem sempre ficava na companhia de S. e M.H. O meu núcleo era Luís, E. e É (as irmãs) e os filhos de F., onde tínhamos o estudo bíblico. Juntos visitávamos outras congregações como método indireto e politicamente correto de encontrarmos um namorado/namorada. Devíamos ter todos por volta dos 14-15 anos e estávamos curiosos para ter uma primeira experiência sentimental. E tinha de ser com alguém de fora.

Jóckey Clube

São Vicente e o meu itinerário diário quando eu tinha 14-15 anos.

São Vicente e o meu itinerário diário quando eu tinha 14-15 anos.

Na congregação Jóckey Clube conhecemos as irmãs (carnais) L., L. e L; três meninas belíssimas, de cabelos pretos e compridos com idade entre 12, 14 e 16. O pai era ancião há várias décadas e a mãe era dissociada mas me parece que havia alguma espécie de comum acordo entre eles no qual a mãe não desencorajaria as meninas de serem TJ’s, se elas assim quisessem. Fomos várias vezes a casa delas, em eventos regados a doces, salgados, refrigerantes e discos do A-ha. L., L. e L. nos apresentaram outros dois rapazes que junto com elas viriam várias vezes visitar a nossa congregação. A uma certa altura achei que gostava de L. (a mais velha). Elas se batizaram cada uma por vez nas próximas assembléias. E sem nos darmos conta, perdemos o contato com a congregação Jóckey Clube e descobrimos que as meninas não frequentavam mais o Salão do Reino. Nenhuma das três. Encontrei L. (a mais velha) pela rua. Cabelo curtinho, roupas apertadas e mais curtas. Eu perguntei: por que? Ela disse:

Aquele não é o meu mundo, nem da minha mãe, nem das minhas irmãs. Aquele é o mundo do meu pai.

Eu poderia ter-me dado por satisfeito com esta resposta, que foi uma resposta honesta. Mas eu tinha de perguntar se ela não tinha medo de morrer no Armagedom. Ela respondeu categoricamente: não.

Santo André

São Vicente - Santo André, 50 km.

São Vicente – Santo André, 50 km.

O “não” de L. ficou na minha mente. Como ela poderia ser tão ousada? Como poderia não ter medo de morrer? Eu nunca mais vi a L. e nenhuma de suas irmãs. Não era permitido perguntar por elas. Elas precisariam arrepender-se e voltar de livre e espontânea vontade, enquanto ainda era tempo. Em 1990 recebemos a visita de “irmãos” de Santo André. Eles eram bem mais velhos que nós, eles deveriam ter por volta de 17-20 anos mas eram bem simpáticos. E havia um rapaz para cada menina, sobrando apenas um rapaz para cada congregação. Neste caso, o Luís, que “sobrou” com muito prazer e encontrou um companheiro com quem jogar bola. Os irmãos de Santo André nos visitaram várias vezes e fomos igualmente várias vezes a Santo André e nestas poucas ocasiões, eu pouco vi o Luís e ele nãoo parecia sentir a minha falta. Ele estava sempre acompanhado deste outro “irmão”.

Eu por minha vez fui literalmente encorajado por um ancião a “ficar”com uma das meninas, A.C., de Santo André, ela deveria ter os seus 18 anos, pele negra, olhos grandes, voz amigável e era pioneira regular. O irmão de A.C. era servo ministerial e parecia ela vestindo calças. E claro, ele era bem mais peludo. Os pais de A.C. eram cópias adultas deles fisicamente falando. Eu gostava da A.C. e comecei a gostar mais nos próximos dias, saindo juntos no serviço de campo. Os anciãos consideravam a visita deles uma boa influência porque, de repente, vários de nós decidiu começar uma carreira como pioneiros regulares. Mas a grande verdade é que nós só queríamos namorar. Várias vezes o irmão de A.C. pegava o violão e tocava várias músicas do Roupa Nova ou de Chitãozinho e Xororó enquanto as meninas cantarolavam e suspiravam ao redor dele. Fomos uma vez à praia do Quitanduva, que ficava do outro lado do morro Xixová. Tivemos de escalá-lo literalmente mas valeu muito a pena, nos divertimos e acho que neste dia, alguém namorou com alguém.

Praia de Quitanduva

Praia de Quitanduva

Me aproximar de A.C. e dizer que gostava dela era impossível. Ela não me via assim. E ela era bem mais velha que eu e tinha medo de água. Ela ficava apenas olhando o mar todas as vezes que íamos à praia. O filho da irmã F., começou a frequentar as reuniões. E não sei como isso aconteceu mas ele parecia forte e muito mais atraente e a voz dele ficou também mais grossa. Numa segunda visita dos irmãos de Santo André, eu percebi que H. e A.C. estavam passando muito tempo juntos. Eu acho que estas foram as primeiras vezes na minha vida que eu senti ciúmes, de A.C. e pouco antes do Luís, que nem veio conosco à Quitanduva porque ele tinha outro compromisso com o rapaz de Santo André. Eu havia comprado uma caixa de bombons para A.C. mas na hora de entregar a caixa, resolvi entregá-la para E., que adorou a surpresa e nunca entendeu o motivo do presente.

Foto de 1991, bem danificada. Da esquerda para a direita: eu, M.H., A.C., o pai do Luís (o Lu estava com uma certa pessoa), E. e duas outras irmãs da nossa congregação.

Foto de 1991, bem danificada. Da esquerda para a direita: eu, pessoa desconhecida, M.H., A.C., o pai do Luís (o Lu estava com uma certa pessoa), E. e duas outras irmãs da nossa congregação.

Vi A.C. pela última vez no congresso “Amantes da Liberdade”, no Guarujá de 1991. Ela não ficou nem comigo, nem com H., até onde eu sei. Em agosto de 1991 eu me mudei para Sergipe. Mas acho que o ancião que achou que os jovens de Santo André nos havia encorajado “espiritualmente”, estava certo. Apesar dos interesses ulteriores, ficou um orgulho muito grande de ser Testemunha de Jeová e de estar rodeado de pessoas tão bonitas e inteligentes.